Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
A ideia de que o futebol é o “esporte das multidões” foi se firmando ao longo do século XX, tendo este ditado se consolidado e popularizado como tal, pela pena do jornalista e cronista esportivo brasileiro Mário Filho, que não por acaso empresta o nome oficial ao famoso estádio do Maracanã. Ele representou para o futebol o que o seu irmão, o dramaturgo Nelson Rodrigues foi para o teatro. O futebol, tão amado por todos, chegou ao Brasil pelas mãos, ou mais apropriadamente pelos pés de Charles Miller, erroneamente considerado inglês, mas que na verdade era paulistano, descendente de pai escocês e mãe brasileira, no longínquo ano de 1894.
Segundo os compêndios desportivos da história, o futebol se trata de fato de um esporte bretão, ou seja, originou-se na Grã-Bretanha, onde surgiu e foram estabelecidas suas primeiras regras oficiais. Chegou ao Brasil trazido por marinheiros e imigrantes ingleses, sendo disciplinado em nosso país por Charles Miller, apesar de haver esparsos registros históricos de que já em 1870, àqueles marinheiros promoviam partidas informais de um jogo muito semelhante a prática futebolística. A primeira partida aceita oficialmente no Brasil, entretanto, só ocorreu em 14 de abril de 1895, no Brás, na cidade de São Paulo, em confronto ocorrido entre os funcionários da São Paulo Railway Company x Companhia de Gás de São Paulo, organizada por Charles Miller, e que teve o placar de 4 a 2 favorável ao time da empresa ferroviária de capital britânico.
O futebol foi inicialmente um esporte praticado por uma elite, mas que se popularizou rapidamente, muito provavelmente pela sua fácil acessibilidade, por exigir parcos recursos para sua realização, com regras simples e de fácil entendimento, bem como pela pouca necessidade material para sua prática, que se resume basicamente a uma bola ou a “pelota, como a chamavam em seus primórdios, que eram bexigas infláveis de animais, revestida de couros costuradas a mão. Esta facilidade ajudou o futebol a se expandir para as massas populares, por se tratar de uma atividade esportiva democratizada na sua essência, exequível a todas as classes sociais.
O “soccer,” como o futebol era chamado nas elitistas universidades britânicas no final do século 19, contraditoriamente, como podemos observar, já nasceu com esta áurea de um esporte popular, com uma profunda identidade coletiva e comunitária, que se consolidou culturalmente na alma do nosso povo. E assim está paixão nacional foi avançando e se enraizando cada vez mais na sociedade brasileira, criando expectativas de que se abria um enorme leque de possibilidades de mobilidades sociais, sobretudo nas camadas mais empobrecidas da população. Por todas essas nuances, o futebol tornou-se o esporte com o maior número de adeptos e espectadores não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, apresentando, concomitantemente, uma grande expansão das atividades econômicas vinculadas à esta prática desportiva.
Evoluímos nacional e internacionalmente das “peladas e rachas” realizadas, sobretudo, nas periferias das grandes metrópoles, para uma grande indústria que atua nos mais diversos segmentos empresariais: do material esportivo a mídia especializada no calendário dos campeonatos estaduais,nacionais e agora das chamadas “leagues” mundo afora, dos jogos de apostas lotéricas ao gerenciamento das carreiras dos jogadores negociados no mercado dos grandes, médios e pequenos times de futebol. Foi desta forma que o velho “esporte bretão”, trazido despretensiosamente por Charles Miller para o Brasil, transformou-se em um dos maiores negócio do país e do mundo.
Aonde existe a possibilidade de se faturar e ganhar dinheiro, o velho e conhecido capitalismo costuma entrar com força, distorcendo os princípios que norteiam qualquer atividade. Seja de que natureza for: esportiva, cultural, educacional ou sanatória. Não foi diferente com o futebol, que foi perdendo e tendo sua capilaridade original descaracterizada, deixando de ser um instrumento de identificação popular, para se transformar em empresas que têm como objetivo, única e exclusivamente, a obtenção de lucros, a exemplo das atuais SAF – Sociedade Anônima de Futebol, que acabaram com a pureza futebolística praticada por amor ao clube de estimação e sem fins lucrativos.
O futebol nos dias atuais perdeu sua característica lúdica e essencial, passando por um processo de transmutação de uma paixão pela atividade esportiva, que ele sempre representou no Inconsciente coletivo, pura e simplesmente para se transformar em um sonho de consumo das atuais gerações, que vêm nele uma possibilidade ilusória para a grande maioria dos jovens, da fácil e tão desejada ascensão social. O que de fato vemos é uma total manipulação mental, que vende o sonho de consumo travestido de emoção. Todo garoto pobre da periferia sonha em ser um novo e futuro “menino Neymar.
Marx nos legou uma frase na sua obra “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, na qual afirma que “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como o espírito de uma condição desprovida de espírito. Ela é o ópio do povo”. Por isto me atrevi a este paralelismo. O futebol passou a ser um negócio comandado por empresários, com investimentos bilionários para sua realização. O seu papel é o de anestesiar as pessoas da realidade que a cerca. Chamá-lo de droga, portanto, não foge muito do contexto do que estamos assistindo dentro das quatro linhas nas últimas copas que o Brasil participou.










