Auditores fiscais resgatam 44 pessoas que usavam bombas caseiras sem proteção em Alagoas

A detonação é a primeira das etapas para a produção do paralelepípedo. Wesley* conta que ela proporciona o descolamento dos blocos de granito do solo, facilitando o corte das pedras. A preparação é caseira: é necessário apenas fios, uma bateria, e a mistura de clorato de potássio com açúcar.  

“Tem alguns que já perderam a mão, outros parte da mão, e alguns perderam a  visão. Por motivo de explosão. Tem que se afastar bastante para ficar longe do risco”, revela o trabalhador.

Entre os dias 3 e 5 de abril, o Brasil de Fato acompanhou uma operação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em pedreiras da região da Zona da Mata Alagoana, historicamente conhecidas pelas condições degradantes de trabalho.

Em uma das pedreiras fiscalizadas, na zona rural de Murici, a 55 km de Maceió (AL), a Inspeção do Trabalho encontrou 44 pessoas em situação análoga à de escravo. Todos homens.

Os trabalhadores estavam em condições degradantes de trabalho, moradia e de submissão a jornadas exaustivas, elementos que caracterizam a escravidão contemporânea, com base no artigo 149 do Código Penal.

“Eles estão debaixo do sol, sem uma proteção adequada, quebrando pedras com risco de lascas virem aos olhos, sem utilizar óculos de proteção, sem luvas, com botas inadequadas ou mesmo de chinelos. Há também outros meios de segurança que não estão sendo verificados, como por exemplo a detonação das rochas. Está sendo feito de forma totalmente improvisada, artesanal e com risco associado muito maior”, explica Gislene Ferreira dos Santos Stacholski, auditora fiscal do trabalho que coordenou a operação.


Sem botas adequadas, trabalhadores usavam chinelos para produzir paralelepípedos / Pedro Stropasolas

“Já houve um consenso dos representantes de todas as instituições de que sim, é uma situação clássica de trabalho análogo à de escravo, em todas as suas formas, principalmente na degradância do trabalho”, completa.

Além da Auditoria Fiscal do Trabalho, a operação contou com representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Federal (PF).

A produção de pedras fica dentro da Fazenda Cansanção, em cinco áreas anexas arrendadas para empregadores vinculados à Cooperativa de Trabalho dos Empreendedores de Extração Artesanal de Granito de Murici (Cooperpedras). O local foi interditado por grave e iminente risco à saúde dos trabalhadores. O pagamento parcial das rescisões dos trabalhadores foi até esta terça-feira (11), e deve chegar a R$ 375 mil.

Marcelo* e o filho trabalham juntos no local. Os dois não estavam registrados. Para o trabalhador, a rotina é de apreensão todas as vezes que o filho vai detonar o granito. 

“Meu menino detona. Eu não acho bom porque eu tenho um irmão que já perdeu dois dedos. Eu mesmo se eu fosse aprender, eu aprendia, mas eu não quero, com medo de um acidente”, pontua o trabalhador”.


Trabalhadores simularam aos auditores fiscais do trabalho como fazem a detonação do granito na pedreira / Pedro Stropasolas

Acidentes de trabalho

O paralelepípedo, principal produto produzido no espaço, chega até construtoras, geralmente por meio de atravessadores e é utilizado na construção civil de municípios do estado de Alagoas, muitas vezes através de licitações públicas. 

No local, além dos explosivos artesanais, a extração de pedras era feita de forma manual e a céu aberto.  Durante a jornada diária de 8 a 9 horas de trabalho, a única proteção contra as altas temperaturas eram estruturas de palha erguidas pelos próprios trabalhadores.

Mas a grande maioria deles não utilizava Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como botas, luvas e óculos. Os empregadores também não ofereciam aos trabalhadores assistência médica e nem existia no local materiais de primeiros socorros. Os próprios trabalhadores descrevem os riscos a que estavam submetidos.

“A pedra corta. A pedra é amolada. Quando você passar a mão, é faca, é golpe, viu? Ela vai lhe arranhar, de qualquer jeito ela vai lhe arranhar. Não tem pra onde. Você andando nela de sandália, pisou numa coisinha em falso, já vai ver a cor do seu sangue. Por isso que eu digo, o serviço de pedra ele é um serviço bom, mas o camarada tem que ter o maior cuidado para não se acidentar gravemente”, explica, Paulo* que estava há 8 meses trabalhando nesta pedreira, e há 17 anos no ramo da pedra.


Durante a jornada exaustiva, as estruturas de palha são as únicas proteções dos trabalhadores contra o sol forte / Pedro Stropasolas

Para Wesley*, a pior parte do processo de produção era bater a cunha, a etapa que vem logo após a detonação. Por vezes, eles passavam 6 horas diárias para fazer esse serviço.  É a partir daí que se tira os “foletos”, para finalmente, moldar os “paralelos”, como chamam os trabalhadores 

“A gente usa uma ferramenta que é conhecida por marrão. E ele tem oito quilos,  o mais desgastante é ele. Quando a gente usa pra bater cunha, para levantar a pedra, é o momento mais desgastante do serviço de pedra. Passou esse período, aí pra gente facilita mais um pouco”, descreve.

Wesley* descreve que onde mais se vê acidente é no corte. “A pedra sempre cai em cima do nosso pé e corta bastante. Também a gente leva alguns cortes na mão, mas são poucos. É mais nos pés né? E às vezes nos olhos quando cai uma lasca”, conta

50 centavos por pedra

O pagamento na pedreira era feito conforme a quantidade de pedras fundidas, sem qualquer garantia de direitos trabalhistas e previdenciários. A cada mil paralelepípedos produzidos, os trabalhadores ganhavam em média R$ 500. O que significa que cada pedra rendia 50 centavos ao trabalhador. Para os poucos com carteira assinada, o valor era ainda menor: 450 reais por milheiro, ou 45 centavos por pedra. 

Toda sexta-feira, eles recebiam o valor correspondente ao que conseguiram produzir na semana. Mas tanto os “clandestinos” como os regularizados ganhavam por produção, sem garantia de um salário-mínimo. A regra era simples. Se não trabalhassem, não recebiam. Além disso, todos, sem exceção, nunca tiveram direito a férias.

Nas usinas de cana, Marcelo* ganhava em torno de R$ 50 por diária. Na extração de pedra, o trabalho é cansativo, mas considera que é recompensado pelo que recebe por semana.

“Sempre uma semana é mais, outra menos. R$ 500, R$ 600, R$ 700. Até R$ 900 conto já fiz por semana”, conta o trabalhador, que tem o rendimento de corte acima de outros trabalhadores.


Os empregados resgatados recebiam 50 centavos por pedra produzida / Pedro Stropasolas

Segundo a fiscalização, há variações que reduziam o ganho mensal dos empregados resgatados. Quando chove, a produção cai, por conta das poças que se acumulam. Além disso, os itens indispensáveis para as detonações, em geral, são as únicas coisas compradas pelos patrões. Os poucos EPIs, alimentos e as ferramentas, ficam a cargo dos trabalhadores. 

Somente o marrão, segundo Wesley*, sai em torno de R$ 300. E dura apenas um período de 3 meses, em média. Fora ele, é preciso martelo, outros tipos de marreta, e os ponteiros. “Eu acho que todos desejam isso. Trabalhar fichado. O homem sem uma ficha ele não é nada”, avalia, se referindo ao registro em carteira assinada.

Em geral, o cálculo dos auditores fiscais do trabalho é que eles conseguiam produzir em média 800 pedras na semana, tendo uma renda semanal entre 360 e 400 reais. No fim do mês, o salário médio variava de R$ 1.440 a R$ 1.600. 

Apesar de considerar o trabalho essencial e importante para a renda da família, Marcelo* admite algumas “falhas” na relação com o patrão. Uma delas é adoecer e não ser pago pelos dias perdidos por conta da doença.

“Uma dor aqui nas costelas, eu passei três semanas sem trabalhar. E nunca recebi nada, não. Isso aí eu não posso mentir”, revela.

“Se fosse registrado, não importa o que fosse, uma queda, ou o que for, a gente está registrado, ele está pagando né? Eu ia receber e poderia ficar encostado naquele período que eu não trabalhei, não é isso? Ser registrado para gente ia ser uma benção”, completa.


“Se realmente legalizar pra gente vai ser uma bênção. Agora também se parar vai tirar o sono de muita gente”, desabafa Marcelo* / Pedro Stropasolas

Alimentação e descanso

Na rotina diária, não havia banheiros, e as necessidades fisiológicas eram feitas no mato em volta. O único apoio para o descanso e alimentação eram barracos com as laterais abertas, montados sob o chão de terra, com pedaços de galho, e cobertura de palha ou de telha Eternit. O local também servia para a forjaria de ferramentas e para abrigar os pertences dos trabalhadores.

Quanto às refeições, alguns traziam o almoço pronto em potes – já que a maioria dos trabalhadores vive na região. Outros se reuniam em torno de estruturas de pedra com grelha e lenha e preparavam as refeições em conjunto, sem geladeira para a conservação dos alimentos: tudo ficava exposto em cima de mesas improvisadas e expostas a insetos.


Fogão rústico onde os trabalhadores faziam suas refeições / Detrae

“Não há uma estrutura também diária de vivências. O que a gente vê são pequenos barracos onde tem um ou outro trabalhador que dorme onde eles cozinham. Estão instalando os seus fogões no chão, com terra e animais passando, comendo os alimentos ali de forma totalmente improvisada e sem asseio e cuidado nenhum”, descreve Stacholski.

Na pedreira, também não havia energia elétrica e nem era fornecida água potável para os trabalhadores. Uma cacimba situada próxima a zona de extração das pedras era a única fonte de água para ser consumida e utilizada para a lavagem das louças e talheres. “Pode não ser muito bem tratada, mas pra gente ainda não causou nenhum dano pra nossa saúde”, pondera Paulo*.


Cacimba era a única fonte de água para os 44 trabalhadores resgatados / Detrae

O trabalhador era um dos que dormiam no barraco precário. Com o trabalho na pedreira, agora interditada, ele pretendia erguer uma moradia na cidade para sair do local antes de o inverno chegar.

“Eu não tenho leitura, e o serviço braçal é o único que quem não tem leitura tem que enfrentar. Se não enfrentar, não come, não paga o seu aluguel, não paga um plano de um celular, não compra um calçado, uma roupa. O serviço braçal ele é bruto”, explica.

“A gente tem que lutar pelo que tá aparecendo. Nós não temos renda. A nossa renda é o nosso braço e a nossa coragem de bater forte. Roubar, ninguém vai. Se roubar, morre, ou vai pra cadeia”, completa.


Alguns dormiam no próprio barraco de madeira erguido pelos trabalhadores / Detrae

Em Murici, 10% da população é ocupada

Wesley* explica que, para além das pedreiras,  há poucas opções de trabalho em Murici (AL): “tem corte de cana, agora pouco chegou a Natura e abriu espaços para as pessoas trabalharem, mas devido ao tempo que eu trabalho em pedreira, minha preferência é a pedra”. 

O trabalhador ganhou seu primeiro salário na extração de pedras aos 14 anos. Hoje, tem 47 anos. Ele criou os três filhos com a renda que tira fazendo paralelepípedos. Um deles, ainda vive com ele.

“Isso vem de família, né? Quando a família já trabalha aí sempre passa pro outro. Né? Eu aprendi com meu tio, meu tio aprendeu com outro e assim sucessivamente. Só que eu não desejo isso pro meu filho. Muitas vezes aqui a gente trabalha e não recebe e se torna uma situação difícil pra nós, chegar num sábado ou no final do mês e não ter dinheiro”, lamenta. 

Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2020, Murici (AL) tem uma população de 28.428 pessoas. Deste total, apenas 10% da população está ocupada e metade das pessoas em idade laboral ativa ganha até 1/2 salário mínimo.

“Tá ruim para uma pessoa sozinho?”

Um dos cinco empregadores vinculados à Cooperpedras na fazenda conversou com a reportagem em condição de anonimato. Era o único presente no dia do resgate. Na sua frente de trabalho, para ganhar mil reais por semana, os trabalhadores devem produzir aproximadamente 2.220 pedras, o equivalente a 317 paralelepípedos por dia. 

“Tem deles aí que ganham até mil reais por semana. Os que menos ganham aqui ganham R$ 300, R$ 350. Aquele velhinho, aquele de camisa verde. Aquele ali já está fraquinho já. Ele não produz muito não. Mas é R$ 270, R$ 280. Essa semana mesmo ganhou R$ 315 reais. Tá ruim para uma pessoa sozinha?”, opina.

Em seu espaço, são 24 trabalhadores, e segundo o empregador, 18 deles são registrados. O empregador alegou também que não deixa faltar EPIs a seus funcionários.

“A hora que eles precisam eu compro bota, eu compro óculos. A caixa de óculos hoje tá em casa, porque eu deixei o carro em casa. Eu mandei trocar a correia do alternador dele, porque eu rodo muito na poeira, de seis em seis meses tem que trocar, aí eu deixei lá. Se vocês quiserem, a gente passa lá e eu mostro. A próxima vez que vocês vierem, vocês vão ver que eu vou comprar até capacete pra eles”, disse o patrão ao Brasil de Fato.


Trabalho na pedreira era feito a base de medicamentos para o tratamento de reumatismo e dores nas articulações, músculos e nos ossos / Detrae

Cooperpedras

Em maio de 2022, a Cooperativa de Trabalho dos Empreendedores de Extração Artesanal de Granito (Cooperpedras) de Murici recebeu do Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas (IMA) a licença de operação para extração de granito para confecção de pedras. A licença é válida até 17 de maio de 2024.

Segundo a fiscalização, o arrendamento da fazenda para a exploração e produção de pedras foi feito diretamente com a Cooperpedras. O valor mensal total é de R$ 3 mil reais, cabendo a cada um dos cinco cooperados o valor de R$ 600.

Apesar do nome, a Cooperpedras não se trata de uma associação de trabalhadores, e sim de um grupo de patrões que fez uma manobra para conseguir legalizar o empreendimento. É o que explica Gislene Ferreira dos Santos Stacholski, coordenadora do Grupo Móvel.

“Na realidade é uma pedreira que foi terceirizada, arrendada para um grupo de cinco empreendedores. No total são cinco empregadores que estão com turmas explorando a pedreira. Esses cinco empreendedores fizeram uma cooperativa para fazer a legalização ambiental da pedreira. E daí, cada um a seu modo, a seu tempo, contratou trabalhadores, que estão aqui hoje e é o que a gente encontrou”, pontua a auditora fiscal.

A Cooperpedras foi criada em 13 de agosto de 2014. Menos de um ano mais tarde, em 27 de maio de 2015, a cooperativa recebeu do IMA a primeira licença de operação para extração de granito para confecção de pedras.

No dia da entrega do licenciamento, o então presidente dos cooperados José Humberto Costa Filho celebrou o feito: “a regularização é importante porque a cooperativa agora poderá trabalhar sossegada”, pontuou Filho, em nota publicada no próprio site do IMA.

A conquista também foi celebrada pela representante do Arranjo Produtivo Local (APL) Extração Artesanal de Granito, que passou a auxiliar a Cooperpedras nas licenças.  “O trabalho do Instituto é de prevenção, não de punição”, pontuou a gestora Glória Velásquez Oliveira, parabenizando o IMA.

Informalidade

A inspeção verificou que, além de facilitar a obtenção e a manutenção da Licença de Operação junto ao IMA, a cooperativa também tinha como função emitir, quando solicitada, as notas fiscais da venda das pedras realizada pelos cooperados. 

A emissão de nota, porém, não é comum. Por isso, a atividade é um negócio especialmente lucrativo para os atravessadores, comerciantes que compram os paralelepípedos das pedreiras de forma informal e fazem o produto chegar às empreiteiras.

“Existe uma cooperativa de empresários, pessoas que se reuniram, que comercializam esse produto que vai principalmente para obras de municípios aqui do estado de Alagoas. O comprador, destinatário deste produto são entes públicos. E a gente vai ter que seguir essa cadeia pra buscar a responsabilização”, pontua Virgínia Ferreira, procuradora do Ministério Público do Trabalho em Alagoas. 


“É uma atividade que hoje eu considero uma das piores aqui no estado de Alagoas”, pontua a procuradora do Ministério Público do Trabalho, Virgínia Ferreira / Pedro Stropasolas

“A cadeia produtiva não é muito ampla, mas nós temos aí um beneficiário final.  Não é muito simples a gente chegar muitas vezes até esse beneficiário, porque as relações são informais. Tanto no sentido empregador e trabalhador, quanto empregador e a cadeia produtiva. São pessoas que muitas vezes não têm CNPJ, não movimentam material com nota fiscal. Então há uma informalidade total. E aí a gente não tem um lastro fiscal pra chegar em quem está acima na cadeia produtiva. Com algum esforço, a gente está conseguindo evoluir”, completa Gislene.

Há 16 anos, o representante da Cooperpedras que conversou com a reportagem vende a maioria de suas pedras para um mesmo atravessador, de União dos Palmares (AL). É um “homem do bem”, segundo o empregador, embora ele gostaria de vender diretamente às construtoras.  

Ele diz que seu espaço produz em torno de 40 mil pedras por mês. Para o intermediário, ele diz vender o milheiro por R$ 750 – R$ 300 a mais do que paga a seus trabalhadores.

“Se a gente vendesse direto para as construtoras era outra coisa, era bom demais. Mas a gente vende pra atravessador. Porque a gente vai nas construtoras e quando chega lá, é a maior dificuldade do mundo. Parece que já é combinado com os atravessadores para vender pra eles já. Só pode ser”, pontua.

“O destino das pedras é quase sempre Maceió, mas também abastece municípios como Barra de Santo Antônio e Paripueira”, completa.

Operação continua

A operação fiscal do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) continua em curso e segue até esta quinta-feira (13). Além do resgate na pedreira em Murici, a inspeção resgatou também 5 trabalhadores em condições análogas à de escravos em uma obra no município de Marechal Deodoro.

Segundo os auditores fiscais do trabalho, eles dormiam no chão, não tinham acesso a instalações sanitárias e nem local para fazerem as refeições. Ainda foi flagrado pela fiscalização, um trabalhador menor de idade trabalhando na obra, que foi afastado.

Além da obra de construção civil, das 5 áreas vinculadas à Cooperpedras em Murici (AL), foram fiscalizadas outras duas pedreiras na cidade de Boca da Mata, onde não ocorreram resgates.


Operação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) também resgatou 5 trabalhadores em condições análogas a de escravos em uma obra no município de Marechal Deodoro / Detrae

Os responsáveis foram notificados pelos auditores fiscais do trabalho a regularizar os vínculos empregatícios e quitar as verbas rescisórias dos 49 empregados resgatados, incluindo o FGTS e as contribuições sociais. No total, a quantia estimada para os pagamentos é de R$ 375 mil. 

Os trabalhadores foram encaminhados ao órgão municipal de assistência social de suas cidades, para atendimento prioritário.

“Cada trabalhador desse já vai ter direito a três meses de seguro-desemprego. As demais verbas rescisórias vão depender se o empregador vai querer pagar e tem condições”, explica Erasmo Lopes Mathias de Freitas, defensor público federal presente no resgate. O seguro-desemprego para os trabalhadores é emitido pela Auditoria Fiscal do Trabalho.

Números em Alagoas

Desde 1995, 846 pessoas foram resgatadas da escravidão contemporânea em Alagoas. Em 2021, o resgate de 6 trabalhadores, também em pedreiras, foi o último registro da escravidão contemporânea no estado. No ano passado, segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho, não houve casos. 

A fiscalização nas pedreiras faz parte de um dos projetos do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Há dois anos, o grupo iniciou um levantamento em todos os estados do Nordeste para identificar possíveis alvos e, desde então, vem ocorrendo operações.

“É a segunda vez que nós fazemos fiscalizações aqui no estado. Há dois anos nós viemos, fizemos resgate de seis trabalhadores e agora nós retornamos pra fazer um outro pedaço do estado”, pontua a coordenadora do GEFM, Gislene Ferreira dos Santos Stacholski.

No Brasil, o número de trabalhadores resgatados da escravidão contemporânea na cadeia produtiva da Extração de Pedra, areia e argila aumentou 17 vezes em 10 anos, segundo o Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil. 

O salto maior ocorreu de 2021 para 2022. No ano passado, foram 122 resgates, ante 17 em 2021, um aumento de 700%.  


Evolução do número de trabalhadores resgatados da escravidão contemporânea na cadeia produtiva da Extração de Pedra, areia e argila / Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil

“A notícia que nós tivemos é que pela proximidade das eleições muitas obras estavam acontecendo, estavam demandando pedra. O que nos chamou atenção foi a proximidade das eleições com o número de pessoas que nós flagramos fazendo esse trabalho”, explica Stacholski.

Em Alagoas, as fiscalizações do GEFM nessa atividade, geralmente, são feitas a partir do monitoramento da própria equipe e não de denúncias. Para a procuradora do Ministério Público do Trabalho, Virgínia Ferreira, esse é um reflexo da informalidade dessa cadeia produtiva.

“É uma atividade que hoje eu considero uma das piores aqui no estado de Alagoas. Nós tivemos uma fase de muita dificuldade no setor da cana-de-açúcar, mas que conseguimos nos anos 1990 melhorar bastante a condição de trabalho. É um grande desafio combater essas condições irregulares nessa atividade econômica das pedras, que cada vez nos surpreende com tantos focos”, pontua Ferreira.

“Nós precisamos receber denúncias, essa atividade a gente simplesmente não recebe denúncia, nem no Ministério do Trabalho, nem no Ministério Público do Trabalho. As pessoas silenciam”, conclui a procuradora.


Denúncias

As denúncias de trabalho análogo ao de escravo podem ser feitas de forma anônima no Sistema Ipê: ipe.sit.trabalho.gov.br.

Fonte: Brasil de Fato

Chile reduz jornada de trabalho de 45 para 40 horas por semana

O Congresso do Chile aprovou, nesta terça-feira, 11, uma lei que reduz a jornada de trabalho de 45 para 40 horas semanais. A nova normativa será implementada gradualmente nos próximos cinco anos. 

Assim, o Chile torna-se, ao lado do Equador, o segundo país da América Latina com uma carga de trabalho de 40 horas semanais, em comparação com as 48 que, por exemplo, estão em vigor em Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, segundo a ONU. Por sua vez, a carga horária no Brasil é de 44 horas semanais. 

“Para as pessoas que estão em suas casas […], que muitas vezes precisam deixar seus filhos ainda dormindo porque devem sair muito cedo, este é um projeto que vai contribuir enormemente para a nossa qualidade de vida”, comentou a ministra do Trabalho, Jeannette Jara. 

O projeto, que já havia sido votado no Senado, foi aprovado na Câmara dos Deputados por 127 votos a favor, 14 contra e três abstenções. 

A proposta “teve muita oposição e muitos consideraram que era impossível […] Priorizou-se uma melhor qualidade de vida”, disse a ministra à AFP. 

A iniciativa foi impulsionada por deputados do Partido Comunista, entre eles Camila Vallejo, ministra secretária-geral de governo, e foi adiante graças a um acordo entre governo e oposição. 

A nova lei, que deverá ser promulgada pelo presidente Gabriel Boric, será implementada de maneira gradual. No prazo de um ano, a jornada será de 44 horas, diminuirá para 42 no terceiro ano de aplicação e para 40 horas após cinco anos. 

“É bom para muitas famílias. Eu estou tendo vida familiar apenas aos 60 anos. Vou chegar em casa cedo para curtir os netos”, afirma Julio Arancibia, um jardineiro de 60 anos. 

Segundo a normativa, os empregadores não poderão diminuir os salários dos trabalhadores e as duas partes poderão negociar uma semana de quatro dias de trabalho e três de descanso. 

No entanto, o benefício não chegará ao trabalho informal, que, no Chile, é de 27,3%. 

“A nós não nos afeta muito [a nova lei]. Trabalhamos igual as horas que temos [atualmente]. Eu sei que não vai nos beneficiar”, lamenta Patricia Paillacan, uma garçonete de 41 anos. 

A América Latina é uma das regiões onde se trabalha mais horas no ano e tem um dos índices de informalidade mais altos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Fonte: A Tarde

STF marca primeiro julgamento de denunciados por atos golpistas de 08/01

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, atendeu a um pedido feito pelo ministro Alexandre de Moraes sobre os atos golpistas e marcou a análise das primeiras 100 denúncias entre os dias 18 e 24 de abril. Os casos serão analisados no plenário virtual, no qual os ministros inserem seus votos em sistema eletrônico.

Em 8 de janeiro, apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) invadiram o Congresso, o Planalto, onde fica o gabinete presidencial, e o STF.

Se os ministros aceitarem as acusações, os denunciados se tornarão réus e responderão por crimes como associação criminosa armada, golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, deterioração de patrimônio público, e dano qualificado pela violência e grave ameaça com emprego de substância inflamável contra o patrimônio da União e prejuízo para a vítima.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) já denunciou 1.390 pessoas por atos antidemocráticos – 239 no núcleo dos executores, 1.150 no núcleo dos incitadores e uma pessoa no núcleo que investiga suposta omissão de agentes públicos.

Fonte: Brasil 247

Três generais terão que se explicar à PF pelo ato golpista de 08/01

Gustavo Dutra de Menezes, Carlos Penteado e Carlos Feitosa Rodrigues serão ouvidos no Inquérito que apura omissão ou participação nos atos terroristas de 8/1

Três generais de divisão (três estrelas) – Gustavo Henrique Dutra de Menezes, Carlos José Russo Assumpção Penteado e Carlos Feitosa Rodrigues – estão entre os 80 militares das Forças Armadas que foram convocados a prestar depoimento na Polícia Federal nessa quarta-feira (12/04). Todos serão ouvidos no Inquérito que apura o envolvimento de autoridades, por omissão ou participação, na preparação e/ou participação dos atos terroristas de 8 de janeiro, quando bolsonaristas atacaram as sedes dos três poderes da República em Brasília.

Dutra era Comandante Militar do Planalto e é apontado como responsável por não ter permitido que a Polícia Militar desmontasse o acampamento de bolsonaristas radicais na frente do Quartel General do Exército, no Setor Militar Urbano, em Brasília. Foi no acampamento que armaram os ataques à praça dos Três Poderes e para lá que os baderneiros retornaram.

A PM do Distrito Federal, tendo à frente o então interventor na segurança pública do DF, Ricardo Cappelli, na noite do mesmo domingo quis prender os manifestantes, mas foram impedidos por tanques estrategicamente colocados na entrada do Setor Militar Urbano por ordem de Dutra.

Já Penteado e Carlos Feitosa faziam parte do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e eram subordinados ao general da reserva Augusto Heleno. Penteado, como secretário-executivo, era o segundo homem na hierarquia enquanto Carlos Feitosa respondia pela Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial. Os dois explicarão os motivos de o GSI ter menosprezados os alertas de que os bolsonaristas armavam um ataque às instituições.

Outro oficial de comando convocado para comparecer à Polícia Federal na quarta-feira foi o tenente-coronel Jorge Fernandes da Hora. Ele comandava o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), responsável pela segurança do Palácio do Planalto e está sendo acusado de nada ter feito para impedir que os manifestantes invadissem o prédio.

Fonte: Brasil 247

Pastor bolsonarista é preso em flagrante por abusar de menor de idade

Ele disse que “precisava ser curado através do sexo”

Um pastor foi preso em flagrante na madrugada desta terça-feira (11) por posse sexual mediante fraude contra uma parente menor de idade na Zona Oeste do Rio. A vítima é uma menina de 14 anos. A PMs, o homem alegou estar doente e que “precisava ser curado através do sexo”.

Cidclay Cabral, da Assembleia com Deus Ministério de Missões de Marechal Hermes, foi flagrado com a garota dentro de um automóvel parado na Rua Baguari, em Vila Valqueire. Militares encontraram duas camisinhas usadas e o banco do carona reclinado.

O crime de posse sexual mediante fraude consiste em ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém por um meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. A TV Globo apurou que o pastor utilizava da fé para abusar a parente: as dores, segundo citou a própria garota, “seriam curadas com a ajuda dela e de Deus pela conjunção carnal”.

A vítima disse que os abusos começaram no ano passado e que o pastor tirou a sua virgindade.

A TV Globo não conseguiu contato com a defesa do pastor.

Fonte: G1

Em tempo: vale conferir o face do pastor: https://www.facebook.com/CIDCLAYCABRAL32

Chapa 2 denuncia manobra que impede associados do Tabuleiro e do interior votarem na eleição do Sinpro

A eleição para o Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro) que está marcada para o dia 14 de abril está pegando fogo. Tudo porque, segundo a chapa de oposição Renova Sinpro, a atual diretoria do sindicato com a conivência da comissão eleitoral estão impedindo o direito democrático dos professores das escolas particulares da parte alta de Maceió e do interior de votarem. E isso, provocou uma revolta geral na categoria que abalou a credibilidade do processo eleitoral.

Segundo a professora Jandete Melo, que encabeça a chapa 2, “com essa medida burocrática, estão impedidos que parte da categoria possa votar no dia da eleição, pois muitos associados não tem como se deslocar até a sede do sindicato para exercerem o direito de voto”.

Ainda segundo a chapa 2, houve a solicitação de urnas fixas e itinerantes para o Tabuleiro e o interior, mas, a comissão eleitoral, composta só por representantes indicados pela atual diretoria, se segou a atender o pleito.

A professora Jandete defende que, independentemente da quantidade de votantes nessas regiões, “é fundamental que todo professor da rede privada participe desse processo”. A professora também questiona que a comissão eleitoral só entregou a lista dos votantes aptos para a chapa 2 no dia 05/04 e que esta contém muitas pessoas que não estão mais na rede privada e que muitos professores que deveriam estar não constam seus nomes nessa lista.

Ainda segundo a professora Jandete, “desta forma, a comissão eleitoral demonstra seu total desinteresse em resolver e ajudar a solucionar os problemas para que o pleito seja o mais limpo e transparente possível”.

Movimentos de luta pela terra ocupam sede do Incra em Alagoas para pedir saída de superintendente “bolsonarista”

Cerca de 1,5 mil integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e de outros movimentos sociais ocuparam, nesta segunda-feira (10), a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Maceió. A liderança do grupo pede a exoneração do atual superintendente do Incra-AL, Cesar Lira, considerado um “bolsonarista raiz”. Para o comando do Incra no estado, as organizações defendem a indicação do engenheiro José Ubiratan Rezende Santana.

A ação é liderada pelo MST em conjunto com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Frente Nacional de Luta (FNL), Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), Movimento de Luta pela Terra (MLT), Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) e Movimento Terra Livre (TL).

Segundo o MST, a ação foi tomada diante da morosidade do governo federal e do Ministério do Desenvolvimento Agrário em tomar medidas administrativas para substituir o superintendente do órgão no estado, além de retomar a pauta da reforma agrária.

“É inaceitável a continuidade de uma gestão bolsonarista. Por que o governo Lula mantém por tanto tempo (mais de cem dias de governo) um superintendente inimigo da Reforma Agrária e com um histórico de violência junto a lideranças e comunidades?”, questionam as organizações em nota conjunta. “Entendemos que o Incra é um órgão estratégico e deve ser um mecanismo na colaboração para retirar o país do mapa da fome”, destacam as entidades.

A ação faz parte do Abril Vermelho, mês no qual o MST relembra o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. Naquele ano, no dia 17 de abril, 19 trabalhadores sem terra foram mortos em uma ação da Polícia Militar no município localizado no sudeste do Pará. Outras 79 pessoas ficaram feridas, duas das quais acabaram morrendo no hospital.

Procurado pela Agência Brasil, o MDA diz que todas as nomeações para as superintendências regionais do Incra e para os escritórios estaduais do ministério estão sendo tratadas na Casa Civil e na Secretaria de Relações Institucionais. 

“O MDA e o Incra têm trabalhado pela retomada do programa de reforma agrária no Brasil, paralisado nos últimos anos, e está aberto ao diálogo com toda a sociedade”, diz a nota, que promete reunião com lideranças dos movimentos sociais do campo de Alagoas para receber a pauta de reivindicações. 

Fonte: brasil 247

Movimentos sem terra fazem homenagem ao professor Sávio de Almeida

Na noite dessa segunda-feira (10/04/23) os movimentos de luta pela terra Frente Nacional de Luta (FNL), Movimento de Libertação dos Sem Terra, (MLST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Movimento, Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), fez homenagem ao ex-professor da UFAL Sávio Almeida, falecido recentemente, no acampamento da Praça Sinimbu em Maceió, onde os movimentos estão acampados desde o último domingo (09/04).

Com mais de 2.000 famílias de quase todas regiões do estado (Jequiá da Praia, Junqueiro, Campo Alegre, Teotônio Vilela, Arapiraca, Coruripe, União dos Palmares, Branquinha, Joaquim Gomes, Murici, Capela, Cajueiro, Jundiá, Campestre, Maragogi, Matriz de Camaragibe, São Luiz do Quintude, Novo Lino, Messias, entre outros) o movimento ganha força na luta pela reforma agrária em Alagoas.

Retomada de programas e revisão de medidas marcam 100 dias de Lula

Governo também atuou para recuperar imagem internacional do país

O terceiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva completa 100 dias nesta segunda-feira (10), data que será marcada no governo por balanços e anúncios de novas medidas. Em pouco mais de três meses, o destaque da gestão foi, principalmente, a retomada de programas sociais que fizeram sucesso em gestões passadas do próprio presidente e da ex-presidenta Dilma Rousseff, mas que haviam sido abandonados ou tiveram forte redução orçamentária nos últimos anos. Outras promessas e metas de campanha ainda dependem de mais tempo e do Congresso Nacional para deslanchar. 

“Conseguimos chegar aos 100 dias cumprindo um objetivo que o presidente Lula nos deu, [que é] devolver ao povo brasileiro programas, ações, direitos que o povo teve, mas que, em determinado momento, foram retirados. Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Mais Médicos e tantos outros, que são programas que têm uma memória afetiva da sociedade”, afirmou o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Paulo Pimenta, em entrevista à TV Brasil.

O governo também buscou desfazer ações ou omissões do governo anterior, como o restabelecimento de restrições sobre aquisição de armas e munições, além do lançamento de uma campanha nacional de vacinação. Os atos golpistas do dia 8 de janeiro, evento que entrou negativamente para a história do país como grave tentativa de ruptura institucional, teve como reação do governo uma intervenção na segurança pública do Distrito Federal e, posteriormente, o lançamento de propostas para endurecer a legislação sobre crimes contra o Estado Democrático de Direito.

No plano internacional, Lula retomou o diálogo internacional, que havia ficado estremecido com muitos países, chegando a se reunir presencialmente ou por contato telefônico com cerca de 30 chefes de Estado e de governo. As primeiras viagens internacionais, para a Argentina, o Uruguai e os Estados Unidos, foram os pontos altos dessa guinada. O país também foi reintegrado a blocos de países como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-americanas (Unasul), além de recuperar posições históricas do país em organismos internacionais, incluindo a própria Organização das Nações Unidas (ONU).

Na economia, a principal medida tomada nesse período foi a apresentação do arcabouço fiscal, com propostas de novas regras para as contas públicas e controle da dívida do país, que deverão substituir o chamado teto de gastos. O texto, no entanto, ainda precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional.

O novo governo também freou a privatização de empresas públicas consideradas estratégicas, uma das promessas de campanha de Lula. Também foi destaque o fechamento de um acordo com servidores públicos para reajuste de 9% nos salários

Agência Brasil reuniu, a seguir, as principais medidas de 100 dias do governo, abrangendo programas sociais, economia, segurança pública, relações internacionais, meio ambiente, direitos humanos, saúde e educação, entre outras.

Programas sociais

A área social foi, de fato, o principal foco nas ações de retomada empreendidas por Lula nesta primeira fase. Alguns desses programas, como o Bolsa Família no valor de R$ 600 mais o adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos de idade, já está completamente em vigor desde o início de março. Outros programas, como Mais Médicos, relançado oficialmente há menos de um mês, ainda dependem de contratações para que os atendimentos cheguem efetivamente na ponta.

“Naturalmente, existe uma ansiedade, por parte da sociedade, que, muitas vezes, não é o ritmo que as pessoas gostariam que acontecesse. O programa Mais médicos, por exemplo, tem que ter um edital, são 15 mil vagas”, exemplificou Paulo Pimenta.

Também é o caso do programa Minha Casa Minha Vida, que vai dar o tom da política habitacional do governo, que tem a meta de contratar 2 milhões de casas até o fim do mandato.

Outro ponto de destaque nesta retomada é o relançamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O novo formato, recriado a partir de medida provisória, focará em ampliar a produção proveniente de povos indígenas, quilombolas, assentados da reforma agrária, negros e mulheres. O PAA foi considerado, durante governos petistas anteriores, um dos principais programas de combate à miséria e um dos responsáveis por ter tirado o país do Mapa da Fome da ONU.

Outra ação lembrada nesses primeiros meses é a reativação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que havia sido desativado no início da gestão anterior, em 2019. O colegiado é um órgão de assessoramento da Presidência da República e um espaço institucional para a participação e o controle social na formulação, no monitoramento e na avaliação de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional e combate à fome.

Populações tradicionais

Uma das primeiras crises do governo Lula foi justamente a situação vivida pelo povo yanomami, em Roraima, em consequência da presença do garimpo ilegal na região, com graves impactos sociais e na saúde. O governo precisou agir rápido em diferentes áreas para estancar o problema.  

Em 100 dias de governo, Lula também retomou a política de reconhecimento e titulação de territórios tradicionais quilombolas. O governo também revisou regras que restringiam a autodeclaração dessas comunidades como remanescentes de africanos escravizados no país. Há ainda uma expectativa pelo anúncio de demarcação de novas terras indígenas, o que deve ocorrer nas próximas semanas.  

Saúde

Na saúde, o relançamento do Mais Médicos buscou reafirmar uma marca conhecida de governos petistas. No entanto, os efeitos diretos e indiretos da pandemia de covid-19 fizeram o Ministério da Saúde lançar uma nova campanha nacional de vacinação para reduzir os baixos índices de cobertura, bem como um plano para reduzir a fila de espera por cirurgias, exames e consultas no âmbito do Sistema Nacional de Saúde (SUS).

Ao fazer um balanço dos 100 dias da posse de Lula, e no contexto da gestão da ministra Nísia Trindade Lima, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Conselho Nacional de Saúde (CNS) veem avanços e acertos nos primeiros passos.

Uma medida transversal, que poderá ter impacto geral na saúde em longo prazo, é a edição de decretos que mudam o marco legal do saneamento básico. Entre as mudanças está o fim do limite de 25% para a realização de Parcerias Público-Privadas (PPP) pelos estados. Com isso, as empresas estatais poderão manter e ampliar novos contratos, além de estimular a participação da iniciativa privada. A ideia é suprir uma cobertura de saneamento que soma mais de 100 milhões de habitantes no país.  

Atendimento de paciente por profissionais do Mais Médicos. Novas adesões de municípios podem ser feitas a partir de hoje
Atendimento de paciente por profissionais do Mais Médicos. Novas adesões de municípios podem ser feitas a partir de hoje – Divulgação/Portal Brasil

O governo também restaurou a política de desenvolvimento industrial da saúde, com a expectativa de produzir 70% dos insumos do Sistema Único de Saúde no país. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a ação recupera as políticas públicas para a reindustrialização nacional, a redução da dependência produtiva e tecnológica do mercado externo, para o financiamento da ciência, tecnologia e inovação e para o acesso universal ao SUS.

Meio ambiente

Na área ambiental, a retomada do Fundo Amazônia, que estava paralisado desde o governo anterior, se destaca entre as ações de preservação ambiental. Com mais de R$ 5,4 bilhões em recursos, o fundo deverá financiar, nos próximos anos, projetos de proteção a povos indígenas, de controle do desmatamento, combate ao garimpo ilegal e promoção do ordenamento territorial da região.

Vista aérea de floresta e rios da Amazônia
Vista aérea de floresta e rios da Amazônia – Valter Campanato/Agência Brasil

O governo federal também retomou ações de comando e controle. O número de multas por desmatamento e outras infrações na região amazônica, por exemplo, no primeiro trimestre de 2023, aumentou 219%, se comparado à média do mesmo período do período de 2019 a 2022. Os dados são do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Educação

Na educação, o governo federal oficializou reajuste nas bolsas de pesquisa, com variações de 25% a 200%, entre bolsas de graduação, pós-graduação, iniciação científica e Bolsa Permanência. A medida era uma das principais promessas de campanha para o setor.

Também foi reajustado o valor do repasse a estados e municípios para custear a merenda escolar, em aumentos que chegaram a 39%.

A suspensão por 60 dias da implementação do Novo Ensino Médio (NEM), criado em 2017, também foi destaque na área de educação nos últimos dias. O Ministério da Educação (MEC) suspendeu os prazos de parte do cronograma nacional de implementação da nova etapa do ensino básico e aguardará a conclusão da consulta pública para avaliação e reestruturação da política nacional sobre o ensino médio. A medida foi bem recebida por entidades e especialistas.

Direitos humanos

Na área de direitos humanos, os primeiros 100 dias de governo foram marcados pela recuperação de um diálogo social e fortalecimento de políticas para mulheres, população negra, comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiência, além da agenda de memória e reparação dos tempos da ditadura.

Uma das novidades, por exemplo, foi o lançamento do novo canal do Ligue 180, de denúncias de violência contra a mulher, via WhatsApp.  

Rio de Janeiro - Grupo participa de caminhada, organizada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, pelo fim de todas as formas de violência contra a mulher (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Rio de Janeiro – Grupo participa de caminhada, organizada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, pelo fim de todas as formas de violência contra a mulher. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

No combate ao racismo, o presidente da República assinou lei que equipara injúria racial ao crime de racismo. A discriminação torna-se crime imprescritível. O presidente Lula também sancionou a Lei nº 14.519, de 5 de Janeiro de 2023, que institui o 21 de março como o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. A sanção presidencial foi considerada “um marco histórico” pela Fundação Cultural Palmares (FCP).

Mais recentemente, em 21 de março, o presidente Lula assinou decreto que reserva 30% dos cargos em comissão para negros e indígenas.

Segurança pública

Nos 100 primeiros dias de governo, um turbilhão de eventos fez do Ministério da Justiça e Segurança Pública protagonista de boa parte das principais agendas do governo federal. A pasta teve que lidar com as consequências da tentativa de golpe no dia 8 de janeiro, incluindo a intervenção no governo do Distrito Federal; além de aspectos da crise humanitária envolvendo o povo yanomami, os ataques criminosos no Rio Grande do Norte e o combate ao trabalho escravo em vinícolas do Rio Grande do Sul.

Outra agenda envolveu o enfrentamento em uma força-tarefa contra violência nas escolas, especialmente após dois episódios de massacres ocorridos nas últimas semanas. Coube ainda ao Ministério da Justiça a responsabilidade de começar a desfazer uma das principais políticas do governo anterior – os decretos que flexibilizaram o acesso a armas e munições. Além da revogação das regras até então em vigor, a pasta iniciou amplo processo de recadastramento de armas e abriu consulta pública para definir novos critérios de concessão de posse e porte.

Relações internacionais

A agenda da diplomacia internacional foi, sem dúvida, uma das áreas prioritárias do presidente Lula nos primeiros 100 dias de seu terceiro mandato. Além de reinserir o país em foros regionais importantes, como a Unasul e a Celac, o presidente buscou restaurar pontes com parceiros históricos e estratégicos do país, como a Argentina, destino de sua primeira viagem internacional.

Lula também se reuniu, em Washington, com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em fevereiro. Nesta semana, o presidente viaja para a China, maior parceiro comercial do Brasil. Em maio, no Japão, participará como convidado especial da Cúpula do G7, grupo que reúne as sete economias mais desenvolvidas do planeta.

Economia

Na economia, a tentativa de recuperar o emprego e a renda em um cenário de juros altos colocou em choque posições do governo, manifestadas pelo Ministério da Fazenda, com a política monetária do Banco Central. Do ponto de vista fiscal, os primeiros 100 dias também foram marcados pela expectativa de apresentação das novas regras fiscais de controle das contas públicas do governo, que vêm sendo chamadas de arcabouço fiscal. Apresentado no fim de março, o novo arcabouço combina uma regra de crescimento de gastos atrelada ao crescimento da receita líquida e uma banda de metas de resultado primário. O texto será concluído até esta terça-feira (11), quando deverá ser enviado ao Congresso.

Em apenas cerca de três meses, a equipe econômica também teve de adiar despesas ou arranjar recursos para cumprir medidas decididas pelo governo. Por falta de recursos no Orçamento, o aumento do salário mínimo para R$ 1.320 foi adiado para maio. O dinheiro virá da revisão de cadastros irregulares no Bolsa Família.

O Ministério da Fazenda também teve de encontrar soluções para cumprir uma promessa de campanha: a correção da tabela do Imposto de Renda e a elevação da faixa de isenção para R$ 2,6 mil. Os recursos virão da regulamentação das apostas esportivas online, que deverão pagar Imposto de Renda, com as empresas devendo pagar outorgas ao governo. A promessa de Lula, de isentar a a faixa que ganha até R$ 5 mil de salário, no entanto, só deve ocorrer no fim do mandato.

Um ponto celebrado pela equipe econômica nestes primeiros 100 dias foi o fechamento de um acordo, entre União e as unidades da Federação fecharam, para a compensação das perdas de arrecadação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) com a desoneração de combustíveis. O governo federal compensará os estados e o Distrito Federal em R$ 26,9 bilhões até 2026.

Outro acordo celebrado é o reajuste dos servidores do Poder Executivo Federal, que vão receber um aumento linear de 9%. O auxílio-alimentação teve aumento de 43,6%, equivalente a R$ 200, passando dos atuais R$ 458 para R$ 658. O pacto foi selado no último mês de março, e os aumentos começam a valer em 1º de maio, Dia do Trabalhador.

A retirada de empresas como os Correios, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev) e o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), de programas de privatização também cumpriu uma meta para os primeiros meses de gestão. A promessa de reverter a privatização da Eletrobras, já em vigor após aprovação pelo Congresso Nacional, ainda não está no horizonte e demandará enorme correlação de forças para ocorrer. 

Fonte: Agência Brasil

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