Celular de Vorcaro reúne registros de interlocutores do Banco Master e pode mudar rumo da crise no STF, sinaliza o colunista Ricardo Amaral
Ao requisitar os dados completos extraídos do celular apreendido pela Polícia Federal com Daniel Vorcaro, o ministro do STF Cristiano Zanin colocou em xeque eventuais manobras do ministro André Mendonça para escapar ao ponto central da suspensão de sigilo no inquérito do Banco Master, solicitada quinta-feira pelo presidente da corte, Edson Fachin. É no celular de Vorcaro que se encontram os registros das mensagens trocadas com todos os seus interlocutores, e que até agora foram divulgados apenas parcialmente por Mendonça, com evidente direcionamento aos contatos com o ministro Alexandre de Moraes. E é a possibilidade de se revelar todos esses contatos que está deixando em pânico quem fez negócios com Vorcaro.Play Video
O argumento que justifica a requisição de Zanin é forte: se o plenário do STF foi convocado para analisar, terça-feira, o pedido de investigação de Moraes com base em parte das mensagens do celular de Vorcaro, é essencial que todos os ministros do STF tenham o mesmo acesso que Mendonça teve a estas informações completas. Só assim os ministros terão como conferir a veracidade e o contexto das mensagens divulgadas e até mesmo avaliar se houve ou não seletividade e direcionamento na composição do relatório, conforme sustenta Moraes.
“Todos os ministros temos o direito de acessar o mesmo nível de informações para eventualmente julgarmos o caso”, disse Zanin a interlocutores. Dificilmente Mendonça terá como recusar o envio dos dados, em HDs únicos, aos demais ministros, pois esta providência não interfere nas investigações em curso do inquérito do Banco Master. No ofício dirigido esta manhã ao presidente Fachin, o ministro Zanin citou textualmente a Informação de Polícia Judiciária (PF) que encaminhou ao gabinete de Mendonça o laudo técnico completo das mensagens extraídas do Iphone aprendido com Daniel Vorcaro. Impossível para Mendonça negar.
Se as mensagens recebidas e enviadas por Daniel Vorcaro se tornarem de conhecimento público, o efeito será semelhante ao da Operação Spoofing, que oficializou as informações divulgadas pelo The Intercept, em 2019, contendo as conversas secretas e criminosas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro. O que está lá vai além do Dark Horse, do suborno de servidores do Banco Central, das manobras legislativas com dirigentes do Centrão e até mesmo das negociações de patrocínio do Master, que incluem o Grupo Globo e Luciano Huck.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, determinou nesta sexta (11) que o ministro André Mendonça retire o sigilo, em até 24 horas, de todos os procedimentos vinculados ao caso Master e à Operação Compliance Zero. O magistrado acolheu o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para liberar os autos, com exceção de diligências cuja divulgação possa comprometer as investigações.
Na decisão, Fachin ordenou a remessa dos documentos em mídia própria à Presidência do STF e aos gabinetes dos ministros. O despacho cita a Petição 15.556, que reúne parte dos documentos e das apurações relacionadas ao caso, além dos procedimentos conectados à Operação Compliance Zero.
O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, pediu a abertura dos autos porque a relação de documentos liberados até então não incluía parte relevante dos procedimentos ligados à investigação mais ampla da Polícia Federal. Para a PGR, a divulgação parcial poderia transmitir uma “ideia equivocada de transparência”.
Moraes e Zanin também pediram acesso a documentos
Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin no Supremo Tribunal Federal. Foto: Antonio Augusto/STF
O embate no STF ganhou força após Mendonça retirar seletivamente o sigilo das principais apurações sobre o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro nesta quinta (10). A medida, soicitada por Fachin, manteve sob segredo outras frentes investigativas, entre elas procedimentos relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ministro Cristiano Zanin também enviou ofício a Fachin e solicitou acesso à íntegra das mensagens de Vorcaro apreendidas pela PF. Ele argumentou que o material é necessário para examinar requerimentos da PGR que o STF deve apreciar na próxima semana e afirmou que a mídia estaria incluída nas decisões de compartilhamento e de abertura dos autos.
Hindenburgo Chateaubriand Filho e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, atuarão juntos no caso. O Supremo marcou para a próxima terça (15) a análise de petições ligadas às investigações, incluindo pedidos apresentados por Moraes sobre mensagens trocadas com Vorcaro e relatórios que tratam da atuação de Mendonça.
Empresa de capacetes da família Bolsonaro está registrada no mesmo lugar de empresas do operador financeiro do esquema que prejudicou aposentados e pensionistas brasileiros
Por Alice Maciel
A empresa de capacetes Bravo Grafeno, cujo dono é o candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), divide o mesmo endereço em Brasília com pelo menos 16 firmas de Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, é o garoto-propaganda da marca.
Esta revelação conecta diretamente a família Bolsonaro ao Careca do INSS, personagem central das investigações sobre as fraudes bilionárias que lesaram mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros. Os desvios ocorreram entre 2019 e 2024 e resultaram no prejuízo de R$ 2 bilhões aos cofres públicos.
O levantamento do Núcleo Investigativo do ICL Notícias indica que a empresa do candidato usou, além dos mesmos serviços de contabilidade, a mesma estrutura do investigado na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal.
O Careca do INSS está preso preventivamente desde setembro de 2025, no Presídio da Papuda em Brasília. De acordo com as investigações, ele operava empresas de fachada para desviar as mensalidades recebidas irregularmente por associações de aposentados.
Em declarações anteriores, Flávio Bolsonaro negou envolvimento no escândalo do INSS. Procurado, o candidato a presidente ainda não se pronunciou. A reportagem também procurou a defesa do Careca do INSS, mas não houve retorno até o fechamento da edição. O espaço segue aberto para manifestação.
Mesmo endereço e contador em Brasília
O endereço compartilhado é a sala de número 2601 bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal.
A reportagem esteve no local nesta sexta-feira (dia 11), por volta das 10h30. Logo na portaria do prédio, uma funcionária informou que a sala 2601 é ocupada pela Voga Serviços Contábeis, empresa que pertence ao sócio do Careca do INSS, Alexandre Caetano dos Reis, que também está preso.
Alexandre Caetano dos Reis é o primeiro elo conhecido entre Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS. Ele é responsável também pela contabilidade do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro.
A Voga ocupa quatro salas no 26º andar do prédio. A recepção da empresa fica na de número 2603, onde o ICL Notícias foi recebido pelo advogado Thalles Setúbal. Ele confirmou que a Voga presta serviços à empresa de Flávio Bolsonaro, mas negou que a sala 2601, onde estão registradas as empresas do senador e do Careca do INSS, pertencesse à contabilidade, apesar de os funcionários que circulavam pelo corredor, terem confirmado à reportagem que o local também é ocupado pela Voga.
Inclusive, em duas ocasiões, ao bater na 2601 que estava fechada, fui abordada por funcionários que me orientaram que me dirigisse à recepção da Voga, ou seja, a sala vizinha, 2603.
Thalles afirmou que na 2601 funcionava um coworking e pertencia à outra empresa, com donos diferentes da Voga. Questionado sobre a relação da empresa de contabilidade com o senador Flávio Bolsonaro e as investigações da PF, Thalles respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024 e conta com capital social de R$ 100 mil. A loja online vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras branca e preta, por R$ 54.
“Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”, anuncia o ex-presidente em vídeo divulgado no site da empresa. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
Jair Bolsonaro lançou o capacete para motos, no dia 11 de março de 2025, no Salão das Motopeças, realizado em São Paulo. O tricampeão mundial de Fórmula 1, Nelson Piquet, também divulgou a marca durante uma live em 2025.
Conexão entre Flávio Bolsonaro e Careca do INSS, contador está preso
Preso desde dezembro de 2025, Alexandre Caetano dos Reis foi sócio do Careca do INSS, em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal no Caribe.
O e-mail da Voga consta nas notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro, evidência da prestação de serviços contábeis ao senador revelada pelo Metrópoles.
Como mostra a investigação da Polícia Federal, Alexandre atuou como contador de diferentes empresas vinculadas ao Careca do INSS e tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras consideradas sensíveis pelos investigadores.
Outra conexão de Flávio Bolsonaro com personagens investigados no escândalo do INSS se chama Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador. Ela é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis.
Em entrevista à Agência Pública, em 30 junho de 2022, Letícia afirmou que chegou ao escritório de Flávio por indicação de Willer Tomaz, amigo do senador e advogado que também foi alvo da Operação Sem Desconto.
Willer Tomaz tem procuração nos autos da investigação sobre os desvios no INSS para defender Alexandre Caetano dos Reis.
Carlos Bolsonaro também é sócio da empresa de capacetes
Além de Flávio, o filho 01 de Jair, o ex-vereador Carlos Bolsonaro, o 02,também aparece na sociedade do negócio. Ele disputa uma vaga ao Senado pelo PL no estado de Santa Catarina.
Há outros três sócios na Bravo Grafeno. Entre eles, está o empresário Pedro Luiz Dias Leite, que foi sócio do ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro, Marcello de Oliveira Lopes, na empresa Bitts Tecnologia, Consultoria Empresarial e Comunicação, encerrada em agosto do ano passado.
Marcelão, como é conhecido nos bastidores de Brasília, enviou R$ 1 milhão à produtora Go UP, do filme Dark Horse, em dezembro de 2025, conforme inquérito da Polícia Federal. “Eu sou investidor do filme, é uma natureza totalmente empresarial. Tudo certinho, legal. Não houve repasse, houve investimento”, disse em resposta à coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo. O ICL Notícias tenta contato com ele.
No quadro societário da empresa de capacetes, surge também o nome do personal trainer Paulo Giordano Bernardi e o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que foi investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Procurados, os dois, assim como Carlos Bolsonaro, não retornaram às tentativas de contato.
As informações sobre sócios e endereço em que a Bravo Grafeno foi registrada constam em base de dados pública da Receita Federal.
A rede de empresas do Careca do INSS na Sala 2601
A concentração de empresas do Careca do INSS na Sala 2601 chama atenção também pela forma como elas foram criadas. Levantamento feito pela reportagem encontrou ao menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes registradas no mesmo endereço cadastral da Bravo Grafeno. Algumas foram baixadas após as investigações.
O grupo reunia empresas de consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e até um call center.
A Sala 2601 também aparece como endereço de empresas diretamente relacionadas à movimentação do dinheiro investigado no escândalo do INSS.
É o caso da Prospect Consultoria Empresarial, uma das principais empresas de Antunes. Segundo o relatório final da CPMI, a Prospect recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas, incluindo R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA. Documentos da comissão registram como endereço da empresa justamente a QS 1, Rua 212, lotes 19, 21 e 23, Sala 2601.
Oito delas foram fundadas exatamente no mesmo dia: 5 de outubro de 2023 e uma, a RPLD Construtora e Incorporadora, apenas um mês depois do registro da Bravo.
O Careca do INSS atuava junto às entidades que tinham autorização para descontar mensalidades diretamente dos benefícios e, segundo a investigação, recebia milhões dessas associações por meio de sua rede de empresas. O dinheiro circulava entre diferentes CNPJs e era usado, entre outras finalidades investigadas, para aquisição de patrimônio e pagamentos a pessoas ligadas ao grupo. Ele também atuava nos bastidores do INSS em defesa dos interesses dessas entidades.
A casa caiu! Inquérito autorizado por André Mendonça apura atuação do senador na captação de recursos de Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”
Por Cleber Lourenço, Juliana Dal Piva e Paulo Motoryn
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado pela Polícia Federal em um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação foi autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho, após pedido da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A apuração mira a participação de Flávio na obtenção e cobrança de recursos junto a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A PF encontrou no celular do banqueiro mensagens, ligações e registros de encontros que, segundo os investigadores, mostram o senador atuando diretamente nas tratativas para financiar a produção.
O inquérito específico sobre “Dark Horse” corre sob sigilo. Sua existência e parte dos elementos que levaram à abertura da investigação vieram à tona após Mendonça retirar o sigilo de outros procedimentos relacionados ao caso Master.
A PF pediu formalmente a abertura da apuração em 8 de julho. No documento enviado ao STF, os investigadores afirmaram que pretendiam apurar a eventual prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento internacional do filme, com “possível participação” de Flávio.
Paulo Gonet deu aval ao pedido em 21 de julho. O procurador-geral afirmou haver “indícios consistentes” das condutas narradas e considerou necessário aprofundar hipóteses que envolvem potencialmente corrupção passiva, corrupção ativa, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
No dia seguinte, Mendonça autorizou a abertura do inquérito. A investigação foi formalmente aberta pela PF em 23 de julho.
O que a PF investiga
A suspeita de lavagem de dinheiro está relacionada ao possível uso de empresas e de um fundo no exterior para ocultar ou dissimular a origem, a movimentação ou o destino dos valores usados no financiamento.
A hipótese de evasão de divisas será investigada para saber se houve remessas internacionais com declaração falsa, uso de intermediários, falta de identificação adequada dos beneficiários finais ou finalidade econômica diferente daquela declarada.
No caso da corrupção, a questão central é outra: saber se os aportes foram solicitados, oferecidos, prometidos ou recebidos em razão da função pública exercida por algum dos envolvidos ou como forma de vantagem indevida. A PF também mencionou preliminarmente a possibilidade de organização criminosa e outros delitos que possam surgir durante a investigação.
Os enquadramentos são preliminares. A abertura do inquérito não significa que Flávio tenha cometido esses crimes, mas que a PF recebeu autorização do STF para aprofundar os indícios e verificar se as suspeitas se confirmam.
Flávio aparece como interlocutor direto de Vorcaro
A representação da PF dedica um capítulo inteiro aos “indícios de participação” de Flávio na viabilização e cobrança dos aportes para “Dark Horse”.
Os investigadores afirmam que dados extraídos do celular de Vorcaro mostram o senador participando de tratativas relacionadas ao financiamento.
Os contatos remontam a dezembro de 2024. Naquele mês, Thiago Miranda Silva procurou Vorcaro para marcar uma reunião com Flávio e informou que um dos assuntos seria o “filme do presidente”. O encontro foi agendado para 11 de dezembro. Mário Frias (PL-SP) também participaria da reunião por ser apontado como idealizador do projeto.
Em janeiro de 2025, aparecem cobranças pelo primeiro aporte. A partir de agosto, segundo a PF, a comunicação passa a ocorrer diretamente entre Flávio e Vorcaro.
Em 20 de agosto, mensagens indicam um provável encontro presencial. Vorcaro informou o horário e Flávio respondeu que estava “a caminho”.
Ligação coincide com remessa para fundo nos EUA
Em 8 de setembro de 2025, Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando pagamentos do filme. O senador demonstrou preocupação com o risco de a produção ficar inadimplente com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e afirmou que tentaria resolver a situação.
Uma semana depois, Thiago Miranda informou ao banqueiro que Flávio queria encontrá-lo pessoalmente para mostrar o que estava sendo gravado.
No dia seguinte, 16 de setembro, houve uma ligação entre Flávio e Vorcaro. A PF destaca que o contato coincidiu com a última remessa identificada da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos utilizado no financiamento de “Dark Horse”.
A coincidência temporal é apontada pelos investigadores como elemento relevante, mas não demonstra, isoladamente, que a conversa tenha provocado a transferência.
A PF identificou US$ 12,33 milhões enviados pela Entre Investimentos ao Havengate ao longo de 2025. Já o acordo de financiamento localizado nas comunicações de Vorcaro previa um investimento total de US$ 24 milhões. Os valores das parcelas estabelecidas no documento eram semelhantes aos encontrados nas remessas internacionais.
“Estou e estarei contigo sempre”
Os contatos entre Flávio e Vorcaro continuaram.
Em outubro, o senador voltou a cobrar os aportes e disse que a produção estava “no limite”. Flávio afirmou que, se Vorcaro não conseguisse fazer o pagamento, precisaria avisá-lo para que encontrasse outra saída com urgência. Também convidou o banqueiro para jantar com o ator principal e o diretor do filme.
Em 7 de novembro, Flávio enviou um vídeo a Vorcaro e afirmou, segundo a PF, que aquilo somente estaria acontecendo graças à ajuda dele.
O último contato destacado pelos investigadores ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro. Flávio tentou telefonar para o banqueiro e depois escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Ao analisar esse episódio, Gonet afirmou que Vorcaro teria obtido uma possível “promessa de apoio ou interferências do próprio Senador”. O procurador-geral ponderou, porém, que ainda era necessário encontrar eventual ato praticado no exercício do mandato que pudesse estabelecer uma relação entre o financiamento e a atuação parlamentar de Flávio.
A PGR pediu, por isso, que fossem levantadas propostas legislativas apresentadas ou apoiadas pelo senador que pudessem ser de interesse do Banco Master, de empresas vinculadas à instituição ou de Vorcaro. Também sugeriu uma busca completa nos celulares e computadores já apreendidos pela PF no caso Master e em investigações relacionadas para localizar referências a Flávio. Os documentos conhecidos até agora não apontam um ato parlamentar específico praticado por Flávio em benefício de Vorcaro. Esse é um dos pontos que o inquérito pretende esclarecer.
Para a PF, porém, os elementos já reunidos mostram que Flávio não aparece apenas como alguém mencionado por terceiros. Os investigadores o classificam como “interlocutor direto” de Vorcaro nas tratativas sobre o financiamento, com cobranças de pagamentos, reuniões e acompanhamento das gravações. A investigação pretende esclarecer seu papel na estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes.
Flávio admite que procurou Vorcaro para obter recursos para “Dark Horse”, mas nega irregularidades. O senador afirma que buscava financiamento privado para uma produção privada sobre seu pai, que não houve dinheiro público e que não ofereceu vantagens ao banqueiro em troca dos aportes.
Presidente cita a gravidade da crise institucional do Judiciário e afirma que Brasil quer mais transparência, e não vazamentos seletivos. “Brasil precisa saber a verdade”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quarta-feira, 9, que haja mais transparência nas investigações sobre o maior escândalo financeiro da história do país, o Banco Master. Lula fez um apelo, em postagem no X, para que ocorra a quebra de sigilo de todos os envolvidos no escândalo, “doa a quem doer”.
“É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade”, disse.
Somente explicações para a sociedade e medidas imediatas permitirão o enfrentamento “da crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário”, segundo o presidente. O relator dos casos do Banco Master no STF é o ministro André Mendonça.
Lula criticou a falta de transparência e os vazamentos seletivos que geram consequência no processo eleitoral e citou, como um norte a ser seguido, a condução do então ministro do STF Ricardo Lewandowski quando estourou a chamada Operação Spoofing.
A operação, conduzida pela Polícia Federal em 2019, apurou a invasão de contas do Telegram de autoridades. Um dos principais alvos dos hackers era o então ministro da Justiça Sergio Moro e os procuradores que estavam à frente da Operação Lava Jato. Posteriormente, houve um debate no Supremo se as mensagens, vazadas – a Vaza Jato – deveriam ser validadas em processos judiciais.
Relatora da ONU acusa Israel de manter ataques contra palestinos e aponta apoio de governos, bancos e multinacionais a crimes de guerra
As denúncias de genocídio em Gaza e de cumplicidade ocidental foram reforçadas pela relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, que acusa Israel de manter uma política sistemática de extermínio e afirma que governos, instituições financeiras e grandes empresas ajudam a sustentar as operações israelenses.
Em entrevista à RT repercutida nesta sexta-feira (11) pela teleSUR, Albanese afirmou que a classificação das ações de Israel como genocídio resulta da análise dos fatos e da aplicação do direito internacional, e não de uma avaliação política.
“Os palestinos foram reduzidos a uma massa amorfa. Não importa quem seja o alvo: crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência, recém-nascidos em incubadoras. Eles são mortos por serem palestinos”, declarou.
Segundo a relatora, três condutas identificadas em um relatório apresentado por ela em março de 2024 sustentam a acusação: assassinatos em massa, tortura sistemática e destruição deliberada de estruturas indispensáveis à sobrevivência da população.
Albanese também afirmou que a violência contra os palestinos não se restringe à Faixa de Gaza. De acordo com os dados citados pela especialista, quase 700 pessoas foram mortas na Cisjordânia ocupada entre outubro de 2023 e outubro de 2024, inclusive em áreas onde não havia presença armada do Hamas.
Mortes após o cessar-fogo
A representante da ONU contestou o cumprimento do cessar-fogo anunciado em 15 de outubro de 2025. Conforme os números apresentados por ela, as forças israelenses mataram mais de 1.300 pessoas em Gaza desde o acordo, a maioria crianças.
Albanese classificou a trégua como um “suposto cessar-fogo” e afirmou que os ataques prosseguiram apesar da redução da atenção internacional sobre o território palestino.
Na avaliação da relatora, o enfraquecimento da cobertura jornalística está diretamente ligado à morte de quase 300 profissionais de imprensa no enclave. Ela considera que os ataques contra jornalistas integram uma estratégia deliberada para restringir a circulação de informações sobre Gaza.
A especialista também criticou os grandes veículos de comunicação ocidentais por “criar zonas de influência” e reduzir a visibilidade da continuidade das operações militares israelenses.
Empresas e instituições financeiras são acusadas
Parte das denúncias de Albanese está reunida no relatório “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, no qual ela examina os vínculos econômicos que contribuem para a manutenção da ocupação dos territórios palestinos e das ações militares em Gaza.
A relatora classificou como “quase tangível” a responsabilidade dos países ocidentais que compram ou comercializam títulos do governo israelense nos mercados internacionais. Segundo ela, essas operações violariam a proibição de prestar assistência a Estados envolvidos em atos ilícitos internacionais.
Albanese também denunciou formalmente a participação de empresas de tecnologia, companhias de análise de dados e plataformas de reservas, além de instituições universitárias. Entre as empresas mencionadas estão Google, Microsoft, Palantir, Amazon, Airbnb e Booking.
“É uma grande decepção que, depois do meu relatório, nada tenha mudado na prática. Essas redes de cumplicidade continuam existindo”, afirmou.
As companhias são associadas, no relatório, a diferentes atividades ligadas à ocupação israelense, como fornecimento de infraestrutura tecnológica, tratamento de dados e manutenção de negócios ou serviços em territórios palestinos ocupados.
Sanções dos Estados Unidos
Albanese ainda denunciou as sanções impostas a ela pelo governo dos Estados Unidos em razão de suas investigações sobre a ocupação e o regime de apartheid atribuído a Israel. De acordo com a relatora, as medidas incluíram o bloqueio de contas bancárias e propriedades.
“As sanções que os Estados Unidos impuseram contra mim e contra o Tribunal Penal Internacional são um passo muito grave. Os juízes e promotores que investigam crimes de guerra e o genocídio israelense foram sancionados pelos Estados Unidos. É algo violento e desprezível. Israel não está acima do direito internacional”, declarou.
A especialista vive atualmente sob proteção oficial do governo da Tunísia devido às ameaças recebidas durante seu trabalho de investigação. Ela também alertou para o impacto das medidas norte-americanas sobre a atuação de integrantes do Tribunal Penal Internacional responsáveis por apurar possíveis crimes cometidos no conflito.
Ao abordar o uso de sanções e outras formas de coerção nas relações internacionais, Albanese manifestou ainda solidariedade à população cubana. A relatora definiu o bloqueio mantido pelos Estados Unidos contra Cuba como um “estrangulamento sistemático” destinado a submeter toda uma população para alcançar objetivos de dominação política.
Integrantes do partido Missão apontam atuação de rede de investidores norte-americanos ligada a J.D. Vance na eleição brasileira
O candidato a presidente Renan Santos e integrantes do partido Missão e do Movimento Brasil Livre (MBL) acusam a Rockbridge Network, rede de financiadores políticos alinhada ao presidente norte-americano, Donald Trump, e fundada pelo seu vice-presidente, J.D. Vance, de ajudar a financiar ilegalmente a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), informa Guilherme Amado no site Amado Mundo.
A acusação centra-se no fato de a legislação eleitoral brasileira proibir estritamente que partidos políticos e candidatos recebam doações diretas ou indiretas de governos ou entidades estrangeiras. A Rockbridge é comandada pelo empresário Chris Buskirk, sócio de Donald Trump Jr. em uma gestora de capitais na Flórida, e vem expandindo braços internacionais em diversos países.
Durante discurso realizado no último sábado (5), Renan Santos declarou expressamente que o grupo americano “entrou na campanha” de Flávio Bolsonaro. No mesmo dia, o ex-deputado estadual Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, reforçou as denúncias em publicação nas redes sociais ao apontar a rede de investidores como a origem de dinheiro estrangeiro direcionado à disputa eleitoral no Brasil.
Investimentos em terras raras e intermediação no Brasil
As acusações do grupo do MBL miram principalmente o empresário Tallis Gomes, fundador da G4 Educação, apontado por eles como o responsável por introduzir a Rockbridge no cenário nacional. Gomes é membro da organização nos Estados Unidos e participou, em junho deste ano, de um painel na cidade de Nova York com Chris Buskirk e o investidor Victor Lazarte durante a Brazil Week, abordando infraestrutura de inteligência artificial, terras raras e alianças estratégicas.
“Fui descobrir que esse cara [Tallis Gomes] foi para os Estados Unidos conhecer uma empresa, uma fundação, chamada Rockbridge, que ajudou J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, a virar vice. São caras que põem dinheiro em eleição. Virou representante deles, junto com um rapaz chamado Pedro Sang. Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturally e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.
Defesa nega repasses e promete ações na Justiça
Procurado, Tallis Gomes negou qualquer atuação para arrecadar recursos para a campanha de Flávio Bolsonaro ou de outros nomes da política nacional, alegando que dialoga com diferentes pré-candidatos sem adesão formal. O empresário classificou as acusações como “uma cortina de fumaça” diante do desgaste da candidatura de Renan.
Por sua vez, o empresário Pedro Sang — proprietário de empresas de turismo e consultoria citadas pelas lideranças do Missão — confirmou ter contatos com a rede norte-americana, mas negou de forma categórica qualquer intermediação de repasses financeiros para campanhas eleitorais brasileiras. Sang declarou que a Rockbridge avaliou oportunidades de investimento em tecnologia no país, mas decidiu não avançar com os planos em maio deste ano devido à melindre do cenário político local.
“Nunca houve nenhum centavo transacionado, nem para virar membro nem para nenhum projeto da Rockbridge, zero, zero”, declarou Sang. Tanto ele quanto Gomes afirmaram que ingressarão com processos judiciais por calúnia e difamação contra Renan Santos e Arthur do Val.
Conexões políticas e viagem ao Texas
A aproximação entre empresários brasileiros e o grupo trumpista envolveu também André Marinho, candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo partido Novo e filho do empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado. Sang afirmou ter se aproximado da rede por meio de Marinho, cuja família possui laços com a família Kennedy nos Estados Unidos.
André Marinho confirmou ter viajado a Dallas, no Texas, a convite do grupo para analisar uma possível expansão da Rockbridge no Brasil e conhecer Chris Buskirk. No entanto, o candidato do Novo afirmou não ter conhecimento de qualquer aporte estrangeiro no processo eleitoral brasileiro e ressaltou que se afastou das tratativas assim que focou em sua candidatura estadual, momento em que o próprio grupo norte-americano concluiu que os projetos no país não teriam prosseguimento.
A Operação Resgate VI resgatou 479 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão ao longo do mês de agosto. Durante o período, as equipes de fiscalização realizaram 231 ações em 19 estados brasileiros. Entre as pessoas resgatadas das frentes de trabalho, 404 eram homens (84,4%) e 75 eram mulheres (15,6%).
A ofensiva dos órgãos federais também identificou 15 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, das quais 13 também estavam submetidos a condições degradantes de trabalho. Além disso, foram resgatados 66 trabalhadores migrantes vindos de países da América Latina e do continente africano, incluindo pessoas de nacionalidades argentina, uruguaia, paraguaia, boliviana, venezuelana, burquinense, senegalesa e guineense-bissauense.
A força-tarefa foi coordenada por auditores fiscais da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em uma ação integrada com o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Polícia Federal (PF).
O recorte regional apontou que o Sudeste concentrou mais da metade de todos os resgates do país, somando 267 trabalhadores (55,7% do total), seguido pelo Nordeste, com 135 resgatados (28,1%), pelo Norte, com 53 (10,5%), pelo Sul, com 15 (3,6%), e pelo Centro-Oeste, com 9 resgates (1,9%).
O estado de Minas Gerais respondeu sozinho por quase metade das vítimas encontradas pelas equipes de campo, totalizando 208 pessoas (43,4% do total nacional), seguido por São Paulo, com 58 resgatados (12,1%), Amazonas, com 42 (8,8%), Piauí, com 40 (8,4%), e Rio Grande do Norte, com 37 (7,7%).
Confira os 10 municípios com maior número de casos
Araxá (MG): 77 trabalhadores resgatados
São Paulo (SP): 56 trabalhadores resgatados
Estrela do Sul (MG): 44 trabalhadores resgatados
Jaíba (MG): 43 trabalhadores resgatados
Manaus (AM): 42 trabalhadores resgatados
Ouro Branco (RN): 37 trabalhadores resgatados
Picos (PI): 22 trabalhadores resgatados
Patos (PB): 20 trabalhadores resgatados
Recife (PE): 14 trabalhadores resgatados
Nazaré (BA): 11 trabalhadores resgatados
Predominância no setor rural e ramos econômicos
As inspeções do Ministério do Trabalho e dos órgãos parceiros concentraram-se majoritariamente no meio rural, que representou 61% de todas as ações fiscalizatórias executadas em agosto e resultou na libertação de 292 trabalhadores. O meio urbano correspondeu a 37,2% das fiscalizações, com o resgate de 178 pessoas, enquanto o setor de trabalho doméstico registrou 14 empregadores fiscalizados e 9 trabalhadoras resgatadas de condições análogas à escravidão.
No recorte por atividade econômica, a construção civil liderou o número de trabalhadores resgatados na área urbana, acumulando 85 casos. Na sequência, as atividades agrícolas e extrativistas responderam pela quase totalidade das demais ocorrências, com destaque para o cultivo de café (53 resgatados), cultivo de cebola (47), cultivo de batata (44), atividades agrícolas temporárias diversas (43) e a coleta de produtos não madeireiros em florestas nativas (29).
Pagamentos trabalhistas, sanções e déficit de fiscais
Os empregadores autuados durante a operação foram obrigados a interromper imediatamente as atividades, formalizar retroativamente os vínculos empregatícios e quitar as verbas rescisórias devidas. Até o encerramento do balanço, haviam sido pagos R$ 1,47 milhão em verbas trabalhistas diretas aos trabalhadores, de um total estimado em R$ 3,29 milhões.
A operação também resultou no recolhimento de R$ 675,5 mil em indenizações por danos morais individuais e R$ 455,5 mil por danos morais coletivos, além da assinatura de três Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) e do ajuizamento de quatro Ações Civis Públicas. Os fiscais emitiram 1.836 autos de infração por irregularidades diversas, como falta de registro formal e descumprimento de normas de saúde, e determinaram 28 interdições de locais com risco iminente à vida.
As pessoas resgatadas receberam a guia para saque do Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado, pago em três parcelas de um salário mínimo, e foram encaminhadas aos serviços de assistência social das prefeituras locais. Esta sexta edição da Operação Resgate marcou o maior volume de trabalhadores libertados desde o início da série histórica em 2021, registrando um salto de 123% em relação ao ano anterior.
Contudo, entidades do setor ressaltam que o volume de resgates poderia ser ainda superior caso o país não enfrentasse um déficit estrutural de pessoal, já que o Brasil conta atualmente com cerca de 2,8 mil auditores-fiscais do trabalho em atividade, frente a uma necessidade estimada de pelo menos 5,5 mil servidores para cobrir o território nacional.
Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça contra Andrei Rodrigues; filhos dos ministros aparecem em reportagens sobre relações financeiras e sociais ligadas a Vorcaro
Dois dos três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que votaram nesta terça-feira (8) para manter o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal têm filhos citados em reportagens sobre relações com Daniel Vorcaro ou com empresas que receberam dinheiro do Banco Master.
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam o relator André Mendonça e formaram maioria na Segunda Turma para referendar a decisão que retirou Andrei do comando da PF. Durante a gestão do delegado, a corporação conduziu as investigações sobre o Master que levaram à prisão de Vorcaro.
As relações envolvendo os filhos dos ministros são distintas. Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, recebeu por meio de seu escritório pagamentos de uma consultoria que, no mesmo período, recebeu R$ 6,6 milhões do Master. Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, esteve em pelo menos dois eventos com Vorcaro, segundo reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo Metrópoles.
Não há evidências de que essas relações tenham influenciado os votos de Fux e Nunes Marques sobre o afastamento do diretor da PF.
Filho de Nunes Marques
O escritório de Kevin de Carvalho Marques recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências realizadas entre 2024 e 2025, segundo reportagem da Folha de S.Paulo baseada em informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
No mesmo período, a Consult recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master, distribuídos em 14 operações. Outros R$ 11,3 milhões foram pagos pela JBS. De acordo com os dados publicados pelo jornal, as duas empresas responderam por toda a receita registrada pela consultoria naquele intervalo.
O Coaf apontou incompatibilidade entre a movimentação financeira e a capacidade econômica informada pela Consult e indicou a possibilidade de a empresa ter funcionado como conta de passagem.
Os documentos conhecidos não demonstram que os R$ 281,6 mil pagos ao escritório de Kevin tenham origem nos recursos transferidos pelo Master. O que está documentado é que a Consult recebeu recursos do banco e realizou, no mesmo período, pagamentos ao escritório do filho de Nunes Marques.
Segundo a revista piauí, a relação entre Kevin e a família responsável pela Consult também envolveu uma sociedade empresarial.
Em outubro de 2024, Kevin tornou-se sócio de Gabriel Campelo de Carvalho no Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). Gabriel é filho de Francisco Craveiro, responsável pela Consult.
A piauí informou ainda que as famílias Craveiro e Nunes Marques mantêm uma relação pessoal próxima, confirmada pelo gabinete do ministro. O IPGT e a Consult também chegaram a utilizar o mesmo endereço fiscal em Alphaville.
Gabriel havia deixado formalmente a Consult em julho de 2024. No mês seguinte começaram os pagamentos do Master e da JBS à empresa. Em outubro daquele ano, ele constituiu a sociedade com Kevin.
Kevin afirmou ter recebido R$ 234,8 mil líquidos pela prestação de serviços de assessoria jurídica. Disse ainda que o compartilhamento de endereço foi temporário e negou que o IPGT tenha relação com a Consult.
Não há, nas informações tornadas públicas até agora, indicação de participação de Nunes Marques nessas operações financeiras.
Rodrigo Fux esteve em eventos com Vorcaro
Rodrigo Fux, advogado e filho de Luiz Fux, esteve em pelo menos dois eventos com Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Rodrigo participou da área VIP do camarote Alma Rio, na Sapucaí, durante o Desfile das Campeãs do Carnaval de 2025.
Mensagens obtidas no celular de Vorcaro mostram o banqueiro tratando da organização dos convidados e determinando que “Fux” fosse acomodado no espaço VIP. Vorcaro era parceiro de Álvaro Garnero no camarote e ajudava a financiá-lo.
Rodrigo confirmou sua presença, mas afirmou ao jornal que não mantinha amizade com Vorcaro. Segundo ele, houve uma tentativa de aproximação comercial por parte do banqueiro que não avançou.
“Nunca tivemos relação comercial, nunca advoguei para ele”, afirmou.
Rodrigo também esteve em uma degustação exclusiva de uísque em Nova York custeada por Vorcaro. O evento reuniu cerca de 40 convidados.
De acordo com o portal, Luiz Fux também havia sido convidado, mas não compareceu. Pessoas próximas à família afirmaram que Rodrigo permaneceu pouco tempo no evento e que seu escritório nunca prestou serviços ao banqueiro ou ao Banco Master.
Votos mantiveram afastamento de Andrei
Fux e Nunes Marques deram seus votos nesta terça para confirmar a decisão de André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da direção-geral da PF e Leandro Almada da Diretoria de Inteligência da corporação.
Com os votos dos dois ministros, Mendonça formou maioria de três votos na Segunda Turma.
A decisão atinge a cúpula da PF responsável pelas investigações do Banco Master. Sob o comando de Andrei, a corporação deflagrou a operação que levou Vorcaro à prisão e avançou sobre negócios e relações mantidas pelo banqueiro.
O afastamento também provocou reação do governo. A Advocacia-Geral da União decidiu questionar a medida sob o argumento de que cabe ao presidente da República nomear e exonerar o diretor-geral da Polícia Federal.
Gilmar Mendes pediu vista no julgamento. Apesar da interrupção da análise, a decisão de Mendonça permanece em vigor e Andrei continua afastado do comando da corporação.
Até a publicação desta reportagem, não havia sido apresentada no julgamento indicação de que as relações dos filhos de Fux e Nunes Marques com pessoas ou empresas do entorno do Master tenham sido consideradas na análise dos ministros sobre o afastamento da cúpula da Polícia Federal.