Moraes decide não prender Bolsonaro por descumprimento de cautelar

Ministro entendeu que a violação foi um ato “isolado”

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse nesta quinta-feira (24) não ter dúvida de que o ex-presidente Jair Bolsonaro violou a proibição de utilizar as redes sociais, mas que o episódio foi pontual e não seria o bastante para decretar a prisão preventiva.

Moraes apontou para publicação do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro na rede social Facebook, feita momentos depois de uma ida do ex-presidente ao Congresso, onde Bolsonaro mostrou a tornozeleira eletrônica que foi obrigado a usar e deu declarações à imprensa.

“Na presente hipótese, na veiculação pelas redes sociais de discurso proferido por JAIR MESSIAS BOLSONARO na Câmara do Deputado por seu filho, também investigado, momentos após o acontecimento, constata-se a tentativa de burlar a medida cautelar”, escreveu Moraes.

O ministro reiterou que “não há dúvidas de que houve descumprimento da medida cautelar imposta, uma vez que, as redes sociais do investigado EDUARDO NANTES BOLSONARO foram utilizadas à favor de JAIR MESSIAS BOLSONARO dentro do ilícito modus operandi já descrito”.
No entanto, Moraes afirmou que a violação foi “isolada”, sem notícias de outros descumprimentos. Ele também disse ter levado em consideração as explicações da defesa de Bolsonaro. Os advogados negaram qualquer intenção do ex-presidente de violar medidas cautelares e afirmou que ele “vem observando rigorosamente as regras de recolhimento impostas”.

Fonte: Agência Brasil

JBS deixou de pagar o equivalente a 68% do lucro em impostos federais desde 2024

Grupo recebeu mais de R$ 8,5 bi em isenções mesmo sendo a maior produtora de proteína animal do mundo

Nas manchetes deste 2025, dominam as tentativas do governo de elevar a arrecadação para evitar novos cortes orçamentários. Em paralelo, no mundo dos negócios, megaempresas acumulam isenções fiscais bilionárias. Sobretudo, as do agronegócio.

É o caso da JBS. Entre janeiro de 2024 e maio deste ano, a empresa deixou de pagar ao menos R$ 8,5 bilhões em tributos federais. Trata-se da soma dos benefícios concedidos a quatro dos CNPJs da maior produtora de proteína animal do mundo (JBS S/A, Seara Alimentos Ltda, Seara Comércio de Alimentos Ltda e JBS Aves Ltda).

Os dados estão disponíveis para consulta no painel lançado pela Receita Federal para facilitar o acesso a informações sobre os benefícios fiscais incluídos na Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi).

Em 2024, de acordo com informações divulgadas pela própria JBS à imprensa, o grupo registrou lucro líquido de R$ 9,6 bilhões. No primeiro semestre deste ano, impulsionado pelo bom desempenho da Seara, adquirida em 2013, por R$ 5,8 bilhões, o grupo anunciou lucro líquido de R$ 2,9 bilhões.

Isto é, praticamente no mesmo período, a multinacional lucrou R$ 12,5 bilhões, enquanto recebeu R$ 8,5 bilhões em benefícios fiscais. Quer dizer que a empresa deixou de pagar em tributos o equivalente a quase 70% do seu lucro: 68%, para ser mais exato.

Ranking de isenções – Grupo JBS
(Valor total: R$ 8.520.457.808,51)

  1. JBS S/A – CNPJ: 02.916.265/0001-60
    Valor: R$ 5.280.653.118,68
    É o CNPJ principal da JBS, com sede em São Paulo (SP), cujo nome fantasia é Friboi. A empresa do setor de suínos e aves foi adquirida pela JBS em 2013.
  2. Seara Alimentos Ltda – CNPJ: 02.914.460/0112-76
    Valor: R$ 2.471.329.159,64
    Trata-se do CNPJ principal da Seara, com sede no mesmo local do CNPJ da JBS.
  3. Seara Comércio de Alimentos Ltda – CNPJ: 83.044.016/0030-68
    Valor: R$ 522.567.421,71
    É um braço comercial da Seara com sede no mesmo endereço dos dois CNPJs anteriores.
  4. JBS Aves Ltda – CNPJ: 08.199.996/0001-18
    Valor: R$ 245.908.108,48
    Trata-se do CNPJ da marca Agrovêneto, especializada em carne de frango adquirida pela JBS por R$ 128 milhões, em 2012. A empresa tem sede em Nova Veneza (SC).

Para o engenheiro agrônomo e pesquisador Adalberto Floriano Greco Martins, os dados revelam a profundidade dos privilégios que cercam o setor.

“O caso da JBS é uma mamata sem tamanho”, afirma. “Uma única empresa ganhou mais de R$ 5 bilhões em isenção. Isso é quase o orçamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário. É mais do que o orçamento do Ministério do Meio Ambiente. É uma aberração.”

O pesquisador considera inaceitável que o discurso de modernidade e tecnologia do agronegócio conviva com essa dependência de recursos públicos. “Esses marajás do campo são sustentados com o nosso dinheiro. E o pior: a gente ainda compra a ideia de que o agro é pop, é tech, é tudo”, critica.

A maior parte das isenções concedidas à JBS entre janeiro de 2024 e abril de 2025 está relacionada à contribuição para o Cofins, que representa 76,3% do total dos R$ 8,5 bilhões em benefícios fiscais. Em seguida, aparecem o PIS/Pasep (16,5%) e a Contribuição Previdenciária (5,8%). Também há isenções menores sobre tributos como Cofins-Importação, IRPJ, CSLL e PIS/Pasep.

Setor de carnes entre os maiores beneficiados

De acordo com os dados da Receita Federal, o setor de carnes foi o segundo mais beneficiado com isenções tributárias desde 2024, com R$ 36,53 bilhões – atrás apenas do setor de adubos e fertilizantes, que deixou de pagar R$ 36,86 bilhões.

Os agrotóxicos (que constam como “defensivos agrícolas” no sistema) vêm logo atrás, com R$ 27,94 bilhões em isenções.

De acordo com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), englobando seus diversos segmentos, o agronegócio brasileiro recebe isenções de cerca de R$ 158 bilhões por ano. Segundo ele, o setor tem crescido no país, em parte, por ser “patrocinado pelo governo”.

“A renúncia fiscal do agro é R$ 158 bilhões. Vamos negar que estamos patrocinando o agro brasileiro? Estamos patrocinando o agro”, afirmou o ministro em audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.

Para o economista Róber Iturriet Avila, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a situação envolve uma contradição central.

“O agro costuma afirmar que não depende do Estado, que é competitivo e defensor do livre mercado. Mas é um dos setores mais beneficiados por isenções, créditos baratos e renegociações”, explicou.

“É um setor produtivo e relevante para as exportações, mas não necessita desses incentivos. Outros setores têm mais necessidade. Por isso, essas políticas deveriam ser extintas.”

“Estamos vivendo um bolsa agronegócio. Só de impostos federais, o agro como um todo deixou de pagar R$ 158 bilhões. É o mesmo valor do Bolsa Família, que atende 20 milhões de famílias. O agro atende uma parcela ínfima e concentrada da população”, apontou Adalberto Floriano Greco Martins, o Pardal, fazendo referência ao Bolsa Família, que, em 2025, custará R$ 158,6 bilhões.

A gigante e seus legados

Com presença em mais de 20 países e produtos comercializados em 180, a JBS é uma das maiores indústrias de alimentos do planeta. Só em 2024, a empresa faturou R$ 416 bilhões, cifra que supera o Produto Interno Bruto de 20 estados brasileiros.

A companhia lidera o setor de proteína animal no mundo, mas nas cidades onde mantém grandes plantas industriais, os indicadores sociais não acompanham o crescimento. Um estudo publicado em 2024 mostra que, entre 2013 e 2023, o número de famílias inscritas no Bolsa Família cresceu em quase todas as cidades com sede da JBS analisadas, incluindo Lins (SP) e Goiânia (GO).

A trajetória da JBS também é marcada por recorrentes denúncias de violações ambientais. Diversas investigações jornalísticas e ações do poder público apontam o envolvimento da empresa com a compra de gado oriundo de áreas desmatadas ilegalmente.

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, foi descrita por pecuaristas ouvidos pela Repórter Brasil, The Guardian e Unearthed como comum no setor. Em resposta, a JBS negou fazer vista grossa e afirma que “já bloqueou dezenas de milhares de fazendas” por violação de suas políticas. A empresa também lançou os chamados “Escritórios Verdes” e diz oferecer assistência técnica a produtores para adequação ambiental.

Mesmo entre fornecedores diretos, que supostamente estariam 100% regularizados, há brechas. Em outubro de 2024, o Ibama flagrou uma compra de gado feita diretamente de uma fazenda com desmatamento ilegal. A empresa negou ter adquirido animais de área embargada e afirma que suas compras estão de acordo com a legislação e com suas próprias políticas internas.

Além das questões ambientais, a empresa foi recentemente autuada pelo Ministério do Trabalho e Emprego por manter trabalhadores em situação análoga à escravidão em granjas fornecedoras no Rio Grande do Sul, com jornadas exaustivas de até 16 horas por dia. A empresa afirma ter tolerância zero com violações de direitos humanos e contesta a autuação.

Em 2023, cinco fornecedores de gado da JBS foram incluídos na “lista suja” do trabalho escravo. Em nota, a empresa informou que bloqueou imediatamente os fornecedores.

Críticas à tentativa da empresa de ingressar na Bolsa de Valores de Nova York também vêm ganhando força. Organizações como Global Witness, Greenpeace e Mighty Earth denunciam que a listagem ignora os riscos socioambientais da companhia e destacam o “papel desproporcional” da JBS no desmatamento da Amazônia.

Em nota, a empresa sustenta que adota padrões ambientais e que sua meta de eliminar o desmatamento da cadeia produtiva até 2025 segue de pé. Segundo a JBS, a meta climática nunca foi uma “promessa formal”, mas sim uma aspiração.

Apesar das polêmicas, a JBS segue ampliando sua presença global. A empresa afirma que está comprometida com a sustentabilidade e que trabalha para garantir uma cadeia produtiva “livre de irregularidades e socialmente responsável”.

Fonte: ICL

Brasil vai ingressar em ação contra Israel por genocídio em Gaza

Processo foi movido pela África do Sul na Corte da ONU

O Brasil irá ingressar formalmente em ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça contra Israel por genocídio na Faixa de Gaza. 

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informa nesta quarta-feira (23) que a decisão tem como base a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio e “o dever dos Estados de cumprir com suas obrigações de Direito Internacional e Direito Internacional Humanitário frente à plausibilidade de que os direitos dos palestinos de proteção contra atos de genocídio estejam sendo irreversivelmente prejudicados, conforme conclusão da Corte Internacional de Justiça, em medidas cautelares anunciadas em 2024″. 

A Convenção do Genocídio foi firmada pelos membros das Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial como forma de prevenir crimes contra a humanidade.

A África do Sul apresentou a ação na Corte, órgão judicial das Nações Unidas, em janeiro de 2024, em que acusa Israel de violar a convenção internacional, ter uma “conduta genocida” e promover “assassinato em massa de civis em Gaza”. 

Na sustentação oral, representantes do país africano justificaram que há uma tentativa de “destruição da vida palestina”, com uso de arsenal destrutivo, ataques de áreas consideradas seguras e campos de refugiados, impedimento de assistência humanitária, destruição de casas e infraestruturas. As autoridades israelenses negam as acusações. 

Para o governo brasileiro, na nota em que anunciou hoje os trâmites finais para adesão ao processo, a comunidade internacional não pode ficar inerte diante das violações que vêm ocorrendo em Gaza e na Cisjordânia.

“A comunidade internacional segue testemunhando, de forma rotineira, graves violações de Direitos Humanos e Humanitário: ataques à infraestrutura civil, inclusive a sítios religiosos, como à paróquia católica em Gaza, e às instalações das Nações Unidas, como à Organização Mundial da Saúde; violência indiscriminada e vandalismo por colonos extremistas na Cisjordânia, como o incêndio às ruínas da antiga Igreja de São Jorge e ao cemitério bizantino em Taybeh; massacres de civis, a maior parte dos quais mulheres e crianças, que se tornaram cotidianos durante a entrega de ajuda humanitária em Gaza; e a utilização despudorada da fome como arma de guerra”, afirma o comunicado. 

Outras violações apontadas pelo Brasil são dominação à força de territórios e ampliação de assentamentos ilegais. 

As forças israelenses mataram quase 60 mil palestinos em ataques aéreos, bombardeios e tiroteios desde que lançaram sua ofensiva contra Gaza em resposta aos ataques a Israel pelo grupo Hamas, que matou 1,2 mil pessoas e capturou 251 reféns em outubro de 2023.

Fonte: Agência Brasil

Mais de 100 ONGs denunciam que Israel usa “fome generalizada” para exterminar palestinos em Gaza

Entidades dizem que seus próprios funcionários enfrentam fome e que desnutrição vem matando em ritmo mais rápido desde o início do conflito no território palestino.

Mais de 100 organizações de ajuda humanitária e grupos de direitos humanos alertaram nesta quarta-feira (23/07) que a situação de “fome generalizada” se espalha cada vez mais na Faixa de Gaza e atinge também seus funcionários.

No comunicado, 111 entidades pedem por um cessar-fogo imediato, a abertura de todas as passagens terrestres e o livre fluxo de ajuda por meio dos mecanismos coordenados pela ONU.

“À medida que o cerco do governo israelense mata de fome a população de Gaza, os trabalhadores humanitários agora se juntam às mesmas filas para receber alimentos, arriscando-se a ser baleados apenas para alimentar suas famílias”, diz o texto.

“Com os suprimentos agora totalmente esgotados, as organizações humanitárias estão vendo seus próprios colegas e parceiros definharem diante de seus olhos.”

O texto assinado por organizações como Médicos Sem Fronteiras (MSF), Save the Children, Oxfam, Cáritas e Anistia Internacional ainda pressiona outros governos a “pararem de esperar permissão para agir”.

“Acordos fragmentados e gestos simbólicos […] servem como uma cortina de fumaça para a inércia. Eles não podem substituir as obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis palestinos. Os Estados podem e devem salvar vidas antes que não haja mais ninguém para salvar”, diz a carta.

Desnutrição em ritmo elevado

Apenas entre os dias 21 e 22 de julho, 15 pessoas morreram de fome em Gaza. Entre as vítimas estão um bebê de seis semanas e três crianças, segundo as entidades.

Com isso, a desnutrição passou a matar palestinos com mais rapidez do que em qualquer outro momento desde o início do conflito, de acpodo com autoridades de saúde palestinas. Pelo menos 101 pessoas morreram por este motivo nos últimos 21 meses. Deste total, 80 eram crianças, e 21 delas morreram por este motivo apenas nos últimos três dias.

“Não é apenas sofrimento físico, mas também psicológico. A sobrevivência é mostrada como uma miragem”, disseram as organizações. O chefe da agência da ONU para refugiados palestinos disse na terça-feira que seus funcionários, bem como médicos e trabalhadores humanitários, estavam desmaiando durante o trabalho em Gaza devido à fome e à exaustão.Mais de mil palestinos foram mortos em centros de distribuição de ajuda

Mais de mil palestinos foram mortos em centros de distribuição de ajuda© Ali Jadallah/Anadolu/picture alliance

Israel nega que exista fome em Gaza

Israel enfrenta pressão internacional crescente devido à situação humanitária catastrófica no território palestino, onde mais de dois milhões de pessoas enfrentam grave escassez de alimentos e outros itens essenciais após 21 meses de conflito.

O país controla todos os suprimentos de ajuda humanitária que chegam ao enclave devastado pela guerra, onde a maioria da população foi deslocada várias vezes e enfrenta uma grave escassez de produtos de primeira necessidade.

Até o momento, países como Reino Unido, Canadá e França já consideraram sancionar Israel pelos ataques em Gaza. A Alemanha e representantes da União Europeia também fizeram duras críticas à operação militar, mas não chegaram a ameaçar impor medidas.

O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nega estar bloqueando a entrada de suprimentos e afirma que há ajuda humanitária equivalente a 950 caminhões em Gaza aguardando que agências internacionais a recolha e distribua.

Segundo a ONU, forças israelenses mataram mais de mil palestinos que tentavam obter comida desde que a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), apoiada por EUA e Israel, iniciou suas operações no final de maio – na prática, substituindo o sistema tradicional liderado pela ONU.

Fonte: MSN

Movimentos que lutam por reforma agrária ocupam o Incra no centro de Maceió

Manifestantes de diversos movimentos do campo ocuparam na tarde desta terça-feira (22/07), a Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no centro de Maceió.

O grupo reivindica regularização fundiária e políticas públicas direcionadas ao avanço de ações em assentamentos. Segundo o MST, duas mil pessoas participaram da ocupação em Maceió. 

Os cerca de dois trabalhadores do campo montaram acampamento no domingo (20/07), na sede da Secretaria de Agricultura de Alagoas, localizada também no centro de Maceió. A ocupação marcou o início da Semana Camponesa e tem como principal objetivo cobrar do Governo do Estado o avanço concreto da Reforma Agrária em Alagoas.

Entre as principais pautas da mobilização está o cumprimento do acordo firmado em 2015, que prevê a destinação das terras das usinas falidas Laginha e Guaxuma para fins de assentamento. Além disso, os movimentos reivindicam políticas públicas estruturantes que fortaleçam a produção no campo, como mecanização agrícola, implantação de agroindústrias e garantia de comercialização dos alimentos produzidos pelas famílias assentadas.

A mobilização reúne diversos movimentos populares do campo, entre eles o MST, FNL, CPT, Terra Livre, MSL, MPL,MVT e MTL, organizações que constroem a luta por terra e dignidade em Alagoas. Pretendendo intensificar as ações ao longo da semana, até que sejamos recebidos e ter as demandas atendidas.

“Queremos que a Reforma Agrária seja vista como parte da solução para os graves problemas sociais da cidade, como a fome e o desemprego. Terra produtiva é terra com dignidade para o povo”, afirmou Marcos Marrom, dirigente da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL).

Redação com TNH1 e assessoria FNL.

MP-SP denuncia quatro PMs por execução de jovem rendido em Paraisópolis

Os policiais Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, da Rocam, já presos preventivamente, poderão responder por homicídio doloso duplamente qualificado contra Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos

Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) denunciou, nesta segunda-feira (21), quatro policiais militares (PM) pela morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, o jovem de 24 anos executado em uma operação no último dia 10 de julho na comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Imagens da câmera operacional corporal (COP) de um dos PMs mostraram que a vítima foi baleada quando já estava rendida.

Os policiais Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, ambos já presos preventivamente, poderão responder por homicídio doloso duplamente qualificado — por motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima —, caso a Justiça estadual aceite a denúncia do MP-SP.

Integrantes da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), o segundo batalhão mais letal do estado, eles foram os autores dos disparos que mataram Igor. Renato foi o primeiro atirar, com uma pistola Glock .40, mesmo após a vítima ter acatado a ordem para que levasse as mãos à cabeça, e Robson atirou em seguida, com uma espingarda calibre 12.

Também foram denunciados os policiais Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus, que, segundo o MP-SP, contribuíram para a execução do assassinato na medida que participaram da rendição da vítima. Eles ainda realizaram disparos de arma de fogo no mesmo cômodo em que ocorreu a morte.

“Os denunciados agiram impelidos por motivo torpe, deliberando matar o suspeito já rendido e subjugado em ato de desforra e de justiçamento, prevalecendo-se do poder estatal e com o uso indevido da força”, escrevem na denúncia os promotores de Justiça Estefano Kvastek Kummer, Enzo de Almeida Carrara Boncompagni e Marcelo Alexandre de Oliveira, à qual a Ponte teve acesso.

“Além disso, o homicídio foi cometido com emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima, haja vista que a vítima já estava rendida e subjugada pelos denunciados, com as mãos levantadas à cabeça, quando foi covardemente alvejada por disparos de arma de fogo”, acrescentam.

Câmera desmentiu versão de PMs

Na ocasião em que foi morto, Igor e outros três homens fugiam de uma abordagem policial e invadiram a casa de uma moradora da comunidade, que não estava no local naquele momento. Eles foram alcançados, ainda assim, pelos quatro policiais envolvidos no episódio, em um quarto da residência.

Um boletim de ocorrência registrado no 89º DP (Jardim Taboão) trouxe uma primeira versão dos policiais sobre o ocorrido. Segundo eles, os suspeitos não obedeceram à ordem para se entregar. Igor teria se levantado, portando uma arma na cintura. Ao ver que o jovem teria feito menção de atirar, Renato disparou, conforme relatou à Polícia Civil. Os demais teriam se deitado e jogado as armas sob a cama. Além do revólver atribuído a Igor, duas pistolas e drogas ilícitas foram apreendidas.

Robson reforçou a versão de que Igor resistiu à rendição e, ao avistar o revólver na cintura dele, “foi necessário efetuar disparos contra o indivíduo, para cessar a injusta agressão”. A delegada Maria Luiza Huff Ropsson determinou a prisão dos três homens que estavam com Igor e não contestou a versão dos PMs. Em sua justificativa, afirmou que as declarações dos policiais têm “presunção de veracidade até prova em contrário”. Dois dos presos não tinham antecedentes criminais.

As imagens da COP utilizada por Renato, no entanto, desmentiram essa versão. Elas mostram os policiais caminhando pelos cômodos da casa até chegarem ao quarto onde Igor foi morto. Assim que a porta do quarto é aberta, é possível ouvir os primeiros disparos, com os quatro homens no quarto já rendidos. Em seguida, um dos agentes ordena: “deite, deite” e entra no cômodo. Logo depois, um PM dispara novamente e, ao sair do quarto, repete em voz alta: “as COPs, as COPs”. Mais um disparo é ouvido.

Ao analisar as imagens, a própria PM-SP realizou a prisão em flagrante dos agentes. A hipótese de legítima defesa foi descartada, já que Igor estava rendido e desarmado. “As imagens registradas com o advento das câmeras não evidenciam qualquer excludente de ilicitude, pois em nenhum momento o civil Igor demonstrou resistência ativa ou passiva à ação dos policiais, tampouco qualquer ameaça concreta à integridade física destes”, escreveu o 1º tenente João Paulo Ferreira Cabreira no auto de prisão.

Os dois policiais presos foram encaminhados ao Presídio Militar Romão Gomes e permaneceram em silêncio durante o interrogatório da autoridade judiciária militar. A investigação foi remetida depois à Justiça Comum por decisão do juiz Luiz Alberto Moro Cavalcante, com base em entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de que a Justiça Militar não pode deliberar, nem em fase de inquérito, sobre a ocorrência de eventuais excludentes de ilicitude. A decisão foi publicada no dia 11.

PM-SP divulgou, erroneamente, que local da execução era casa-bomba

Naquele mesmo dia, a Ponte conversou com a moradora do imóvel onde Igor foi executado, localizado em uma viela próxima à Rua Rudolf Lotze. Inicialmente, a PM-SP divulgou que o local seria uma “casa-bomba”, termo usado para designar entrepostos do tráfico, mas voltou atrás.

A moradora estava no trabalho quando passou a receber ligações de parentes avisando que a imprensa dizia que a casa dela era usada pelo tráfico, com base apenas na versão da PM. “Cheguei e perguntei o que estava acontecendo, e [os policiais] foram muito arrogantes comigo, falaram que eu tinha aberto a porta para eles [os homens perseguidos pela PM] entrarem”, disse. “Meu quarto está cheio de tiro e de sangue. O dinheiro do aluguel, que deixei perto da Bíblia, levaram. Não consegui dormir até agora.”

A morte de Igor gerou protestos na comunidade de Paraisópolis, com barricadas de fogo, saques e confrontos durante a noite. Segundo a PM, houve troca de tiros. Bruno Leite, de 29 anos, foi baleado e morreu. Moradores afirmam que ele estava ferido no chão e a PM impediu que fosse socorrido.

O que dizem os denunciados

A Ponte ainda tenta contato com as defesas dos denunciados. Se houver retorno, a reportagem será atualizada. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.

Fonte: ICL

Pastor e comunidade são condenados por escravizar dependentes químicos

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

“Durante o dia, eu trabalhava de pedreiro. Durante à noite, cheguei a tomar conta de 28 pessoas, como monitor.” Foi assim que Sérgio* descreveu aos auditores fiscais do trabalho parte da sua rotina diária de 12 horas de trabalho, sem folgas, na CT (Comunidade Terapêutica) Tenda do Encontro, em Juiz de Fora (MG).

Ele cumpria essa jornada mesmo sendo considerado incapaz para trabalhar: Sergio tem transtornos mentais decorrentes do uso abusivo de drogas, como alucinações, segundo um laudo da Previdência Social acessado pela Repórter Brasil.

Em outubro de 2023, ele e outros cinco homens com dependência química foram resgatados do local em condições de trabalho análogas à escravidão, segundo o entendimento dos fiscais do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

Um ano depois, em outubro de 2024, a CT Tenda do Encontro foi incluída na chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, cadastro do governo federal com nomes de pessoas e empresas responsabilizadas administrativamente por submeter trabalhadores ao trabalho escravo.

O juiz Luiz Olympio Brandão Vidal, da 4ª Vara do Trabalho de Juiz de Fora, condenou a entidade e o pastor Vander Campos a pagarem os encargos trabalhistas de cada resgatado, além de indenizações morais individuais no valor de R$ 10 mil cada e indenização por danos morais coletivos, revertidos ao Fundo de Direitos Difusos, no valor de R$ 50 mil. A condenação ocorreu em maio, mas a imprensa teve acesso agora. Cabe recurso à decisão.

A Repórter Brasil procurou o escritório de advocacia Flávio Nunes, que consta como representante da CT e do pastor Campos, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto a manifestações.

Embora chame a atenção, o caso da Tenda do Encontro não é isolado. Entidades privadas reconhecidas pelo Estado brasileiro como espaços de acolhimento e de convivência entre pares, as comunidades terapêuticas são apontadas como locais de violações sistemáticas aos direitos humanos, revelou um levantamento realizado pelo MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) e pelo grupo Psicologia e Ladinidades da UnB (Universidade de Brasília), divulgado em março deste ano. A exploração do trabalho dos acolhidos é uma das irregularidades recorrentes (leia mais abaixo).

Apesar da inclusão na Lista Suja em 2024, no último 25 de junho a Tenda do Encontro foi credenciada pelo MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome) para receber recursos federais “para prestar serviços de acolhimento voluntário a pessoas que fazem uso abusivo de drogas”, de acordo com o Diário Oficial da União.

Em 7 de julho, a pasta decidiu descredenciar a entidade após ter sido questionada pelo MNPCT. À Repórter Brasil, o MDS disse que a CT tinha sido habilitada ainda em 2023, antes da publicação da Lista Suja, e que tomou a atitude depois que teve conhecimento da situação (leia a nota na íntegra aqui).

Internos trabalhavam sem EPIs e comiam alimentos vencidos

As irregularidades trabalhistas na entidade já haviam sido identificadas pelo Departamento de Vigilância Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde de Juiz de Fora, que visitou o local em julho de 2023.

No momento da inspeção do MTE, três meses depois, foram lavrados 20 autos de infração, que iam das precárias condições físicas do local à falta de registro dos trabalhadores e ausência de medidas de segurança.

As vítimas realizavam obras de construção de parte da sede da CT sem equipamentos de proteção individual e usando chinelos. Os quartos onde dormiam tinham beliches encardidos e ficavam no andar superior, com acesso sob risco de queda.

Os alimentos fornecidos, como feijão e maionese, estavam vencidos, e o preparo era feito em um fogão à lenha, em uma panela de pressão avariada, sob risco de explodir. Sergio contou aos auditores que, muitas vezes, ele ou outros internos usavam seus auxílios recebidos pelo governo para comprar comida.

Não havia saneamento básico no local, e a água usada para beber, cozinhar e fazer a higiene pessoal vinha de uma mina e era armazenada em uma cisterna sem tampa e sem comprovação de potabilidade. A fiscalização constatou também que não havia prontuários nem equipe multidisciplinar para atender e supervisionar os internos.

Laborterapia ou trabalho escravo?

As comunidades terapêuticas fundamentam a exploração do trabalho dos acolhidos na laborterapia, ou seja, a utilização do trabalho como terapia. Especialistas explicam que essa prática, originada no século 18, adota a perspectiva de que o interno recuperaria a racionalidade por meio do trabalho.

Para os críticos, ela serve como forma de disciplinar a loucura em espaços de exclusão, como hospitais psiquiátricos e manicômios. “A lógica da laborterapia é o controle dos corpos: cansar o corpo, ocupar a mente do paciente, ocupar todo o tempo do paciente para que ele fique controlado”, explica Ana Flávia Dias Tanaka, doutora e mestra em psicologia e supervisora do Departamento da Fiscalização do Crefito (Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo).

“Se a gente for analisar criticamente o que acontecia nos hospícios e o que acontece na comunidade terapêutica, é uma substituição de mão de obra. Isso não é terapêutico”, critica ela, que também costuma participar de inspeções em CTs. A pesquisadora sustenta que essa perspectiva é muito diferente da terapia ocupacional, que acaba sendo confundida com a laborterapia. No primeiro caso, as atividades são pensadas de acordo com as necessidades e vontades de cada paciente, para que ele tenha autonomia para retomar sua vida e o convívio social.

Além disso, é uma escolha do paciente optar por fazer ou não a terapia ocupacional. “Se a pessoa tem uma história de trabalho na agricultura, ela pode, sim, participar de uma atividade na horta, de plantio, até de agricultura, mas não com esse viés de cumprimento de horário, de responsabilidade”, exemplifica Tanaka.

“Se é terapêutica ou não vai depender do quanto aquela atividade é significativa para aquela pessoa. E fundamentalmente quem diz isso é ela própria. Agora, a pessoa simplesmente ficar fazendo atividades o dia todo como uma obrigação, como acontece na comunidade terapêutica, não é terapia”, diz.

No caso da CT Tenda do Encontro, a justificativa de laborterapia sequer existia. O pastor Vander Ribeiro Campos, dono da entidade, havia elaborado termos de adesão de trabalho voluntário, que foram assinados por quatro dos seis dependentes químicos resgatados do trabalho análogo à escravidão.

Nos documentos a que a Repórter Brasil teve acesso, não há indicação da função e do período, apenas de que se tratavam de “atividades operativas e lúdicas”, expressão que as próprias vítimas não sabiam responder o que significava. O termo também vinculava o trabalho voluntário à estadia no local.

O advogado e professor de direito Rodrigo Goulart Aguiar explica que o trabalho voluntário não pode ser realizado de qualquer maneira. Segundo ele, é necessário que o local garanta condições de trabalho, saúde e higiene mínimas para a realização de qualquer atividade. Além disso, diz, a voluntariedade de fato de pessoas com dependência química em situação de vulnerabilidade é questionável.

“A legislação não permite que eu troque a minha força de trabalho tão somente por ter um teto e comida”, aponta Aguiar. “O que isso significa, na verdade? Que eu mantenho aquela pessoa viva simplesmente para que ela trabalhe para mim. Isso não gera uma condição de dignidade, muito pelo contrário, revela uma exploração.”

Comunidades terapêuticas têm histórico de violações de direitos humanos

Em 2025, o orçamento do MDS previsto para ser destinado às comunidades terapêuticas no âmbito do Programa Cuidado e Acolhimento de Usuários Dependentes de Álcool e Outras Drogas é de R$ 169,4 milhões.

O programa foi instituído em 2011 e fazia parte da Secretaria Nacional de Política sobre Drogas, vinculado ao Ministério da Justiça, quando o governo de Dilma Rousseff incorporou essas entidades nesse tipo de atendimento. A partir da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2019, as CTs começaram a ser priorizadas nos repasses de verbas federais por meio do Ministério da Cidadania (hoje, de Desenvolvimento Social), política que foi mantida no atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Especialistas entrevistados pela reportagem acreditam que os recursos deveriam ser redirecionados aos equipamentos do poder público voltados para esse tipo de atendimento, como a Raps (Rede de Atenção Psicossocial), do SUS, da qual os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) fazem parte.

“O Ministério [MDS] está privilegiando uma política privada com entidades que, segundo o próprio Estado, apresentam irregularidades não ocasionais ou isoladas, mas sistemáticas”, critica Carolina Barros Lemos, perita do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, órgão federal autônomo cuja atribuição é realizar inspeções em instituições de privação de liberdade.

De acordo com o estudo do MNPCT e da UnB divulgado em março deste ano, foram constatadas violações de direitos humanos nas 205 comunidades terapêuticas incluídas no escopo da pesquisa e que passaram por inspeções do órgão. Condições precárias dos espaços, submissão a trabalho forçado, privação de liberdade e agressões são alguns dos graves problemas encontrados.

Apesar de a Resolução 29/2011, da Anvisa, permitir espaços para oficinas de trabalho e atividades laborais dentro das comunidades terapêuticas, o texto não explica como essas funções devem ser realizadas. “A realidade que a gente encontra nas inspeções, em geral, é de comunidades terapêuticas que não têm funcionários, não têm trabalhadores formalizados, porque toda a operação ali é mantida com o próprio trabalho dos acolhidos”, explica Lemos.

“O que na prática acontece é que essas pessoas são submetidas a virar uma mão de obra barata, sem qualquer garantia de direito”, complementa o psicólogo Lucio Costa, diretor-executivo do Desinstitute, organização de defesa dos direitos humanos e do cuidado em liberdade no campo da saúde mental. Ele também já foi perito do MNPCT e fez inspeções que identificaram irregularidades em 28 comunidades terapêuticas em 2017.

Fonte: DCM

Brasil confronta tarifas de Trump na OMC e alerta para risco de guerra comercial

Itamaraty denuncia uso político de tarifas comerciais por parte do governo dos Estados Unidos e recebe apoio do Brics e da UE

O governo brasileiro aproveitou uma das sessões mais importantes da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada nesta quarta-feira (23), para criticar abertamente o uso de tarifas comerciais por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Sem citar diretamente o nome do mandatário estadunidense, o Itamaraty classificou as medidas como interferências inaceitáveis em assuntos internos de outros países — o que gerou o apoio de membros do Brics como Rússia e China, e provocou resposta imediata da diplomacia dos EUA. As informações são da coluna do jornalista Jamil Chade, do UOL.

A crítica brasileira é motivada pelas recentes tarifas de 50% impostas por Trump contra produtos brasileiros, supostamente relacionadas à situação legal de Jair Bolsonaro (PL) réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento em uma suposta tentativa de golpe de Estado. A prática, no entanto, não estaria restrita ao Brasil, tendo sido adotada também contra países como Colômbia, México, Canadá e a própria Rússia. Para o Itamaraty, esse tipo de política constitui uma ameaça ao sistema de comércio multilateral.Play Video

Durante reunião fechada em Genebra, o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, destacou com veemência os riscos desse cenário. “As negociações baseadas em jogos de poder são um atalho perigoso para a instabilidade e a guerra”, advertiu, de acordo com a reportagem. Segundo o diplomata, “infelizmente estamos testemunhando um ataque sem precedentes ao Sistema de Comércio Multilateral e à credibilidade da OMC”.

Sem mencionar Trump nominalmente, Gough afirmou que “tarifas arbitrárias, anunciadas e implementadas de forma caótica, estão desestruturando as cadeias globais de valor e correm o risco de lançar a economia mundial em uma espiral de preços altos e estagnação”. Para o governo brasileiro, as tarifas violam princípios fundamentais da OMC, especialmente os relativos à não discriminação e ao tratamento de nação mais favorecida. “Elas perturbam o equilíbrio das condições de acesso ao mercado negociadas nas estruturas do GATT e da OMC por várias décadas”, apontou o embaixador.

O ponto mais grave, segundo Gough, é o uso das tarifas como mecanismo de coerção política. “Estamos testemunhando agora uma mudança extremamente perigosa em direção ao uso de tarifas como uma ferramenta na tentativa de interferir nos assuntos internos de terceiros países.”

O diplomata reafirmou os princípios constitucionais da política externa brasileira.

“Como uma democracia estável, o Brasil tem firmemente enraizados em nossa sociedade princípios como o Estado de Direito, a separação de poderes, o respeito às normas internacionais e a crença na solução pacífica de controvérsias.”

Gough sinalizou que o Brasil seguirá buscando soluções diplomáticas, mas está preparado para acionar o mecanismo de resolução de disputas da OMC, hoje parcialmente paralisado.

“Continuaremos a priorizar soluções negociadas. Se as negociações fracassarem, recorreremos a todos os meios legais disponíveis para defender nossa economia e nosso povo”, garantiu.

Além disso, o Brasil voltou a defender a necessidade de revitalização do papel da OMC como árbitro imparcial nas disputas comerciais. “É essencial que a OMC recupere seu papel como um local onde todos os países possam resolver disputas e afirmar interesses legítimos por meio do diálogo e da negociação”, declarou Gough.

O embaixador também citou artigo recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual o chefe de Estado conclama pela retomada do multilateralismo como resposta aos desafios globais. “Há uma necessidade urgente de retomar a diplomacia e reconstruir as bases do verdadeiro multilateralismo — um multilateralismo capaz de responder ao clamor de uma humanidade que teme por seu futuro”, escreveu Lula, segundo Gough.

Num chamado à mobilização global, o representante brasileiro fez um apelo às principais potências e aos países em desenvolvimento. “As maiores economias, que mais se beneficiaram do sistema comercial, devem dar o exemplo e tomar medidas firmes contra a proliferação de medidas comerciais unilaterais. As economias em desenvolvimento, que são as mais vulneráveis a atos de coerção comercial, devem se unir em defesa do sistema de comércio multilateral baseado em regras”, destacou o diplomata.

Ainda de acordo com a reportagem, a delegação dos Estados Unidos reagiu às declarações brasileiras sem entrar em detalhes sobre o uso político das tarifas. Representantes da Casa Branca afirmaram que o governo Trump está preocupado com um “campo de jogo desigual” que prejudicaria os trabalhadores americanos e que as ações adotadas buscam restaurar o equilíbrio comercial.

Ainda segundo a diplomacia estadunidense, outros países estariam se afastando das normas da OMC, o que justificaria a postura mais agressiva dos EUA. A Casa Branca também agradeceu aos parceiros que estão “se engajando bilateralmente” com os Estados Unidos para “reverter essa situação”.

Fonte: Brasil 247

Democracia corre risco como no período nazista, diz Lula

Presidente avaliou encontro com chefes de Estado no Chile

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou a onda recente de extremismo na política com o período de ascensão do Partido Nazista na Alemanha, na década de 1930 do século passado.

A declaração foi dada a jornalistas, na tarde desta segunda-feira (21), em Santiago, no Chile, onde Lula participou da reunião de alto nível sobre a defesa da democracia, organizada pelo presidente chileno Gabriel Boric.  

“Por que que nós estamos fazendo esse movimento? Porque a democracia corre risco com o extremismo como ocorreu na fundação do Partido Nazista, com a questão da ascensão do [Adolf] Hitler. O que nós queremos é democracia, não importa que seja de direita, que seja de esquerda, que seja de centro. O que nós queremos é o exercício da democracia, com tolerância, com respeito à diversidade, com respeito ao pensamento ideológico, com respeito à cultura de cada país, a cada religião. É isso que eu quero para o Brasil”, disse Lula.

Também participaram do evento Democracia Sempre os líderes da Colômbia, Gustavo Petro; da Espanha, Pedro Sánchez; e do Uruguai, Yamandú Orsi. Na sequência da reunião reservada entre os líderes, eles se encontraram com representantes da sociedade civil, do meio acadêmico e de grupos de reflexão sobre políticas públicas.

As discussões envolvem três temas: defesa da democracia e do multilateralismo; combate às desigualdades; e tecnologias digitais e o enfrentamento à desinformação.

Para Lula, é preciso ações concretas e urgentes diante do agravamento da ofensiva antidemocrática no mundo.

Após o encontro entre os presidentes, eles divulgaram uma declaração conjunta com compromissos e consensos em defesa da democracia .

O documento, publicado pelo Palácio Itamaraty, destaca ações prioritárias e premissas que consideram essenciais, como:

  • A promoção de um multilateralismo inclusivo e participativo
  • A reforma do sistema de governança global
  • O fortalecimento de uma diplomacia democrática ativa, baseada na cooperação entre Estados que compartilham os valores da democracia, da justiça social, dos direitos humanos e da soberania
  • Reafirmar o compromisso com a paz, o respeito ao direito internacional e a direitos humanitários

Escalada de tensões

O encontro no Chile já estava marcado há algum tempo, mas acontece no momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endurece os ataques tarifários contra diversos países, entre eles o Brasil.

Sobre isso, ainda na conversa com jornalistas, Lula enfatizou que, até o momento, não há uma guerra tarifária aberta com os Estados Unidos, porque o Brasil não reagiu à imposição de tarifas recíprocas.

“Nós não estamos numa guerra tarifária. Guerra tarifária vai começar na hora que eu der a resposta ao Trump, se [ele] não mudar de opinião. Porque as condições que o Trump impôs não foram condições adequadas”, afirmou.

O presidente brasileiro demonstrou otimismo com uma solução negociada para o impasse e voltou a destacar a necessidade dos empresários se envolverem em uma pressão conjunta.  

“Eu estou com uma certa tranquilidade. Primeiro porque eu tenho o Ministério do Exterior trabalhando isso. Eu tenho uma pessoa da qualidade do Alckmin trabalhando isso. E os empresários têm que entender que antes dos governos tentarem resolver, os empresários brasileiros precisam conversar com os seus contrapartes nos Estados Unidos, porque quem vai sofrer com isso são os próprios empresários”.

Histórico

O evento no Chile ocorre em seguimento à primeira reunião de alto nível Em Defesa da Democracia: Lutando contra o Extremismo, realizada em setembro de 2024, à margem da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O evento foi convocado pelo presidente Lula e pelo espanhol Pedro Sánchez.

Como próximo marco da iniciativa, está prevista a realização de reunião no contexto da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro próximo, em Nova York. Na ocasião, também devem participar os líderes de México, Inglaterra, Canadá, Honduras, Austrália, África do Sul e Dinamarca.

Fonte: Revista Fórum

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MAIS LIDAS