Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

A Copa do Mundo de 2016 entrará para os pósteros da história do futebol, como a mais vergonhosa e desonesta de todas as copas já realizadas. A ética desportiva passou longe dos campos dos três países que sediaram este tradicional evento futebolístico, que contou com a participação de seleções de 48 países, desta que é a maior edição de todas as copas, que teve a sua primeira edição realizada no ano de 1930, no Uruguai, com a participação de 13 seleções, que contou, já naquela ocasião, com a FIFA – Federação Internacional de Futebol Associado na sua organização. Os vexames desta copa de 2026 começaram já na chegada de algumas seleções que iriam jogar nos Estados Unidos, que passaram por inimaginaveis constrangimentos já na imigração dos aeroportos, a exemplo do Irã, Haiti e Senegal. Países majoritariamente muçulmanos e negros. Só faltou mesmo que Donald Trump, aquele que se acha senhor absoluto do mundo, ter mandado o ICE, a agência federal de imigração e alfandega, recepcioná-los. Neste momento a FIFA já sinalizou a sua subserviência.

A FIFA é um órgão internacional que regulamenta o futebol em todos os continentes do mundo, e por ser uma instituição que lida com um forte componente popular de grandes contingentes populacionais, sempre foi uma entidade onde os interesses geopolíticos nunca deixaram de estar presentes na sua constituição. Todas as copas realizadas até agora, contaram com este aspecto na sua essência, entretanto, dentro de um certo limite moral, que garantiu a decência e a honestidade nos seus resultados finais, mesmo com apenas oito países obtendo os títulos de campeões mundiais : Brasil, com 5 títulos, Alemanha e Itália com 4, Argentina com 3, Uruguai e França com 2 e Inglaterra e Espanha com um título cada. Podemos excetuar deste contexto a copa da Argentina em 78, onde o resultado final foi impactado diretamente pela ação e interferência direta dos militares de uma das mais ferozes ditaduras da história da humanidade.

Nesta edição do mundial de seleções, estava em vigência no país um regime tirânico, que havia ascendido ao poder em 1976, em uma sublevação das forças armadas daquele país, que depôs a Presidente Isabelita Perón, viúva de Juan Domingos Perón, do maior personagem da história recente do país platino, que deu origem ao substantivo conhecido como peronismo. A Ditadura argentina detém o sinistro número de 30 mil pessoas mortas ou “desaparecidas” naquele período de repressão e também era associada a nefasta e de triste memória “Operação Condor”, um plano que uniu várias ditaduras latino americanas para prender, torturar e matar os opositores dos regimes baseados nas casernas, que predominavam no continente a época. A intervenção direta dos generais de plantão na Casa Rosada, interferiram decisivamente no resultado que deu o primeiro título mundial ao país dos nossos “hermanos”.

Em tempos de “Guerra Híbrida”, o que assistimos na copa do Mundo de 2026 foi algo que ultrapassou as fronteiras de muitas nações que dela participam. As seleções dos países africanos, das Américas Central e do Sul, têm sido vítimas fatais na fase do chamado “mata -mata”, com juízes parciais que cometeram “erros” crassos de arbitragens e que resultaram na eliminação de seleções como Cabo Verde e Egito, para não falarmos na interferência direta da Casa Branca e seu histriônico chefe Donald Trump, convocando o presidente da FIFA em pessoa e exigindo do senhor Gianni Infantino a anulação do merecido cartão vermelho dado ao principal jogador da seleção norte-americana, Folarin Bologum, para que este tivesse condições de jogo contra a Bélgica. Ordem dada, ordem acatada. A fanfarronice, entretanto, não deu lá muito certo, posto que o selecionado dos EUA foi derrotado do mesmo jeito por 4 X 1 pelos belgas.

Estes episódios, entretanto, revelam a falta de seriedade na realização da Copa do Mundo, onde o futebol, que tem até apresentado um nível técnico mediano, está virando apenas um pretexto para as reais motivações desta copa, que é a de ser uma mera plataforma para a realizaçao de tenebrosas transações de natureza estritamente comercial, que movimentará até o seu apito final, a espantosa e chamativa cifra de $ 31 bilhões de dólares, um valor superior ao PIB de dezenas de países, a exemplo de Cabo Verde, que é de $2.65 bilhões de dólares, Curaçau, que é de $ 3.28 bilhões de dólares ou Senegal, que é de $ 30.7 bilhões de dólares, apenas para falarmos de países que participaram deste campeonato mundial. O fato é que a FIFA sai inteiramente desmoralizada perante o mundo desta que poderíamos chamar tranquilamente de Copa S.A. Dito isto, parabenizo ao selecionado da Espanha, que derrotou uma das seleções mais racistas e reacionárias da história dos campeonatos mundiais de futebol entre países, consagrando-se campeã da Copa do Mundo de 2026.

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