Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
Surpresa zero em relação ao áudio do Senador Flávio Bolsonaro pedindo a “bagatela” de R$ 134 milhões ao maior estelionatário da história brasileira, o “banqueiro” e CEO do Banco Master Daniel Vorcari, preso por inúmeros crimes que causaram um imenso prejuízo a economia popular brasileira. Estamos falando de, no mínimo, R$ 12 bilhões saqueados de pequenos investidores e poupadores, sem esquecermos dos contribuintes do INSS. A publicação do vídeo no qual o Flavinho do Master pede com imensa facilidade e sem desfaçatez milhões de reais é de irrefutável contestação e revela, de forma inequívoca e irreversível, as relações promíscuas entre a família Bolsonaro e o que existe de mais podre no mundo da criminalidade no Brasil.
A celebre frase de Willian Shakespeare no primeiro ato da sua famosa peça Hamlet, na qual afirma que ” há algo de podre no reino a Dinamarca”, expressa resumidamente o contexto da existência de um Estado corrupto, com forte desvio de conduta moral e dominado pelo tráfico de influência. A frase transformou-se, ao longo do tempo, em um provérbio que traduz um sentimento de desconfiança em relação a idoneidade, a ética e a seriedade do poder de Estado, sobretudo referente à corrupção institucional e a crise moral dos governantes. Quando se fala do poder do Estado, estamos nos referindo a todos os poderes constituídos da república: executivo, legislativo e judiciário.
Este episódio envolvendo o filho escolhido por Jair Bolsonaro para representar a família nesta eleição, Flávio Bolsonaro, que está no epicentro de um dos maiores escândalos políticos da história brasileira, não representa nenhuma surpresa para mim. Como militei e fiz política por muitos anos no Rio de Janeiro e fui até candidato a prefeitura na capital do estado, não poderia, em hipótese alguma, desconhecer a natureza e vocação criminosa dos membros desta família.
O envolvimento de Flávio Bolsonaro com o maior estelionatário da república em todos os tempos, o criminoso Daniel Vorcaro, aquele que se dizia banqueiro, sempre foi algo esperado e eu diria que até um desfecho óbvio. As desculpas esfarrapadas de Flávio Bolsonaro, na tentativa de desmentir e se desvincular do bandido do Banco Master, serviram muito mais para complicar e confirmar cada vez mais a vida do candidato a presidente do PL, revelando suas depravadas e despudoradas relações, que ultrapassaram até mesmo suas confirmadíssimas ligações com as milícias cariocas, particularmente com o “Escritório do Crime “, integrada por milicianos de Rio das Pedras e que atua majoritariamente na maior comunidade da cidade do Rio de Janeiro.
Este escândalo de proporção mundial, muito provavelmente inicia a derrocada definitiva do bolsonarismo da centralidade da política nacional, cujo maior legado para a extrema direita, será o de ter dado voz aos neofascistas tupiniquins, até então execrados pela sociedade brasileira. Um legado de deservico ao país, marcado por uma síntese de ineficiência de gestão institucional, total falta de qualificação administrativa e distorção de valores humanísticos universais, tudo isso associado a um permanente ataque e desrespeito aos princípios do chamado Estado Democrático de Direito. O Brasil levará ao menos uma geração para se recuperar deste acidente histórico, fruto da nazificação de setores do judiciário, do empresariado, da política e da mídia nacional.
Acho muito pouco provável, com a enorme profusão de provas que colocam Flávio Bolsonaro praticamente no colo de Vorcaro, que a sua candidatura ao Palácio do Planalto seja mantida. Perdeu completamente a funcionalidade ante o pragmatismo do “centrão”, que avalisava esta empreitada, mesmo com um candidato tão inexpressivo e despreparado, envolvido em dezenas de falcatruas, a exemplo das Rachadinhas, lavagem de dinheiro em loja de chocolate ou compra de 51 imóveis de luxo em dinheiro vivo.
A única única “serventia” de Flávio era a de trazer o sobrenome Bolsonaro para o enfrentamento contra a candidatura à reeleição de Lula, um dos líderes mais respeitados mundialmente na atualidade. Com os últimos acontecimentos revelados pelo The Intercept, atrelar o nome a Flávio Bolsonaro, a esta altura do campeonato eleitoral, é praticamente um suicídio político para as candidaturas aos governos estaduais, senado, Câmara dos deputados e assembleias legislativas, dos candidatos do radicalismo direitista e do poderoso centrão.
O vácuo do Master também levará de arrastão muitos nomes atrelados ao bolsonarismo, a exemplo dos ex-governadores Ibaneis Rocha, de Brasília e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e muitos prefeitos e ex-prefeitos, como o senhor João Henrique Caldas, de Maceió, que se esconde atrás do Biombo JHC, que correm sérios riscos de encerrarem suas carreiras políticas em presídios, fazendo companhia ao presidiário Jair Bolsonaro. O mais encalacrado com o maior caso de corrupção financeira da história do Brasil, quiçá do mundo, que com certeza já atingiu a marca dos R$ 12 Bilhões, mas que poderá ultrapassar o assombroso montante de mais de R$ 50 Bilhões, é, sem dúvida, o liliputiano ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro.
Dentre os prefeitos e ex-prefeitos de capitais, um se destaca em particular: o ex-prefeito de Maceió, que atende pela alcunha de JHC. Este homúnculo público, que chegou até a chefia de uma pequena prefeitura de capital por ser integrante de um clã político altamente questionável moralmente, mas alicerçado no poder político oligárquico e financeiro, deverá responder por várias acusações de malversação e apropriação indébita (artigo 168 do Código Penal), que caracterizam claramente a situação de indevido desvio do dinheiro público. As ações do ex-prefeito devem ser investigadas com rigor, inclusive em relação aos estratoféricos shows multimionarios de cantores sertanejos, pagos sem licitação e aprovação legislativa. Uma verdadeira farra com o dinheiro do povo.
Dificilmente este cidadão sairá ileso das gravíssimas denúncias de falcatruas em parceria com o mafioso Daniel Vorcaro, que desviaram aproximadamente R$ 117 milhões do IPREV – Instituto de Previdência dos Servidores Público de Maceió, cujos investimentos no Banco Master foram realizadas de forma fraudulenta e ao arrepio da legislação, sem a devida aprovação legal do conselho do referido instituto, e pior, realizado mediante falsificações de assinaturas autorizativas para que está aplicação fosse concretizada, causando um milionário prejuízo aos munícipes pagadores de impostos maceioenses.
Que a Polícia Federal continue fazendo do seu serviço, investigando e colocando na cadeia toda esta plêiade de aventureiros e carreiristas que surgiram na vida pública brasileira, sobretudo na sequência da ascensão do bolsonarismo em todo o Brasil. Precisamos limpar os poderes executivos e legislativos desses predadores dos recurso públicos, que devem ser destinados a melhorar a qualidade de vida da população, sobretudo dos mais pobres, com investimentos em educação, saúde, segurança pública e alimentar, cultura e moradia, dentre outros. O fim da aventura bolsonarista nos poderes constituídos é apenas um primeiro passo neste processo de resignificação e limpeza da atividade política em nosso país.









