O modus operandi de um Gaslighter e sua satisfação em causar o descontrole de uma mulher

Natércia Lopes – Professora da Uneal e da Semed Maceió

Na década de 40, o cinema estadunidense lançou o filme Gaslight. O termo remete aos lampiões usados à época para iluminação das casas, e, no caso específico do filme, era o equipamento que acompanhava o protagonista para vasculhar a casa da tia. No Brasil, o filme recebeu o título de “À Meia-Luz”, e pode ser facilmente encontrado na plataforma do YouTube.

Assim que se inicia o filme, o marido, Mallen, começa a cortejar outra mulher na frente da esposa, Bella, numa tentativa de fazer com que ela se sinta diminuída e humilhada. Pede para que a outra mulher ensine à Bella a ser bonita como ela. Em outro trecho, ele retira um quadro da sala sem que Bella perceba, e depois a acusa de ter sumido com ele. Ela, por diversas vezes, jura que não o levou. Depois de tanta insistência dele, ela começa a achar que roubou mesmo o quadro.

Em mais uma cena em que o homem tenta fazer com que Bella pense estar louca, ele esconde uma carta endereçada a ela por sua família, mesmo ela sendo avisada que havia correspondência da família pela secretária, ele diz que isso nunca aconteceu, o que a deixa desnorteada, sem saber o que é realidade ou o que é ilusão.

Mallen começa uma relação extraconjugal, Bella desconfia, mas ele mantém a narrativa de que ela está enlouquecendo, que ela está tendo “delírios insanos de uma louca”, numa manipulação emocional para que ela duvide do que vem percebendo. “Você é uma doente”, “desajuizada”, esses termos são proferidos por Mallen e faz parte do abuso psíquico que tenta desestabilizar Bella, fazendo com que ela acredite que é “louca”, “histérica”, “exagerada”, “tumultuada”, “mal-amada”, “solitária”, “causadora de conflitos”, “indigna de ser amada”, “desequilibrada”, “surtada”. Ela tenta explicar que a forma como ele fala e a acusa, deixa-a atordoada, sem palavras, fragilizada, e incapaz de se defender. Mas, nada é capaz de sensibilizar o abusador. Depois ele ameaça o cachorro dela, e ela sai à noite, sozinha, desesperada, tentando salvá-lo… A trama opressora é feita para causar o descontrole feminino.

O homem, bem vestido, bom vizinho, bem relacionado, não esconde só sua personalidade perversa, mas outra identidade. Ele não era nada daquilo que parecia e que dizia ser.

Geralmente, esses abusos são causados por homens próximos à mulher, o que retarda a identificação da violência e causam mais dor emocional, por serem pessoas que poderiam protegê-las.

O filme Gaslight deu origem ao termo Gaslighting, que é uma forma de abuso psicológico em que o abusador distorce as informações para favorecê-lo e faz com que todos duvidem da palavra da mulher. Infelizmente, essa situação não ocorre apenas em relações afetivas.

Para exemplificar uma condição de Gaslighting no ambiente de trabalho, vou usar um caso em que de um lado estava um homem branco, com toda altivez de quem é privilegiado desde o nascimento, voz entonada, se autointitulando doce, amável e bem quisto por todos, acima de qualquer suspeita, numa demonstração explícita de quem cultua o próprio ego. É dessa forma que os gaslighters se apresentam, detentores do equilíbrio, da sanidade, se oferecem para ajudar, e, aparentemente, não são capazes de tramar contra uma mulher, mas seu objetivo é procurar uma oportunidade para constranger, humilhar, e diminuir a sua vítima. De outro lado, estava uma profissional, recém-chegada na gestão, e que pediu ajuda a este colega, que se prontificou a ajudar. Depois de fazer uma operação com ela, mesmo ele sabendo por sua experiência que não deveria fazer naquele prazo, ao invés de alertar a profissional, concluiu a operação e esperou chegar numa reunião com vários gestores para expor o que ele chamou de “erro” dela. E que este “erro” comprometia todo andamento do processo.

Ao expor o “erro” que ele mesmo orientou a mulher a fazer, no decurso de sua narrativa mentirosa e traiçoeira, trouxe uma mensagem bíblica com o intuito de se esconder atrás de uma palavra que todos têm como divina e perfeita para encobrir seus atos cruéis.

Esse caso não trata só de uma questão de desonestidade masculina, é bem mais que isso, refere-se aum homem que não admite que uma mulher esteja em cargo de liderança, que possua mais projetos que ele, e tenha notoriedade científica, então ele busca desqualificá-la, tirá-la do seu caminho, levando-a a acreditar que é a causadora de problemas. Para isso, ele distorce os fatos, omite informações, e faz com que as pessoas acreditem que ela é “maluca”, e, portanto, incapaz de realizar o trabalho corretamente.

Mesmo a mulher tendo razão, numa discussão com um gaslighter, o objetivo é fazer com que os ouvintes duvidem da palavra da mulher, afinal, ele é o anjo da candura, amado por todos, e a mulher anda “muito nervosa”, ela tem trabalhado demais, de domingo a domingo; não tem vida pessoal, e isso corrobora para o perfil da “mulher desequilibrada”.

O sentimento machista é capaz de deixar latente a perversidade e o mau caratismo do homem, e deixa nas mulheres a dor, a indignação e a injustiça. O homem que comete violência contra a mulher tem a sensação de que isso o faz um ser poderoso. Enquanto ele humilha e massacra a mulher, ele toma a posição hierárquica superior, retira do caminho o que é uma concorrência para o sucesso dele, menospreza a capacidade da colega de trabalho e abre espaço para reinar com sua mediocridade sem que ninguém o ameace.

Isso é o que ganha esse tipo de homem com masculinidade tóxica ao fazer com que a mulher fique descontrolada numa situação que ele mesmo provocou.

Por fim, às mulheres, conclamo por sororidade.

Link para o filme: https://www.youtube.com/watch?v=APPjME7hOnM

Justiça nega liberdade para policiais militares acusados de torturar e matar Jonas Seixas

Fabiano Pituba Pereira, Filipe Nunes da Silva, Jardson Chaves da Costa, João Victor Caminha Martins de Almeida e Tiago de Asevedo Lima continuam presos no presídio; a abordagem ocorreu em 2020

Foi negada, nesta quarta-feira (16), a liberdade para os policiais militares acusados no sequestro, tortura e morte do pedreiro Jonas Seixas, em Maceió, após abordagem no ano de 2020. A decisão unânime foi dos desembargadores da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), que negaram o pedido feito pela defesa dos militares.

Fabiano Pituba Pereira, Filipe Nunes da Silva, Jardson Chaves da Costa, João Victor Caminha Martins de Almeida e Tiago de Asevedo Lima devem continuar presos no presídio militar. Em setembro do ano passado, a Justiça já tinha negado o pedido liminar para libertar os policiais.

Em outubro do ano passado e em janeiro deste ano, a Justiça de primeiro grau também negou liberdade para os policiais. O processo tramita na 7ª Vara Criminal da Capital/Tribunal do Júri. A audiência mais recente foi de instrução e julgamento, que ocorreu na última quarta-feira (9). Para irem a júri popular, os réus precisam ser pronunciados.

Em parecer assinado pela procuradora de Justiça Marluce Caldas, o Ministério Público frisou que as prisões encontram-se devidamente fundamentadas na garantia da ordem pública e que os policiais “são agentes públicos, que andam munidos com armamentos fornecidos pelo Estado e, por isso, podem, eventualmente, coagir testemunhas e declarantes, mediante violência ou grave ameaça.”

A procuradora citou ainda que a defesa dos réus afirmou que a vítima não seria pedreiro, e sim, um traficante de drogas. Sobre essa questão, a procuradora alegou que este fato pouco importa, há que o modus operandi é o deve ser levado em consideração. “Tendo em vista que, ao que tudo aponta, aquela [vítima] fora levada a sofrimento intenso e desumano, como forma dos pacientes obterem sua confissão. Por conseguinte, teve sua vida ceifada, a fim de assegurar a impunidade em relação ao referido crime de tortura, bem como seu corpo ocultado.”

Fonte: Gazeta Web

Bolsonaro cortou 12% do orçamento das universidades

(Buenos Aires - Argentina, 06/06/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro durante Transmissão da Live para as Redes Sociais.rFoto: Marcos Corrêa/PR

Recursos para manutenção, investimentos e bolsas caíram de R$ 6 bi para R$ 5,3 bi de 2019 a 2022

O presidente Jair Bolsonaro (PL) iniciou o último ano de seu mandato sancionando um orçamento para universidade federais 12% menor do que aquele reservado às instituições no primeiro ano do seu governo.

Em 2022, as universidades federais terão R$ 5,33 bilhões disponíveis para investimentos, manutenção e bolsas estudantis. O valor é 18% maior do que os recursos destinados às instituições em 2021: R$ 4,51 bilhões.

Ainda assim, é menor do que o orçamento para universidades sancionado pelo próprio Bolsonaro dias após tomar posse como presidente da República, em 2019: R$ 6,06 bilhões.

Desde 2019, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ultrapassa os 20%. Considerando esse índice e o orçamento de 2019, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) aponta que o montante reservado às universidades deveria ser de pelo menos R$ 7,2 bilhões para que mantivesse sua capacidade de compra. Atualmente, ele é 25% menor que isso.https://flo.uri.sh/visualisation/8715186/embed?auto=1A Flourish chart

As conta são referentes só ao orçamento discricionário das universidades. Por lei, o governo é obrigado a transferir às instituições recursos para pagamento de salários, por exemplo. Isso está dentro do orçamento chamado de obrigatório. Já o discricionário é o que vai às universidades e que cabe a elas administrar.

De acordo com Marcus Vinicius David, presidente da Andifes, a redução acumulada desse orçamento já acarretou no corte de bolsas de iniciação científica pagas a alunos, na redução de ações para assistência de estudantes mais pobres e no sucateamento de estruturas.

“No caso da minha universidade, nós tivemos que demitir mais de 300 trabalhadores terceirizados, reduzimos o valor das bolsas pagas a estudantes e o número de bolsas foi cortado”, disse David, que também é reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). “A universidade tinha R$ 40 milhões ou R$ 50 milhões por ano para investimento. Hoje, nós temos R$ 3 milhões.”

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o prédio da reitoria precisa de uma reforma em suas instalações elétricas, mas a instituição não tem recursos para isso. Segundo a UFRJ, há risco de incêndios.

Em 2019, a UFRJ tinha um orçamento discricionário de R$ 389 milhões. Em 2022, tem R$ 329 milhões, e ainda cerca de R$ 20 milhões em contas de 2021 que terão de ser pagos com recursos deste ano.

Presencial vira problema

David afirmou que a redução do orçamento das universidades mantém uma tendência de queda desde 2016. Ele disse que isso está ligado a um contexto político favorável à austeridade fiscal, que surgiu no segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) e ganhou força com a chegada de Michel Temer (MDB) à Presidência e a eleição de Bolsonaro.

Em 2015, as universidades federais chegaram a receber R$ 7,86 bilhões para administrarem. O orçamento de 2022 é 32% menor.

David ressaltou que, de 2019 em diante, os cortes começaram a inviabilizar o trabalho das instituições. Em 2020, a pandemia fez com que universidades adotassem o ensino remoto, o que acabou suavizando o impacto dos cortes.

Em 2022, no entanto, a expectativa é que todas as universidades retomem suas aulas presenciais. Aí, a falta de recursos para manutenção e principalmente para apoio a alunos mais carentes pode fazer diferença.

“Estamos muito temerosos de descobrir, com o retorno presencial, um crescimento muito grande da evasão”, afirmou David, citando a dificuldade que alunos possam vir a ter para manterem-se presentes nas universidades sem a assistência dela.

O presidente da Andifes disse que representantes da Universidade Federal do Piauí (UFPI) já manifestaram preocupação com a evasão neste ano. Lembrou que a Universidade Federal de Goiás (UFG) teve muita dificuldade para sua manutenção em 2021.

O pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, Eduardo Raupp, ratificou a preocupação com o retorno das aulas presenciais em entrevista concedida ao jornal da própria universidade.

“O ano de 2022 será de desafios”, declarou. “A volta das aulas presenciais fará com que as despesas com manutenção básica tenham um aumento significativo. Ainda é difícil prever como faremos este equacionamento”.

STF cobra informações

Na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o Congresso Nacional e o Ministério da Educação (MEC) apresentem, em até 10 dias, informações sobre cortes realizados no orçamento das universidades federais. A determinação foi feita após o Partido Verde (PV) ingressar com uma ação na Suprema Corte para evitar o colapso orçamentário e a pane administrativa das instituições.

David, da Andifes, disse que as universidades sofrem também com corte de orçamento de instituições que fomentam a pesquisa, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O órgão teve, em 2019, R$ 4,19 bilhões a sua disposição. Em 2022, tem R$ 3,83 bilhões reservados no Orçamento da União. O valor, contudo, ainda pode ser suplementado.

Também são afetadas pelos cortes em orçamentos da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que presta serviços de saúde à população usando a estrutura de hospitais universitários federais. Neste ano, Bolsonaro vetou R$ 100 milhões em recursos do Orçamento da União que seriam destinados à empresa.

Para David, isso tudo demonstra a falta de sensibilidade do atual governo com o Ensino Superior. E disse que isso deve comprometer o desenvolvimento do país por anos.

“O Brasil é um país que, para dar um salto econômico e social, precisa de investimento em Educação. Da básica à superior”, disse. “Quando o governo não demonstra sensibilidade com a educação, ele demonstra miopia com o projeto de desenvolvimento da nação”.

David ressalta que, apesar dessa falta de sensibilidade e dos cortes orçamentários, as universidades federais não irão fechar.

“A gente podia parar tudo, mas a preocupação é que talvez seja este o projeto [do atual governo]”, afirmou. “Vamos resistir e manter as universidades funcionando a todo custo”.

Fonte: Pragmatismo Político

O Chile começa a desprivatizar a água

20 de julio de 2019/OSORNO.-Los osorninos marcharon nuevamente bajo la lluvia para protestar por la falta de agua potable para pedir el fin de la concesión de la empresa Essal..Continúa emergencia sanitaria en la ciudad luego de que un derrame de combustible ocurrido hace una semana obligara a la empresa Essal a suspender el suministro de agua potable.FOTO: FERNANDO LAVOZ/AGENCIA UNO.-

Constituinte dá passo importante para tornar públicos os recursos hídricos, hoje controlados por corporações. Lei de Pinochet pode cair. Novo modelo dará atenção às periferias, camponeses e indígenas. O que a mudança ensina ao Brasil

Na última quinta-feira, dia 03 de fevereiro, a Comissão de Meio Ambiente e Modelo Econômico (uma das sete comissões da Convenção Constituinte do Chile) aprovou em votação preliminar o artigo transitório que faz caducar os direitos de aproveitamento e uso da água no país, vigentes atualmente e que foram delegados sob o Código de Águas de 1981.i

A proposta aprovada na semana passada pretende constitucionalizar o uso e a administração das águas que serão regulados “por esta Constituição e pelas leis, e nos territórios indígenas, por seus próprios ordenamentos jurídicos”. Da proposta aprovada consta ainda que:

  • o Estado garantirá a preservação e sustentabilidade das bacias hidrográficas para seu uso, fruição e benefício das atuais e futuras gerações do país;
  • qualquer atividade suscetível de afetar a qualidade e disponibilidade da água e o equilíbrio dos ecossistemas requer autorização especial da autoridade responsável pela gestão da água (…), desde que estejam associados a usos específicos e temporários e que haja um fluxo mínimo para a manutenção dos ecossistemas;
  • os povos e nações preexistentes podem consentir prévia e livremente o uso sustentável de suas águas por terceiros, nos requisitos e condições que livremente definirem, e a priorização dos usos e limites indicados nos artigos anteriores;
  • a existência de um mecanismo permanente, contínuo e coordenado entre os serviços públicos encarregados da execução da política indigenista, com o objetivo de promover a proteção, constituição e restabelecimento dos direitos de propriedade ancestral sobre a água dos povos e nações preexistentes ao Estado de acordo com as disposições permanentes desta Constituição.

Não foi aprovado o dispositivo da proposta prevendo que “as águas encontradas em territórios indígenas são reputadas como tais e são propriedade de comunidades, pessoas físicas e organizações indígenas em geral”.

Foram também aprovadas, entre outras, as disposições transitórias que estabelecem:

  • a caducidade dos direitos sobre a água (em vigor no código de 1981) e sua restituição com duração máxima de dois anos;
  • a perda de validade e eficácia jurídica do Código de Águas em tudo o que for aplicável às normas aprovadas;
  • a redistribuição do uso e administração da água no prazo de dois anos a partir da entrada em vigor da Constituição.

A aprovação da caducidade motivou imediata manifestação do presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Cristián Allendes Marín, que a classificou como uma péssima notícia.ii

Atual Constituição chilena é herança da ditadura militar

Esta aprovação é essencial para alterar o que dispõe a atual Constituição chilena sobre a água. O texto atual, herança da ditadura militar vigente entre 1973 e 1990, na sua única menção à água afirma no artigo 19, nº 24, parágrafo 11, que “Os direitos das pessoas sobre a água, reconhecidos ou constituídos de acordo com a lei, concederão a seus proprietários a propriedade sobre eles”; privatizando o controle e uso da água.

A atual Constituição, portanto, garante a primazia do direito de propriedade, em relação ao direito humano à água e ao esgotamento sanitário, à saúde ou ao meio ambiente.

García Vázquez, pesquisador espanhol, entende que as políticas econômicas de livre mercado, orientadas por Milton Friedman da Escola de Chicago, implementaram um processo de privatização que, nos termos do Código de Águas de 1981, incluiu a água, fazendo com que este Código seja considerado referência mundial pelo tratamento incondicional da água como propriedade privada e mercadoria comercializável.iii

Em recente Relatório, Pedro Arrojo, atual Relator Especial da ONU para os Direitos Humanos à Água e ao Esgotamento Sanitário, ao examinar as tendências que caracterizam a mercantilização da água e avaliar suas implicações nos direitos humanos dos mercados de água que foram legalizados na Austrália, no Chile, na Espanha e nos Estados Unidos, chama atenção para os seguintes elementos comuns a estes países:

  • Separação da água da terra para permitir a mercantilização da água.
  • Desregulamentação da negociação de direitos de uso da água entre usuários e entre diferentes tipos de usos.
  • Transição de tarifas públicas regulamentadas, geralmente para recuperação de custos sem fins lucrativos, para preços de água de mercado.
  • Aumento da apropriação privada de água, marginalização de usuários vulneráveis e desrespeito por terceiros afetados e valores não produtivos.
  • O meio ambiente tende a se tornar apenas mais um ator de mercado, forçando o Estado a comprar direitos hídricos para garantir a sustentabilidade dos ecossistemas.

Arrojo chama atenção que, no Chile, foi o Código de 1981 que desacoplou da terra os direitos de uso da água, para facilitar sua mercantilização. Desse modo, grande parte das vazões dos rios foram atribuídas a grandes companhias hidrelétricas, que desde então podem usá-las ou vendê-las.iv

Código de Águas de Pinochet, reformado, aguarda sanção

O amadurecimento das condições para concretizar as mudanças a tempos pleiteadas pelas organizações populares veio com o resultado das últimas eleições. Depois de onze anos em tramitação, em 12 de janeiro passado, o Senado aprovou por unanimidade a reforma do Código de Águas – instituindo um novo regime jurídico para as águas chilenas. Agora falta apenas a promulgação pelo Presidente da República.

Segundo a Direção-Geral das Águas (DGA), órgão do Ministério de Obras Públicas, a reforma do Código das Águas reconhece o acesso à água e ao esgotamento sanitário como um direito humano essencial e inalienável e que é um bem nacional de uso público, cuja posse e uso pertencem a todos os habitantes, consagrando a prioridade do abastecimento para consumo humano, esgotamento sanitário e uso doméstico de subsistência tanto na outorga como no exercício dos direitos de uso da água.v As principais mudanças em relação aos direitos de uso da água são:

  • Os direitos de uso serão constituídos com base no interesse público, para o qual será necessário considerar a proteção do consumo humano e esgotamento sanitário, a preservação do ecossistema, a disponibilidade de água, a sustentabilidade do aquífero e, em geral, aquelas ações destinadas a promover o equilíbrio entre eficiência e segurança nos usos produtivos.
  • O “Direito de uso na origem” ou destinado à conservação dos ecossistemas é uma inovação. O Ministério das Obras Públicas (MOP) deve estabelecer uma vazão ecológica mínima com o objetivo de assegurar a conservação da natureza e a proteção do ambiente. O Presidente da República terá competência para reservar o recurso para fins de preservação.
  • O direito de uso da água terá caráter temporário e será concedido por meio de outorga. Sua duração será de 30 anos, mas dependerá tanto da disponibilidade da fonte de abastecimento quanto da sustentabilidade do aquífero.
  • Havendo problemas de disponibilidade da fonte, será feito uma redução no exercício dos direitos de uso e a redistribuição das águas superficiais proporcionalmente pelo respectivo Conselho de Vigilância Fluvial ou pelo MOP, mesmo sem decreto de escassez de água.
  • Os direitos previamente reconhecidos ou constituídos, bem como os que foram regularizados pela autoridade competente, continuarão vigentes e somente poderão ser extintos por seu uso não efetivo, falta de pagamento de patentes ou pelo seu não registro no cadastro próprio no prazo de 18 meses. Portanto, pode-se deduzir que estes manterão seu caráter indefinido.

É exatamente a mudança no reconhecimento dos direitos previamente constituídos que a Comissão de Meio Ambiente e Modelo Econômico da Convenção Constituinte está encaminhando. De fato, a implementação do novo regime das águas no Chile depende da revogação dos direitos vigentes atualmente sobre as águas.

No Brasil, iniciativas vão no sentido oposto

No Brasil, com as orientações neoliberais em voga, o que se vê são iniciativas que vão no sentido oposto as que estão ocorrendo no Chile e visam tratar a água como mercadoria.

O projeto de lei nº 495/2017 apresentado pelo Senador Tasso Jereissati (PSDB), pretende alterar a Lei nº 9.433 de 1997, para introduzir os mercados de água no país. Mais grave, o projeto de lei nº 4.546/21, de iniciativa do Executivo, institui a Política Nacional de Infraestrutura Hídrica, trata da organização da exploração e da prestação de serviços hídricos, e cria mecanismos para a entrada do setor privado na produção de água através de infraestruturas hídricas (barragens, adutoras, canais) e de “serviços hídricos”.

Direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário no Chile

Em dezembro último, dando sequência a outras propostas que buscam garantir os direitos à moradia, à vida livre da violência de gênero e à reprodução assistida, um grupo de 16 constituintes chilenos apresentou proposta de norma afirmando que “os direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário são garantias indispensáveis para uma vida digna” e que “todos, sem discriminação, têm direito a água suficiente, aceitável, potável, livre de poluição, água física e economicamente acessível para uso pessoal e doméstico”.

A proposição aponta ainda que “o Estado deve garantir a satisfação desse direito atendendo às necessidades das pessoas em seus diferentes contextos, com especial consideração para aqueles que vivem em territórios rurais, periurbanos e indígenas”.

No Brasil, várias iniciativas de emendas nos artigos 5° e 6° da Constituição Federal que tratam da água e do esgotamento sanitário como direito humano estão tramitando nas duas casas do Congresso Nacional. No entanto, sem maior mobilização, será difícil que venham a ser votadas e promulgadas.

Que os avanços do Chile inspirem a luta pela água no Brasil.

Fonte: Outras Palavras

Ciência e obscurantismo

André Cabral – Historiador e professor

As doenças sempre fizeram parte da história da humanidade, em todos períodos históricos. Na antiguidade, a hanseníase, na idade média, a peste negra provocou 50 milhões de mortos (Europa e Ásia) e na época a Igreja católica difundia ideia que castigo de Deus aos pecados dos Homens. Mas na verdade era falta de higiene e saneamento das cidades, as populações conviviam com os ratos urbanos. Cólera levando a morte centenas de milhares entre 1817 a 1824. Conhecida desde a Antiguidade, teve sua primeira epidemia global e em seguida veio a TUBERCULOSE, 1 bilhão de mortos, de 1850 a 1950; VARÍOLA 300 milhões de mortos – 1896 a 1980, dengue no Brasil e a AIDS nos idos de 1980, onde o mundo foi sacudido pela Síndrome da imunodeficiencia.

Durante o período ditatorial de 1964-1985 o Brasil foi sacudido por um surto de meningite, os militares incentivavam a vacinação, que era obrigatória. Hoje nos deparamos com um governo federal que nega de forma veemente a ciência. O presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, difundem fake news, dificultou a campanha contra a vacinação desde o inicio da pandemia de Covid e de forma irresponsável o governo difundia os medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina , azitromicina e ivermectina   que foram  utilizados em pacientes hospitalizados por conta da Covid-19, onde segundo O COMISSÃO NACIONAL DE INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS NO SUS ”os medicamentos do “kit covid” foram testados e não mostraram nenhum tipo de benefício clínico para os pacientes com Covid-19. “Alguns medicamentos foram testados e não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados”, afirma o documento.”

Grupos antivacinas espalham pelo mundo as ideias contra a vacinação, questionando um dos maiores avanços da saúde mundial, as vacinas. Temos na Espanha, a Liga para a Liberdade da Vacinação. Trata-se de um movimento naturalista que, antes que a liberdade, defende a antiimunização,  segundo o jornal espanhol EL PAÍS Brasil. A figura de maior destaque mundial do movimento é o médico britânico Andrew Wakelfield, em que em 1988 publicou na prestigiosa revista The Lancet um estudo afirmando que a tríplice viral contra sarampo, rubéola e caxumba causava autismo, sendo expulso da Ordem dos Médicos do Reino Unido.

Nos deparamos no contexto do século XXI com a volta do obscurantismo, parece que retrocedemos para idade média, onde alguns afirmam que a terra é plana, negam que o homem tenha chegado à lua e os que acreditam que o ser humano coexistiu com os dinossauros e outras invencionices, será que votamos para o teocentrismo? Onde a intuição católica afirmava que a doença da peste negra era castigo de Deus aos pecados dos Homens, durante a idade média.

A Partir da idade moderna, a classe social que acendia era a burguesia com o desenvolvimento do comércio na Europa, o movimento denominado de Renascimento, onde a razão (Ciência) prevalecia sobre o mito, humanidade começou a ser dotado de razão, desenvolveu as ciências por onde superamos os problemas que afligem a humanidade até os dias de hoje.

Foram as vacinas que superaram as endemias e pandemia em cada recanto da terra. Apesar do sistema capitalista e seus laboratórios terem lucros exorbitantes com as vacinas não podemos perder a perspectiva da racionalidade, mas colocamos a saúde a serviço da maioria dos oprimidos.

Assevera o compositor Raul Seixas em um trecho de letra cambalache “Que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados Contentes e frustrados, valores, confusão”

Médico recebeu 1,3 milhão para defender ivermectina e criticar vacina

Negócio lucrativo: Médico que criticou as vacinas e espalhou maravilhas sobre o ivermectina no tratamento para a Covid-19 recebeu R$ 1,3 milhão de farmacêutica produtora do remédio

O médico português Antonio Pedro Machado, um dos principais defensores da ivermectina como método de tratamento para a COVID-19 na Europa, recebeu, desde 2014, mais de 224 mil euros de uma farmacêutica que produz e fornece o medicamento. A informação é da CNN Portugal.

O pagamento partiu da A. Menarini Portugal – Farmacêutica, S.A., pertencente ao Menarini Group, empresa que fabrica o Ivecop, medicamento à base de Ivermectina.

Ao todo, Machado recebeu 224.184 euros (R$ 1,3 milhão de reais na cotação de hoje) de diversas formas diferentes. Uma parte era por meio de patrocínios para conferências e outra parte em pagamentos por consultorias ao grupo farmacêutico.

Somente um evento do grupo, organizado pelo médico, em 2021, rendeu 119 mil euros para Machado.

Já foi comprovado que a Ivermectina não tem qualquer efeito no combate contra a Covid-19 e o principal órgão em saúde e vigilância sanitária de Portugal, a Autoridade Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed), a Anvisa de Portugal, não recomenda o uso desse medicamento. A vacina é o método mais certo que se tem registro para atenuar a doença.

Diante das denúncias, o médico, também crítico das vacinas, se pronunciou e admitiu que fez trabalhos de consultoria para a Menarini, mas preferiu não comentar se a defesa do medicamento contra o coronavírus era um conflito de interesses.

Fonte: Pragmatismo Politico

Servidores do Detran fazem manifestação por concurso público e realinhamento salarial

Os servidores do Detran realizaram na manhã dessa terça-feira, 15/02, uma assembleia geral para avaliar o quadro da mobilização da categoria e decidir sobre a continuidade das paralisações de advertência. A categoria decidiu por nova paralisação nos dias 16 e 17 e intensificar a mobilização.

Os servidores do órgão também decidiram ir em carreata até a Assembleia Legislativa em busca de apoio para uma mediação dos deputados com o governador Renan Filho (MDB). Na Assembleia Legislativa, os servidores do Detran se juntaram com os aprovados do concurso da polícia civil e militar e pressionaram o governador na saída, que teve que ouvir palavras de ordem e as reivindicações da categoria.

Para Roberto Martins, vice-presidente do Sinsdal, “os servidores deram uma grande demonstração de unidade e força, o que vai fortalecer a paralisação de 48 horas e fazer crescer o movimento.” Para o professor Luizinho, que representou a CUT na atividade, “a luta dos servidores do Detran é justa e o concurso público é necessário para que o órgão continue prestando serviço de qualidade para a população”.

Na pauta da categoria está a realização de concurso público e o realinhamento na tabela salarial.

Presidente da Alesp negociava a entrega de dois hospitais para médico condenado a 200 anos de prisão

Grampos mostram presidente da Alesp, Pignatari, atuando para entregar hospitais a médico condenado a 200 anos de prisão. O médico Cleudson Garcia Montali foi condenado a 200 anos de prisão por liderar uma organização criminosa envolvida no desvio de R$ 500 milhões da Saúde

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Civil registraram uma conversa entre o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), deputado Carlão Pignatari (PSDB), e o médico Cleudson Garcia Montali, condenado a 200 anos de prisão por liderar uma organização criminosa envolvida no desvio de R$ 500 milhões da Saúde.

Segundo o Estado de S. Paulo, Pignatari negociava a entrega da administração de dois hospitais para organizações sociais do grupo de Montali.

No diálogo, Montali presta contas ao deputado de suas ações. 

A conversa foi gravada quando o médico já era investigado pela polícia e pelo Ministério Público Estadual. Ele foi alvo da Operação Raio X, que apurou fraudes na gestão de hospitais de 27 cidades em quatro estados: Pará, São Paulo, Paraíba e Paraná. 

A investigação teve sua primeira fase deflagrada em 2020, mas nasceu dois anos antes. No primeiro ano de pandemia, buscas foram realizadas no gabinete do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). 

No início de 2022, a polícia realizou uma nova fase da operação, desta vez cumprindo mandados de busca na casa do ex-governador Márcio França (PSB). A ação foi vista como política.

Carlão Pignatari, até o momento, não era investigado.

Fonte: Brasil 247

Bolsonaro legaliza destruição de rios da Amazônia

Além de mais uma forma de ataque ao meio ambiente promovida pelo atual governo, medida estimula trabalho em condições análogas à escravidão

Um decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) que determina o estímulo à “mineração artesanal” na Amazônia Legal representa um ataque ao meio ambiente e deve aprofundar as condições análogas à escravidão vivenciadas por garimpeiros na região. A constatação é de entidades e movimentos populares que atuam no tema da mineração, que criticam ainda o lobby de empresários junto ao governo federal.

Publicada no Diário Oficial da União (DOU), nesta segunda-feira (14), a medida explica que a “mineração artesanal e em pequena escala” representa a “extração de substâncias minerais garimpáveis”.

O decreto também cria a Comissão Interministerial para o Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala (Comape), composta por representantes do próprio governo e sob coordenação do Ministério de Minas e Energia. Clique aqui e leia a íntegra do documento.

O Brasil de Fato conversou com Isabel Cristina, integrante da coordenação nacional do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e membro do Coletivo Baixo Amazonas/Tapajós.

Segundo ela, “o decreto atende apenas os interesses do atual governo e, em particular, dos empresários que estão financiando o garimpo ilegal aqui na região amazônica”.

Moradora da região, a integrante do MAM questionou o interesse por trás da prioridade estabelecida à atividade justamente na Amazônia: “No artigo 10, o decreto prioriza a exploração mineral apenas na região amazônica. Ou seja, na Amazônia Legal. Qual é o interesse do governo em relação isso? Simplesmente, oficializar a exploração que já está acontecendo ilegalmente”.

Isabel Cristina aponta ainda que a medida serve também para “oficializar o trabalho escravo e a exploração do trabalho dessas pessoas, que estão necessitadas, e que veem o garimpo como uma alternativa de sobrevivência”.

Sem incentivos para permanecer na agricultura, integrantes pobres de comunidades ribeirinhas vêm abandonando o roçado para se dedicar ao garimpo, que oferece alta e rápida lucratividade, enquanto produz graves danos socioambientais e acentua a histórica desigualdade social na região.

Na visão do MAM, o decreto exclui as comunidades e populações afetadas pelo garimpo e pela mineração ao determinar que “poderão ser convidados representantes de entidades públicas ou de outras instituições para participar das reuniões, mas sem direito a voto nas decisões”.

“Isso serve para fragilizar ainda mais as lutas comunitárias, as lutas dos territórios, ou seja, colocando os indígenas contra os próprios indígenas, os quilombolas contra os próprios quilombolas e as comunidades tradicionais contra as próprias comunidades tradicionais. É um sinal de alerta muito grande. Tempos que aprender e, principalmente, fortalecer as organizações populares de base para enfrentar a organicidade do agrominério”, afirma.

O garimpo na Amazônia

A explosão da mineração ilegal na bacia do Rio Madeira, na Amazônia, ganhou atenção no ano passado e foi detectada em estatísticas por um levantamento do Mapbiomas. Segundo a organização, a área atingida mais do que dobrou entre os anos de 2007 e 2020, saltando de 37,5 para 96,6 quilômetros quadrados, o equivalente a todo o perímetro urbano de São Bernardo do Campo, cidade na região metropolitana de São Paulo. 

“A conservação da Amazônia é um elemento central quando falamos sobre os esforços globais para conter a crise climática e da biodiversidade. A extração do ouro causa sérios impactos no ecossistema e certamente está aprofundando a crise ecológica do bioma”, afirma Carolina Marçal, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace, em reportagem publicada pelo Brasil de Fato em dezembro.

Foto: Brasil de Fato

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