Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
O mundo pode estar passando por uma discreta e significativa mudança, não totalmente imperceptível aos olhares mais atentos, que poderá alterar de forma substancial a história da humanidade. Neste momento crítico de colapso sistêmico do liberalismo clássico, que possibilita a ascensão de uma extrema direita em todos os continentes, começam a surgir sinais de fadiga estrutural do capitalismo mundial, precisamente no país que simboliza esta concepção ideológica internacional, tendo como símbolo o fenômeno irreversível da globalização. As contradições de um modelo político, econômico e social, sempre deixa um vácuo por onde a roda da história gira de forma esmagadora e irreversível. A dialética não perdoa nunca e as transfigurações sempre surgem como princípios e imperativos categóricos.
Aqueles mesmos, proferidos por Imannuel Kant, em que afirma para agirmos no sentido de que as nossas ações devam se transformar em uma lei universal como um principio moral, onde as escolhas devam ser realizadas pelo puro dever, em que as pessoas são um fim em si mesmas. Possivelmente são estes sentimentos que talvez, eu disse talvez, estejam impulsionando nos Estados Unidos a ascensão de um movimento, ainda tênue, de que é necessário mudanças profundas no modelo de capitalismo predominante nos padrões norte americano, onde o percentual oficial de pobreza extrema atinge hoje 36 milhões de pessoas, o que representa 10,6% da sua população. Uma contradição para um país que tem um PIB de US$ 32,4 Trilhões, o que perfaz 26,8% do Produto Interno Bruto global.
Neste contexto contraditório que vive o povo americano, em um país construído por amplos fluxos e ciclos migratórios de todos os recantos do mundo, e que hoje enfrenta nas ruas a ICE, uma polícia migratória xenófoba, sem critérios discricionários estabelecidos e discriminatória, se faz realmente necessário uma reflexão crítica mais profunda sobre quais decisões devem ser tomadas no sentido de uma alternância real das estruturas formais do poder. O fato é que começam a surgir rachaduras muito claras na sociedade americana, que expõe uma real possibilidade de avanços de forças até então inimagináveis nas bases do império capitalista internacional. Algumas sinalizações já começam a emergir e a mais evidente delas foi a eleição do atual prefeito de Nova York, o democrata Zohran Mamdani, nascido em Uganda, na África, e integrante da organização política Socialistas Democráticos da América.
A chamada DSA reúne várias tendências progressistas de esquerda e centro-esquerda nos Estados Unidos, com fortes raízes socialistas, trabalhistas e sociais-democratas. Ela nasce sobre os primeiros escombros que começam a aparecer do declínio do império americano. Esta queda já era uma evidência externamente e agora começa a dar sinais de desgaste com o seu próprio público interno. Segundo pesquisa e análise encomendada pelo The Wall Street Jornal, mais da metade da população americana acha que o capitalismo falhou como modelo econômico e social, revelando que 68% dos cidadãos daquele país acreditam na decadência econômica dos Estados Unidos nas últimas décadas. A juventude americana já não se identifica mais com o ufanado patriotismo nacional de outrora.
O tal “sonho americano” já não é mais quase uma unanimidade e apenas 42% dos jovens estadunidenses ainda continuam acreditando nesta utopia. Se existe uma nação hoje totalmente contraditória entre o que prega e a sua realidade é os EUA. Esta novíssima geração no país do “Tio San”, distante da polarização do pós guerra e da divisão geopolítica do período da Guerra Fria, começa a ver o socialismo com simpatia e até como uma alternativa para o colapso do sistema. As pesquisas indicam que 62% dos jovens na faixa de 18 a 29 anos vêm essa alternância de concepção ideológica como o melhor para o futuro do país. Quando restringidos está faixa etária para 18 a 24 anos, este percentual sobe para 53% e até mesmo o comunismo já angaria o significativo número de 38% dos que admiram e se sentem atraídos por esta mudança radical no pensamento imperial do neoliberalismo.
Este pequeno movimento sismico politicamente já está sendo detectado pelos sismógrafos partidários, tanto dos republicanos como pelo dos democratas, onde está abrigada a corrente ascendente que aponta ventos de mudanças, ao menos progressistas, na sociedade americana. A extrema direita em crise na grande nação do norte já começa a dar sinais de preocupação, com o seu chefe mundial Donald Trump afirmando que o avanço pela esquerda representa “a maior ameaça a nossa nação desde a nossa fundação”. Toda esta transformação se iniciou em 2016, quando o Senador democrata Bernie Sanders, identificado com a social democracia, desafiou Hillary Clinton e a elite do partido Democrata pela indicação partidária presidencial e, mesmo sendo derrotado, lançou a semente do sentimento de mudança que estavam presentes de forma latente no país, sob a égide de novas bases, novos atores e novos horizontes políticos.
O sonho do histórico líder sindical Eugênio Debs, aos poucos, pode se transformar em realidade. Debs foi cinco vezes candidato a Casa Branca pelo Partido socialista da América, entre 1900 e 1920, quando alcançou 3,41% da votação, mesmo tendo disputado esta eleição atrás das grandes de uma prisão, por fazer discursos públicos em oposição ao recrutamento das forças armadas e navais de jovens americanos para lutarem na Primeira Guerra Mundial. Os seus jovens sucessores estão ativos na vida pública dos Estados Unidos. Além do prefeito nova-iorquino Mamdani, destacam-se ainda a conceituada deputada descendente de porto-riquenhos Alexandra Ocasio-Cortez, Ayana Presley, eleita por Massachusetts e Darializa Ávila Chevalier, que ganharam a indicação do Partido para líderes históricos do Democratas em suas regiões, acrescentando ainda o nome de Janeese Lewis George, que será a provável futura prefeita de Washington, tendo a distribuição de renda como bandeira principal de campanha. Sinais de que os EUA ja não são mais o mesmo.









