TCU aponta “prejuízo ao erário” de R$ 7,5 em projeto de Michelle Bolsonaro

Dinheiro doado pela Marfrig para compra de testes de Covid-19 teria sido repassado, em sua maioria, por Michelle Bolsonaro a instituições missionárias evangélicas aliadas à Damares Alves sem edital de concorrência

O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de “potencial prejuízo ao erário” na doação de R$ 7,5 milhões pelo frigorífico Marfrig para o governo federal comprar testes rápidos da Covid-19 que foram parar na conta do programa Pátria Voluntária, que é comandado pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

A doação foi feita em 23 de março de 2020 ao Ministério da Saúde “com fim específico de aquisição e aplicação de testes de Covid-19”.

Em julho, após a transferência do dinheiro, o governo Bolsonaro pediu para a empresa para que o dinheiro não fosse utilizado na compra de testes, mas em outras ações da pandemia. Os R$ 7,5 milhões então foram transferidos para o projeto Arrecadação Solidária, que é comandado por Micelle no Pátria Voluntária.

Reportagem de Constança Rezende na edição desta sexta-feira (23) da Folha de S.Paulo revela que em avaliação preliminar, técnicos do TCU apontam em relatório que “há indícios da ocorrência de potencial prejuízo ao erário, por conta do desvio de finalidade dos recursos doados pela empresa Marfrig ao governo federal, uma vez que deveriam ter sido aplicados na aquisição de 100 mil testes rápidos de Covid-19”.

O documento afirma ainda que “há possibilidade de ocorrerem outras possíveis irregularidades semelhantes (alto risco)”.

“Ainda que se venha a constatar não ter havido irregularidade na alteração de finalidade dos recursos doados pela Marfrig ao governo federal, a aplicação desses recursos no âmbito do programa Pátria Voluntária haveria de ocorrer segundo critérios objetivos, técnicos e isonômicos, e não de forma a privilegiar determinadas instituições”.

Segundo a Folha, a maior parte da verba do programa foi repassada para instituições missionárias evangélicas aliadas à Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, sem edital de concorrência.

Fonte: Revista Forum

Inquérito contra professora Erika Suruagy a pedido de Bolsonaro, é arquivado

A pedido do Ministério Público Federal, o juiz da 15ª Vara Federal de Brasília Francisco Codevila arquivou um inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar professora Erika Suruagy que veiculou um outdoor em Recife acusando o  presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de responsabilidade em 120 mil mortes, até aquele momento, pela pandemia da Covid-19.

Erika recebeu a notícia pelo seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, mais conhecido como Kakay, que aceitou atuar na defesa do caso, sem custos. Para a professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o arquivamento representa uma vitória para a democracia. Ela espera que o presidente pare de perseguir profissionais que são contra o governo.

“Esperamos que definitivamente o presidente da República e o ministro da Justiça parem de perseguir sindicalistas, professores, servidores públicos, artistas e intelectuais que discordam da política do governo”, afirma. “Vivemos numa democracia, a liberdade expressão e de organização sindical são garantias constitucionais.”

O outdoor, veiculado em setembro de 2020, dizia: “O senhor da morte chefiando o país”, citando em seguida as mortes ocorridas pela Covid-19 . Encerrava com a frase “#forabolsonaro”.

O inquérito foi aberto pela PF após um pedido do então ministro da Justiça André Mendonça, que encaminhou uma solicitação do próprio presidente Jair Bolsonaro, acusando os responsáveis pelo outdoor de terem cometido crime contra a honra.

Era o alvo da investigação Érika Suruagy Assis de Figueiredo, vice-presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco, responsável pelo conteúdo exibido nos outdoors.

Fonte: Último Segundo e Correio Braziliense

Deputado quer explicações de ministro sobre favorecimento a TV Record

Deputado Paulo Ramos (PDT-RJ) afirmou que os R$ 3,2 milhões desembolsados pelo governo para comprar da Record os direitos de reprodução da novela Dez Mandamentos, representa 40% do orçamento da EBC para compra de séries, filmes e outros conteúdos. Jair Bolsonaro usou dinheiro público para favorecer a empresa de seu amigo pessoal, o pastor e empresário Edir Macedo

O deputado federal Paulo Ramos (PDT-RJ) quer explicações do ministro das Comunicações, Fábio Faria, sobre os critérios da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) utilizou para comprar da TV Record os direitos de reprodução da novela Dez Mandamentos. A informação foi publicada pela coluna Painel

A estatal pagou R$ 3,2 milhões por duas temporadas da produção. No requerimento protocolado na Câmara, o parlamentar afirmou que o valor representa 40% de todo orçamento da EBC para compra de séries, filmes e outros conteúdos e 70% do dinheiro disponível para adquirir direitos de novelas.

A atitude caracteriza mais um crime de Bolsonaro, que se utilizou de dinheiro público para favorecer a empresa de seu amigo pessoal, o pastor e empresário Edir Macedo.

Movimentos sociais exigem tombamento da Igreja Batista do Pinheiro

Movimentos defendem a defesa dos direitos das famílias e das instituições atingidas pela mineração da BRASKEM em Maceió

Lançado no último dia 20, o Manifesto em Apoio ao Tombamento da Igreja Batista do Pinheiro já reúne diversas assinaturas de partidos e movimentos populares em Alagoas. A estrutura física da igreja está localizada em um dos bairros atingidos pelo crime ambiental resultado da atividade de mineração em Maceió e recebe o apoio das organizações pela sua preservação.

“Conclamamos aos demais atores sociais e das organizações a se somarem em uma frente ampla em defesa do tombamento desta tão importante instituição, como garantia de preservação da memória e do reconhecimento do prédio da IBP como Patrimônio do Povo Alagoano, devido ao seu valor social, histórico, cultural e arquitetônico, impedindo que venha a ser destruído ou descaracterizado”, destaca trecho da nota.

A Igreja Batista do Pinheiro é conhecida pela sua postura pioneira na luta em defesa dos direitos humanos, com suas ações vinculadas às lutas dos movimentos populares em Alagoas.

A nota resultado da Plenária Popular dos/as Atingidos/as pela Mineração, convoca ainda a população alagoana para a construção de uma frente em defesa dos direitos das famílias atingidas pelo desastre ambiental na capital alagoana.

Fonte: MST

A nova arca de Noé

PAULO MEMÓRIA – jornalista e cineasta

Enquanto não houver o despertar de uma consciência moral e humanística sobre as condições de vida dos animais, a humanidade terá sob seus ombros, esta sombra traduzida no sofrimento de vidas indefesas diante da crueldade, do desprezo e da indiferença dos homens com os animais. Por esta razão precisamos, urgentemente, começar a construir uma nova Arca de Noé, absolutamente necessária neste mundo de tantas injustiças e iniquidades praticadas contra nossos mais leais companheiros de jornada civilizatória. Não estamos propondo, por óbvio, a construção de uma arca como uma nau propriamente dita, mas de uma arca institucional, na qual possamos embarcar e salvar os animais de um dilúvio, que não é representado por uma grande inundação, como a descrita na Bíblia, mas por um aluvião simbolizado pelo desprezo, abandono e sofrimento dos animais. Só com o estabelecimento de políticas públicas pertinentes as necessidades da animália, será possível a reversão de um contexto tão perverso como o predominante em nosso país.

Um filme despretensioso, mas que passa bem esta mensagem da construção de uma nova Arca de Noé, é a comédia de fantasia “O Todo Poderoso”, de 2007, dirigido por Tom Shediac, que conta a história de Evan Baxter (Stivie Carrel), um âncora de TV, que se elege deputado no congresso americano e que ao chegar em Washington, recebe uma ordem direta de Deus (Morgan Friedman), para reconstruir uma nova Arca de Noé e todos acreditam que ele enlouqueceu. será? Os animais são as maiores vítimas de uma cultura que não é apenas machista, racista, sexista ou misoginia, mas também carnívora, com uma indústria alimentícia e, particularmente, uma indústria frigorífica, que sacrifica milhões de animais para satisfazer e justificar nosso predomínio no topo da cadeia alimentar. Quando ia a churrascaria e via os garçons passando em rodizio com diversos tipos de carne, sempre me ocorria que estava me deparando diante de um verdadeiro genocídio de bois, porcos, frangos, carneiros, bodes, peixes e até carnes de exóticos animais selvagens. Sempre me perguntei se não poderíamos mesmo sobreviver sem a necessidade da satisfação da proteína animal. Se tantos povos conseguem sobreviver sem o consumo da carne animal, porque nós também não conseguiríamos? Possivelmente pelo fato de sermos educados para comermos sempre com um cadáver no prato. Sim, porque é disso que estamos falando, sempre que comemos um pedaço de carne, estamos tratando de morte, dor, desespero e sofrimento de uma vida, sacrificada para satisfazer um dos nossos mais antigos instintos de sobrevivência. O fato é que o homem, diga-se de passagem, também um animal, já deveria ter evoluído o suficiente para desenvolver uma consciência moral, que poupasse as demais formas de vida dos nossos desejos mais ancestrais. Não somos mais Homens de Neandertal, Homo Sapiens é o que somos, há aproximadamente 300 mil anos, tempo mais que suficiente para sublimarmos nossos ímpetos mais primitivos. Na nossa aventura ao longo de milhares de século, nos levantamos e nos tornamos bípedes, saindo da condição de selvagens para seres civilizados. Acredito que ainda chegará o dia em que nos conscientizaremos de que para alimentarmos o nosso corpo, poderemos fazê-lo poupando a vida das demais espécies. A causa animal não pode se restringir apenas a proteção dos pets, gatos e cães ou no máximo cavalos, mas também a outras espécies, incluindo àquelas cruelmente assassinadas pela indústria de alimentos. Um dia esta nova Arca de Noé zarpara deste porto de iniquidades que tanto vitimiza os animais.

Genocídio: Bolsonaro vai ao STF para adiar liberação da Sputnik no Maranhão

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), revelou nesta sexta-feira (23) que o governo Bolsonaro entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) contra liminar concedida pelo ministro Ricardo Lewandowski que permite o estado aplicar a vacina Sputnik V a partir de quarta-feira (28), caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não se manifeste até a mesma data a respeito de pedido de liberação protocolado no final de março. A movimentação jurídica de Brasília pode afetar também Ceará, Amapá e Piauí.

“O governo federal não quer o prazo de 28 de abril. Alegam que precisam de mais tempo pra analisar a documentação. Nós discordamos. Ou você diz sim ou diz não, de modo fundamentado. Mas protelar, adiar indefinidamente não tem razão de ser”, disse Flávio Dino em entrevista coletiva, avisando que o governo dele já se manifestou no Supremo pela permanência no prazo de 28 de abril.

O pedido junto à Anvisa para a importação e uso emergencial foi feito pelo governo maranhense no dia 29 de março e ainda não recebeu qualquer resposta. Diante da demora, Flávio Dino levou o caso ao STF, onde Lewandowski deferiu liminar dando 30 dias para a Anvisa se posicionar, a contar da data da solicitação feita pelo estado nordestino.

“Estamos lutando para que o Plano Nacional de Imunização seja fortalecido. A nossa atitude é colaborativa”, acrescentou Flavio Dino. “Me insiro naqueles que fazem oposição ao governo federal, porém, nunca adotei uma atitude de sabotagem em relação a parcerias úteis pra a nossa população. A Sputnik vem sendo aplicada em muitos países do planeta, como na vizinha Argentina, que baseia seu plano de imunização nessa vacina, aplicada em mais de 60 países.”

Ceará, Amapá e Piauí

Seguindo os passos do governo maranhense, Ceará, Amapá e Piauí também entraram com ação similar no Supremo e, nesta mesma sexta-feira, Lewandowski concedeu liminar com termos semelhantes, dando o mesmo prazo de 30 dias a contar da data do protocolo feito por esses três estados na Anvisa. Os prazos vencem no final do mês.

Lewandowski deferiu a liminar nos termos do artigo 16 da Lei 14.124/2021. Nas três peças jurídicas, os governos estaduais alegam que o “Governo Federal omitiu-se na adoção tempestiva das medidas necessárias para adequada execução do plano nacional de imunização contra a Covid-19 no País, bem como que a segunda ré (Anvisa) posterga, sem causa razoável, o exame do pedido formulado (…) para importação e uso excepcional de vacinas Sputnik V adquiridas no mês de março deste ano”.

Morosidade

O chamado Consórcio do Nordeste, conjunto de nove estados do qual fazem parte Ceará, Piauí e Maranhão, tem contratos fechados para a compra de 37 milhões de doses. A legislação diz que a agência teria sete dias para dar uma resposta, porém, alegando falta de documentos sobre segurança e eficácia, ainda não divulgou parecer.

A postura da empresa gerou estranheza nos governadores. Uma das ações que eles dizem não entender é a necessidade que a agência alegou de ir até a Rússia para avaliar o laboratório onde a vacina foi desenvolvida, necessidade não vista para os imunizantes já liberados para uso. No caso da Oxford/AstraZeneca, já foi concedido inclusive o registro definitivo no país.

Segundo o Instituto Gamaleya, responsável pela vacina, o imunizante tem 91,6% de eficácia contra infecções e 100% contra casos graves. Garante, ainda, que mesmo que haja infecção após a aplicação das duas doses necessárias, será com sintomas leves.

Ao todo, 60 países, somando 3 bilhões de pessoas, já confirmaram a liberação da Sputnik, a primeira vacina desenvolvida no mundo. Dois deles, a própria Rússia e a Argentina, fazem parte de listagem definida por lei cujas agências têm respaldo para atestar justamente segurança e eficácia. É esse respaldo que determina o prazo de sete dias para a liberação de uso emergencial. Além deles e da Índia, na América Latina a vacina foi liberada na Bolívia, Guatemala, Guiana, Antígua e Barbuda, São Vicente e Granadinas, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Panamá e Venezuela.

Fonte: Rede Brasil Atual

Presidente da Bolívia revoga decreto de antecessora que liberava uso de transgênicos

Norma que autorizava o cultivo de espécies alteradas havia sido aprovada em 2020, durante governo de Jeanine Áñez

O presidente da Bolívia, Luis Arce, revogou nesta semana o decreto supremo 4232, que liberava a introdução de sementes transgênicas em cultivos considerados base da matriz alimentar do país. A medida havia sido aprovada no dia 7 de maio de 2020, sob a gestão da golpista Jeanine Áñez. Para marcar as mudanças promovidas pelo atual governo, a revogação foi anunciada na última quinta-feira (22/04), durante a celebração do Dia Mundial da Mãe Terra. 

Além disso, o chefe de Estado também enviou a proposta de criação de uma leia de proteção à fauna silvestre nacional. 

“Eliminamos o abuso do governo anterior, autoproclamado, que introduziu, com apenas um decreto e sem nenhuma vergonha, toda a cadeia de transgênicos no nosso país. No trigo, no milho, em tudo”, afirmou Arce durante a inauguração da Expo Feira Mãe Terra.

O texto original orientava o Comitê Nacional de Biossegurança a diminuir o tempo dos procedimentos de avaliação da introdução de sementes geneticamente modificadas de milho, cana de açúcar, algodão, trigo e soja.

O decreto de Áñez também feria a Constituição da Bolívia, promulgada em 2009, durante o primeiro mandato de Evo Morales, que determina: “o Estado deve garantir a segurança alimentar, através de uma alimentação saudável, adequada e suficiente para a toda a população”.

Cerca de 85% das sementes transgênicas utilizam o glifosato, um dos agrotóxicos mais cancerígenos disponíveis no mercado, no seu cultivo.

Na Bolívia são cultivados 3,3 milhões de hectares, segundo o Instituto Nacional de Inovação Agropecuária e Florestal (Iniaf). Em quase todas as regiões, as plantações contam com sementes certificadas, sementes crioulas e o incentivo ao uso de fertilizantes naturais. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimento e Agricultura (FAO), existem cerca de 36 variedades de milho boliviano.

Até o momento, os bolivianos só consomem sementes transgênicas de soja, do tipo RR1, sem aplicação de glifosato. 

MICHELE DE MELLO

Fonte: Opera Mundi

Lula lidera pesquisa presidencial e é o único que vence Bolsonaro

Na primeira pesquisa depois das decisões do STF que consideraram Moro um juiz parcial e suspeito e anularam os processos da Lava Jato contra Lula, ele aparece na pesquisa do Instituto Ideia com 40% das intenções de voto se o segundo turno das eleições fossem hoje. Bolsonaro teria 38%. Os demais candidatos perderiam para Bolsonaro

Pesquisa do Instituto Ideia encomendada pela revista Exame indica que apenas Lula venceria Bolsonaro num eventual segundo turno na eleição presidencial se o pleito acontecesse hoje. Lula tem 40% das intenções de voto e  Bolsonaro, 38%. Apesar de estar dentro da margem de erro, que é de três pontos percentuais para mais ou para menos, é a primeira vez que Lula aparece vencendo Bolsonaro na série histórica do instituto.

Os demais potenciais candidatos seriam derrotados por Bolsonaro no segundo turno, Ciro Gomes perderia de Bolsonaro de 44% a 34%; João Doria por 44% a 26%; Luciano Huck por 40% a 38%.

Nas intenções de voto num eventual primeiro turno hoje, Lula teria 33% e Bolsonaro 32%. Os demais candidatos aparecem muito atrás, nenhum deles acima de 10%: Ciro (9%), Huck (6%), Dória (4%), Amôedo (3%), Mandetta (3%), Gentili (2%).

Lula tem 44% das intenções de voto, contra 32% de Bolsonaro na região Sudeste. Ele também ganharia no Nordeste (44% a 30%). A situação se inverte nas outras três regiões. O atual presidente venceria no Norte (63% a 19%), no Sul (47% a 34%), e no Centro-Oeste (54% a 29%).

O levantamento ouviu 1.200 pessoas entre os dias 19 a 22 de abril, por telefone. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Clique aqui para ter acesso ao relatório completo. A sondagem é a primeira após as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que anulou as condenações contra Lula e considerou Sérgio Moro suspeito.

Fonte: Brasil 247

No camarote da vacina privada, pretas e faveladas não entram

A socióloga Valeria Correia e as conselheira de saúde Ortência Souza e Raquel Plut Fernandes discutem os impactos da nova diretriz que dá maior flexibilidade para que o setor empresarial compre vacinas contra Covid-19.

POR BIANCA PEDRINA

Não faltaram palavras para os possíveis “privilégios” que algumas pessoas poderão ter com a aprovação da compra de imunizantes contra a Covid-19 pelo setor privado.

Apelidado de “camarote da vacina”, o projeto de Lei 948.2021 foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 67de abril, com 317 votos favoráveis, 120 contrários e duas abstenções, e segue, agora, para o Senado, sem previsão de votação. 

Especialistas da área da saúde sinalizam que essa nova diretriz poderá aprofundar o abismo social já existente no país, agravado pela pandemia. Apontam para uma possível divisão entre os que poderão pagar e os que não, já que a lei pode ampliar desigualdades e afetar os mais pobres, que dependem majoritariamente do SUS (Sistema Único de Saúde). Cerca de 71,5% da população depende do serviço, de acordo com dados constam da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A medida aprovada pelo Senado alterou a Lei 14.125, publicada em março, que já previa a compra de vacinas. Agora, com as novas regras, existe maior flexibilidade para que o setor empresarial compre o imunizante, com algumas contrapartidas.  

Pelas normas aprovadas em março, até que todo o grupo prioritário seja vacinado por meio do Plano Nacional de Imunização, todas as doses compradas por empresas teriam que ser doadas ao SUS. Após esse segmento ser imunizado, as empresas poderiam ficar com 50% do imunizante e seguir doando os outros 50%.

Com a mudança, os imunizantes comprados pelos empresários podem ser usados de imediato, sem aguardar a vacinação dos grupos prioritários.

Entre os pontos polêmicos do projeto está a autorização para que empresas possam comprar vacinas aprovadas por órgãos reguladores internacionais, mesmo que não tenham sido regulamentadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A Lei também prevê o abatimento no Imposto de Renda de empresas que comprarem a vacina. Com isso, o custo das doses adquiridas pelo setor será absorvido pelos cofres públicos.

As empresas poderão adquirir o imunizante para seus executivos, diretores, funcionários e seus familiares, sem diretrizes estabelecidas de como será feita a fiscalização desta ação.  

Valéria Costa Correia, 59, doutora em Serviço Social pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), integra a Frente Nacional Contra a Privatização da Saúde, afirma que “a medida não protege a população da periferia, os desempregados, os que estão no setor informal e até as pequenas empresas”.

Segundo a assistente social, as pessoas majoritariamente impactadas pela crise sanitária, e que são atravessadas por questões raciais, sociais e de gênero não serão beneficiadas com essa nova Lei. 

A pesquisadora se refere aos 14 milhões de desempregados, somados aos 34 milhões de pessoas em trabalhos informais, de acordo com o IBGE.

Acesso universal à saúde

Ela explica que a medida provocará uma quebra no acesso igualitário à saúde. “Do ponto de vista ético e humano é uma perversidade essa aceitação. Vai prejudicar o abastecimento; uma vacina a mais para o setor privado será uma a menos para a rede pública”, reforça, completando que essa medida também fere “o princípio constitucional do SUS que é o acesso universal e igualitário à saúde“.

Valéria entende que as pessoas só querem ser vacinadas, mas existem outros contextos quando é proposta a privatização de algo que deveria ser garantido para todos e todas.

Sobre as intenções por trás dessa aquisição dos empresários, ela enxerga como apenas privilégios para alguns.

“Os empresários vão proteger a si mesmo, vão proteger a sua família, os seus, o andar de cima, com a justificativa de vacinar os seus funcionários. É o camarote da vacina”.

Atraso no calendário de vacinação

Outro ponto de atenção para a medida é o fato de que o calendário de vacinação no país está lento, com apenas 4,4% da população imunizada com as duas doses, de acordo com dados coletados pelo  Monitora Covid-19, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Essa situação poderia ser diferente, defende Valéria, se o governo tivesse tomado as devidas medidas para a compra de vacinas no ano passado. “Existe o negacionismo da própria imunização, porque em maio do ano passado, existiu uma coalizão viabilizada pela OMS [Organização Mundial da Saúde] para que os países do mundo inteiro já garantissem doses de vacinas que estavam em estágio de aprovação. Neste processo, o país poderia pedir até o número total de vacinas pra cobrir 50% da sua população. O Brasil pediu apenas 10%, que era o mínimo, e aderiu apenas em outubro”, explica.

Além disso, existe uma disputa mundial para a aquisição das vacinas que, em sua avaliação, no Brasil, esse atraso foi agravado.

Segundo levantamento feito pela Oxfam Committe for Famine Relief (Comitê de Oxford para Alívio da Fome), divulgado em setembro de 2020, os países ricos, que possuem apenas 13% da população mundial, compraram 51% das doses das vacinas ainda em desenvolvimento. A projeção é que dezenas de países, sobretudo os mais pobres, poderão ficar sem a vacina até 2022.

“Processo de imunização deve ser coletivo, não individualizado”

Outra preocupação apontada por Valéria é a quebra no processo de imunização que deveria ser coletivo e não individualizado. “Tem que ter uma direção única em determinado ritmo e coordenado pelo SUS, por meio do Programa Nacional de Imunização.”

Valéria deu o exemplo da fila dos transplantes de órgãos no país, que é feito pela rede pública. “As pessoas não podem furar fila, e é nacional, se você permitir que o setor privado interfira, fura a fila quem pode pagar”, argumenta.  

A pressão social, inclusive entre empresários e classes mais abastadas, para que o governo dê celeridade ao calendário de vacinação é outro ponto que poderá ser afrouxado, com a possível compra do imunizante.

Mesmo com parte minoritária sendo beneficiada pela Lei, podendo ser vacinada pelas vias pagas, Valéria avalia que o problema não será resolvido, porque só se controla a pandemia quando pelo menos 60% da população estiver imunizada. “Os empresários não estão pensando no trabalhador e sim em continuar movimentando a economia que favorece a eles. É um trabalhador em função do lucro dele”, avalia.

“Desde quando o empresário se preocupa com o trabalhador?”

A conselheira de Saúde do Campo Limpo, zona sul da cidade de São Paulo, Ortência Souza Rojo, 62, assim como Valéria, não enxerga boa finalidade nesta Lei. “Desde quando o empresário, um homem rico, se preocupa com o trabalhador? Podemos ver com os salários de fome que eles pagam”, elenca.

“A intenção que eles têm é com eles mesmos, é com o dinheiro deles. A classe está dividida, a classe empresária que tem o dinheiro e a classe operária que faz a máquina fazer o dinheiro”, aponta. “Eu não acredito em boa finalidade, porque os empresários só pensam em dinheiro ou fazem com que a população trabalhe mais, se escravize mais”, alerta.

A conselheira, que é uma mulher negra, reconhece que para quem mora na periferia as coisas não chegam como para os ricos de pele branca. Mesmo com o calendário atual, em sua avaliação, está sendo menos eficaz para idosos da periferia.

Segundo levantamento feito pela Folha de São Paulo, a população com 70 anos ou mais nos distritos periféricos foram menos vacinadas em comparação com bairros nobres.

Nos distritos com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) baixo, nesta faixa etária, 58% dos idosos foram vacinados. Em contrapartida, nos 10 distritos com menor mortalidade, dos quais 8 têm IDH muito alto, 75% receberam o imunizante.

Para Ortência, as energias devem ser empregadas em saúde pública e não em privilegiar o setor privado. “Isso vai colocar o muro entre os que podem pagar e os que não podem vão continuar morrendo, se infectando e passando para outras pessoas. É mais uma discriminação contra nós, mulheres negras”.

Ortência avalia que a medida é um passo à frente para o desmonte do SUS. “Para acabar com o sistema que está à serviço da população mais pobre, periférica. Não é tudo que a pessoa precisa, mas é o que tem, é o que salva”.

A também conselheira do Fórum de Saúde do Campo Limpo, Raquel Plut Fernandes, 68, compactua da mesma opinião. “Essa política é pra matar pobre, tem raça, tem classe. É a política genocida de Bolsonaro de espalhar o vírus”, avalia.

“A única solução é pressão em cima do Bolsonaro, e não querer se salvar sozinho. Até porque, não se salva,”, pontua.

 A quebra de patentes

 A assistente social Valéria defende que,  para viabilizar a imunização a todas as pessoas, é preciso a quebra de patentes da vacina. Esse processo garante o direito de propriedade intelectual, uso e exploração comercial exclusiva. A finalidade seria permitir que os países possam ampliar a produção e garantir atendimento à população.

“O Brasil não participou da reunião mundial que tratou sobre o tema, com posicionamento do governo Bolsonaro contrário a quebra de patentes. A gente vai contra a maré, isso não condiz com todos os princípios de humanidade. E é um absurdo o Governo ter se posicionamento contrário à quebra das patentes, é uma denúncia que a gente faz, tem feito, é preciso quebrar as patentes das vacinas, de uma forma geral”, conclui.

Fonte: Nós mulheres da periferia

https://nosmulheresdaperiferia.com.br/

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