Na ONU, Lula defende combate à desigualdade e mais impostos para ricos

Vinte anos depois do seu primeiro discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou ao púlpito da entidade, agora para fazer uma espécie de reapresentação das credenciais do Brasil diante das 193 nações que compõem a organização.

Tradicionalmente, cabe ao presidente brasileiro inaugurar a sessão de debates de alto nível na organização.

Em sua fala, que durou cerca de 21 minutos no total, Lula defendeu que a desigualdade deve ser o objetivo síntese da agenda.

“É preciso reincluir o pobre nos orçamentos nacionais e fazer os ricos pagarem impostos proporcionais a seu patrimônio”, declarou.

O presidente brasileiro prestou condolências às vítimas de tragédias no Marrocos e Líbia, lembrando ainda das chuvas no Rio Grande do Sul.

Lula repetiu que o “Brasil está de volta”, sendo interrompido por aplausos nesse momento de sua fala.

Lembrou ainda que a fome foi tema central de seu discurso há 20 anos e que hoje ela atinge 735 milhões de pessoas, ao mesmo tempo em que os maiores bilionários acumulam mais riqueza do que os 40% mais pobres do mundo.

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“Precisamos vencer a resignação que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural”, afirmou. “Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que governam o mundo.”

“O discurso cumpriu as expectativas”, afirma Fernada Magnotta, professora de Relações Internacionais na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado).

“A principal mensagem, além de ‘Brazil is back’ [o Brasil está de volta], é a ideia de que o Brasil tem ambições globais e quer propor uma reorganização das estruturas de governança global”, afirma.

Ela cita que Lula passou por assuntos inevitáveis, como crise climática e pobreza, mas vê dois objetivos na fala. O primeiro é imprimir um tom reformista ao advogar pela busca de alternativas para um mundo em transformação — “Não à toa falou dos Brics”, observa, citando o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, lembrado por Lula em seu discurso.

“Lula tentou o tempo todo vincular o que ele chamou de um mundo em múltiplas crises simultâneas à desigualdade”, observa Magnotta.

“É como se o Brasil tivesse tentando promover uma revisão do agenda setting [dos temas a serem tratados]. Enquanto todo mundo está discutindo com centralidade temas geopolíticos como Ucrânia, Lula vai tentar vincular a crise da democracia, a crise da paz à desigualdade.”

Mudança climática e Amazônia

Lula falou sobre a urgência de os países abordarem a questão da mudança climática.

“São as populações vulneráveis do Sul Global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima”, destacou o presidente, incluindo a questão da desigualdade também na agenda climática.

“Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.”

Lula destacou as ações de seu governo para o combate ao desmatamento, afirmando que “ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia brasileira já foi reduzido em 48%”.

Segundo dados do próprio governo federal, no entanto, no mesmo período, houve aumento de 19,8% nos alertas de desmatamento no Cerrado brasileiro, o que Lula omitiu em seu discurso.

Ele ainda urgiu os países ricos quanto à necessidade de recursos para o cumprimento da agenda climática.

“Sem a mobilização de recursos financeiros e tecnológicos não há como implementar o que decidimos no Acordo de Paris e no Marco Global da Biodiversidade. A promessa de destinar US$ 100 bilhões anualmente para os países em desenvolvimento permanece apenas isso, uma promessa”, disse o mandatário brasileiro.

Reforma dos organismos multilaterais

Lula também reforçou a necessidade mudanças em organismos multilaterais como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.

“Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução”, afirmou.

“No ano passado, o FMI disponibilizou US$ 160 bilhões em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas US$ 34 bilhões para países africanos.”

Ele celebrou ainda a recente expansão do Brics como uma forma de fazer frente ao que classificou como “imobilismo” dos organismos multilaterais.

“O protecionismo dos países ricos ganhou força e a Organização Mundial do Comércio permanece paralisada, em especial o seu sistema de solução de controvérsias”, criticou o presidente.

Em outro momento de seu discurso, Lula disse ainda que o Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade.

“Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime”, disse.

“Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.”

Crítica à extrema direita

O presidente brasileiro criticou o que chamou de uma “dissonância cada vez maior entre a ‘voz dos mercados’ e a ‘voz das ruas'”, afirmando que “o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política”.

Lula criticou ainda o surgimento de “aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas.”

“Repudiamos uma agenda que utiliza os imigrantes como bodes expiatórios, que corrói o Estado de bem-estar e que investe contra os direitos dos trabalhadores”, afirmou, reforçando ainda a necessidade da preservação da liberdade de imprensa.

Ele criticou também a ação das redes sociais nesse contexto.

“Nossa luta é contra a desinformação e os crimes cibernéticos. Aplicativos e plataformas não devem abolir as leis trabalhistas pelas quais tanto lutamos”, disse o presidente, prestando ainda solidariedade ao jornalista Julian Assange, fundador do WikiLeaks e atualmente preso em Londres.

Lula, que esteve no fim de semana em Cuba, também criticou as sanções impostas ao país caribenho.

“O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.”

Dawisson Belém Lopes, professor de Relações Internacionais da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), observou que Lula falou de dois tabus da política externa dos EUA — Assange e Cuba — em território americano, no grande evento das Nações Unidas.

“Não acho isso nada trivial”, analisa. O professor se recorda que Lula já tinha falado de Assange em coletiva de imprensa quando esteve no Reino Unido para a coroação de Charles, mas não tinha chegado a falar diante de uma plateia como a ONU.

Guerra na Ucrânia

Nos Estados Unidos, Lula deve se encontra ainda com o líder ucraniano Volodymyr Zelensky na quarta-feira (20/09), às 16 horas, em Nova York.

O presidente brasileiro também tratou da guerra na Ucrânia em seu discurso, mas após mencionar uma série de outros conflitos em andamento no mundo, como a crise humanitária no Haiti, o conflito no Iêmen, as ameaças à unidade nacional da Líbia e as rupturas institucionais em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão, além do risco de golpe na Guatemala.

“A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU”, disse Lula.

“Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz. Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo”, acrescentou.

O presidente criticou ainda “toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.”

Belém Lopes, da UFMG observa que Lula repetiu a tática que já havia empregado em Hiroshima, no G7, de citar outros conflitos globais ao lado da guerra da Ucrânia.

“Lula fez questão de resgatar temas difíceis. Trouxe o Brics pela porta da frente. Defendeu atenção às questões socioeconômicas sem medo de tensionar agentes do mercado e economias ricas do mundo. Mencionou um monte de países e situações do Sul Global”, complementa o professor de Relações Internacionais.

Segundo fontes do Itamaraty, a Assembleia Geral era o último “tabuleiro” no qual o petista queria reencaixar o Brasil como um jogador relevante — depois do que Lula considera como quatro anos de ausência internacional do país no cenário externo, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Em menos de nove meses de mandato, o líder brasileiro já participou dos fóruns do G7, G20, Brics, Celac com União Europeia e G77.

A última vez que Lula havia discursado como presidente na Assembleia-Geral da ONU foi em 2009, há 14 anos.

Confira a íntegra do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York (EUA), conforme texto distribuído pelo assessoria de imprensa do Planalto:

Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Dennis Francis, de Trinidad e Tobago.

É uma satisfação ser antecedido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.

Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Presto minha homenagem ao nosso compatriota Sérgio Vieira de Mello e 21 outros funcionários desta Organização, vítimas do brutal atentado em Bagdá, há 20 anos.

Desejo igualmente expressar minhas condolências às vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades que atingiram a Líbia.

A exemplo do que ocorreu recentemente no estado do Rio Grande do Sul no meu país, essas tragédias ceifam vidas e causam perdas irreparáveis.

Nossos pensamentos e orações estão com todas as vítimas e seus familiares.

Senhoras e Senhores

Há vinte anos, ocupei esta tribuna pela primeira vez.

E disse, naquele 23 de setembro de 2003:

“Que minhas primeiras palavras diante deste Parlamento Mundial sejam de confiança na capacidade humana de vencer desafios e evoluir para formas superiores de convivência”

Volto hoje para dizer que mantenho minha inabalável confiança na humanidade.

Naquela época, o mundo ainda não havia se dado conta da gravidade da crise climática.

Hoje, ela bate às nossas portas, destroi nossas casas, nossas cidades, nossos países, mata e impõe perdas e sofrimentos a nossos irmãos, sobretudo os mais pobres.

A fome, tema central da minha fala neste Parlamento Mundial 20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã.

O mundo está cada vez mais desigual.

Os 10 maiores bilionários possuem mais riqueza que os 40% mais pobres da humanidade.

O destino de cada criança que nasce neste planeta parece traçado ainda no ventre de sua mãe.

A parte do mundo em que vivem seus pais e a classe social à qual pertence sua família irão determinar se essa criança terá ou não oportunidades ao longo da vida.

Se irá fazer todas as refeições ou se terá negado o direito de tomar café da manhã, almoçar e jantar diariamente.

Se terá acesso à saúde, ou se irá sucumbir a doenças que já poderiam ter sido erradicadas.

Se completará os estudos e conseguirá um emprego de qualidade, ou se fará parte da legião de desempregados, subempregados e desalentados que não para de crescer.

É preciso antes de tudo vencer a resignação, que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural.

Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que governam o mundo.

Senhores e senhoras

Se hoje retorno na honrosa condição de presidente do Brasil, é graças à vitória da democracia em meu país.

A democracia garantiu que superássemos o ódio, a desinformação e a opressão.

A esperança, mais uma vez, venceu o medo.

Nossa missão é unir o Brasil e reconstruir um país soberano, justo, sustentável, solidário, generoso e alegre.

O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo.

Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta.

Nosso país está de volta para dar sua devida contribuição ao enfrentamento dos principais desafios globais.

Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos.

A comunidade internacional está mergulhada em um turbilhão de crises múltiplas e simultâneas: a pandemia da Covid-19; a crise climática; e a insegurança alimentar e energética ampliadas por crescentes tensões geopolíticas.

O racismo, a intolerância e a xenofobia se alastraram, incentivadas por novas tecnologias criadas supostamente para nos aproximar.

Se tivéssemos que resumir em uma única palavra esses desafios, ela seria desigualdade.

A desigualdade está na raiz desses fenômenos ou atua para agravá-los.

A mais ampla e mais ambiciosa ação coletiva da ONU voltada para o desenvolvimento – a Agenda 2030 – pode se transformar no seu maior fracasso.

Estamos na metade do período de implementação e ainda distantes das metas definidas.

A maior parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável caminha em ritmo lento.

O imperativo moral e político de erradicar a pobreza e acabar com a fome parece estar anestesiado.

Nesses sete anos que nos restam, a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles deveria se tornar o objetivo-síntese da Agenda 2030.

Reduzir as desigualdades dentro dos países requer incluir os pobres nos orçamentos nacionais e fazer os ricos pagarem impostos proporcionais ao seu patrimônio.

No Brasil, estamos comprometidos a implementar todos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, de maneira integrada e indivisível.

Queremos alcançar a igualdade racial na sociedade brasileira por meio de um décimo oitavo objetivo que adotaremos voluntariamente.

Lançamos o plano Brasil sem Fome, que vai reunir uma série de iniciativas para reduzir a pobreza e a insegurança alimentar.

Entre elas, está o Bolsa Família, que se tornou referência mundial em programas de transferência de renda para famílias que mantêm suas crianças vacinadas e na escola.

Inspirados na brasileira Bertha Lutz, pioneira na defesa da igualdade de gênero na Carta da ONU, aprovamos a lei que torna obrigatória a igualdade salarial entre mulheres e homens no exercício da mesma função.

Combateremos o feminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres.

Seremos rigorosos na defesa dos direitos de grupos LGBTQI+ e pessoas com deficiência.

Resgatamos a participação social como ferramenta estratégica para a execução de políticas públicas.

Senhor presidente

Agir contra a mudança do clima implica pensar no amanhã e enfrentar desigualdades históricas.

Os países ricos cresceram baseados em um modelo com altas taxas de emissões de gases danosos ao clima.

A emergência climática torna urgente uma correção de rumos e a implementação do que já foi acordado.

Não é por outra razão que falamos em responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

São as populações vulneráveis do Sul Global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima.

Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.

Nós, países em desenvolvimento, não queremos repetir esse modelo.

No Brasil, já provamos uma vez e vamos provar de novo que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível.

Estamos na vanguarda da transição energética, e nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo.

87% da nossa energia elétrica provem de fontes limpas e renováveis.

A geração de energia solar, eólica, biomassa, etanol e biodiesel cresce a cada ano.

É enorme o potencial de produção de hidrogênio verde.

Com o Plano de Transformação Ecológica, apostaremos na industrialização e infraestrutura sustentáveis.

Retomamos uma robusta e renovada agenda amazônica, com ações de fiscalização e combate a crimes ambientais.

Ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia brasileira já foi reduzido em 48%.

O mundo inteiro sempre falou da Amazônia. Agora, a Amazônia está falando por si.

Sediamos, há um mês, a Cúpula de Belém, no coração da Amazônia, e lançamos nova agenda de colaboração entre os países que fazem parte daquele bioma.

Somos 50 milhões de sul-americanos amazônidas, cujo futuro depende da ação decisiva e coordenada dos países que detêm soberania sobre os territórios da região.

Também aprofundamos o diálogo com outros países detentores de florestas tropicais da África e da Ásia.

Queremos chegar à COP 28 em Dubai com uma visão conjunta que reflita, sem qualquer tutela, as prioridades de preservação das bacias Amazônica, do Congo e do Bornéu-Mekong a partir das nossas necessidades.

Sem a mobilização de recursos financeiros e tecnológicos não há como implementar o que decidimos no Acordo de Paris e no Marco Global da Biodiversidade.

A promessa de destinar 100 bilhões de dólares – anualmente – para os países em desenvolvimento permanece apenas isso, uma promessa.

Hoje esse valor seria insuficiente para uma demanda que já chega à casa dos trilhões de dólares.

Senhor presidente

O princípio sobre o qual se assenta o multilateralismo – o da igualdade soberana entre as nações – vem sendo corroído.

Nas principais instâncias da governança global, negociações em que todos os países têm voz e voto perderam fôlego.

Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução.

No ano passado, o FMI disponibilizou 160 bilhões de dólares em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas 34 bilhões para países africanos.

A representação desigual e distorcida na direção do FMI e do Banco Mundial é inaceitável.

Não corrigimos os excessos da desregulação dos mercados e da apologia do Estado mínimo.

As bases de uma nova governança econômica não foram lançadas.

O BRICS surgiu na esteira desse imobilismo, e constitui uma plataforma estratégica para promover a cooperação entre países emergentes.

A ampliação recente do grupo na Cúpula de Joanesburgo fortalece a luta por uma ordem que acomode a pluralidade econômica, geográfica e política do século 21.

Somos uma força que trabalha em prol de um comércio global mais justo num contexto de grave crise do multilateralismo.

O protecionismo dos países ricos ganhou força e a Organização Mundial do Comércio permanece paralisada, em especial o seu sistema de solução de controvérsias.

Ninguém mais se recorda da Rodada do Desenvolvimento de Doha.

Nesse ínterim, o desemprego e a precarização do trabalho minaram a confiança das pessoas em tempos melhores, em especial os jovens.

Os governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a “voz dos mercados” e a “voz das ruas”.

O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política que hoje assola as democracias.

Seu legado é uma massa de deserdados e excluídos.

Em meio aos seus escombros surgem aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas.

Muitos sucumbiram à tentação de substituir um neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo, conservador e autoritário.

Repudiamos uma agenda que utiliza os imigrantes como bodes expiatórios, que corrói o Estado de bem-estar e que investe contra os direitos dos trabalhadores.

Precisamos resgatar as melhores tradições humanistas que inspiraram a criação da ONU.

Políticas ativas de inclusão nos planos cultural, educacional e digital são essenciais para a promoção dos valores democráticos e da defesa do Estado de Direito.

É fundamental preservar a liberdade de imprensa.

Um jornalista, como Julian Assange, não pode ser punido por informar a sociedade de maneira transparente e legítima.

Nossa luta é contra a desinformação e os crimes cibernéticos.

Aplicativos e plataformas não devem abolir as leis trabalhistas pelas quais tanto lutamos.

Ao assumir a presidência do G20 em dezembro próximo, não mediremos esforços para colocar no centro da agenda internacional o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.

Sob o lema “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável”, a presidência brasileira vai articular inclusão social e combate à fome; desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.

Senhor presidente,

Não haverá sustentabilidade nem prosperidade sem paz.

Os conflitos armados são uma afronta à racionalidade humana.

Conhecemos os horrores e os sofrimentos produzidos por todas as guerras.

A promoção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Construí-la requer persistência e vigilância.

É perturbador ver que persistem antigas disputas não resolvidas e que surgem ou ganham vigor novas ameaças.

Bem o demonstra a dificuldade de garantir a criação de um Estado para o povo palestino.

A este caso se somam a persistência da crise humanitária no Haiti, o conflito no Iêmen, as ameaças à unidade nacional da Líbia e as rupturas institucionais em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão.

Na Guatemala, há o risco de um golpe, que impediria a posse do vencedor de eleições democráticas.

A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU.

Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz.

Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo.

Tenho reiterado que é preciso trabalhar para criar espaço para negociações.

Investe-se muito em armamentos e pouco em desenvolvimento.

No ano passado os gastos militares somaram mais de 2 trilhões de dólares.

As despesas com armas nucleares chegaram a 83 bilhões de dólares, valor vinte vezes superior ao orçamento regular da ONU.

Estabilidade e segurança não serão alcançadas onde há exclusão social e desigualdade.

A ONU nasceu para ser a casa do entendimento e do diálogo.

A comunidade internacional precisa escolher:

De um lado, está a ampliação dos conflitos, o aprofundamento das desigualdades e a erosão do Estado de Direito.

De outro, a renovação das instituições multilaterais dedicadas à promoção da paz.

As sanções unilaterais causam grande prejuízos à população dos países afetados.

Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos.

O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.

Continuaremos críticos a toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.

O Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade.

Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime.

Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.

Senhoras e senhores

A desigualdade precisa inspirar indignação.

Indignação com a fome, a pobreza, a guerra, o desrespeito ao ser humano.

Somente movidos pela força da indignação poderemos agir com vontade e determinação para vencer a desigualdade e transformar efetivamente o mundo a nosso redor.

A ONU precisa cumprir seu papel de construtora de um mundo mais justo, solidário e fraterno.

Mas só o fará se seus membros tiverem a coragem de proclamar sua indignação com a desigualdade e trabalhar incansavelmente para superá-la.

Muito obrigado.

Casos de meningite se espalham em Maceió e atingem Benedito Bentes e Jacintinho

Depois do alerta feito por médicos sobre o aumento de casos de meningite em Maceió, a Secretaria Municipal de Saúde emitiu a seguinte nota:

“Buscando apresentar as medidas que vêm sendo adotadas pela Secretaria de Saúde de Maceió (SMS) para conter o aumento de casos de meningite na capital, a secretária em exercício, Bruna Monteiro, apresentou ao Conselho Municipal de Saúde (CMS), o andamento do Plano de Enfrentamento do Surto de Doenças Meningocócicas. O encontro aconteceu na tarde dessa terça-feira (19), no auditório da SMS (Centro) e contou com a presença dos profissionais da Diretoria de Vigilância em Saúde e das áreas técnicas de Epidemiologia, que estão trabalhando na elaboração desse documento.

Durante a reunião, foi apresentada uma linha do tempo com as ações que já são feitas pela Vigilância Epidemiológica de forma contínua no enfrentamento da meningite. Entre as iniciativas citadas estão as orientações em escolas, a implantação da quimioprofilaxia ampliada para contatos de casos confirmados e apoio direto de médicos para discutir os casos, visitas de capacitação para profissionais das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Jaraguá, Trapiche, Chã de Jaqueira, Tabuleiro dos Martins e Jacintinho para observar sintomas da meningite e identificar de forma precoce esses casos.

“Em agosto deste ano, profissionais do Ministério da Saúde, com o EpiSUS chegaram a Maceió para realizar um estudo sobre os casos de meningite e identificou que o pico dos casos aconteceu em junho de 2023 e sua concentração ocorreu em dois bairros, Benedito Bentes e Jacintinho. E para atender as recomendações feitas pelo órgão para conter o aumento de casos, estamos adotando medidas, além das que já são adotadas pela SMS nesses casos”, destaca Bruna Monteiro, secretária de Saúde em exercício.

Entre as medidas citadas estão a antecipação da campanha de multivacinação e ampliação da disponibilização das vacinas para locais extramuros, incluindo vacinas de rotina, como vacina para a meningite C e ACWY; disponibilização de ambulância exclusiva para o transporte de pacientes com suspeita ou diagnóstico de meningite para exames e hospitais de referência; equipes do Saúde da Gente para realização de campanha de conscientização em escolas das redes municipal e estadual e atualização do protocolo de manejo clínico, quimioprofilaxia e regulação para os profissionais das upas, estendendo aos profissionais das UBS.

“Maceió também está melhorando o esquema de coleta de sangue para hemocultura nas UPAs e adquirindo insumos para a realização da cultura no Laboratório de Análises Clínicas de Maceió (Laclim), no Pam Salgadinho. Estamos criando esse fluxo com nossos profissionais, serviços, para que esse atendimento aos casos seja cada vez mais rápido, evitando agravamento da doença”, completa a secretária de Saúde em exercício.

Ao final da apresentação, foi facultada a palavra para os Conselheiros de Saúde para que fossem feitas perguntas sobre o andamento do Plano de Enfrentamento e também aspectos clínicos da doença com a médica infectologista da Vigilância em Saúde, Mardjane Lemos, que sanou dúvidas dos presentes, ajudando a pensar em estratégias cada vez melhores para o cuidado com a população.

Telessaúde do Caetés

A subsecretária de Atenção Primária, Roberta Borges, também apresentou durante a reunião do Conselho de Saúde o funcionamento da unidade de telessaúde do Parque dos Caetés, a primeira no município a contar com o modelo e que beneficia mais de 15 mil pessoas que residem na região. O equipamento de saúde, que funciona de maneira mista, com atendimentos digitais e presenciais, já registra 3.663 atendimentos à população no modelo de telemedicina.

“O modelo de telemedicina vem crescendo significativamente e o modelo implantado no local tem sido um sucesso. Estamos estudando implantar o modelo em outros locais que tenham as mesmas características do Caetés, buscando aumentar a eficiência dos atendimentos e ampliação do acesso aos serviços de saúde na capital”, finaliza Roberta Borges.”

Fonte: Ascom SMS Maceió

Depois da paralisação dos trabalhadores da CASAL, empresa avança na negociação

A paralisação dos trabalhadores e trabalhadoras da CASAL nesta terça-feira 19 de setembro foi vitoriosa, garantindo avanço significativo nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho – ACT deste ano, com reposição integral da inflação, com pagamento de todo o retroativo à data-base e, ganho real no ticket alimentação.

Com o avanço, a categoria decidiu, em assembleia, encerrar a paralisação e, aguardar nova reunião entre o Sindicato e a CASAL, no dia 21 de setembro, quando serão definidos detalhes dos pagamentos e a cláusula sobre o plano de saúde.

Durante a assembleia, que lotou o prédio sede da CASAL, a categoria demonstrou sua força e poder de mobilização, conseguindo arrancar  da empresa  os avanços pretendidos, demonstrando sua força e consciência de luta.

Segundo a presidenta do Sindicato Dafne Orion, “os trabalhadores e trabalhadoras da CASAL estão de parabéns por essa conquista. O Brasil mudou e agora conseguimos ganho real em nossas negociações. Ainda não encerramos o acordo porque temos que garantir a manutenção do nosso plano de saúde. Eu reafirmei para a direção da empresa que não mexa em nosso plano de saúde”, afirmou a presidenta.

“Chegaremos em mesa de negociação no dia 21/09 com o peso dessa paralisação, mostrando que estamos mobilizados e prontos para não aceitar retrocesso em nosso plano de saúde. Quem apostava que os trabalhadores e trabalhadoras da CASAL não parariam errou. A luta continua e estamos mais fortes do que iniciamos essa campanha salarial”, encerrou Dafne.

Fonte: Ascom Urbanitários/AL

75% dos americanos apoiam greve contra montadoras nos EUA

United Auto Workers negocia com as três maiores montadoras de automóveis e apresentou o conjunto mais audacioso de demandas de um grande sindicato industrial na era moderna

A United Auto Workers (UAW) entrou em negociações com as três maiores montadoras de automóveis e apresentou o que é, sem dúvida, o conjunto mais audacioso de demandas de um grande sindicato industrial na era moderna, segundo o jornal The Nation. Pesquisadores da Gallup perguntaram aos eleitores pouco antes do Dia do Trabalho com qual lado da disputa entre a UAW e as Três Grandes eles simpatizavam, 75% disseram que estavam com o sindicato. Apenas 19% ficaram do lado das corporações. Uma pesquisa da Morning Consult realizada na semana passada encontrou apoio de 2-1 para a UAW e observou que até as propostas mais ousadas do sindicato – como a demanda por uma semana de trabalho de 32 horas – atraíram significativamente mais apoio do que oposição. Isso é um grande negócio.

A Gallup descobriu que 61% diz que os sindicatos ajudam a economia dos EUA, superando o recorde anterior de 1999 em seis pontos. Dados confirmam que a popularidade geral dos sindicatos está aumentando e que o povo americano passou a acreditar que os sindicatos beneficiam tanto seus membros quanto aqueles que não fazem parte deles, que as organizações trabalhistas melhoram a posição das empresas sindicalizadas e que sindicatos fortes são bons para a economia dos EUA.

O sindicato solicitou um aumento salarial de 46%, melhores benefícios de saúde e aposentadoria, a renovação dos reajustes salariais com base no custo de vida, o fim de diferentes níveis salariais para trabalhadores mais antigos e mais novos, a restauração dos benefícios de pensão definida e uma semana de trabalho de 32 horas com pagamento de 40 horas. O sindicato moderou algumas de suas demandas durante as negociações coletivas com a General Motors, a Ford e a Stellantis – o consórcio internacional de montadoras que agora detém a Chrysler.

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Mas as montadoras – que obtiveram lucros combinados de US$ 21 bilhões nos primeiros seis meses de 2023 sozinhas – alegaram, à medida que se aproximava o prazo de expiração dos contratos existentes da UAW na quinta-feira, que não podiam se dar ao luxo de atender sequer as demandas mais razoáveis e básicas dos trabalhadores. Portanto, à meia-noite, os membros da UAW se juntaram às linhas de piquete fora de algumas fábricas da GM, Ford e Stellantis.

Fonte: Brasil 247

Indígenas são carbonizados em ato de intolerância religiosa no MS

Sebastiana e Rufino, casal de rezadores do povo Guarani e Kaiowá, tiveram a casa incendiada na aldeia Guassuty, em Aral Moreira (MS). Lideranças dizem que eles recebiam ameaças.

Lideranças indígenas apontam intolerância religiosa no assassinato de Sebastiana e Rufino, casal de rezadores do povo Guarani e Kaiowá que foram mortos carbonizados em ato criminoso ocorrido na madrugada desta segunda-feira (18) na aldeia Guassuty, em Aral Moreira, cidade que fica na linha de fronteira entre Brasil e Paraguai, a 359 km de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

Sebastiana e Rufino eram considerados líderes religiosos e teriam recebido ameaças antes do assassinato. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), nas ameaças, fanáticos diziam que se o casal não parasse com as práticas da religiosidade indígena seriam “queimados vivos”.

Sebastiana era chamada de Ñande Sy pelos Guarani e Kaiowá, termo que significa “nossa mãe” em guarani.

A casa onde os restos mortais foram encontrados carbonizados era utilizada como um lugar de rituais espirituais, mas os ataques partiram de fanáticos que diziam que no local se fazia “macumba” – termo preconceituoso usado para atacar religiões de origem afro.

Apesar dos pedidos das lideranças indígenas, o delegado que investiga o caso, Maurício Vargas, trata o assassinato como crime comum e suspeita que autor do homicídio do casal seja parente das vítimas. Um homem foi preso na tarde desta segunda, mas não teve a identidade revelada.

Vargas também afirmou que não acionou a Polícia Federal porque a  “a competência da PF é só na questão de disputa de terra ou em coisas relacionadas à xenofobia”.

Líderes indígenas, no entanto, afirmam que  as investigações pela Polícia Civil pode ocultar os verdadeiros motivos do crime, visto que xenofobia pode ser entendida como medo, aversão ou a profunda antipatia em relação a estrangeiros ou ao que é estranho como uma cultura ou religião.

Em nota, o Ministério dos Povos Indígenas afirmou que “recebeu com pesar e indignação a notícia de um casal de anciões indígenas, da etnia Guarani Kaiowá, que foram encontrados mortos na madrugada desta segunda-feira (18) na aldeia Guassuty, em Aral Moreira, Mato Grosso do Sul”.

“O Ministério dos Povos Indígenas imediatamente oficiou a Polícia Federal de Ponta Porã para investigar o caso”, diz o texto, divulgado no início da noite.

Fonte: Revista Fórum

Justiça condena Igreja Mundial após pastor chamar grevistas de ‘endemoniados’

Instituição liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago estava inadimplente quanto ao pagamento dos salários dos funcionários

A Justiça do Trabalho de São Paulo condenou a Igreja Mundial do Poder de Deus a pagar 15 mil reais de indenização a uma empregada por danos extrapatrimoniais.

A instituição religiosa é liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago. 

A indenização decorreu de uma declaração de Valdemiro a classificar os trabalhadores da igreja que estavam em greve de “pessoas imundas, incrédulas, avarentas e endemoniadas”. A paralisação era uma forma de protesto contra salários atrasados.

Segundo testemunhas, as ofensas foram proferidas durante um culto em que estavam presentes milhares de pessoas. 

Na pregação, o pastor disse também que “os funcionários que estavam em greve não eram dignos de trabalharem lá, eram ingratos” e que “mandaria todos embora em razão dos grevistas e terceirizaria tudo”. 

Em audiência, a defesa da Igreja Mundial alegou que a instituição desconhecia o caso.

Contra o argumento, a juíza Fernanda Zanon Marchetti, da 3ª Vara do Trabalho de São Paulo, anotou que ao representante da instituição “não é facultado desconhecer fato essencial ao deslinde do feito, atraindo a pena de confissão ficta quanto aos fatos desconhecidos”. 

Na sentença, assinada em 4 de setembro, a magistrada esclareceu que “a crença religiosa não pode servir de escusa para agredir pessoas, de forma deliberada, qualificando-as pejorativamente”.

“Palavras impensadas ditas em um púlpito diante de milhares de pessoas (fiéis seguidores) devem ser frontalmente repudiadas pelo Poder Judiciário, não se tratando de uma afronta à liberdade religiosa ou controle das pregações, mas de coibir abusos praticados, que poderiam incitar violência na multidão.”

Fonte: Rede Brasil Atual

Atentado contra moradores de rua na praça Sinimbu deixa 1 morto e 2 feridos

Movimento cobra providências do governador Paulo Dantas

Na noite deste dormindo, 17/09, na Praça Sinimbu, na capital alagoana, ocorreu um atentado contra moradores de rua, que deixou 1 morto (Thiago) e 2 (Fernanda e Alisson) em estado grave, entubados na UTI. O instituto de identificação e a SAMU e a polícia foram acionados, mas, os criminosos ainda não foram localizados.

Segundo informações do Frei João da Casa de Ranquines as vítimas são Pai, Mãe e Filho. O Coordenador Nacional do Movimento da População de Rua,  Rafael, nas redes sociais se pronunciou, comunicando que todas medidas legais serão tomadas e acionar as autoridades competentes para encontrarem os autores do bárbaro crime.

O Movimento cobra providências do governador Paulo Dantas “para que esse massacre seja apurado e os responsáveis punidos”, afirmou Rafael.

Redação com O Fato

Aumenta casos de tráfico de drogas no Exército, Marinha e FAB

No DF, entre 2019 e 2023, houve 20 julgamentos de uso ou tráfico de drogas na Justiça Militar envolvendo membros das Forças Armadas

Nos últimos anos, o crime de posse ou tráfico de drogas esteve no ranking de infrações mais frequentes na Justiça Militar, responsável por analisar ações que envolvem integrantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. No 11º Conselho de Justiça Militar (CJM), que cuida de delitos cometidos por militares do Distrito Federal, entre 2019 e 2023 houve, pelo menos, 20 julgamentos de posse ou tráfico de drogas dentro dos quartéis das Forças Armadas. Entre os episódios, há militares que engoliram cigarros de maconha e outros que alegaram desconhecer a proibição de carregar ilícitos durante o serviço.

Para praças e oficiais flagrados com entorpecentes, o Código Penal Militar estabelece pena de 1 a 5 anos de reclusão. No âmbito do 11º CJM, os que foram julgados no período citado ou receberam a pena mínima ou foram absolvidos.

Um dos casos é o de um ex-soldado da Aeronáutica. Segundo o processo, o militar portava uma porção de maconha na gandola, durante a saída para o almoço; a posse do entorpecente foi constatada por meio de revista pessoal.

Ao ser interrogado, ele afirmou não saber que o fato de ser militar seria um agravante para a situação, mas reforçou que não era usuário e que aquela era a segunda vez que usava maconha. Ele ainda disse que colocou a substância dentro do bolso da gandola porque “achava que, se fosse revistado, seria mais difícil encontrá-la”.

No julgamento, o ex-soldado foi absolvido, já que o 11º Conselho de Justiça Militar (CJM) entendeu que ele não estava a serviço nem causou risco a ninguém. “A conduta narrada não é um ilícito penal, apesar de ser reprovável.”

Em 2020, um soldado do Exército foi levado ao 11º CJM por ter, supostamente, engolido um cigarro de maconha ao ser flagrado pelo sargento responsável do dia. O caso ocorreu no 3º Esquadrão de Cavalaria Motorizado, sediado em Brasília.

De acordo com os autos do processo, o soldado estava mostrando o cigarro para outros colegas de patente quando foi flagrado pelo sargento. Ao serem encaminhados ao capitão do esquadrão, os envolvidos confirmaram que o soldado havia engolido o cigarro e que tinha “algo” na cintura — o que, depois, foi identificado como sendo um “saquinho” de maconha.

O conselho o condenou a 1 ano de prisão em regime aberto, com o direito de recorrer em liberdade.

Dragões da Independência

Quando foi pego com maconha, um soldado estava servindo no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (1º RCG). O grupo reúne os militares conhecidos como “Dragões da Independência”, que exibem uma farda branca especial, com detalhes dourados, em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, onde o presidente da República trabalha.

No início da manhã de 13 de dezembro de 2018, durante a revista de entrada no quartel do regimento, encontrou-se “uma embalagem suspeita de plástico preto” na mochila. Ao abrir o pacote, o sargento responsável pela averiguação constatou uma pequena porção esverdeada muito semelhante ao entorpecente popularmente conhecido como “maconha” e, portanto, procedeu à prisão em flagrante do soldado. O laudo pericial confirmou que se tratava de 1,3 g de maconha.

Ele passou por audiência de custódia e foi liberado quatro dias depois para responder o processo em liberdade. Pelos fatos, em dezembro de 2021, o Conselho Permanente de Justiça para o Exército condenou o militar a 1 ano de reclusão, a ser cumprida, inicialmente, em regime aberto.

situação dele é parecida com a de outro praça, que também foi soldado no 1º RCG. Em julho de 2021, durante revista com cães farejadores, o militar foi surpreendido com aproximadamente 6,2g de substância entorpecente no bolso de sua calça.

O termo de apreensão indica que foram encontrados, no bolso direito da calça do acusado, uma porção de substância vegetal e um pacote de papel usado para enrolar cigarros (popularmente conhecido como “seda”). Entretanto, no laudo preliminar, foi analisado um cigarro já pronto, com seda e material vegetal, além de outra substância com fragmentos de folhas.

Em seu interrogatório, o acusado, mesmo ciente da proibição, confessou que levou consigo para o expediente uma porção de maconha e papéis de seda, mas negou a propriedade do cigarro mencionado na perícia preliminar. Como houve divergências que não foram resolvidas no processo, o que provoca incerteza sobre o que foi submetido à perícia, se era de fato a mesma substância encontrada com o acusado, o juiz absolveu o rapaz.

Cocaína

Também envolvendo um Dragão da Independência, há um caso sobre um praça que foi pego com 0,9 grama de cocaína durante uma revista dentro do quartel. O autor negou que a substância fosse sua, mas as testemunhas prestaram depoimentos que não corroboravam com a versão do cabo, que fazia a ronda no local.

“Não se quer dizer que o cabo da guarda tenha agido de má-fé no intuito deliberado de imputar conduta ilícita ao réu, porém, dadas as corriqueiras ocorrências de ingresso indevido de substância entorpecente dentro de área sob administração militar, o graduado pode ter deduzido que o material ilícito encontrado no chão, próximo à vez de revista do soldado, pertencia a este (o acusado)”, argumentou o juiz.

Como não havia provas suficientes para garantir que a substância pertencia ao homem, o magistrado decidiu absolver o soldado: “O conjunto probatório produzido tanto na fase inquisitorial quanto na fase judicial não logrou êxito em apontar sequer que o acusado tenha concorrido para o crime, sendo o que basta para um decreto absolutório, por inexistir prova de ter o réu concorrido para o crime”.

Um caso famoso envolvendo cocaína foi o do ex-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues. O militar foi preso em 2019, na Espanha, transportando 37 quilos da droga dentro de um avião oficial que servia de apoio à aeronave presidencial.

Em 2022, ele foi condenado a 14 anos e 6 meses de reclusão por tráfico internacional de drogas. No mesmo ano, foi excluído definitivamente das fileiras da Aeronáutica.

Entenda o Código Penal Militar

O advogado Matheus Mayer, professor e presidente da comissão de direito militar da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF), comenta que o Código Penal Militar (CPM) foi formulado por deputados federais em 1969, durante o período da ditadura militar.

O especialista explica as diferenças entre os códigos penais: no âmbito civil, a legislação rege a aplicação de punições relativas à liberdade. “Na Justiça Militar, são a hierarquia e a disciplina. O CPM regula e disciplina todos os delitos que podem ocorrer quando um militar está no exercício de suas funções, haja vista que a rotina e a vida do militar são bem diferentes da vida do civil”, afirma Mayer.

Para Mayer, não é possível afirmar que os militares recebem penas mais brandas quando comparamos com civis, porque existem casos em que a Justiça Militar é muito mais severa do que seria, hipoteticamente, a comum.

Fonte: Metrópoles

Brasil assina acordos de cooperação em vários setores com Cuba

16.09.2023 - Assinaturas de Atos - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - Presidente da República de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e a ministra da saúde, Nísia Trindade (e) - Palácio da Revolução - Havana - Cuba Fotos: Ricardo Stuckert/PR

Os acordos ampliam a troca de tecnologias entre os dois países e de pesquisa conjunta em vacinas, Alzheimer, diabetes e gastrite

Em visita a Cuba, ministros que acompanharam o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinaram acordos de cooperação, também chancelados pelo presidente,  que devem, segundo o governo, “ampliar a troca de tecnologias entre os dois países”. Os memorandos de cooperação incluem as áreas de saúde, ciência e tecnologia e desenvolvimento agrário.

Na área de saúde, foi assinado um protocolo de cooperação que prevê a troca de tecnologias e conhecimento em temas como doenças crônicas, vacinas, biotecnologia e biodiversidade, doenças transmissíveis e negligenciadas. O protocolo também prevê o desenvolvimento de produtos inovadores. “A importância desse acordo é que o Brasil se beneficia de um conhecimento de ponta que Cuba desenvolveu, investimentos de anos nessa área. Nesse desenvolvimento conjunto, o Brasil entra com sua expertise em pesquisa clínica e a sua capacidade de produzir em escala, em laboratórios públicos e laboratórios privados”, explicou a ministra da Saúde, Nísia Trindade.

O documento inclui ainda uma associação entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Biocubafarma. Essa associação vai possibilitar transferência de tecnologia para a produção nacional do NeuroEpo, um medicamento inovador usado para retardar os efeitos do Alzheimer, e da Eritropoietina, utilizado no tratamento de anemia por insuficiência renal, leucemia e outras doenças.

O acordo também possibilita o desenvolvimento de uma política de auxílio mútuo sobre regulamentação sanitária para aprovação e comercialização de medicamentos, dispositivos médicos, vacinas e outras tecnologias.

Já na área de Ciência e Tecnologia, a principal medida assinada trata da reativação do Comitê Gestor Brasil-Cuba de Ciência, Tecnologia e Inovação. A intenção é que o comitê volte a se reunir no prazo de 60 dias para discutir cooperação científica e tecnológica entre os dois países, com prioridade em biotecnologia, bioeconomia, biorrefinarias, biofabricação, energias renováveis, ciências agrárias, soberania, segurança alimentar, clima, sustentabilidade, redes de ensino e pesquisa.

“Nós queremos retomar, não só na área do complexo industrial de saúde, mas em outras áreas mais abrangentes, como a bioeconomia. Queremos fazer uma nova reunião do comitê em 60 dias. É uma relação em que a gente aprende e aquilo que a gente tem mais expertise a gente oferece, a gente procura uma lógica de cooperação e parceria saudável, que faz com que a gente encontre soluções pro Brasil e pra Cuba”, afirmou a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos.

Na área de desenvolvimento agrário, o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, assinou um convênio com o governo cubano para o estabelecimento de um programa de cooperação na área agrícola, que contempla as áreas de agricultura, pecuária, agroindústria, governança da terra, soberania e segurança alimentar e nutricional.

O foco é a troca de tecnologia e cooperação técnica em sementes e mudas, bioinsumos e fertilizantes, agricultura de conservação, agricultura urbana e periurbana, produtos alimentares prioritários para consumo humano e animal, reprodução de espécies agroalimentares prioritárias, uso eficiente da água, cadastro e gestão da terra e abastecimento agroalimentar.

Nesse sábado (16), após a Cúpula de Chefes de Estado e Governo do G77 + China, Lula teve uma reunião bilateral com o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel. Esse foi o terceiro encontro entre os dois presidentes este ano. Também foi a primeira viagem oficial de um mandatário brasileiro ao país caribenho em nove anos. A última foi em 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff esteve em Havana, capital cubana.

Fonte: Agência Brasil

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