Bolsonaro liberou mais de 1600 agrotóxicos em seu governo. O impacto é devastador para o meio ambiente e a saúde humana. Repostamos reportagem publicada pelo site Carta Campina.
Por Schirlei Alves -Do O Joio e o Trigo
Quando foi convidada, em 2019, a colaborar na pesquisa de um colega da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a imunologista e pesquisadora científica do Instituto Butantan Mônica Lopes Ferreira não fazia ideia das barreiras que seriam impostas à divulgação da descoberta feita em seu experimento: a de que não há “dose segura” de agrotóxicos.
Conhecida pela sua experiência em performar testes com zebrafish – espécie de peixe cujo DNA é 70% similar ao material genético do ser humano –, ela foi contatada por um pesquisador da Fiocruz para submeter embriões de peixes à exposição de dez tipos de agrotóxicos. “Quando ele me procurou, encarei, naquele momento, como sendo mais uma amostra que eu ia testar”, afirma.
Porém, o resultado não foi exatamente o esperado pelo colega. Segundo Ferreira, ele não quis dar publicidade ao achado e também não autorizou a submissão dos dados para publicação. O que aconteceu foi que a dose considerada “segura” pelos órgãos de controle, causou mortalidade nos embriões de peixes. Quando diluída até mil vezes em água, os embriões apresentaram anomalias.
As substâncias submetidas ao teste foram glifosato, malationa, abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox e piriproxifem. Por serem usadas em larga escala no país, o resultado do experimento causou alvoroço.
Essa história coincidiu com o momento em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estava fazendo alterações na classificação dos agrotóxicos, também em 2019. Muitos dos produtos antes considerados como “extremamente tóxicos” pela agência foram rebaixados para categorias menos rigorosas. O então diretor da Anvisa, Renato Porto, e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, chegaram a dar entrevistas contestando o experimento da imunologista.
O herbicida glifosato foi um dos agrotóxicos que teve a classificação de toxicidade reduzida pela Anvisa, embora àquela altura fosse um dos produtos classificados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) como substância provavelmente carcinogênica para humanos; ou seja, capaz de provocar câncer. O Glifosato 480 Agripec, por exemplo, que até então era considerado pela Anvisa “extremamente tóxico” foi reclassificado para “produto improvável de causar dano”. Outra resolução, de 2020, reforçou a manutenção do uso de glifosato em agrotóxicos no país.
De acordo com o painel de monografias de agrotóxicos da Anvisa – ferramenta que permite acesso a informações atualizadas sobre os ingredientes ativos de agrotóxicos em uso no Brasil –, a aplicação de produtos à base de glifosato é permitida em 67 culturas, entre elas arroz, feijão, batata doce e mandioca. A mesma situação ocorre com o inseticida malationa e outros produtos.
A própria Anvisa havia publicado, em 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff, uma nota alertando sobre a classificação carcinogênica de cinco substâncias, entre elas a malationa, a diaziona e o glifosato. Na época, a agência havia se comprometido a verificar os resultados dos estudos e a fazer novas avaliações sobre o uso desses ingredientes.
A Bayer, gigante alemã responsável pela produção do Roundup, principal herbicida fabricado à base de glifosato, é alvo de uma ação movida por um casal em São Francisco, na Califórnia, que afirma ter desenvolvido câncer do sistema linfático depois de ter usado o produto por anos. A Monsanto, que criou a formulação do herbicida e o lançou mundialmente em 1974, foi condenada a pagar R$ 289 milhões ao zelador de uma escola, também na Califórnia. O homem desenvolveu câncer após entrar em contato com a substância. O veredito saiu em 2018 – ano em que a Monsanto foi comprada pela Bayer.
CENSURA É RESPONDIDA COM CIÊNCIA
Menos de um mês após divulgar o resultado do seu experimento, Mônica Lopes Ferreira recebeu um comunicado do Comitê de Ética Animal do Butantan dando conta de que ela estaria suspensa por seis meses sem direito de defesa – o que implicaria em não tocar mais os seus projetos. A justificativa foi a de que a cientista não teria submetido o experimento ao comitê, o que seria proibido.
Segundo Ferreira, porém, não havia necessidade de submissão naquele caso porque o trabalho não havia envolvido animais, mas, sim, embriões com até 96 horas após a fertilização. “Só pode ser considerado animal a partir de 120 horas após a fertilização”, explica.
A cientista conseguiu reverter a decisão do comitê por meio de uma liminar na Justiça. Mas outros fatos ocorreram na sequência, como o cancelamento de convites para determinados eventos, a perda do cargo de diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Butantan e a abertura de um procedimento administrativo pelo instituto, vinculado à secretaria estadual da Saúde de São Paulo.
Liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu decisão do Instituto Butantan à favor de pesquisadora. (Imagem: TJSP)
A pesquisadora afirma que “a única forma que conhece de se manifestar é produzindo ciência”. Por isso, decidiu fazer, com a colaboração de oito colegas do Butantan, uma revisão sistemática de dezenas de estudos publicados por cientistas e produzidos a partir de 27 instituições públicas brasileiras que revelam os impactos dos agrotóxicos na saúde humana. O trabalho, intitulado “Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana nos últimos seis anos no Brasil” foi publicado em março deste ano no International Journal of Environmental Research and Public Health – uma revista científica de pesquisa ambiental e saúde pública, de acesso aberto e revisada por pares. O artigo se debruça sobre 51 estudos que foram publicados em revistas científicas.
“A revisão é para dizer que é possível trabalhar com agrotóxicos dentro das instituições brasileiras, não há problema nisso. Nós não podemos ser perseguidos, precisamos ter liberdade para trabalhar com temas tão importantes para o Brasil”, explica Ferreira.
A cientista e seus colegas identificaram inicialmente 4.141 artigos produzidos no Brasil. Mas alguns critérios de corte foram estabelecidos para reduzir o número de pesquisas que seriam revisadas. Um deles foi o tempo de publicação, de 2015 a 2021. “Escolhi publicações dos últimos seis anos, quando houve uma avalanche de agrotóxicos sendo liberados.”
Os artigos foram coletados das bases de dados PubMed, Scopus, Scielo e Web of Science. As buscas foram feitas por meio de palavras-chave como “pesticidas”, “humanos” e “Brasil”. No primeiro filtro, 381 artigos duplicados foram excluídos. Na sequência, dois revisores fizeram um estudo duplo-cego (quando os autores não sabem quem são os revisores) e selecionaram, de forma independente, títulos, termos de indexação e resumos para identificar artigos relevantes para possível inclusão. As discrepâncias foram resolvidas por um terceiro revisor.
Em uma segunda rodada de seleção, os artigos foram lidos de forma independente por dois revisores que usaram como critérios de inclusão pesquisas desenvolvidas no Brasil envolvendo agrotóxicos, artigos em inglês ou português e pesquisas envolvendo estudos diretos em humanos ou células humanas expostas a pesticidas, incluindo relatos de casos. Os artigos que não se enquadraram nesses critérios foram excluídos.
A partir daí, foram revisados estudos de caso e dados transversais e experimentais de relatos de intoxicação em humanos em decorrência de causas ocupacionais, ambientais e acidentais. Os estudos experimentais correspondem a 76,5% dos trabalhos revisados. Além de Ferreira, assinam a revisão Adolfo Luis Almeida Maleski, Leticia Balan Lima, Jefferson Thiago Gonçalves Bernardo, Lucas Marques Hipolito, Ana Carolina Seni-Silva, João Batista-Filho, Maria Alice Pimentel Falcão e Carla Lima.
A maior parte dos estudos selecionados pela revisão são de áreas que concentram a produção de commodities agrícolas, sendo quase metade deles do Sul (46%) e 28% do Sudeste.
Um dos apontamentos feitos pela revisão é de que os agrotóxicos não são usados apenas em culturas como a soja, o milho e o tabaco, mas estão presentes em várias outras como laranja, café, flores, banana, uva, ameixa, tomate, caqui, maçã, pêssego, morango, kiwi e vegetais.
Os agrotóxicos mais citados nos estudos foram inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os artigos revelam mais de 20 efeitos decorrentes da exposição aos agroquímicos, indo desde reações agudas na pele e no sistema respiratório até doenças crônicas, incluindo anormalidades hematológicas (fatores de coagulação), infertilidade, abortos espontâneos, malformações fetais, doenças neurológicas e câncer. Mecanismos subjacentes a esses efeitos, como ações genotóxicas (alteração do DNA), neurotóxicas (nas terminações nervosas) e desreguladoras do sistema endócrino também foram detectados pelos cientistas brasileiros.
Além de apontar que o uso de agrotóxicos na agricultura está diretamente ligado à saúde humana, Mônica Ferreira e seus colegas esperam que os resultados dos artigos possam ajudar a “direcionar políticas de redução do uso dos produtos químicos e de proteção à saúde da população”.
Procurados através das suas assessorias de imprensa, Fiocruz, Butantan e Anvisa não responderam até o fechamento da reportagem. ( Schirlei Alves é repórter de O Joio e o Trigo.)
Ao preferir ignorar a greve da categoria, JHC enterra seu discurso de que a educação é prioridade no seu mandato.
Massacrados por JHC, o Sinteal e trabalhadores e trabalhadoras da educação de Maceió realizaram uma grande caminhada em uma das principais avenidas de Maceió durante a programação de mais um dia de greve na rede municipal. O protesto que enfrentou sol e chuva é contra a proposta de 4%, a precarização das escolas, e das relações de trabalho e conta com a participação de estudantes, mães e pais da comunidade escolar.
“Exigimos valorização! JHC continua ignorando nossa luta, nos atacando com ações judiciais para impedir que denunciemos o descaso com a educação dessa gestão irresponsável. Nas ruas, estamos recebendo diariamente o apoio da população que sabe a importância de valorizar a educação”, disse Consuelo Correia, presidenta do Sinteal.
Concentrados no CEPA desde às 8h da manhã, manifestantes fizeram um corredor humano com cartazes e muito barulho, chamando atenção de todos os carros que passavam sobre a greve da educação em Maceió. “JHC!! O fim da greve só depende de você!”, gritavam as palavras de ordem.
Dos carros e pedestres, a luta recebeu apoio da população que compartilhou a indignação com o prefeito e parabenizou pela luta. Foram muita buzinas, sinais com a mão, apoios de todas as formas, engrandecendo a luta.
Após algumas horas, o protesto ocupou duas faixas da Avenida Fernandes Lima, uma das principais vias da capital, e seguiu em caminhada até a Praça dos Martírios.
Com muita criatividade, a auxiliar de sala Suelen criou uma paródia de uma música de grande sucesso atual nas redes sociais (Ameaça – Canção de MC Danny, Marcynho Sensação e Paulo Pires). A versão de luta já virou hit da greve e animou a caminhada com muita irreverência. No refrão, todos gritavam “GREVE, GREVE, GREVE, ESTAMOS EM GREVE”.
As panelas, instrumentos musicais e os apitos também marcaram presença no ato, ampliando o alcance das vozes dos educadores. “Estamos em greve e a culpa é de JHC!”, diziam os cartazes e muitas falas ao microfone.
“A categoria está na luta, cada vez mais forte e com mais apoio da população, nossa greve está com visibilidade e tudo o que esperamos é que o prefeito JHC se sensibilize e cumpra suas promessas de valorizar a educação. 4% não aceitaremos, é urgente que ele destrave esse valor e venha negociar”, finalizou Consuelo.
O objetivo da PEC, cujo conteúdo veio à tona em 2021, é evitar que ex-presidentes sejam alvos de prisão quando encerrarem seus mandatos. Uma das ideias defendidas é conceder uma espécie de cargo de senador vitalício aos ex-chefes do Executivo, garantindo a eles foro privilegiado e imunidade parlamentar até o fim da vida.
A proposta de Emenda à Constituição (PEC) já batizada de ‘PEC da impunidade’, feita para blindar ex-presidentes da República com uma espécie de imunidade parlamentar, voltou a ganhar força entre parlamentares aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL), que corre o risco de ser preso assim que perder o foro privilegiado.
De acordo com a jornalista Andréia Sadi, em seu blog, o ‘Centrão’ – grupo político que dá sustentação ao governo no Congresso – vem articulando nos últimos dias a proposta para proteger Bolsonaro de ser detido, caso ele perca a eleição. O mandatário acumula uma série de processos e investigações, na Justiça.
O objetivo da PEC, cujo conteúdo veio à tona em 2021, é evitar que ex-presidentes sejam alvos de prisão quando encerrarem seus mandatos. Uma das ideias defendidas é conceder uma espécie de cargo de senador vitalício aos ex-chefes do Executivo, garantindo a eles foro privilegiado e imunidade parlamentar até o fim da vida.
A medida não passaria de uma concessão do ‘Centrão’ para proteger o presidente e seus familiares caso Bolsonaro seja derrotado, nas urnas, pelo ex-presidente e candidato ao Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Votos válidos
Lula tem registrado vantagem contra Bolsonaro segundo pesquisas de intenção de voto de diferentes institutos. Em junho, Lula obteve 53% dos votos válidos em levantamento do Datafolha. O resultado daria vitória ainda na primeira volta da eleição presidencial, quando são necessários somar metade dos votos válidos mais um para declarar um vencedor ou vencedora.
A mais recente pesquisa do Instituto FSB, divulgada nesta segunda-feira, também mostra que o candidato do PT venceria qualquer um dos adversários em um eventual segundo turno. O ex-presidente tem 54% dos votos contra 36% do atual.
Preocupados com esse cenário, aliados de Bolsonaro vêm articulando a PEC sob a justificativa de que a medida não beneficiaria apenas o atual chefe do Executivo. Líderes do ‘centrão’ afirmaram ao blog que há a possibilidade de costurar um acordo para aprovação da proposta.
Outro objetivo do grupo é usá-la para comprometer também bolsonaristas com uma trégua nos ataques ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Seus patrocinadores condicionam a aprovação da PEC, a dois meses da eleição, a uma espécie de “pacto” com o Judiciário.
Um dos generais condenados utilizou um pregão do Exército para reformar a piscina de casa
O Tribunal de Contas da União (TCU) condenou 28 militares, 19 deles oficiais de alta patente, e entre esses, quatro generais, por desvios de verbas em licitações para obras pública, entre outras situações de corrupção que tiveram os processos abertos entre 2014 e 2020.
O total retirado dos cofres públicos chega aos R$25 milhões mas as multas aplicadas não devem ressarcir mais do que 10% da quantia desviada, totalizando cerca de R$2,9 milhões. As multas aplicadas aos condenados variam entre R$5 mil e R$600 mil.
No período anterior a Bolsonaro, entre 2015 e 2018, o rombo foi bastante inferior ao que foi apurado a partir de 2019. Cerca de R$2,6 milhões foram desviados a partir de 15 militares multados pelo TCU.
O general da multa de R$ 600 mil
A maior multa aplicada pelo TCU foi para o general José Rosalvo Leitão de Almeida, quando era assessor especial do Departamento de Engenharia e Construção (DEC) do Exército.
Foi condenado junto de outro general, Paulo Roberto Dias Morales, – além de três coronéis e um suboficial – por terem realizado conluios com empresas que promoveram fraudes e desvios de verbas públicas de convênios firmados entre o DEC e o Departamento Nacional de Infraestruturas de Transporte (Dnit). Segundo relatório do TCU, valores chegam a R$ 17,5 milhões. O General Morales também teve uma multa robusta, de R$440 mil.
Mesmo com a condenação tendo ocorrido em 2019, o general Leitão continuou em sua função comissionada no Ministério da Defesa até o ano passado.
Os casos dos outros dois generais
Além de Morales e Leitão, também foram condenados os generais José Ricardo Kümmel e Gilseno de Souza Nunes Ribeiro.
Kümmel foi pego utilizando recursos destinados para reparar antenas de oito unidades militares para reformar o imóvel onde morava, incluindo áreas de piscina e churrasqueira.
Para Ministro do TCU ouvido pela Folha, o alto número de condenações deverá servir como um recado aos militares que nos anos de governo Bolsonaro aumentaram exponencialmente sua participação no Executivo, incluindo cargos comissionados e destinados a funcionários concursados.
Pesquisa do Instituto Badra Comunicação divulgada nesta segunda-feira (25/7) mostra que o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), lidera a corrida ao governo paulista, com 41,3% das intenções de voto.
O levantamento indica ainda que o petista pode vencer as eleições no primeiro turno, já que reúne mais votos do que os demais candidatos somados.
Em segundo lugar vem o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 17,9%, seguido pelo atual governador do estado, Rodrigo Garcia (PSDB), com 13,1%.
Na sequência estão Elvis Cezar (PDT), com 2,5%; Vinícius Poit (Novo) e Gabriel Colombo (PCB), com 1,9% cada; Altino Júnior (PSTU), 1%; e Abraham Weintraub (Brasil 35), 0,9%.
Senado e Câmara
Para o Senado, Márcio França (PSB) lidera a corrida, com 28,5%. Inicialmente, ele concorreria ao governo, mas deixou a disputa após acordo entre o PT e o PSB para fortalecer a campanha de Haddad.
Para a Câmara, o já deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) aparece no topo, com 19,8%.
Pesquisa
O Instituto Badra ouviu, de forma presencial, 2.665 eleitores de São Paulo. Os números de registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são BR 06695/2022 e SP 05435/2022. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais.
Publicamos o artigo publicado pelos professores Alberto Handfas e Everaldo Andrade no site da revista Teoria e Debate, como uma contribuição necessário ao debate sobre a grave o Brasil atravessa.
Recuperar a educação, a universidade e a ciência exige Constituinte com Lula
Os membros de uma Assembleia Constituinte devem ser representantes populares eleitos apenas e tão somente para elaborar a nova Carta Magna, votá-la e promulgá-la
A defesa da educação pública, da cultura, da pesquisa científica e da universidade sempre foi um desafio de grandes proporções num país que nunca superou o subdesenvolvimento. Mas na atual e difícil armadilha em que o Brasil foi emboscado, o desafio foi acrescido de entraves adicionais, legais e institucionais impostos sobretudo após o golpe de 2016. São travas que engessarão a ação de qualquer governo que vença as eleições. Superá-las exige um caminho de ruptura democrática para que um futuro governo progressista tenha mínimas condições de implementar um programa que recupere a universidade e a educação públicas brasileiras.
Os movimentos sociais, sindicais e democráticos – nos quais se incluem amplos setores da educação, da universidade, das ciências e da juventude estudantil – devem retomar a luta país afora para derrotar, agora eleitoralmente, Bolsonaro e sua política. E o caminho para tanto é o engajamento total na campanha para eleger Lula presidente!
É necessário reconhecer, contudo, que Lula eleito enfrentará enormes obstáculos (maiores dos que os encontrados em 2002), inclusive constitucionais, para reverter todo o estrago feito nos últimos anos, além de garantir a transformação do país rumo à conquista da soberania nacional, da justiça social e do desenvolvimento – do qual a universidade pública, gratuita, autônoma e socialmente referenciada é parte integrante e essencial. Parte desses entraves já existiam em 2002. Eles frustraram a realização de reformas estruturais, a despeito de avanços realizados nos governos petistas, e acabaram levando ao golpe de 2016. A situação piorou ainda mais após o golpe, com as inúmeras leis e emendas constitucionais regressivas, antissociais e antinacionais que começaram a ser implementadas na “Ponte para o Futuro” de Temer e aprofundadas com as “boiadas” passadas por Bolsonaro e seu Centrão.
A Constituinte 1988
Mas o problema vem de longe. A Carta de 88, a despeito de direitos econômico-sociais formalmente inscritos em vários de seus artigos, manteve intacta, nos capítulos da organização do poder de Estado, as instituições reacionárias, corruptas, antidemocráticas, guardiãs históricas dos interesses das oligarquias, do latifúndio, do financismo rentista e do grande capital, inclusive o internacional. São instituições especializadas na opressão ao povo, sobretudo o pobre e negro, num país com elites que jamais superaram seu passado atávico escravagista, autoritário, violento e colonizado.
Afinal, recordemos, foi exatamente por isso que a bancada parlamentar do PT votou contra a Constituição de 88 e declarou voto por meio de seu líder, Lula – ainda que assinando seu texto, obviamente, por ter participado do processo (Revista Perseu, pp. 184-5).
A Constituinte de 1988 nasceu da transição conservadora pactuada por cima pelas elites, que aceitaram encerrar a ditadura à condição de que o processo fosse controlado e seguro aos seus interesses. As regras dessa Constituinte foram impostas e tuteladas pelas instituições da própria ditadura, ainda intactas. A Carta foi assim elaborada pelos próprios deputados e senadores (eleitos, aliás, pelas mesmas regras casuísticas e antidemocráticas previamente existentes), com vasta maioria conservadora, fisiológica e oligárquica – dominada pelo “Centrão” da época.
Se essa maioria reacionária aceitou várias emendas populares que atendiam, ao menos formalmente, demandas sociais (fruto da pressão das lutas nas ruas dos anos 1980), ela só o fez porque sabia que garantiria na própria Carta, à mão de ferro, a preservação da organização do poder de Estado, que nunca foi de fato democrático em nosso país. Nos capítulos da ordem do poder, preservou-se, no frigir dos ovos, todas as instituições moldadas aos interesses das classes dominantes para seguirem sendo usadas como seus históricos instrumentos privados de controle sobre o povo e contra ele.
Por exemplo, manteve-se o monopólio dos meios de comunicação, o papel interventor das Forças Armadas – o famigerado artigo 142 –, incluindo aí as polícias militares e o aparato repressor (art. 143 e 144). Garantiu-se todos os instrumentos de preservação do grande latifúndio no campo, e o sistema de Justiça elitista, apodrecido e golpista que bem conhecemos. Manteve-se também a estrutura político-partidária, com sistema eleitoral manipulado pelo poder econômico e midiático: o voto do eleitor de estados mais urbanizados e populosos vale muito menos do que o dos representantes de rincões rurais; as candidaturas não são em lista-programáticas, mas pessoais (uninominal)1 e com financiamento bilionário das campanhas. Tudo isso garantiu a perpetuação da maioria oligárquica, conservadora e fisiológica, a qual se divide no Congresso (seu balcão de negócios) entre as “bancadas BBBs”: da bala, do boi, da Bíblia, além da dos banqueiros e da mídia (muito mais endêmicas e ecumênicas). A esquerda, unindo todas as agremiações ligadas a movimentos sociais, (PT, Psol, PCdoB, setores progressistas do PDT, PSB etc.), a despeito de muito mais representativa entre as massas populares, nunca conseguiu obter mais de 20% da Câmara (e bem menos do Senado). E nem conseguirá, se tais regras não forem profundamente alteradas e democratizadas.
Demandas sociais nunca foram plenamente implementadas
Uma vez preservadas as reacionárias instituições, que, ao fim e ao cabo, foram as responsáveis pela implementação das diretrizes constitucionais, parte das conquistas sociais cravadas na Carta de 88 nunca puderam de fato sair do papel. Outra parte, se saiu, o fez de forma limitada e encoscorada. Leis regulamentares para implementar tais conquistas ou nunca foram aprovadas ou acabavam limitando seu escopo.
Por isso, ainda que sejam formalmente obrigações constitucionais, as bandeiras sociais e democráticas – como a educação ou a saúde (SUS), pública, gratuita, universal e de qualidade, as reformas agrária e urbana (garantia da “função social da propriedade”) – até hoje não foram, nem de longe, concretizadas plenamente. Por isso, outro exemplo, boa parte das verbas constitucionais da seguridade social (contribuições do Estado às receitas da Previdência, garantidas nos artigos 194 e 195) nunca foram alocadas, desde a promulgação da Constituição em 1988 (FAGNANI, pp. 19-20). Por isso também, outras reformas estruturais, como as que garantiriam a tributação progressiva ou a soberania nacional – formalmente escritas na Carta – não saíram do papel. Nos mantemos assim dentre os campeões mundiais em desigualdade de renda e de regressividade tributária.
Nem mesmo as garantias democráticas previstas pela Constituição são respeitadas, muito menos zeladas, por tais instituições. O STF, o Judiciário, o TSE, o Ministério Público, o Congresso (para não falar das FFAAs) agem desavergonhadamente como raposas cuidando do galinheiro. Foi, aliás, o que testemunhamos no golpe de 2016, na farsa da Lava Jato ou na criminosa condenação sem provas e subsequente prisão política de Lula, parte nevrálgica da manipulação eleitoral que acabou levando um facínora e sua quadrilha à Presidência da República. Tal atitude está no DNA dessas instituições, que – desde o Brasil colônia – sempre cumpriram esse papel. Foram elas, para ficar apenas em dois exemplos, que avalizaram o envio da gestante Olga Benário à Gestapo, ou o próprio golpe de 1964.
120 Emendas Constitucionais
A preservação na Constituição das instituições reacionárias, herdadas do período pré-88, foi crucial à burguesia, não apenas para manter suas rédeas de poder e para (se dar o luxo de) evitar a implementação (plena, ao menos) de conquistas sociais e populares inscritas na Carta. Tal preservação foi essencial também para que ela pudesse, mais adiante, excluir por completo boa parte desses direitos sociais após sua inclusão na Constituição, neutralizando e mesmo anulando conquistas produzidas pelo enorme esforço das lutas populares.
Logo após a promulgação da Constituição, vários dos direitos sociais e econômicos começaram a ser dela apagados através de emendas constitucionais (ECs) propostas pelos governos e legislaturas congressuais – sobretudo nos períodos de FHC e do pós-golpe 2016. Ao todo, 120 ECs já foram aprovadas. A vasta maioria delas são regressivas, eliminadoras de direitos e garantias sociais ou contrárias à soberania nacional2. A tabela abaixo mostra apenas alguns exemplos mais relevantes de tais ECs.
Educação, universidade e cortes de verbas
As escolas e universidades públicas tornaram-se, de modo geral, um foco de resistência e mobilização desde o golpe de 2016. Mas isso não impediu o avanço, não só de cortes profundos nos fundos e verbas de pesquisa – o que hoje ameaça diretamente o sistema nacional de pesquisas do país –, mas também do sucateamento e destruição da infraestrutura conquistada até esse momento.
As várias ECs que desvinculam receitas de gastos sociais têm levado ao rebaixamento dos limites mínimos constitucionais destinados à educação, permitindo a governos reduzirem verbas abaixo de tais limites ao sabor das exigências do mercado financeiro. Trata-se de uma afronta ao princípio básico do desenvolvimento nacional, que pressupõe estabilidade de recursos ao menos à educação e à saúde, independentemente da fase do ciclo econômico.
A EC-95 é a última e mais perversa de tais desvinculações. Ela, em nome do congelamento por 20 anos de gastos públicos supostamente destinado a um ajuste (“austericídio” de fato) fiscal e ao pagamento de juros da dívida ao rentismo, desvinculou receitas (tributos) que a Constituição obrigava destinar à saúde e à educação.
O gasto mínimo com educação foi assim congelado no valor de 2017, que era o mínimo constitucional que o governo (Temer) tinha de cumprir (antes da PEC): 18% da Receita Líquida da União. Como naquele ano a recessão (2015-17) atingia seu auge, a Receita Líquida (e, portanto, esse 18%) já estava bastante rebaixada. No decorrer dos próximos 20 anos – como a EC-95 impede qualquer elevação real de gastos e como o PIB e a arrecadação de impostos crescerão naturalmente – o valor mínimo obrigatório à educação cairá como proporção das receitas tributárias. Projeções conservadoras apontam para o seu encolhimento de 18% para 11% até 2037 (DWEK et all, p.33).
Isso implica uma enorme queda de gastos educacionais em relação à (crescente) população e ao PIB. Para piorar, há uma parte considerável do gasto federal com manutenção e desenvolvimento do ensino que em 2017 ficou de fora do piso; podendo, portanto, ser reduzida ainda mais nos anos seguintes (idem, p. 32).
Esse “Teto de Gastos” não apenas impedirá novos investimentos (construção e manutenção de edifícios e laboratórios, ou aquisição de equipamentos) de universidades, e escolas públicas. Ele condenará o próprio funcionamento de tais estabelecimentos, incluindo pagamento de contas de luz, água, limpeza ou segurança. Reajustes nos salários de docentes, técnicos e funcionários (já em muito defasados) estão inviabilizados; para não falar dos imprescindíveis novos concursos.
O resultado desses tetos e cortes é que a dotação atual (2022) no Orçamento da União ao Ensino Superior ficou um terço menor do que seu valor de 2015. E para MEC (Educação) como um todo, a queda no custeio e investimento no mesmo período foi de 32%.
Autonomia e democracia
A autonomia das universidades e instituições de ensino se inscreve e só se viabiliza de fato no quadro geral da democracia e soberania nacional. Com a democracia em xeque, na atual situação de ameaças cotidianas às conquistas e liberdades democráticas aceitas (ou mesmo impostas) pelas próprias instituições (judiciais, policiais etc.), abrem-se possibilidades e precedentes de interferências externas ao funcionamento de universidades públicas, institutos federais etc. Nomeações ilegítimas (ou mesmo ilegais), como a indicação de reitores e gestores, ataques à liberdade acadêmica e científica, ou perseguições e assédios que visam minar os pressupostos da vida universitária e acadêmico-científica em geral. E sem universidades e escolas livres, democráticas e autônomas não é possível dialogar com a sociedade, absorver as demandas por ciência, saber, cultura mais profundas da nação para que se possa criar e oferecer as contribuições centrais, estratégicas e fundamentais ao desenvolvimento econômico e social que a grande maioria da população espera.
Além das ECs regressivas aprovadas nos últimos anos, a dominância reacionária do Congresso e demais instituições de Estado levaram à composição de um arcabouço legal frágil (ou mesmo desfavorável) à democracia e autonomia e ao financiamento da universidade pública. A LDB, por exemplo, não garante o pleno respeito aos processos eleitorais internos. Ademais, sobretudo após o golpe de 2016, escancarou-se e disseminou-se a ação arbitrária, desrespeitosa ao devido processo legal e reacionariamente politizada dos órgãos de Justiça, inclusive atentando à autonomia universitária – a revoltante e injusta perseguição que levou à trágica morte do saudoso reitor Cancellier (UFSC) é apenas um dentre tantos exemplos que passaram a multiplicar-se pelo país.
O ensino e a pesquisa frente ao engessamento orçamentário
Ademais, a total impossibilidade de aprovação pelo Congresso de uma reforma tributária progressiva, faz perpetuar-se uma enorme injustiça na distribuição da renda nacional, limitando a capacidade de financiamento do Ensino Público. Mais que isso, ela alimenta também a indústria do lucro fácil no ensino privado – quase sempre desrespeitosa no tratamento trabalhista e acadêmico-pedagógico de seu corpo docente, além de profundamente descompromissada frente às missões indissociadas de ensino, pesquisa e extensão. Pois desvia-se enormes montantes de verbas públicas, com incentivos fiscais e tributários indevidos, a grandes grupos corporativos, altamente financeirizados e multinacionailizados, cujo poderoso lobby não para de crescer.
A legislação cambial e de “Independência” do Banco Central (BC) é outra grave amarra. As leis 14.286/2021 e LC-179/2021, ambas aprovadas na calada da noite e sem qualquer debate público, farão com que o novo governo, eleito pela vontade popular, não tenha mais praticamente nenhum controle sobre a ação do BC. Seu presidente e sua diretoria, indicados por Bolsonaro e visceralmente ligados aos grandes banqueiros privados, ganharam agora mandato garantido até início de 2025 e terão poderes, antes só atribuídos ao Executivo e Legislativo, inclusive para permitir as completas aberturas à dolarização da economia e à (ainda maior) liberalização de fluxos especulativos. Assim, sem mais controle sobre a autoridade monetária e cambial (transferida agora aos bancos privados), o novo governo mal terá instrumentos de política econômica, fiscal e de desenvolvimento.
E sem eles, todos os programas e projetos sociais tendem a se tornar meras ilusões. Como ilusórios também serão a recomposição dos recursos e das condições de trabalho das agências de fomento à pesquisa e das universidades, de sua democracia e autonomia, além da tão necessária continuação da expansão – interrompida no golpe de 2016 – do ensino público superior ou da formação de uma nova geração de cientistas, pesquisadores, intelectuais de todas as áreas do conhecimento da cultura e das ciências.
Por que uma Constituinte é necessária?
Para ter em suas mãos as rédeas da política econômica e implementar programas sociais que permitam recuperar e transformar a nação – e nesse contexto, salvar a universidade pública – o novo governo precisará revogar todo esse conjunto de dezenas (talvez centenas) de leis e ECs que foram impostas desde 1988 (e particularmente desde 2016) para bloquear sua ação. Teria também de enfrentar instituições arraigadamente golpistas e antipopulares – o que só seria possível com uma reforma das instituições que as democratizassem. Teria de aprovar uma série de outras ECs e leis que regulamentem tanto matérias que nunca foram inclusas na Carta de 88 quanto as que até foram (ainda que vagamente) mas nunca lograram ser regulamentadas na legislação ordinária. Matérias que relacionada às grandes, urgentes e estruturais reformas: agrária, urbana, tributária, da mídia, das Forças Armadas, do sistema político, judicial etc.
Mas tais tarefas, muito mais que hercúleas, são impossíveis no quadro do atual Congresso (com as regras eleitorais vigentes) e das demais instituições que imporão a Lula o garrote representado, dentre outros, pelo infame “presidencialismo de coalização”. A maioria parlamentar é visceralmente contra qualquer reforma democratizante, que ameace privilégios e interesses seus e das classes dominantes com as quais está comprometida. A bancada pró-Lula (unindo todos os partidos progressistas) – por mais que nos esforcemos para que cresça nestas eleições – não terá em hipótese alguma nada que se aproxime da metade e muito menos dos três quintos necessários para aprovação (ou revogação), respectivamente de Projetos de Lei e de ECs.
Somente uma Assembleia Nacional Constituinte, Exclusiva, Originária e Soberana pode realizar tais tarefas, incluindo a reforma completa das próprias instituições de poder do Estado. Assembleia essa que nunca existiu na história do Brasil.
A história nos ensina
Nossas Constituições ou foram outorgadas (1822, 1891, 1937, 1967) ou escritas por quem não tinha mandato para isso (1946 e 1988): os parlamentares eram ilegitimamente investidos de poder constituinte e seus trabalhos eram limitados pelas instituições e regras pré-existentes.
A Constituição de 1946, por exemplo, embora tenha formalmente estabelecido direitos individuais, direito de greve e a novidade da estabilidade no emprego após dez anos, manteve a tutela do estado sobre os sindicatos e criou novos entraves ao uso da propriedade para o bem-estar social, retirando inclusive os princípios de progressiva nacionalização (dos bancos, seguradoras, mineradoras e das jazidas minerais) presente nas Constituições de 1934 e 1937. Era a expressão na época dos interesses da minoria, até porque mais da metade da população sequer podia votar, seja por ser analfabeta ou por dificuldades de participação.
Embora a Constituição de 1988 tenha sido escrita por membros formalmente representantes de colégios eleitorais mais amplos do que os de 1946, ela tampouco foi soberana. Tais membros eram de fato parlamentares eleitos por regras viciadas e antidemocráticas, previamente instituídas ainda durante o regime militar. A maioria deles (decorrência da constituinte não ser exclusiva), como se dizia à época, cumpria o papel de deputado (ou senador) pela manhã, de constituinte à tarde e de operador de… lucrativos negócios à noite. Ademais os próprios trabalhos constituintes eram tutelados pelos poderes e entulhos da ditadura – não apenas da mídia e do grande empresariado-latifúndio, mas também do próprio aparato jurídico-militar ainda em pleno funcionamento. Nenhuma ruptura democrática, popular e nacional poderia ser de fato realizada em tal terreno.
Por tudo isso, e partindo da própria experiência histórica brasileira, fica claro que os membros de uma verdadeira Assembleia Constituinte não podem ser os deputados e senadores correntes, nem tampouco quaisquer outros dignitários das demais instituições vigentes.
Como seria uma verdadeira Constituinte soberana?
Longe de termos aqui a pretensão de apresentar uma cartilha pronta, nem tampouco detalhes técnicos processuais (que certamente necessitarão ser elaborados mais adiante, com o auxílio inclusive de especialistas), sugerimos a seguir apenas algumas linhas gerais sobre como poderia se desenvolver uma Constituinte de fato popular e soberana. Partimos de experiências políticas e históricas recentes – cientes de que tal processo é determinado, não por tecnicalidades (jurídicas ou de outra ordem), mas pela própria dinâmica política e concreta do movimento das massas em luta por suas demandas e pela correlação de forças na sociedade.
Os membros de uma Assembleia Constituinte devem ser representantes populares eleitos apenas e tão somente para este mandato específico: elaborar a nova Carta Magna, votá-la por maioria simples e promulgá-la. Feito isso, encerram-se seus mandatos e a Assembleia é dissolvida.
Sendo originária, a assembleia terá o poder (e o dever) de recriar (desde as origens) as demais instituições e poderes de Estado: ao encerrar seus trabalhos, ela viabilizará a convocação de novas eleições (parlamentares, presidenciais etc.) conforme as novas regras constitucionais, que também definirão o estabelecimento das novas instituições, incluindo seus prazos e procedimentos transitórios.
A assembleia será soberana na medida em que seus trabalhos não sofrerão interferência, tutela ou supervisionamento de qualquer tipo dos demais poderes previamente instituídos (Judiciário, mídia, Congresso, FFAAs, grande capital etc.). Para tanto, por exemplo, a eleição da Assembleia Constituinte deve ser realizada com (campanhas de) financiamento exclusivamente público, unicameral, com voto em lista-programático, proporcional (voto de cada eleitor, independente de seu estado, vale o mesmo) e com representação de povos originários.
Há várias possibilidades quanto à forma de convocação da Constituinte. Sabemos que nenhuma delas será fácil (dada a oposição carnal da mídia e demais poderes) e todas exigirão crescente luta popular. Lula, durante sua campanha e – uma vez eleito – após, pode apresentar a proposta. Com o apoio da mobilização e pressão popular do início de seu mandato, ele pode abrir, não apenas o debate na sociedade, mas também o caminho para efetivamente garantir sua convocação.
A correlação de forças permite uma Constituinte progressista?
A luta em questão exige uma grande mobilização popular que vincule as demandas e reivindicações sociais concretas e urgentes (reposição de perdas salariais, emprego a todos, revogação das reformas trabalhista e previdenciária, verbas à Educação e Saúde públicas, reestatização da Eletrobras, volta do monopólio e controle de preços da Petrobras, desmilitarização da polícia e fim da chacina do povo negro e das periferias etc.) com a necessidade de uma Constituinte para garantir seu atendimento. Isso permitirá explicar às amplas massas o sentido e a urgência de uma Constituinte bem como popularizar a campanha por sua convocação imediata3.
Dado o quadro crítico e revoltante em que se encontra o sofrido povo trabalhador brasileiro, tal mobilização é latente e totalmente exequível. Mais que isso, ela é urgente e imprescindível.
E não se trata de algo novo, tampouco isolado. Movimentos similares têm ocorrido por toda América Latina, o caso mais recente foram as poderosas mobilizações populares no Chile. Lembrando que no passado recente ocorreram também grandes processos similares (alguns mais outros menos avançados) na Bolívia, Equador, Venezuela e Peru colocando em debate a via da constituinte como instrumento democrático de mobilizações e transformação democrática estrutural das sociedades. Na França, o candidato majoritário da esquerda, Mèlenchon, incluiu a proposta de uma Constituinte em seu programa nas eleições presidenciais e parlamentares deste ano.
A luta já começou: Constituinte com Lula!
No dia 2 de julho último um ato por uma “Constituinte Soberana com Lula Presidente” ocorreu em São Paulo, com mais de mil presentes, ativistas de movimentos sociais, juventude, sindicalistas e militantes do PT. O debate dentro do PT e entre a militância de esquerda começa a se desenvolver.
A enorme insatisfação popular frente às instituições esgotadas e falidas do país favorece a deflagração de uma campanha pela Constituinte. Mas, obviamente, ela seria em muito facilitada com o engajamento do PT, demais partidos de esquerda e dos movimentos sindicais e populares. As eleições gerais deste ano, aliás, são um importante ponto de apoio. O casamento das campanhas Lula Presidente e pela Constituinte, ao ajudar a apontar uma saída real e factível ao povo, criará uma simbiose mútua que fortalecerá a ambas. Ele permitirá liberar e impulsionar as forças sociais profundas que clamam por mudanças estruturais no país.
E serão essas forças, com Lula, que criarão as condições para a convocação de uma verdadeira Constituinte. Forças que, se colocadas de fato em movimento, também devem alterar consideravelmente a correlação de forças em favor das classes trabalhadoras, da democracia e da soberania nacional. O que permitirá, convocada uma Constituinte, arrancar enormes vitórias e conquistas populares e estruturais.
Alberto Handfas é professor do Departamento de Economia Unifesp
Everaldo de Oliveira é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo
DWEK, E., OLIVEIRA, A., ROSSI, P. (Coord.) Austeridade e retrocesso: impactos sociais da política fiscal no brasil. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, v. 1, 2018.
FAGNANI, E. (Org.) “Previdência: Reformar para excluir?” Dieese/Anpif, 2017.
“O PT e a Constituinte: 1985-1988”. Revista Perseu, Nº 6 – Ano 5. pp. 184-6. Centro Sérgio Buarque de Hollanda da FPA.
notas
1.
No Brasil, o voto nas eleições parlamentares é na pessoa do candidato (uninominal). Isso facilita o voto despolitizado e personalista, favorecendo candidaturas dos famosos midiáticos que escondem seu programa (em geral, favorável à agenda reacionária dos monopólios da mídia). Em vários países, com sistema mais democrático e politizante, o voto é em lista. O Eleitor não vota na pessoa, mas na lista (chapa) de candidatos do partido ou da coligação, de acordo com sua plataforma programática coletiva.
2.
Uma das poucas ECs progressivas, exceção que confirma a regra, foi a que garantiu direitos trabalhistas às “Domésticas”, EC-72/2013. Mas boa parte de seus efeitos foram anulados pela reforma trabalhista (2017 – 2021).
3.
Em 2003, respondendo às mobilizações de junho daquele ano, Dilma propôs em rede nacional a convocação de uma Constituinte da Reforma Política. Pelas costas, nas horas seguintes, seu vice Temer conspirou e esfaqueou a proposta, obrigando a presidenta a abortá-la. Interessante notar, contudo, que pesquisa Datafolha feita na mesma semana apontou que 68% da população era favorável a tal medida. Infelizmente, nunca mais qualquer instituto de opinião repetiu essa pesquisa. Isso, em todo o caso, mostra a enorme potencialidade de uma campanha de massas por uma Constituinte Popular e Soberana.
Importante vitória diante do Estado colonial francês.
Em 29 de junho, a mobilização de organizações sindicais e populares de Guadalupe, departamento ultramarino francês nas Antilhas, apoiada na solidariedade internacional, obteve uma vitória com a completa absolvição do sindicalista Elie Domota, liderança do movimento que há 11 meses sacode a colônia francesa, das acusações fabricadas contra ele para intimidar a luta de todo o povo guadalupense.
Essa vitória diante do Estado colonial francês não deve diminuir a atenção a outros atropelos cometidos contra militantes em Guadalupe, onde o tribunal correcional acaba de condenar a três meses de prisão Gaby Clavier, dirigente do sindicato dos trabalhadores da Saúde UTS que recorre dessa decisão, filiado à UGTG, central sindical da qual Domota foi secretário geral.
São mais de 200 processos judiciais contra lideranças e mais de mil trabalhadores da Saúde que foram suspensos sem salários desde novembro passado, em função de sua participação nas mobilizações. Assim, a vitória que foi a absolvição de Domota reforça a exigência dirigida às autoridades francesas: Tirem as mãos do povo de Guadalupe!
Lula lidera corrida à presidência e alagoanos desaprovam gestão de Bolsonaro, aponta pesquisa Ibrape.
O Instituto Ibrape, em parceria com o Portal CadaMinuto, saiu às ruas entre os dias 21 e 24 de julho de 2022 e fez a segunda das cinco rodadas de pesquisas perguntando em quem o alagoano vai votar para a Presidência da República.
Foram entrevistadas 1.992 pessoas em todas as regiões de Alagoas, e a margem de erro do levantamento é de 2,2% para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no TSE sob os números AL-02634/2022 BR-03465/2022.
No cenário estimulado, a pesquisa perguntou em quem o alagoano irá votar para o cargo de presidente da República nas eleições deste ano.
O ex-presidente Lula aparece na frente com ampla vantagem, sendo a preferência de 57% dos entrevistados. Em seguida, vem Jair Bolsonaro com 30%, Ciro Gomes com 2% e André Janones com 1%.
5% dos entrevistados não souberam responder e 5% votariam em branco ou nulo.
Em relação à última pesquisa Ibrape/CadaMinuto, Lula e Bolsonaro subiram um ponto percentual cada. O candidato petista passou de 56% para 57%, enquanto o presidente passou de 29% para 30%.
André Janones e Ciro Gomes permaneceram com o mesmo percentual de votos, 1% e 2%, respectivamente.
O número de indecisos caiu de 8% para 5%, enquanto os eleitores que irão votar branco ou nulo aumentaram de 4% para 5%.
Avaliação do presidente
A pesquisa Ibrape/CadaMinuto também fez um levantamento sobre como os alagoanos avaliam a gestão de Jair Bolsonaro frente à presidência.
À pergunta “Como avalia o governo do presidente Jair Bolsonaro?”, 61% dos entrevistados responderam ruim ou péssimo, 31% avaliaram como ótimo ou bom e 7% com regular.
1% não soube responder.
Perguntados se aprovam ou desaprovam a gestão de Bolsonaro, 62% dos alagoanos responderam que desaprovam, enquanto 36% aprovam. 2% não sabem ou preferiram não opinar.
Reportagem revela que plataformas estão na cadeia do garimpo ilegal em terras indígenas estimulado pelo Bolsonaro. Prática produz violência, doenças e mortes
As gigantes transnacionais do setor de tecnologia Amazon, Apple, Google e Microsoft compram o ouro ilegal da Amazônia. A participação das big techs na cadeia do garimpo ilegal de ouro seria por meio da aquisição do metal de uma refinaria italiana, que tem fornecedor na floresta amazônica. A informação está em reportagem publicada nesta segunda-feira (25) pela organização Repórter Brasil.
Segundo a reportagem, registros públicos dessas companhias citam a empresa privada italiana Chimet como fonte do ouro usado em seus produtos. Há outras 100 em sua cadeia de suprimentos. O metal é usado em pequenas quantidades em placas de circuito para artigos eletrônicos de consumo. No entanto, nenhuma delas quis comentar o caso.
E essa empresa italiana, segundo os documentos, compra milhões de dólares em ouro de uma empresa brasileira chamada CHM do Brasil. Esta, por sua vez, supostamente adquiriu o metal precioso ilegalmente de garimpeiros. Mas nega. Por meio de advogado, afirma que todo o seu ouro foi adquirido de maneira legal, e que tem documentação.
Polícia aponta contradições
Relatório da polícia citado pela reportagem, de agosto de 2021, afirma que Chimet teria comprado R$ 2,1 bilhões (US$ 385 milhões) em ouro da CHM entre 2015 e 2020. De acordo com um representante da empresa italiana, as relações comerciais com a CHM foram cortadas em outubro passado. Foi quando a polícia realizou batidas em nove estados brasileiros e no Distrito Federal, cujo alvo era a CHM e outros supostamente envolvidos no comércio ilegal de ouro. A Chimet contratou então uma auditoria de seus fornecedores em abril passado e foi novamente certificada por atender aos padrões de fornecimento responsável de ouro.
A reportagem mostra ainda que, embora afirme que atua de maneira legal e que tem documentação adequada, a versão da CHM pode não ser verdadeira. Isso porque documentos da Polícia Federal apontam que a empresa não estava registrada no Banco Central do Brasil como uma entidade legalmente autorizada a comprar e vender ouro. Tampouco aparece no diretório online do banco central essas entidades. Assim, é ilegal para qualquer pessoa, exceto mineradores e suas associações, comprar e vender ouro no Brasil sem tal registro.
Garimpo ilegal maior com Bolsonaro
A empresa alegou que não comprou ouro como instrumento financeiro e que não é necessário registro para comprar ouro como commodity. Já o Banco Central disse à Reporter Brasil que não regulamenta “operações com ouro classificado como commodity”. Em 2020, o Ministério Público Federal descobriu que esse registro é necessário para qualquer pessoa que não seja mineradora para comprar e vender ouro, independentemente de seu uso.
Para completar, segundo a reportagem, registros financeiros de transferências bancárias mostram que a CHM comprou ouro da cooperativa Cooperouri e diretamente de vários indivíduos no sul do estado do Pará, que integra a Amazônia Legal Amazônia. Essa cooperativa tem permissão para minerar em uma área próxima à reserva indígena Kayapó protegida. Mas a polícia descobriu que tanto a CHM quanto a cooperativa compraram de garimpeiros independentes, sem licença.
A mineração ilegal aumentou no Brasil desde a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2019. Com seu discurso e ações, estimula a ação de invasores e busca legalizar a mineração em terras indígenas. O garimpo ilegal leva violência, morte e doenças a esses territórios, desmata florestas e polui rios com o uso de mercúrio
Segundo o Instituto Escolhas, foram extraídas 84 toneladas de ouro ilegal só nos primeiros dois anos do governo Bolsonaro. Um aumento de 23% em relação aos dois anos anteriores, equivalente a quase metade da produção total de ouro do Brasil.