Eleições no Peru: Sánchez vira e ultrapassa filha de Fujimori com 95,68% das urnas apuradas

Com mais de 95,685% das urnas apuradas, a disputa do segundo turno no Peru continua em aberto nesta terça-feira (9), com o candidato de esquerda Roberto Sánchez e a candidata de direita Keiko Fujimori disputando voto a voto.

No início da tarde de segunda (8), Sánchez assumiu a dianteira da corrida presidencial e segue à frente de Keiko no número de votos.

Sánchez está com 50,074% dos votos, enquanto Fujimori tem 49,926%, segundo a última atualização do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) às 3h28, no horário de BrasíliaDevido à pequena diferença, o resultado da eleição permanece indefinido.

De acordo com a contagem oficial do órgão eleitoral do país, após várias horas com a candidata conservadora liderando a apuração, o deputado de esquerda virou às 14h58 (horário de Brasília).

A candidata conservadora era apontada como favorita pelas pesquisas de boca de urna, mas já era esperado que o deputado crescesse na reta final, já que ele é forte nas zonas eleitorais rurais, as últimas a serem contabilizadas.

Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi a primeira colocada no primeiro turno, com 17,2% dos votos válidos. Sánchez conquistou 12% dos votos válidos na primeira votação, que teve um recorde de 35 candidatos.

As seções eleitorais foram fechadas às 17h locais (19h no horário de Brasília) de domingo (7), após uma jornada sem maiores incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno, marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude.

Fonte: G1

PEC da Escravidão articulada pelos bolsonaristas perde apoio no Senado

Já desgastada, a proposta de parlamentares bolsonaristas articulada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) para ser alternativa à PEC aprovada pela Câmara, que põe fim à escala 6×1, começa a sair pela culatra. Nos últimos dias, pelo menos três senadores já retiraram seu apoio à proposta que flexibiliza a jornada com pagamento por hora trabalhada, reduz salários para abaixo do mínimo e propõe acordos individuais entre empregado e patrão. A PEC bolsonarista, que propõe a escala 7×0, já até ganhou o apelido de “PEC da Escravidão”.

A retirada de apoio acontece depois da péssima repercussão da proposta nas redes sociais e entre populares em ano eleitoral, e a forte mobilização das centrais sindicais.

Por enquanto, os senadores que retiraram seu apoio são Zequinha Marinho (Podemos-PA), Cleitinho (Republicanos-MG) e Romário (PL-RJ).

Comentando em seu perfil no Instagram a retirada de seu apoio, Zequinha, que concorrerá à reeleição, escreveu: “retira a presença do sindicato das negociações e isso a gente não pode admitir”. Já o senador Romario afirmou “que muita gente viu o texto como algo prejudicial ao trabalhador brasileiro. E, se o povo entende assim, não faz sentido continuar nela”.

Cleitinho, potencial candidato ao governo de Minas Gerais, que anunciou a retirada de seu apoio à PEC em discurso no Senado, disse que assinou a proposta por “gentileza” a outros parlamentares e, inclusive, cobrou a tramitação célere da PEC aprovada na Câmara, que reduz a jornada. No discurso, o senador ainda disse estar “magoado” com as cobranças que recebeu de apoiadores por ter assinado a chamada “PEC do Trabalho Escravo”.

Fonte: Hora do Povo

MPF investiga prefeituras de Alagoas por desvio de R$ 6 milhões da educação para vaquejada

Arnaldo Higino, que comanda politicamente as cidades, já foi alvo de investigações que envolvem desvio de água e de verba federal de escola e da saúde

Ministério Público Federal em Alagoas abriu um procedimento para investigar o uso de dinheiro da educação para o pagamento de agrotóxicos, peças de tratores e reforma de uma arena de vaquejada por parte de duas prefeituras de Alagoas, Campo Grande e Olho D’Agua Grande, comandadas pela mesma família.

O caso foi revelado no último dia 1º pela Folha, após cruzar extratos do Fundeb, mais de 30 notas fiscais e visitar as duas cidades. O procedimento foi instaurado na quarta (3) no 10º Ofício da Procuradoria da República em Alagoas, órgão com atribuição criminal.

Os desvios identificados pela reportagem, que somam cerca de R$ 6 milhões, ainda incluem gastos de manutenção de carros particulares para construtoras, sem que haja obras de educação, e gastos vultosos para transporte escolar. Nas cidades, no entanto, ônibus circulam em situação precária, escolas sofrem infraestrutura deficiente e professores recebem remuneração 50% abaixo do piso nacional.

O Fundeb é o principal mecanismo de financiamento da educação básica. Inclui verbas de impostos estaduais e municipais, acrescidas de complementação federal —por envolver dinheiro da União, a Procuradoria também atua nesses casos.

A família do político Arnaldo Higino controla os dois municípios. O sobrinho Teo Higino (PSB) é prefeito pelo segundo mandato de Campo Grande, e a mulher de Arnaldo, Suzy Higino (PP), governa Olho D’Água Grande também pelo segundo mandato.

Todos foram procurados na tarde de quarta-feira, mas não responderam. A reportagem esteve nas prefeituras e pede, repetidamente, esclarecimentos desde 12 de maio.

O pai de Arnaldo, Evânio Higino, dá nome a uma arena de vaquejada, privada, que fica na entrada de uma das fazendas do grupo, em Campo Grande. Evânio Higino também é o nome de uma escola municipal que adiou o início do ano letivo por falta de carteiras.

Enquanto a quadra da escola Evânio Higino está interditada há pelo menos dois anos, com telhado destruído, o Parque de Vaquejada Evânio Higino, de propriedade da família, recebeu cobertura nova na arquibancada neste ano.

As melhorias para a vaquejada foram custeadas com dinheiro do Fundeb das duas cidades. A obra terminou em março, a tempo de receber uma competição, que deu R$ 380 mil em prêmios.

Outros membros da família Higino ocupam cargos nas duas cidades. Greicy Higino, sobrinha de Arnaldo e irmã de Teo, é secretária de Educação de Campo Grande. A mulher de Teo, Mara Higino, é vice-prefeita em Olho D’Água Grande.

Arnaldo Higino foi eleito prefeito de Campo Grande pela primeira vez em 1992 e, desde 2005, deixa o cargo apenas para parentes assumirem. Ele já é alvo de várias investigações.

Em 2017, foi preso em flagrante ao receber propina de R$ 11 mil de uma pessoa, também investigada, que esquentava notas fiscais para lavar o desvio de dinheiro público. Naquela investigação, os desvios detectados também envolviam recursos da educação, relacionados a merenda escolar e ao PDDE (Programa de Dinheiro Direto na Escola), além de outras rubricas.

Um outro parente dele, Miguel Higino —que foi prefeito de Campo Grande entre 2013 e 2016— também foi investigado e preso. A Folha não conseguiu contato com Miguel.

Em 2011, Arnaldo Higino foi denunciado pelo Ministério Público de Alagoas sob acusação de ter desviado água da rede de abastecimento da cidade para beneficiar uma de suas fazendas. O “gato” de Arnaldo provocava falta de água em três povoados: Cabaças, Traíras e Capim.

Ele também já foi investigado sob suspeita de compra de votos e desvios de dinheiro da área de saúde. Nessa última ação, de 2019, foi condenado e fez um acordo para ressarcir, de forma parcelada, R$ 429 mil aos cofres públicos.

Arnaldo chegou a conseguir votos para se reeleger em 2020, pelo PP, mas a Justiça Eleitoral impugnou a candidatura por causa da condenação por improbidade e suspensão de direitos políticos. Foi na eleição suplementar que o sobrinho Teo Higino chegou ao cargo.

O ex-prefeito declarou, naquele pleito, ter R$ 874 mil em bens, a maior parte em propriedades. Ele chegou a migrar de partido, do PP para o PSB em 2024, mas sua filiação está suspensa por causa da perda de direitos políticos decorrente de condenação.

Ele também transferiu seu domicílio eleitoral para a cidade vizinha de Porto Real do Colégio. Relatos colhidos na cidade indicam que ele pretende estender sua influência além das cidades que já controla.

Fonte: ICL

Estudantes da USP decidem encerrar greve após 54 dias

Estudantes da USP decidiram encerrar a greve iniciada em abril após assembleia realizada na noite desta segunda-feira (8). A votação terminou com 323 votos pelo fim da paralisação, 255 pela continuidade do movimento e pelo menos sete abstenções.

A paralisação começou em 14 de abril e atingiu mais de 100 cursos da universidade. Segundo a decisão da assembleia, cada curso ainda poderá votar de forma independente pela manutenção da greve em sua unidade.

O movimento teve rodadas de negociação com a reitoria, protestos e ocupação do prédio da administração central. A USP havia afirmado, durante a paralisação, que considerava encerrada a negociação das pautas estudantis.

Os alunos exigiam melhorias e reajustes nas bolsas do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), reformas estruturais no Conjunto Residencial (Crusp) e melhorias no restaurante universitário.

Segundo Francisco Napolitano, representante do movimento, os estudantes não ficaram totalmente satisfeitos com as propostas apresentadas pela reitoria, mas avaliam que a mobilização garantiu conquistas importantes. Apesar do encerramento da greve, novas manifestações já estão programadas para pressionar o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp).

Redação com DCM

Tariflávio: 81% nas redes responsabilizam o “01” pelo tarifaço e ameaça ao PIX

Pesquisa nas redes e aplicativos mostram desgaste crescente de Flávio Bolsonaro após encontro com Trump

Levantamento da empresa de monitoramento Palver, divulgado nesta semana, mostra que 81% das mensagens sobre o novo tarifaço americano e as ameaças ao PIX responsabilizam direta ou indiretamente Flávio Bolsonaro pela crise.

O estudo analisou publicações em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram entre 27 de maio e 2 de junho, período que coincide com a visita do senador à capital americana e a reunião do senador com Trump.

O dado expõe crescente associação entre o bolsonarismo e iniciativas estrangeiras percebidas como prejudiciais à economia e à soberania nacional.

A viagem do senador e pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a Washington produziu resultado político devastador para parlamentar. Este é o preço da submissão, da sabujice e da vassalagem do clã aos interesses dos Estados Unidos.

Em vez de projetar imagem de liderança internacional, o encontro com Donald Trump acabou consolidando nas redes digitais e nos aplicativos de mensagens a percepção de que o filho mais velho de Jair Bolsonaro se tornou um dos principais rostos brasileiros associados à escalada de pressões dos Estados Unidos contra o País.

ELO COM EDUARDO

O desgaste de Flávio não ocorre isoladamente. Esse se soma ao histórico recente de articulações internacionais conduzidas pelo irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que foi cassado pela Câmara dos Deputados.

Eduardo responde a ação penal relacionada à atuação dele com autoridades e grupos políticos americanos para defender sanções contra instituições e autoridades brasileiras.

O Supremo Tribunal Federal marcou para o próximo dia 16 o julgamento do caso. Segundo a acusação, o ex-parlamentar atuou para pressionar os Estados Unidos a adotar medidas contra o Brasil e integrantes do Judiciário brasileiro.

Nesse contexto, a viagem de Flávio passou a ser interpretada por parcela significativa dos usuários das redes como continuação da mesma estratégia: buscar apoio externo para fortalecer o projeto político da família Bolsonaro, mesmo quando são ações que geram custos para o País.

A percepção ganhou força porque o encontro com Trump ocorreu justamente quando avançavam em Washington discussões sobre novas barreiras comerciais contra produtos brasileiros.

PIX, TARIFAS E GUERRA COMERCIAL

O agravamento da crise ocorreu quando o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) recomendou a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e incluiu o PIX entre os elementos citados na investigação comercial aberta contra o Brasil.

Nas redes, a coincidência temporal entre a visita à Casa Branca e o anúncio das medidas transformou o senador em alvo preferencial das críticas. Termos como “Tariflávio” passaram a circular amplamente, sintetizando a acusação de que a aproximação com Trump estaria produzindo consequências negativas para empresas, exportadores e trabalhadores brasileiros.

A reação foi tão intensa que ultrapassou os círculos tradicionais da esquerda. Nos bastidores políticos, inclusive entre setores da direita e do Centrão, cresceu a avaliação de que a vinculação entre Flávio e o tarifaço poderá se tornar problema eleitoral relevante caso as medidas avancem.

HERANÇA

Flávio Bolsonaro tentou reagir afirmando que teria pedido a Trump para não aplicar tarifas contra empresas brasileiras e para deixar eventuais negociações para depois das eleições presidenciais de 2026. A palavra de Flávio não vale nada. Ele também disse que não conhecia Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E foi pego na mentira deslavada.

A declaração de Flávio não impediu o avanço das críticas.

Pelo contrário: para muitos observadores, o simples fato de pré-candidato brasileiro discutir tarifas e relações comerciais diretamente com o líder estrangeiro já reforça a imagem de dependência política em relação ao trumpismo.

Nas redes, o debate parece ter ultrapassado a questão comercial. O que está em julgamento é a própria imagem de projeto político acusado pelos adversários de colocar alianças ideológicas internacionais acima dos interesses econômicos e institucionais do Brasil.

Se Eduardo Bolsonaro se tornou símbolo das tentativas de pressionar instituições brasileiras a partir do exterior, Flávio agora corre o risco de ficar marcado como o rosto político da crise comercial que atingiu o País justamente após a peregrinação dele à Casa Branca.

Para candidato que pretende disputar a Presidência, com a bandeira do patriotismo, é um desgaste que dificilmente passará despercebido durante a campanha.

Fonte: Hora do Povo

Cláudio Castro fez aportes milionários em banco do bispo Macedo, que corre risco de quebrar

Cedae, estatal de saneamento básico do Rio de Janeiro, fez aportes de dezenas de milhões de reais no Banco Digimais, que pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). As operações foram realizadas por diretor indicado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL).

Desde junho de 2025, Antonio Carlos dos Santos, indicado por Castro para a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) da Cedae, fez diversos investimentos em CDBs do Banco Digimais. As aplicações foram renovadas mesmo diante de fortes indícios de que a instituição financeira corre risco de quebrar. Só recentemente, os recursos passaram para aplicações com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Meses antes de assumir o posto de diretor da Cedae, Santos foi assessor-chefe do gabinete de Cláudio Castro no Palácio Guanabara. Ele foi uma indicação pessoal do ex-governador para um cargo estratégico na estatal, responsável por assinar contratos e decidir investimentos em instituições financeiras. Santos foi o principal responsável pelo investimento de mais de R$ 200 milhões no Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Em nota, a Cedae afirma que “uma das primeiras medidas da atual administração foi mudar a Política de Aplicações Financeiras” com o objetivo de “reforçar mecanismos de governança, controle e mitigar riscos na gestão das aplicações financeiras”.  A estatal diz ainda que os investimentos no banco Digimais não serão renovados e os valores serão reaplicados nas “maiores e mais sólidas instituições financeiras do país”.

Já Antonio Carlos dos Santos sustenta que “que todas as alocações de sua carteira estavam em conformidade com a política de aplicações financeiras da Cedae, conforme apuração da auditoria interna”. O ex-diretor diz ainda que “as decisões de investimento seguiram as normas de governança e a política de aplicações financeiras, tendo sido aprovadas pelas instâncias competentes, incluindo o Conselho de Administração, o Comitê de Auditoria e a Diretoria Executiva”. Ele também nega que não houve “quaisquer interferências externas ou políticas” nas decisões de investimento que tomou.

Aportes chegaram a R$ 91,2 milhões

A aplicação no Digimais se aproveitou das brechas criadas sob medida para permitir os aportes no Master. Assim como no caso do banco de Vorcaro, as agências de classificação de risco dão um rating baixo para o Digimais, em comparação com diversos concorrentes no mercado financeiro brasileiro.

O banco de Edir Macedo apresentou as avaliações BBB- da Fitch e da Moody’s –a mais baixa ainda considerada grau de investimento. Até Santos alterar “sob medida” para o Master, segundo investigação interna, a política de investimentos da empresa, a Cedae exigia uma avaliação mínima bem mais alta, de A-.

Os investimentos no Digimais ocorreram inicialmente em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), títulos de renda fixa tradicionalmente emitidos por instituições financeiras. A rentabilidade prometida é de 106% do CDI.

Documento detalha condições de investimento no Digimais
Documento detalha condições de investimento no Digimais (Crédito: Arte/ ICL Notícias)

A primeira remessa milionária no Digimais ocorreu em junho de 2025, quando a Cedae já se via às voltas com um possível calote de Vorcaro. O parecer favorável de Santos veio no dia 4 de junho de 2025.

Ao contrário de várias outras aplicações feitas pela Cedae, o investimento no Digimais não tinha liquidez diária –a empresa só poderia resgatar os recursos em 180 dias. Ainda assim, Santos referendou nota técnica feita por seus assessores Hedmilton Mourão Cardoso, Magno Neves Fonseca e Mauro Luis Marques –os mesmos que o auxiliaram a operar os aportes suspeitos no Banco Master. A recomendação era alocar R$ 35 milhões no conglomerado do bispo Macedo.

“A referida emissão constitui oportunidade atrativa para a Cedae, desde que o volume alocado seja inferior a R$ 40 milhões, valor de limite que conta com a garantia especial do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”, diz o documento obtido pelo ICL Notícias.

Uma nova remessa foi feita pouco depois, em agosto do ano passado. Santos e seus assessores repetem quase integralmente o texto usado para justificar o primeiro investimento. Dessa vez recomendam a apliacção de mais R$ 25 milhões. O prazo para resgate era ainda maior, de 1 ano, e o rendimento prometido era de 109% do CDI. Os recursos deveriam ser retirados de um fundo de investimentos operado pelo Itaú, maior banco do país.

As regras criadas por Santos e que permitiram o investimento no Banco Master permitiam o investimento de até 10% da carteira da Cedae em bancos com rating BBB-. Após o calote do banco de Vorcaro, o Digimais foi a única instituição financeira com esse perfil a receber recursos da estatal.

Risco de quebra do banco

A Cedae manteve os investimentos mesmo  com o agravamento da situação do Digimais.

Edir Macedo chegou a anunciar em janeiro de 2025 a venda da instituição para Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master, por R$ 800 milhões. Contudo, Quadrado desistiu da aquisição em abril.

A venda era uma pedra de salvação para o Digimais, cujos dados financeiros apresentavam uma série de más notícias. Em pouco tempo, Macedo teve que injetar mais de R$ 700 milhões no negócio.

Mesmo com a deterioração da condição do Digimais, Santos e seus assessores seguiram recomendando o investimento no banco. Em 24 de fevereiro de 2026, uma reunião extraordinária do Comitê de Auditoria da Cedae foi convocada para, entre outros assuntos, tratar das preocupações com a situação do banco de Edir Macedo.

Os membros do comitê questionaram Santos sobre o assunto, como mostra a ata da reunião. Segundo a ata do encontro, eles enfatizaram “os pontos negativos e de riscos de cada instituição financeira onde a Cedae possui investimentos. Diante disso, foi solicitado ao time técnico a conclusão sobre tais investimentos, inclusive a possibilidade de realocação para instituições com melhor rating”, relata o documento.

Comitê de Auditoria da Cedae questionou investimento no Digimais
Comitê de Auditoria da Cedae questionou investimento no Digimais (Crédito: Arte/ ICL Notícias)

Naquele momento, a Cedae havia contratado uma auditoria independente para avaliar a situação da empresa. Fernando dos Santos, sócio da empresa de auditoria, menciona que a estatal buscou o resgate das aplicações no Digimais, mas não deixa claro porque os valores não foram recuperados até ali.

Pouco depois, em nota técnica feita em 13 de março, Santos dobra a aposta. A DFI define a situação do Digimais como “negativa”, com “reversão para lucro semestral, melhora de Basileia; prejuízos acumulados e forte dependência de depósitos a prazo”. Mesmo assim, defende a manutenção dos investimentos: “há mitigantes de risco que levam à recomendação da manutenção das atuais posições”.

O fator mitigante, segundo a DFI, seria uma cobertura de até R$ 40 milhões pelo Fundo Garantidor de Crédito em caso de calote. Naquele momento, a Cedae tinha cerca de R$ 39 milhões aplicados no Digimais.

Diretoria da Cedae recomendou manutenção de investimentos em meio à crise do Digimais
Diretoria da Cedae recomendou manutenção de investimentos em meio à crise do Digimais (Crédito: Arte/ ICL Notícias)

Pouco depois, no final de março, Fitch rebaixou a nota do banco de Edir Macedo para BB-, classificação já considerada de grau especulativo.

Em 26 de maio, a Moody’s pintou um quadro ainda mais crítico: rebaixou o banco de Edir Macedo para CCC+ –o que representa risco iminente de calote dos investidores. O comunicado da agência é aterrador.

“O rebaixamento dos ratings do Digimais reflete a avaliação da Moody’s Local Brasil sobre um aumento significativo no risco dos ativos do banco, principalmente devido à sua crescente exposição aos fundos de investimento alternativos ao longo de 2025. Em dezembro de 2025, a carteira de títulos e valores mobiliários, composta majoritariamente por cotas de fundos de investimento, totalizava R$ 4,3 bilhões, correspondendo a cerca de 42% do total de ativos e representando 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco. A qualidade e a recuperabilidade desses investimentos são incertas, como evidenciado pelo parecer de auditoria externa com ressalvas sobre R$ 3,1 bilhões, ou 73% dos fundos reportados, devido às limitações de informações sobre a adequação desses valores”, diz o relatório da Moody’s.

.A Política de Aplicações Financeiras da Cedae em vigor àquela altura vetava aplicações financeiras em instituições com notas tão baixas, mas o saque imediato não foi possível porque os contratos amarravam a estatal até a data de vencimento dos investimentos.

Fonte: ICL

PEC do fim da escala 6×1 entra em semana decisiva no Senado

A PEC do fim da escala 6×1 pressiona o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em uma semana considerada decisiva na Casa. Alcolumbre deve reunir líderes partidários para definir o rito da proposta, informa o Metrópoles.

O presidente do Senado deve encaminhar a Proposta de Emenda à Constituição diretamente para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), após a pressão de parlamentares contrários à criação de uma comissão especial para analisar o texto. A possibilidade de enviar a matéria à CCJ ganhou força depois de críticas ao rito inicialmente defendido por Alcolumbre.

Na última terça-feira (2), Alcolumbre anunciou que reunirá líderes partidários para discutir a tramitação da PEC. Antes disso, porém, havia adotado um tom mais duro ao afirmar que não pretendia acelerar a análise da proposta no Senado.

“Essa proposta vai ter de tramitar nas comissões, porque há cobrança de todos os senadores de que todas as matérias possam passar, no mínimo, por uma comissão”, disse Alcolumbre.

Durante o pronunciamento, o presidente do Senado também afirmou que a Casa não deve atuar apenas como uma “instância de carimbo” das decisões tomadas pela Câmara dos Deputados. A PEC foi aprovada pelos deputados no dia 27 de maio e agora depende da tramitação no Senado para avançar.

Rito da PEC 6×1 é alvo de disputa no Senado

A principal divergência está no caminho que a proposta deve seguir dentro do Senado. O entendimento de parlamentares favoráveis ao avanço da PEC é que o texto deve passar apenas pela CCJ antes de seguir ao plenário, conforme o rito previsto para propostas de emenda à Constituição.

O argumento se baseia no artigo 356 do Regimento Interno do Senado, que determina o envio das PECs à Comissão de Constituição e Justiça para emissão de parecer. Os dispositivos seguintes indicam que, concluída essa fase, ou mesmo se a CCJ não se manifestar dentro do prazo regimental, a matéria pode seguir para votação no plenário.

Embora o regimento não vede expressamente a criação de uma comissão especial, esse tipo de etapa não está previsto no rito específico das PECs no Senado. A eventual criação de um colegiado especial, portanto, passou a ser interpretada por governistas como uma manobra capaz de retardar o andamento da proposta.

Governistas veem risco de atraso em pauta estratégica

Aliados do presidente Lula avaliam que o fim da escala 6×1 é uma das principais bandeiras sociais em discussão no Congresso e pode ter peso político na agenda de 2026. Nos bastidores, governistas afirmam que a tramitação da PEC depende diretamente da disposição de Alcolumbre em permitir que o texto avance.

O senador Paulo Paim (PT-RS), uma das vozes históricas do debate sobre direitos trabalhistas no Congresso, criticou a hipótese de um rito mais longo e defendeu a atualização da jornada de trabalho no país.

“Isto nunca aconteceu nos 24 anos que estou no Senado […]. Estamos esperando esta mudança há 40 anos. Tudo mudou no mundo do trabalho. Temos que mudar a carga horária também. Getúlio [Vargas] regulou as 48 horas, nós aprovamos na Constituição as 44 horas… E agora, 40 anos depois, 40 horas”, declarou Paim ao Metrópoles.

A fala do senador reforça a pressão de setores governistas para que a proposta siga o caminho considerado mais direto: análise pela CCJ e, depois, deliberação em plenário. Para esse grupo, a criação de uma comissão especial representaria um rito incomum e poderia esfriar o debate sobre a redução da jornada.

Apoio de Alcolumbre é considerado decisivo

A articulação no Senado é vista como mais difícil sem o apoio ativo de Alcolumbre. Na Câmara, a aprovação da PEC contou com forte atuação do governo junto ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), que se aproximou do Palácio do Planalto nos últimos meses e ajudou a conduzir as negociações para a votação.

No Senado, a avaliação de parlamentares é que Alcolumbre exerce influência ainda maior sobre a dinâmica interna da Casa. Além de controlar a pauta de votações, o presidente do Senado tem capacidade de coordenação sobre líderes partidários, considerados fundamentais para construir acordos em torno de propostas de grande impacto político.

A reunião com os líderes deve indicar se a PEC da escala 6×1 avançará diretamente para a CCJ ou se enfrentará um caminho mais longo antes de chegar ao plenário. A decisão será observada de perto por governistas, trabalhadores e setores contrários à redução da jornada, em meio a um debate que ganhou força após a aprovação do texto pela Câmara.

Fonte: Brasil 247

Pastor evangélico que abusou de 30 crianças é preso no Paraguai

Um pastor brasileiro de 47 anos, Alcemir de Souza, foi preso após ficar cinco anos foragido. Ele é acusado de abusar sexualmente de cerca de 30 crianças do sexo masculino em Curitiba, no Paraná. A Interpol o localizou recentemente em Saltos del Guairá, no Paraguai.

No Paraguai, o homem continuava atuando como pastor em igrejas da região e fazia entregas de comida à noite, o que ajudou as autoridades a identificá-lo rapidamente. Ele já foi expulso do país e entregue à Justiça brasileira.

As autoridades paraguaias pedem que possíveis vítimas na região denunciem à Interpol local. Há informações de que o suspeito teria uma doença sexualmente transmissível, o que aumenta a gravidade do caso.

Fonte: Ploc Social

O sofrimento silencioso das crianças de Gaza que perderam capacidade de falar

Adam era um menino alegre e falante, mas aos 5 anos e de forma repentina, deixou de interagir com o mundo.

Seu caso não é uma exceção. Diante da violência, destruição e morte em Gaza, a resposta de algumas crianças ao sofrimento avassalador tem sido calar-se.

“Não há nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada“, disse à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) Katrin Glatz Brubakk. “Há mais de um milhão de crianças que sofreram traumas graves.”

A psicoterapeuta infantil da Noruega realizou duas missões a Gaza em 2024 e 2025 com a organização sem fins lucrativos Médicos Sem Fronteiras (MSF) para trabalhar com crianças que perderam a capacidade de falar.

Não se sabe com certeza quantas crianças em Gaza deixaram de se comunicar, mas Brubakk relata que encontrou dezenas de casos. E médicos locais disseram à rede Al Jazeera que se trata de um “número crescente”.

Mais de seis meses após o anúncio do cessar-fogo em Gaza, a violência continua e “os ataques israelenses seguem de forma rotineira”, declarou em abril o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk.

Pelo menos 846 pessoas — entre elas muitas mulheres e crianças — morreram em Gaza em ataques israelenses desde o início do cessar-fogo, segundo o ministério da Saúde local.

Israel, que justifica seus ataques pela necessidade de defender suas tropas e enfrentar a ameaça dos militantes do Hamas, afirma que cinco de seus soldados morreram no mesmo período.

Desde outubro de 2023 — após os ataques de militantes palestinos em território israelense nos quais morreram cerca de 1,2 mil pessoas e mais de 200 foram feitas reféns, segundo autoridades israelenses — as forças de Israel mataram mais de 20 mil crianças em Gaza e deixaram mais de 41 mil feridas, segundo a Unicef.

No total, os ataques israelenses mataram mais de 72 mil pessoas, a maioria civis, e feriram mais de 172 mil, de acordo com o ministério da Saúde de Gaza.

A BBC News Mundo conversou com Katrin Glatz Brubakk sobre o trauma que está levando as crianças de Gaza a perder a fala, as consequências em seus cérebros e por que o caminho para a recuperação às vezes começa com um primeiro passo: soprar bolhas de sabão.

BBC News Mundo – Por que há crianças em Gaza que deixaram de falar?

Katrin Glatz Brubakk – Quando uma criança sofre um trauma grave e vive em condições de grande incerteza por muito tempo, como acontece com as crianças de Gaza, ela teme por sua própria vida, pela de sua família, amigos e conhecidos. E em Gaza as crianças vivem assim há dois anos e meio. O nível de estresse e o impacto em seu sistema nervoso são tremendos.

A reação de cada criança é diferente. Algumas ficam muito agitadas ou têm problemas para dormir, se irritam, gritam; é fácil detectar esse sofrimento. Outras, por outro lado, se bloqueiam completamente. É como se seu sistema nervoso dissesse: “Não aguento mais”.

E a forma de se proteger é retraindo-se. A linguagem faz parte disso. Para essas crianças, é uma forma de não interagir com esse mundo que não deixa de fazê-las sofrer e de lhes infligir dor. Assim, não é uma escolha consciente, mas uma resposta neurológica ao estresse e ao trauma extremos.BBC News Mundo – É difícil para muitos compreender a magnitude do que viveram e vivem as crianças em Gaza. Você poderia nos dar uma ideia do trauma extremo que sofrem?

Brubakk – Não há nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada. Há mais de um milhão de crianças que sofreram traumas graves. Claro que há diferenças, mas elas tiveram que fugir, perderam suas casas, todas enfrentaram a impossibilidade de ir à escola porque as escolas estão bombardeadas.

Todas perderam alguém, como familiares, amigos da escola, professores, um vizinho. Muitas viram corpos mutilados e sentiram o cheiro do sangue derramado. Algumas crianças me contaram que ajudaram a recolher restos humanos ou partes de cérebro na rua. São traumas extremos.

E isso não ocorreu apenas uma vez, mas muitas vezes para a maioria.

Mas, além disso, elas perderam toda sensação de segurança. Para ter um bom desenvolvimento, as crianças precisam ter certa confiança no mundo: a crença de que o mundo pode ser bom, que as pessoas não querem fazer mal a você. Essa sensação de segurança desapareceu completamente devido à magnitude da destruição, que afeta absolutamente tudo em Gaza.

Nenhuma criança em Gaza pode deitar com a certeza de que vai acordar no dia seguinte. Não têm um quarto ao qual possam entrar, fechar a porta e saber que ninguém pode alcançá-las. Portanto, essa guerra não apenas causa trauma, mas afeta toda a sua visão de mundo.

BBC News Mundo – Você poderia nos contar sobre algumas das crianças que tratou em Gaza?

Brubakk – Gostaria de falar de Adam, um menino de 5 anos. Era uma criança muito vivaz, alegre, falante e ativa. Ele adorava estar ao ar livre e brincar. Após o início da guerra em 2023, a família foi forçada a fugir e a se mudar para uma tenda. Seus avós viviam um pouco mais longe, também em uma tenda.

Um dia, Adam e seu pai quiseram visitar os avós, em uma área que não tinha ordem de evacuação e que supostamente era segura. Mas, sem aviso prévio, um projétil atingiu muito perto deles e feriu gravemente Adam e seu pai. Eles foram levados às pressas ao hospital, mas, como costuma acontecer quando há esses ataques, há tantas vítimas que, se não há leitos livres, muitas pessoas são colocadas no chão.

Adam e seu pai estavam no piso da sala de emergência esperando ser avaliados quando o menino viu e ouviu seu pai, ao seu lado, exalando o último suspiro. Adam também ficou gravemente ferido: perdeu uma perna e a outra ficou lesionada.

Após presenciar a morte do pai, o menino deixou de falar. Às vezes conseguia sussurrar alguma palavra isolada à mãe, mas não queria falar com ninguém. Mal comia. Era uma criança em estado crítico.

BBCnews Mundo – Que sequelas esses traumas podem deixar no futuro?

Brubakk – Quando uma criança como Adam deixa de interagir e de falar, também deixa de se desenvolver. Uma criança de 5 anos deveria praticar suas habilidades linguísticas com outras crianças e adultos para aprender, praticar a resolução de problemas, aprender normas sociais por meio do jogo. Tudo isso é interrompido. A linguagem é um sinal, mas seu desenvolvimento é completamente interrompido.

O que observei repetidamente é que, se essa situação se prolonga, afeta fisicamente o cérebro dessas crianças. Sabemos que, em crianças que sofreram trauma grave, a amígdala, a parte do cérebro responsável por emoções intensas, aumenta de tamanho. Isso pode ser medido. É maior em crianças traumatizadas.

E o córtex pré-frontal, a parte do cérebro que se desenvolve mais tarde e que é responsável por funções como planejamento, resolução de problemas, interação social e regulação emocional, aspectos fundamentais da vida, encontra-se subdesenvolvido. É mais fino e tem menos conexões neuronais.

Se uma criança permanece em um estado como o de Adam, retraída, sem desenvolvimento nem linguagem, se é mantida nessa situação de estresse extremo por muito tempo, terá problemas mais adiante na vida. Nunca se recuperará.

O melhor exemplo que tenho é meu próprio irmão. Ele foi adotado em 1974, após a guerra do Vietnã. Cresceu como crescem agora as crianças de Gaza, com bombardeios constantes, muita incerteza e escassez de alimentos, o que também afeta o desenvolvimento cerebral.

Quando meu irmão chegou à minha família na Noruega, embora fosse um lugar seguro e tivesse acesso a todos os alimentos de que precisava, levou anos para deixar de esconder comida atrás de livros na estante, porque não se sentia seguro.

É o que chamamos de “lesões cognitivas da guerra”, invisíveis, que em muitos casos acompanharão essas crianças, possivelmente, por toda a vida.

BBC News Mundo – Como você tentou ajudar Adam?

Brubakk – Trabalhando em um contexto como o de Gaza, há muitas coisas que não podemos fazer. O que essas crianças realmente precisam é de um lugar seguro onde viver, uma rotina estruturada, poder voltar à escola, brincar sem medo. Mas, felizmente, há coisas que podemos fazer.

E o mais importante é que essas crianças saibam que, embora o mundo inteiro não seja um lugar seguro para elas neste momento, existem pequenos espaços seguros. Que há pessoas ao seu redor aqui e agora que as apoiarão. No início, Adam não queria falar conosco, mas continuávamos indo ao seu quarto todos os dias e conversávamos com sua mãe.

Conversávamos com ela sobre o marido que havia perdido, mas também sobre as boas lembranças, sobre os sonhos que tinha para o futuro, coisas que poderiam dar a Adam um pouco de esperança de que aquilo não era o fim, mas que tempos melhores viriam.

E um dia, quando eu estava lá, de repente Adam sussurrou para sua mãe: “Faça essa mulher ir embora, não gosto dela”.

Foi uma rejeição, mas eu fiquei muito, muito feliz, porque significava que Adam começava a interagir com o que acontecia ao seu redor. Alguns dias depois, ele olhou para mim, algo que não havia feito antes.

Foi apenas um instante, mas aproveitei a oportunidade e disse: “Uau, você tem olhos castanhos enormes! São lindos. Os meus são totalmente diferentes, são azuis. Você já viu?”. E isso despertou a curiosidade daquele menino de 5 anos.

Esse foi o início de como, pouco a pouco, conseguimos fazer com que ele confiasse nas pessoas, que falasse brevemente conosco, que voltasse a alguma normalidade, embora não de forma permanente, porque carrega todos esses traumas.

BBC News Mundo – Você falava com Adam em árabe ou por meio de um intérprete?

Brubakk – Em Gaza há muitas pessoas com muita educação. Com a mãe de Adam eu falava inglês, ela tem doutorado em Física. Para a criança havia um intérprete.

E devo acrescentar que, quando trabalho em projetos como este, lidero uma equipe de psicólogos e assistentes sociais locais. Eu contribuo com conhecimento, mas o trabalho principal, que continua depois, é realizado pela nossa equipe da MSF em campo.

BBC News Mundo – No hospital Nasser você também trabalhou com crianças com queimaduras graves.

Brubakk – Quando uma bomba explode, produz uma enorme onda de calor que afeta todos que estão por perto, e a faixa etária mais numerosa que atendíamos era a de crianças de 4 a 6 anos. Isso se deve simplesmente ao fato de que são grandes demais para que seus pais as carreguem quando já estão levando crianças menores, mas suas pernas ainda são curtas demais para correr rápido o suficiente. Isso mostra que nenhuma criança está segura em Gaza.

E as crianças têm plena consciência disso. O medo pela própria vida continua sendo uma realidade cotidiana para as crianças em Gaza.

BBC news Mundo – Como você consegue trabalhar com essas crianças em estado de grande sofrimento físico?

Brubakk – As queimaduras são extremamente dolorosas. São tão dolorosas que coisas tão simples como trocar os curativos precisam ser feitas sob anestesia. A recuperação é longa e, quando não há comida suficiente, demora ainda mais, o que significa que as crianças permanecem nesse sofrimento atroz por mais tempo.

Uma das meninas que chegou ao nosso departamento era Mona, de 6 anos. Tinha queimaduras em todo o corpo. Tinha tantos curativos que tudo o que podíamos ver eram seus olhos e suas narinas.

No início, tudo girava em torno da parte médica, porque era preciso garantir que sobrevivesse. Assim, só consegui conhecer Mona quando começaram a retirar alguns curativos e vi seu rosto com muitas cicatrizes.

BBC News Mundo – O que havia acontecido com Mona?

Brubakk – Sua família foi forçada a se deslocar e viveu inicialmente em uma tenda. Mas depois os bombardeios pareceram se deslocar para outra área e pensaram que era seguro voltar à sua casa destruída.

Apenas dois dias após retornarem à casa, uma bomba atingiu o apartamento. Dois de seus irmãos morreram instantaneamente, mas a explosão incendiou um botijão de gás, o que provocou um incêndio generalizado: as cortinas, o sofá, os colchões estavam em chamas, e as três meninas estavam nesse quarto.

O pai conseguiu milagrosamente tirar as três meninas do apartamento. Mona tinha queimaduras por todo o corpo; sua irmã mais velha, que estava na cama ao lado, também tinha queimaduras e sofria dor intensa. Sua irmã do meio estava em terapia intensiva porque inalou muito ar quente e também tinha queimaduras internas.

Assim, Mona não estava lidando apenas com sua própria dor, mas também estava preocupada se sua irmã sobreviveria.

A família de Mona a apoiava muito e ela começou a se recuperar. E o que realmente me impressiona são esses pais, não apenas os de Mona, mas de tantas crianças em Gaza, que presenciam como seus filhos sofrem, estão feridos, eles próprios estão traumatizados por todos os bombardeios, a morte, a destruição, e ainda assim têm a capacidade de oferecer a essas crianças um cuidado, calor humano e amor excepcionais para que possam se recuperar da melhor maneira possível.

BBC News Mundo – Como você conseguiu ajudar Mona?

Brubakk – Uma das coisas que faço quando trabalho com as crianças é brincar muito, porque a brincadeira é a linguagem das crianças. Por meio dela, aprendem habilidades práticas, aprendem a resolver problemas, a interagir socialmente, a expressar seus sentimentos.

E com Mona começamos com bolhas de sabão. Eu as chamo de “bolhas de esperança” porque literalmente geram esperança nessas crianças. E o que torna as bolhas de sabão tão fantásticas é que, antes de tudo, se você vê algumas bolhas flutuando no quarto, é impossível não olhar, porque chamam a atenção.

São bonitas. Acalmam. E, se tenho uma criança muito agitada, pergunto: “Você vê quantas cores há em uma única bolha?”. Porque, se olhar bem, estão todas as cores do arco-íris.

Isso ajuda a criança a passar daquele estado de estresse para algo mais tranquilo, mais suave, a mudar o foco. Porque o trauma funciona de tal maneira que você fica preso nesse estado.

Outra coisa mágica das bolhas de sabão é que, se você quer ter bolhas grandes, precisa soprar o mais devagar possível. Porque, se soprar rápido, só consegue bolhas pequenas ou nenhuma. Mas, se sopra devagar, consegue bolhas bonitas. E respirar lenta e profundamente acalma o sistema nervoso.

BBC News Mundo – Que efeito isso tem no cérebro das crianças?

Brubakk – O que faço é, basicamente, dar à amígdala, o sistema de alarme do cérebro, a possibilidade de se acalmar. Assim, o córtex pré-frontal, a parte do cérebro encarregada da resolução de problemas e da regulação, tem a oportunidade de se desenvolver melhor. Claro que não resolve o problema completamente, mas dá a essas crianças melhores possibilidades de reduzir os efeitos de longo prazo do dano cognitivo que podem sofrer por causa da guerra.

Um dia Mona disse: “Gostaria de uma casa de princesa”, e me explicou que se referia a uma casa de bonecas. Claro que isso não se encontra em Gaza, mas encontrei papelão, fita adesiva e algumas cores para pintar, e juntas construímos uma casa.

Mona queria que fosse de dois andares e a decorou muito bem. Ela e sua irmã estavam brincando com uma casa de bonecas quando a bomba caiu.

E, embora pareça algo simples, essa foi a primeira vez que Mona pôde me contar o que havia acontecido e o quanto estava preocupada com suas irmãs.

Somente por meio da brincadeira conseguiu encontrar as palavras para se expressar. Assim, o brincar pode ser uma forma de processar o trauma, de encontrar linguagem para as experiências vividas.

BBC News Mundo – Você poderia nos explicar o conceito que você usa com frequência de “sofrimento silencioso”?

Brubakk – Em um contexto como o de Gaza, tudo é um caos. Há muito barulho, crianças gritando com ataques de pânico, pais gritando preocupados com seus filhos, pessoas chorando de dor.

É fácil ignorar crianças que sofrem em silêncio, não porque as pessoas não se importem, mas porque há coisas demais que demandam atenção e muito poucos recursos para tudo o que precisa ser feito. Mas uma criança silenciosa que não expressa seu sofrimento, que não pede ajuda, também é uma criança que sofre e precisa de tanta atenção quanto aquelas que choram aos gritos.

Porque, caso contrário, no pior dos casos, podem permanecer nesse sofrimento silencioso por muito tempo. Eu vi casos extremos, não em Gaza, mas em Moria, o campo de refugiados na Grécia.

É uma síndrome chamada “síndrome de resignação”, na qual as crianças se bloqueiam completamente. Deixam de falar, de comer, sequer abrem os olhos, mal respondem quando você tenta tocá-las.

E, se não recebem ajuda, permanecerão nessa condição por anos. Por isso é crucial que crianças como Adam e Mona possam se reintegrar à vida.

BBC News Mundo – Você esteve em muitas zonas de conflito. Por que diz que Gaza não se compara a nada?

Brubakk – Trabalhei durante os últimos 12 anos no Congo, no Líbano, no Egito com refugiados traumatizados, em um barco de resgate no Mediterrâneo, na Turquia após um grande terremoto.

Mas o nível de trauma que vi em Gaza e o nível de destruição são simplesmente incomparáveis a qualquer outra coisa que eu tenha visto nesses 12 anos. Absolutamente todos em Gaza estão afetados.

E não há saída, não há nenhum lugar seguro para onde ir. Todo o território está em pedaços. E, além disso, o sistema de saúde foi atacado de forma sistemática, com hospitais bombardeados. [Israel justifica os ataques contra instalações médicas alegando que grupos armados como o Hamas utilizam hospitais com fins militares].

BBC News Mundo – Você espera voltar a Gaza? Israel restringiu o acesso de agências de ajuda.

Brubakk – No momento não me deixam entrar.

Temos 1,6 mil funcionários locais e estou certa de que estão fazendo um trabalho incrível, mas a equipe internacional não tem permissão para entrar desde 1º de janeiro. Espero realmente que isso mude. Se eu pudesse ir a Gaza, iria em um piscar de olhos; é o único lugar onde quero estar.

BBC News Mundo – As crianças de Gaza continuam sofrendo violência. Em 9 de abril, por exemplo, uma menina de 9 anos, Ritaj Rihan, morreu, segundo a ONU, quando forças israelenses dispararam contra a tenda que abrigava sua sala de aula improvisada. As outras crianças na classe foram testemunhas. O Exército israelense disse à BBC News Mundo sobre o incidente que “as Forças de Defesa de Israel (FDI) trabalham para desmantelar as capacidades militares do Hamas” e “respeitam o direito internacional e tomam precauções viáveis para mitigar danos à população civil”.

Brubakk – A única coisa correta e o que as crianças de Gaza precisam agora é que façamos todo o possível, dentro das nossas possibilidades, para lhes proporcionar uma paz verdadeira. Devolver-lhes a vida, dar-lhes a possibilidade de viver em lugares seguros, de ir à escola.

Essa é a única maneira de terem um futuro digno. E, seja você político, estudante ou o que for, eu diria: use sua voz para que a pressão seja suficiente e essa paz finalmente chegue a Gaza. Caso contrário, estaremos destruindo toda uma geração de crianças.

BBC News Mundo – O que a levou a dedicar sua vida a crianças que sofrem circunstâncias traumáticas?

Brubakk – Cresci ouvindo histórias de guerra durante toda a minha vida. Minha mãe é alemã, nasceu em 1942. Quando era criança e soavam os alarmes, a levavam para o porão e ela dormia sobre sacos de batatas. E contava que os soldados voltavam do front sem uma perna ou um braço.

Para ela era realmente importante tentar compreender como pôde acontecer um genocídio, como pudemos permitir isso. E repetidas vezes nos destacou, a nós, seus filhos, “nunca mais”, que algo assim jamais deveria voltar a acontecer.

E depois eu, claro, com meu irmão, vi de perto o trauma e o dano que a guerra causa a uma criança. Meu trabalho em Gaza é a minha versão de “nunca mais”. Nenhuma criança deveria experimentar esse trauma. Parte o meu coração.

Fonte: BBC Brasil

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