Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
Muito tem se falado nos últimos tempos em um sentimento de amor a pátria amada Brasil, como vaticína o nosso hino nacional. Até onde, no entanto, estamos falando de um sentimento genuíno de nacionalidade? Quais os fundamentos que norteiam o nosso povo nesta grande, inquestionável e recente descoberta de amor a patria ? E bem verdade que ao longo da nossa história tivemos movimentos da sociedade civil organizada que desenvolveram inúmeras ações na defesa da nação brasileira. Ao longo de décadas diversas mobilizações coletivas foram realizadas para promover campanhas em defesa do nosso país.
Ao longo do século XX, um grande número de organizações sociais lideraram verdadeiras cruzadas em defesa dos interesses nacionais. Foi neste período que o nacionalismo esteve em alta na luta política e social, combatendo as inúmeras tentativas de quebra da nossa soberania nacional. Historicamente, o combate nacionalista sempre esteve ligado às forças progressistas e de esquerda no espectro ideológico brasileiro e também em outros países, sobremaneira no então chamado “Terceiro Mundo”. O século passado foi, indiscutivelmente, o século do nacionalismo, sobretudo no que diz respeito ao pensamento crítico político, social e econômico que atuava naquele contexto mundial.
Dentre as muitas campanhas de defesa da nossa soberania, podemos citar como grande exemplo, a campanha do “O petróleo é Nosso” como uma jornada tipicamente de cunho nacionalista. Ela mobilizou importantes segmentos da sociedade brasileira atuantes nas mais diversas áreas de referência institucional nacional. A defesa do nosso petróleo mobilizou forças e lideranças políticas de todas as matizes ideológicas, da esquerda, que nunca admitiu a interferência de potências estrangeiras no Brasil, até uma direita legalista e militar, que não aceitava a entrega do patrimônio que pertencia e continua pertencendo ao povo brasileiro. Esta campanha nacionalista foi, sem sombra de dúvidas, uma das mais bela páginas da nossa história recente.
“O Petróleo é Nosso” , provavelmente é o mais famoso slogan político da historiografia política Brasileira, cunhado pelo então presidente de república Getúlio Vargas, por ocasião da descoberta de extensas reservas do nosso “ouro negro” no reconcavo Baiano, no final da década de 1930, despertando toda sorte de interesses e a sanha imperialista, que contavam com aliados que defendiam a abertura da exploração petrolífera para o capital privado internacional. Getúlio defendia o monopólio estatal do petróleo brasileiro, que terminou por ser o embriao da criação da nossa gigante do setor, a Petrobras, um patrimônio que pertence ao nosso povo até os dias atuais.
Um verdadeiro “cabo de guerra” se formou naquele contexto histórico, entre o que defendiam os interesses capitalistas das grandes potências mundiais, sobretudo das petroleiras norte americanas, na exploração do petróleo brasileiro, a exemplo dos indefectíveis economistas “entreguistas” Roberto Campos e Eugênio Gudin e do lado oposto, na defesa da soberania nacional, o próprio Presidente Getúlio Vargas e militares de alta patente, sem contar com o engajamento de diversos sindicatos e setores de esquerda, contando ainda com o luxuoso apoio entusiasmado do grande escritor nativista Monteiro Lobato, autor do famoso “Sítio do Pica Pau Amarelo”, que escreveu ainda os Livros “O Poço do Visconde” (infantil) e “O Escândalo do Petróleo “, nos quais colocava para o debate a defesa do nosso petróleo, da Petrobrás e, consequentemente, da preservação da nossa independência.
O centro destas discussões não falavam diretamente apenas de um sentido genérico de patriotismo, mas, sobretudo, de uma visão desenvolvimentista nacionalista do Brasil e mais especificamente de uma defesa intransigente da nossa soberania nacional, como dito anteriormente. O sentimento nacionalista tinha uma forte conotação de crescimento econômico, com o fortalecimento da substituição das importações na agricultura e do processo de industrialização brasileiro, com a criação, dentre outras empresas estatais, da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, para produção do aço, que foi fundamental para alavancar a competitividade da iniciativa privada nacional, configurando o verdadeiro patriotismo em defesa da nação.
O que estamos assistindo nos dias atuais é outra coisa totalmente diferente do conceito do que seja o patriotismo, que caminha no sentido contrário da história e dos interesses nacionais. O famigerado discurso do tal “Deus, Pátria e Família ” ou “Deus Acima de Todos , Brasil Acima de Tudo”, não passa de uma grande falácia para enganar os incautos e os mais vulneráveis intelectualmente, numa manipulação hipócrita para enganar a população brasileira. É muito mais uma “patriotice” pautada por uma agenda ultra conservadora de costumes, com viés político, religioso, judiciário, midiático e empresarial distorcido e reacionário.
A base estrutural que manipula parte da opinião pública brasileira, por mais incrédulo que possa parecer, é o tosco movimento bolsonarista, que defende um protofascismo muito mais patológico do que ideológico, em razão do imenso analfabetismo político que caracteriza a extrema direita brasileira e a baixa capacidade cognitiva de seus seguidores, pertinentemente rotulados popularmente como “gado”, com claras limitações para desenvolverem um pensamentos crítico. São os chamados patriotários, que davam expediente no chiqueirinho do ex- presidente e hoje presidiário Jair Bolsonaro, na porta do Palácio do Planalto e que se envolveram na tentativa de Golpe de Estado no 08 de Janeiro.
O pensador e psicanalista italiano Contardo Calligaris definiu a patriotice como um fanatismo exacerbado, “uma exaltação vazia e forçada usada por grupos para justificar ações egoístas e intolerantes para silenciar quem pensa diferente”. A patriotice para mim , tem uma explicação bem mais simplória, sem a sofisticação intelectual de Calligaris: trata-se de de uma junção de um falso argumento que se caracteriza, tão somente, pela junção gramatical de pátria com idiotice. É uma espécie de amor patológico invertido ao país, uma psicopatia coletiva que corrompe o autêntico conceito do que seja o nacionalismo.
Qual outra explicação podemos ter, a nao ser a patriotice, para definir alguém que defende um líder “patriota” que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e que leva para uma manifestação pública uma gigantesca bandeira americana, geralmente com uma bandeira coadjuvante de Israel? Nós dias atuais, com a globalização mundial e a internacionalização da economia, com os países se organizando em blocos políticos, a exemplo dos Brics, o próprio nacionalismo está caindo em desuso, sendo substituído pela moderna concepção de defesa da soberania, no qual um governo comprometido com os interesses nacionais, defende as riqueza e a identidade de seu povo. Infelizmente ainda existe um espaço para “patriotadas” vazias e contraditórias, fruto de um amplo processo de desinformação e manipulação, reforçado pelo uso muitas vezes indevidos das redes sociais de Internet, que “deu voz ao idiota da aldeia”, como bem definiu Umberto Eco.











