Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
Neste século XXI, que representa os primórdios do Terceiro Milênio, deve ser proposto um amplo debate que nos remeta a uma reflexão crítica da maior importância, que é a questão socioambiental. Trata-se de um diálogo universal urgente, fundamental e necessário. Temos que entender qual o melhor caminho para estabelecermos qual o nexo causal das ações e omissões existentes entre o homem e a natureza. O desenvolvimento humano deve ocorrer considerando sempre como uma prioridade máxima, a proteção ecológica nos mais diversos âmbitos a respeito da nossa relação com o planeta.
A preservação e cuidados com a “nossa casa comum”, como bem definiu o Papa Francisco na sua Encíclica “Laudato Si” (Louvado Sejas), inspirada no “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis, Santo protetor do meio-ambiente e dos animais, deve ser não apenas a visão da conservação ambiental, mas, sobretudo, da conexão temporal desta necessidade com a própria existência humana. A proposta de Francisco neste documento pontifício foi a de mostrar que somos apenas parte da natureza e não os proprietários dela. Esta carta papal procura despertar uma consciência crítica em relação a esta questão tão sensível, levando a compreensão e empatia pela preservação do verde, que queremos ver cada vez mais verde, tranformando-a em um libelo que denuncia a destruição da natureza e a importância do surgimento de um modelo de desenvolvimento autossustentável, que valorize, sobretudo, a biodiversidade na sociedade em geral.
O mundo está vivendo uma grande crise de contradição civilizatória, com a ascensão de uma extrema direita que representa o que existe de mais retrógrado na humanidade. De tempos em tempos, surge uma geração que é fruto dos próprios antagonismos existenciais, fenômeno advindo dos conflitos vividos e sentidos pelo planeta em confronto com suas próprias idiossincrasias. Estamos falando de uma geração resultante de crises econômicas, sociais e morais, que questionam, em última instância, qual o sentido da vida. Trata-se de uma crise que tem raízes nos mais longínquos dilemas de natureza filosofica, do tipo “de onde viemos, quem somos e para onde vamos”.
Os primeiros sinais desta crise de proporção humanitária ocorreram na década de 90, com a queda do Muro de Berlim, o colapso da União Soviética e a desintegração do bloco de países socialistas, sobretudo no leste europeu, que praticamente dizimou o mapa deste continente, encerrando, desta forma, o mundo bipolar surgido do conceito da Guerra Fria, emergido dos extertores e escombros da Segunda Guerra Mundial. Neste primeiro quarto de século deste novo milênio, estamos assistindo a pulverização contínua do império americano, que cada vez mais perde aliados em todos os blocos geopolíticos do mundo, numa agudização da crise do capitalismo de tendência neoliberal.
Este é o cenário perfeito para a escalada do protofascismo. Com a crise do socialismo clássico marxista e leninista e do capitalismo histórico proposto por Locke, Adam Smith e David Ricardo, começam a vingar as ideias extremistas que representam o “Ovo da Serpente”, como as propostas pelos ideólogos do nazifascismo do quilate do pensador fascista italiano Giovanni Gentile ou do “teórico do Terceiro Reich” alemão Carl Smith. É neste contexto que temos que começar a formular novos conceitos que atuem como modelos de contestação a uma ideologia totalitária como alternativa para uma nova ordem política, econômica e militar internacional.
O neofascismo está aí, batendo na porta do mundo e, particularmente, do Brasil também. Existe uma frase metafórica do dramaturgo Bertold Brecth, da qual, confesso ter certa resistência, pelo fato de ser um defensor dos animais, mas cuja analogia ficou famosa para descrever que o fascismo não é um fenômeno historicamente superado, mas que ele representa uma constante ameaça de ressurgimento a qualquer momento de crise existencial universal. A frase de Brecth a que me refiro é na qual ele sentencia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, indicando que o surgimento de regies totalitários são sempre uma possibilidade, sobretudo em sociedades com graves limitações cognitivas e alienadas mental e politicamente, como é o caso de expressiva parcela do nosso povo.
As propostas da extrema direita sempre serão de um modelo capitalista muito próximo do anarcocapitalismo libertarista, que defende uma pseuda maximização do individualismo libertário, com o fortalecimento da ideia de um Estado reduzido ao mínimo possível. Neste modelo econômico certamente teremos um agravamento inerente de um capitalismo predador, incompatível com o desenvolvimento autossustentável de respeito às pautas de defesa do meio ambiente e contra a degradação ecológica, na qual já estamos ultrapassando o ponto de retorno de segurança biopolitica Mundial.
Pelo exposto, resta claro a necessidade de pensarmos um novo modelo de desenvolvimento para para a nossa “casa comum”, como pleiteava o Papa Francisco na sua mais famosa epístola pontifícia. Não temos como fugir, ao meu ver, de políticas desenvolvimentistas, entretanto, observando com muita acuidade a sustentabilidade para a preservação da natureza que mantém o planeta respirando. A minha visão do mundo é naturalmente anticapitalista, posto que entendo ser impossível obtemos neste modelo socioeconômico, condições de igualdade e oportunidades iguais para todos, pois a sua essência já está explicitada na sua denominação: o capital. O radical e o sufixo que defendo estão presentes na palavra social, base do socialismo.
Dito isto, entendo que o lucro não pode, em hipótese alguma, sobrepor a vida. Como sabemos, as margens de lucratividade é a mola mestre e o princípio fundamental que rege o capitalismo, desde que este modelo surgiu, primeiramente na idade média, com o feudalismo (do século V ao século XV), passando pelo mercantilismo ou capitalismo comercial (do século X V ao século XVIII) e pelo capitalismo indústrial e tecnológico, iniciados com a revolução industrial em 1760, até chegarmos ao atual capitalismo financeiro, aprofundando em muito e cada vez mais a inconcebível lógica, pelo menos para mim, da acumulação capitalista, quando atingimos o ápice da concentração de riquezas e, consequentemente, do aumento da pobreza em crescimento de escala geométrica e não mais aritmética.
O lucro e o crescimento desordenado do mercado, sem ao menos regras de regulações estatais mais rigorosas, são as causas fundamentais para a degradação ambiental e para o aprofundamento das desigualdades sociais. Entendo que o socialismo, mesmo com possíveis distorções, ainda é o modelo mais compatível com a democracia inventada na Grécia antiga. O ecossocialismo deve propor um modelo de gestão coletiva, em substituição à lógica do mercado excludente. O socialismo verde, baseado em uma economia social comunitária, pode até admitir a existência e atuação do livre mercado, porém. com um mínimo de planejamento preservasionista, devendo focar, sobretudo, nas necessidades humanas e de sustentabilidade.










