5 pessoas são resgatadas de trabalho escravo em empresa no MT

Resgate ocorre um mês após uma trabalhadora doméstica ser encontrada em situação semelhante no município. Vítimas enfrentavam jornadas de 12 horas, falta de água potável e alojamentos precários.

Cinco trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em uma empresa de reciclagem de Rondonópolis, a 218 km de Cuiabá, durante uma operação realizada por auditores-fiscais do Trabalho na segunda-feira (22). A fiscalização ocorreu após uma denúncia recebida pelo plantão fiscal da Gerência Regional do Trabalho.

O resgate ocorreu cerca de um mês após uma trabalhadora doméstica ser encontrada em situação semelhante no mesmo município. Na ocasião, a vítima passou 11 meses sem receber salário e foi submetida a um esquema de servidão por dívida.

Embora os casos envolvam empregadores diferentes, os episódios reforçam um cenário preocupante em Mato Grosso, estado que liderou o ranking nacional de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão em 2025.

Segundo a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Mato Grosso (SRTE-MT), na empresa de reciclagem, os trabalhadores eram submetidos a condições degradantes tanto no ambiente de trabalho quanto nos alojamentos fornecidos pela empresa.

Jornadas exaustivas e risco constante de acidentes

  • A fiscalização constatou que os trabalhadores enfrentavam jornadas exaustivas. Segundo os relatos, o expediente começava às 5h30 e frequentemente se estendia até depois das 22h.
  • Os auditores também encontraram máquinas antigas, sem manutenção adequada e operadas sem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), obrigatórios por lei.
  • Além disso, as vítimas relataram que sofriam choques elétricos frequentes durante o uso dos equipamentos.

Aliciamento, alojamento precário e falta de água potável

Os trabalhadores recebiam alimentos recolhidos de sobras de feiras livres para consumo no alojamento. — Foto: SRTE-MT

Os trabalhadores recebiam alimentos recolhidos de sobras de feiras livres para consumo no alojamento. — Foto: SRTE-MT

Entre os cinco trabalhadores resgatados, três são do interior de Mato Grosso. Os outros dois, pai e filho, moram em Rondonópolis. De acordo com a denúncia, um casal foi atraído para a empresa após receber falsas promessas de emprego.

Além das falsas promessas de aliciamento, a fiscalização verificou que os trabalhadores viviam em condições precárias. O local funcionava sem fornecimento regular de água potável. Segundo a SRTE-MT, a água consumida pelos trabalhadores era transportada pelos empregadores em garrafas PET de forma inadequada.

Além disso, os trabalhadores recebiam alimentos recolhidos de sobras de feiras livres para consumo no alojamento, conforme apontou o relatório da operação.

Os auditores também constataram que o casal utilizava banheiros compartilhados com os demais funcionários e ocupava quartos sem armários, com pouca ventilação e sem fornecimento de roupas de cama.

Acordo com o Ministério do Trabalho

Após a operação, o procurador do Trabalho Pedro Henrique Godinho Faccioli, propôs, durante audiência, a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a empresa investigada. Pelo acordo firmado com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a empresa se comprometeu a cumprir 16 obrigações, entre elas:

  • não submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão, incluindo trabalho forçado;
  • não submeter trabalhadores a jornada exaustiva;
  • não submeter trabalhadores a servidão por dívida ou condições degradantes;
  • proibida qualquer forma de restrição à locomoção dos funcionários.

A empresa ainda assumiu o compromisso de regularizar a situação dos trabalhadores, com registro em Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), pagamento das verbas rescisórias e indenizações por dano moral individual.

Além disso, deverá custear o deslocamento dos trabalhadores até suas cidades de origem e garantir hospedagem até o retorno.

O TAC também prevê multa de R$ 20 mil por obrigação descumprida e por trabalhador prejudicado, em caso de reincidência das irregularidades.

Mato Grosso liderou ranking nacional em 2025

Mais de 500 trabalhadores são resgatados de condições análogas à escravidão em MT

Segundo o levantamento, 606 trabalhadores foram liberados de situações degradantes no estado apenas no ano passado.

O principal caso ocorreu no mês de agosto de 2025, em Porto Alegre do Norte, a 1.021 km de Cuiabá, onde 586 pessoas foram encontradas em condições análogas à escravidão durante a construção de uma usina de etanol.

Os dados integram o relatório ‘Conflitos no Campo Brasil 2025‘, lançado nesta terça-feira (19) pela Comissão Pastoral da Terra de Mato Grosso (CPT-MT), em Cuiabá.

Fonte: G1

Traidor da Pátria, Eduardo Bolsonaro sugere bombardear o Brasil com participação dos EUA

O deputado condenado licenciado Eduardo Bolsonaro publicou uma mensagem nas redes sociais em que cita operações militares e ações de “segurança” realizadas com participação dos Estados Unidos em países da América do Sul e, ao final, questiona: “E o Brasil de Lula?”.

Na postagem, Eduardo menciona três situações distintas. A primeira é a operação anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que resultou na morte de Héctor “Niño” Guerrero, apontado como líder da organização criminosa venezuelana Tren de Aragua. Segundo o governo americano, a ação foi realizada em coordenação com autoridades venezuelanas.

Em seguida, o parlamentar faz referência ao governo do Equador, comandado por Daniel Noboa, citando o apoio externo recebido pelo país no combate a organizações criminosas e operações contra o narcotráfico. Em março, o New York Times mostru que um local atingido por bombardeio não era uma base de narcotraficantes, mas uma fazenda de criação de gado e produção de laticínios na região de San Martín, no norte do país.

Também menciona declarações atribuídas ao advogado colombiano Abelardo de la Espriella, conhecido como “El Tigre”, que tem defendido ações militares mais duras contra grupos ligados ao narcotráfico. Espriella foi eleito presidente com essa plataforma.

A conclusão da mensagem chamou atenção por sugerir uma comparação direta entre esses casos e a situação brasileira. Ao perguntar “E o Brasil de Lula?”, Eduardo Bolsonaro está defendendo ou insinuando a possibilidade de ações semelhantes em território nacional. Não é a primeira vez.

Como apontou Sara Vivacqua no DCM, Trump quer compensar o fracasso na guerra com o Irã mirando a América Latina e, principalmente, o Brasil, definido por ele, publicamente, como o “próximo desafio”. 

Eduardo e o jornalista Paulo Figueiredo, vigarista de longa data, vêm mantendo contatos com parlamentares e lideranças de extrema-direita nos Estados Unidos para tratar de temas relacionados ao Brasil nos últimos anos.

Eduardo e seu irmão Flávio estiveram com membros do governo Trump para pressionar pela classificação das facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Posaram para uma foto com o presidente americano no Salão Oval.

Foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por coação relacionada ao julgamento da tentativa de golpe de Estado de 2022. Entre outras barbaridades, já afirmou que seria necessário fazer do Brasil uma “terra arrasada” para atingir objetivos políticos e se vingar de Alexandre de Moraes, ministro do STF.

Ninguém pode dizer que ele não está avisando o que pretende fazer se o irmão for eleito.

Fonte: DCM

Gayer é condenado a pagar R$ 20 mil ao PT por vídeo falso sobre atentado a Bolsonaro

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios condenou o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) a pagar R$ 20 mil por danos morais ao Partido dos Trabalhadores por divulgar conteúdo falso sobre o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018.

A decisão também manteve a retirada de um vídeo publicado pelo parlamentar nas redes sociais. No conteúdo, Gayer afirmava que o PT teria ordenado que Adélio Bispo atacasse Bolsonaro durante a campanha presidencial, em Juiz de Fora (MG).

O PT acionou a Justiça e sustentou que a acusação não tinha fundamento factual. A legenda também afirmou que investigações oficiais já descartaram a tese de participação do partido no atentado.

Ao analisar o caso, o magistrado concluiu que a publicação ultrapassou os limites da liberdade de expressão. A sentença afastou a aplicação da imunidade parlamentar como proteção para a postagem feita por Gayer.

Sentença manteve retirada do vídeo das redes sociais

A Justiça determinou que as plataformas digitais mantivessem o conteúdo fora do ar. A exclusão da publicação já tinha ocorrido antes, por meio de decisão liminar.

Na sentença, o juiz avaliou que a postagem atingiu a honra e a imagem institucional do PT. O magistrado também considerou que o alcance das redes sociais ampliou os efeitos da divulgação da informação falsa.

O atentado contra Bolsonaro ocorreu durante a campanha presidencial de 2018, em Juiz de Fora. Adélio Bispo atacou o então candidato durante um ato de rua.

Com a condenação, Gayer terá de indenizar o PT em R$ 20 mil, além de cumprir a determinação judicial que impede a republicação do vídeo retirado das plataformas digitais.

Fonte: DCM

Fim da escala 6×1 pode beneficiar 37 milhões de trabalhadores com carteira assinada

Montante representa total de trabalhadores que têm jornada superior a 41 horas por semana. Em maio, Câmara aprovou uma PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6×1.

Levantamento do Ministério do Trabalho divulgado nesta quarta-feira (24) mostra que 37,11 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil, principalmente no setor privado, mas englobando também o serviço público, têm jornada acima de 41 horas por semana.

Esses trabalhadores, portanto, seriam beneficiados com a redução da jornada de trabalho semanal de 44 horas para 40 horas, em debate no Congresso Nacional, isto é, o fim da escala 6×1 (entenda mais abaixo).

De acordo com dados do governo, os 37,11 milhões de trabalhadores representam 73,7% dos 50,32 milhões de trabalhadores celetistas no Brasil registrados no mês de fevereiro.

Veja abaixo os dados do levantamento:

  • 37,11 milhões de empregados trabalham mais de 41 horas por semana;
  • 9,24 milhões de trabalhadores têm jornada semanal entre 31 e 40 horas;
  • 2,16 milhões de pessoas trabalham entre 21 e 30 horas por semana;
  • 1,81 milhão de trabalhadores têm jornada semanal de até 20 horas.

No fim de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso). A proposta segue para análise dos senadores.

Conforme a proposta, a redução das quatro horas na jornada de trabalho será concretizada em duas etapas:

  • as primeiras duas horas em até dois meses após a promulgação da PEC;
  • as quatro horas restantes em até 12 meses após a redução das primeiras duas horas.

Já o governo retirou, neste mês, a urgência constitucional do seu próprio projeto que trata sobre a redução da jornada da escala de trabalho 6×1 enviado à Câmara dos Deputados.

A mensagem informando sobre a retirada do pedido de urgência foi enviada em 16 de junho ao Congresso.

O projeto em questão não é a proposta de emenda à Constituição (PEC) que já foi aprovada pela Câmara e aguarda análise no Senado Federal.

Fonte: G1

Esquema do Digimais liga Edir Macedo a Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas

A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado concentravam, juntos, 85% da carteira de convênios do Banco Digimais, instituição financeira ligada ao bispo Edir Macedo. Documentos do próprio banco obtidos pela reportagem mostram que a capital paulista respondia sozinha por 60% da operação de consignados da instituição, enquanto outros 25% estavam vinculados ao funcionalismo estadual.

Os dados revelam que São Paulo se tornou o principal eixo da estratégia de expansão do Digimais justamente no período em que a instituição acumulava sinais de deterioração financeira, rebaixamentos de classificação de risco e questionamentos posteriores do Banco Central e da Polícia Federal.

O material institucional informa que o banco mantinha 69 convênios públicos e pretendia ultrapassar a marca de 100 acordos ainda em 2025. A própria apresentação afirma que o Digimais iniciou naquele ano a originação de produtos de crédito consignado voltados ao funcionalismo público e à iniciativa privada.

Na prática, os documentos indicam que a principal aposta do banco para o crescimento do consignado estava concentrada nos servidores paulistas.

São Paulo virou o centro da operação

De acordo com a apresentação, a maior parte dos acordos firmados pela instituição estava vinculada à Prefeitura de São Paulo, responsável por 60% dos convênios, seguida pelo Governo do Estado, com 25%. Os demais contratos somavam apenas 5% da carteira.

Esse perfil acompanha o avanço do banco em diferentes regiões do estado. A apuração identificou que a instituição obteve autorizações, credenciamentos ou firmou convênios em ao menos oito municípios paulistas.

  • São Paulo: a prefeitura mantém convênio para operações de crédito consignado junto ao funcionalismo municipal. A administração é comandada por Ricardo Nunes (MDB), aliado político do governador Tarcísio de Freitas.
  • São Sebastião: o instituto de previdência municipal assinou contrato com o Digimais em novembro de 2025. O município é governado por Reinaldinho Moreira (Republicanos), que recebeu apoio de Tarcísio durante a campanha eleitoral municipal. O governador participou de eventos da candidatura e classificou a eleição municipal como uma disputa estratégica para a região.
  • Ubatuba: a prefeitura autorizou a atuação do banco nas operações de consignação em folha. A cidade é administrada por Flávia Pascoal (PL), aliada do governador e mantém proximidade política participando de agendas institucionais e eventos públicos ao lado de Tarcísio.
  • Praia Grande: a habilitação ocorreu por meio de chamamento público destinado ao credenciamento de instituições financeiras. O prefeito Alberto Mourão (MDB) integra o campo político que hoje compõe a base de apoio do governo estadual.
  • Pindamonhangaba: o município homologou o credenciamento do banco em 2025. O prefeito Ricardo Piorino é filiado ao PL, partido que se tornou a principal base política de Tarcísio no estado.
  • Tupã: a cidade aprovou legislação autorizando convênio para empréstimos consignados, cartão consignado e cartão benefício. O prefeito Renan Pontelli é filiado ao PSDB e mantém relação próxima com o governo estadual tendo participado de agendas e eventos ao lado do governador.
  • Tambaú: a prefeitura homologou a contratação da instituição para operações destinadas aos servidores. O município é administrado por Leonardo Spiga Real, do Republicanos, partido do governador.
  • Guarulhos: o município mantém convênio para operações de crédito consignado junto ao funcionalismo. O prefeito Lucas Sanches é do PL e recebeu apoio público de Tarcísio durante a campanha.

O levantamento mostra que a expansão do Digimais ocorreu majoritariamente em administrações comandadas por prefeitos do PL, Republicanos, MDB ou partidos que integram a base política do governador paulista.

A reportagem não identificou documentos que indiquem participação direta do Palácio dos Bandeirantes nos credenciamentos municipais. As autorizações foram concedidas por cada administração local, por meio de seus próprios procedimentos administrativos.

Mudança de estratégia

A expansão do consignado coincidiu com uma profunda mudança no modelo de negócios do Digimais.

Nas demonstrações financeiras de 2025, a instituição afirma ter revisado seu planejamento estratégico para os cinco anos seguintes e passado a priorizar novas linhas de crédito, entre elas o consignado. O banco informava que buscava reduzir a dependência do financiamento de veículos e diversificar suas receitas.

A reportagem teve acesso a um relatório da Moody’s Local Brasil, agência de classificação de risco que avalia a capacidade de pagamento de empresas e instituições financeiras, que identificou essa transformação.

Em abril de 2026, a agência rebaixou os ratings do Digimais e atribuiu perspectiva negativa ao banco. Segundo o documento, o aumento do risco dos ativos e a elevada exposição a fundos de investimento alternativos elevaram a vulnerabilidade financeira da instituição.

A agência apontou que os investimentos em fundos alternativos alcançaram R$ 4,2 bilhões no fim de 2025, equivalentes a 42,6% dos ativos totais e a 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco.

O relatório também registrou que o índice de Capital Nível I encerrou 2025 em 8%, abaixo do mínimo regulatório de 8,5%, além da necessidade de sucessivos aportes dos controladores para recompor os índices de capital exigidos pelo Banco Central.

Outro ponto de atenção foi a deterioração da qualidade dos ativos. Segundo a Moody’s, os chamados ativos problemáticos chegaram a 16,6% da carteira da instituição em dezembro de 2025. A agência também menciona ressalvas da auditoria externa sobre R$ 3,1 bilhões em fundos de investimento mantidos pelo banco devido à limitação de informações disponíveis para avaliação desses ativos.

O próprio relatório da agência destaca que o Digimais passou a ampliar sua atuação no crédito consignado por meio de convênios com o setor público, justamente no período em que esses riscos se tornavam mais evidentes.

Banco Central e PF

As preocupações do mercado foram posteriormente acompanhadas pelos órgãos de supervisão.

Representação apresentada pela Polícia Federal à Justiça Federal sustenta que o Banco Central identificou indícios de inserção de elementos falsos em demonstrativos contábeis e operações vedadas entre o banco e seus controladores.

A investigação menciona suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária e questiona operações envolvendo fundos de investimento ligados à instituição.

Segundo a PF, ativos ligados ao Hermon FIDC-NP foram registrados em aproximadamente R$ 741 milhões, embora o custo de aquisição dos papéis fosse estimado em cerca de R$ 71 milhões.

O Banco Central determinou a correção dos registros, mas a investigação sustenta que operações posteriores com a controladora permitiram a manutenção dos valores nos demonstrativos do banco.

A Polícia Federal pediu o bloqueio de aproximadamente R$ 670 milhões, além de medidas de busca e apreensão e quebra de sigilos.

A questão que permanece

Os documentos do próprio Digimais indicam que a expansão do banco no crédito consignado dependia fortemente do funcionalismo paulista.

Ao mesmo tempo, relatórios de mercado apontavam fragilidades financeiras, a Moody’s rebaixava a instituição, o Banco Central questionava operações e a Polícia Federal passava a investigar suspeitas de irregularidades.

Nesse contexto, a principal questão passa a ser quais critérios de análise financeira e de risco foram adotados pela Prefeitura de São Paulo, pelo Governo do Estado e pelas administrações municipais paulistas antes de permitir que a instituição ampliasse sua atuação sobre as folhas de pagamento de milhares de servidores públicos.

A reportagem encaminhou questionamentos ao Governo do Estado de São Paulo e à Prefeitura de São Paulo sobre os critérios adotados para o credenciamento do Banco Digimais, o volume de operações vinculadas aos servidores e a manutenção dos convênios após os apontamentos do Banco Central e a investigação da Polícia Federal.

Também questionamos se as administrações tinham conhecimento de rebaixamentos de classificação de risco, alertas do mercado ou questionamentos regulatórios envolvendo a instituição.

O que dizem o Governo de SP e a Prefeitura

Em nota, o Governo de São Paulo afirmou que a atuação de instituições financeiras no sistema estadual de consignações ocorre por meio de credenciamento público regulamentado pelo Decreto nº 60.435/2014 e normas correlatas, sem contratação direta, convênio ou seleção discricionária por parte da administração estadual.

Segundo o governo, o Banco Digimais atendeu a todos os requisitos exigidos à época do credenciamento, incluindo as exigências regulatórias perante o Banco Central. A gestão estadual informou ainda que a instituição representa 1,57% do total das operações consignadas realizadas mensalmente pelo Estado, considerando dados de maio de 2026.

O Executivo paulista acrescentou que mantém acompanhamento contínuo do tema, estuda medidas cautelares e promove atualizações em seus mecanismos de controle com foco na regularidade das operações, na proteção dos usuários e na integridade do sistema.

Já a Prefeitura de São Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal de Gestão, que o Banco Digimais integra o rol de 57 instituições financeiras consignatárias cadastradas para operar junto aos servidores municipais, todas habilitadas conforme a legislação vigente.

De acordo com a administração municipal, o Digimais responde por menos de 3% das consignações em folha de pagamento dos servidores públicos da capital.

Fonte: ICL

Panorama do voto evangélico, que está migrando, preocupa PL e anima PT

Ministério Madureira, que integra a Assembleia de Deus e tem 15 mil templos, apoia Caiado; Igreja Universal, com 2 milhões de fiéis, a TV Record e o Republicanos, negocia apoio

A última rodada de pesquisa de intenção de votos da  Quaest, divulgada na semana passada, revelou que Flávio Bolsonaro continua na frente na preferência dos eleitores declaradamente evangélicos, mas a diferença encolheu bastante. O senador fluminense, candidato pelo PL caiu de 61% para 52% das intenções de voto, enquanto o presidente Lula subiu de 24% para 31%. A vantagem, que era de 37 pontos em maio, caiu para 21 pontos em junho e segue em declínio. O movimento é reflexo do abandono do nome do clã Bolsonaro observado entre bispos e lideranças das maiores e das mais capilares denominações evangélicas. No Brasil, segundo o último censo do IBGE, 47,7 milhões pessoas dizem frequentar assiduamente templos evangélicos pentecostais, neopentecostais, adventistas e missionários.

Há três razões centrais para essa queda significativa de apoio político a Flávio Bolsonaro entre os que professam a fé evangélica.

1.      Falta de confiança, de seriedade. Ao ser flagrado como amigo íntimo e próximo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção, o candidato do PL deixou cair a máscara de “higienista da cena política”. Nas pesquisas qualitativas que têm sido feitas sob encomenda das principais siglas partidárias – PT e PL – e por seus satélites na mesa do jogo eleitoral, mesmo que os pastores das igrejas de bairro peçam complacência com o filho 01 de Bolsonaro, a sensação de traição calou fundo em quem já andava ressabiado com outras revelações de corrupção do clã.

2.      Ausência de projeto amplo de país. A base evangélica que se mobiliza todos os finais de semana nos templos ou nos círculos de leitura da bíblia percebeu – dizem as pesquisas qualitativas – que os Bolsonaro não lideram nenhum movimento de resgate do país. Mas, sim, formam uma organização focada exclusivamente em seus interesses, dissociados de agendas públicas e sociais mais ousadas. A única ressalva à família, nesse aspecto, quando o tema surge nas pesquisas, é à ex-primeira-dama Michele Bolsonaro. Ela tem boa imagem entre os que creem no verbo (bíblico).

3.      O episódio “Dark Horse” catalisou as duas percepções que levavam desconfiança aos evangélicos. O filme hagiográfico encomendado por familiares e ex-assessores de Bolsonaro a um consórcio de produtoras, atores e roteiristas enrolados com empresas em paraísos fiscais que receberam dinheiro do liquidado Banco Master e se conectaram com emendas do Orçamento da União para pagar a empreitada pseudocultural  é visto pelos crentes na profissão evangélica como mais um benefício ao clã bolsonarista. Ou seja, nada seria pelo todo; tudo é pelo particular, pela vida privada do ex-presidente e de seus filhos (que, aliás, odeiam a madrasta Michele Bolsonaro, adorada por eles).

Em razão dessas divergências, o Ministério Madureira, a segunda maior franquia da Congregação Geral das Assembleias de Deus (que possui algo em torno de 12 milhões de fiéis), declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial e trabalha nas coxias de seus 15 mil templos espalhados pelo país para que Michele Bolsonaro seja a vice do ex-governador goiano. Esse também é o movimento e o desejo cada vez menos silencioso de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e da própria ex-primeira-dama.

A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, detentora da concessão da TV Record e do controle político do partido Republicanos (ao qual está filiado o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas), está a um passo de liberar seu palanque nacional nos estados e se concentrar exclusivamente nas disputas para governos locais, Senado e Câmara dos Deputados. Macedo, que é antes de tudo um empresário, enfrenta árdua luta para evitar a liquidação de seu banco – o Digimais. Além disso, divergências em palanques locais vão ora afastando o Republicanos de apoiadores do PL de Flávio Bolsonaro, como ocorre no Distrito Federal, ora aproximando a sigla de Edir Macedo de satélites do PT de Lula, como ocorre em Pernambuco. Em cenários assim, quando os interesses ser múltiplos, é melhor decretar que ninguém é de ninguém.

Com crise de liquidez necessidade de captação calculada em R$ 3 bilhões, o Digimais precisa encontrar um comprador de parte ou do todo de seu controle no mercado financeiro. Macedo colocou a mão no próprio tesouro familiar e há dois meses capitalizou a instituição que integra seu grupo empresarial com R$ 825 milhões. Foi demais para ele e era insuficiente para o tamanho do rombo. O BTG, banco de André Esteves, negocia a aquisição do Digimais. Porém, só o fará se tiver as bênçãos do governo federal – do atual e do futuro, seja quem for que estiver despachando no Palácio do Planalto em 6 de janeiro de 2027 (depois da posse do reeleito ou do eleito, marcada para 5/01/2027). A IURD possui um rebanho de dois milhões de fiéis segundo o IBGE. Contudo, Edir Macedo manda seus bispos afirmarem que suas profissões de fé chegam a 7 milhões de aficionados.

A Congregação Cristão Brasileira (CCB) é a segunda maior denominação evangélica nacional em quantidade de fiéis declarados – 4,5 milhões – mas possui uma postura discreta e distante da mídia, de redes sociais e de movimentos mais histriônicos de luta por pautas comportamentais. A CCB é declaradamente neutra nessa eleição.

A Igreja Adventista, denominação à qual pertence o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator das ações que investigam o Banco Master e as traficâncias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, detém um cerca de 1,8 milhão de frequentadores assíduos de seus cultos em todo o país e já se proclamou “sem candidato”. A neutralidade foi extremamente bem recebida no Palácio do Planalto e entre os estrategistas do PT. Não só pela indicação de seriedade e higidez política no trabalho jurídico de Mendonça, mas também por consolidar o desejado afastamento de bispos e pastores dos palanques eleitorais na campanha desse ano.

Se não pode trazer para seu palanque a fidelidade das lideranças religiosas outrora bolsonaristas, o comando da campanha de Lula à reeleição trabalha pela neutralidade.

Fonte: ICL

PF faz buscas e bloqueia R$ 670 milhões em bens do banco de Edir Macedo

A Polícia Federal realiza nesta terça-feira (23) a Operação Miragem para apurar um esquema fraudulento contra o Sistema Financeiro Nacional na gestão do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Macedo está entre os investigados.

Mais de 50 policiais federais cumprem nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. A decisão judicial também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

A Justiça autorizou ainda o sequestro e o bloqueio de bens e valores de até R$ 670.348.945,70. A medida mira patrimônio ligado aos investigados no caso, conforme a apuração conduzida pela PF.

Segundo a Polícia Federal, os investigadores analisaram relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil que apontaram graves irregularidades na condução dos negócios pelos administradores da instituição financeira.

Relatórios do Banco Central embasam a investigação

As apurações indicam que o esquema envolvia manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis. O objetivo, segundo a investigação, era ocultar a real situação econômico-financeira do banco e aparentar solvência perante os órgãos de controle.

A PF afirma que as práticas teriam permitido a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas no montante de centenas de milhões de reais. A investigação também mira operações financeiras supostamente ilegais realizadas em benefício da empresa controladora do banco.

Os investigadores apuram ainda possível falsificação e manipulação de informações inseridas em sistemas oficiais de registro do órgão regulador. Essa linha de investigação envolve dados apresentados no âmbito da fiscalização financeira.

Os investigados poderão responder, conforme suas responsabilidades, por gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas. Os crimes constam na Lei nº 7.492/1986, que trata de delitos contra o Sistema Financeiro Nacional.

Fonte: DCM

A serviço de Trump, Eduardo Bolsonaro articula nova ofensiva nos EUA contra o STF

Condenado por coação judicial, ex-deputado busca apoio junto ao governo Donald Trump para tentar reativar pressão contra Alexandre de Moraes

O ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) iniciou uma nova rodada de articulações nos Estados Unidos contra o Supremo Tribunal Federal após ser condenado a quatro anos e dois meses de prisão por coação judicial. A ofensiva do ex-parlamentar, que reside no Texas desde 2025, inclui agendas em Washington com Paulo Figueiredo, representantes da gestão do presidente estadunidense, Donald Trump, e parlamentares do Partido Republicano. As informações são da coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles. 

Na capital estadunidense, Eduardo Bolsonaro deve cumprir agendas até esta terça-feira (23). O ex-deputado tenta retomar a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes. O magistrado atuou como relator da investigação sobre a trama golpista – que resultou condenação de Jair Bolsonaro (PL), além de outros integrantes de seu governo – e também relatou o processo de coação judicial que condenou o ex-parlamentar a uma pena de 4 anos e 2 meses de prisão, em regime inicial semiaberto, e 50 dias-multa, no valor de dois salários mínimos cada dia.Play Video

Em 16 de junho, os quatro ministros da Primeira Turma do STF votaram pela condenação de Eduardo Bolsonaro. Além de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin Martins, Flávio Dino e Cármen Lúcia acompanharam o entendimento pela responsabilização penal do ex-deputado.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) acusou o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de trabalhar para articular sanções contra autoridades brasileiras e ao próprio Brasil. Conforme o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ex-parlamentar adotou uma estratégia de pressão internacional para beneficiar o pai e aliados investigados. 

“O réu deixou claro que suas palavras carregavam o peso de uma execução iminente, visando desestabilizar o julgamento então em curso contra seu pai. O poder de influência ostentado e exercido por ele serviu como instrumento de pressão institucional, ultrapassando qualquer limite razoável de crítica política”, escreveu Gonet ao STF.

Entre as medidas citadas estão tarifas de exportação anunciadas pelos EUA no ano passado, suspensão de vistos de integrantes do STF e do atual governo, além da aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. A legislação estadunidense permite restrições financeiras, como bloqueio de contas bancárias e impedimento de uso de cartões de crédito vinculados a empresas dos Estados Unidos. Para a Procuradoria, as iniciativas buscavam pressionar e intimidar o Supremo Tribunal Federal às vésperas do julgamento que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, em setembro do ano passado.

Impacto sobre o ex-deputado

A decisão também produz efeitos políticos imediatos. Com a condenação, Eduardo Bolsonaro passou a ficar inelegível por oito anos, com base na Lei da Ficha Limpa. O ex-parlamentar ainda pode enfrentar medidas internacionais caso o Brasil peça sua inclusão na lista de procurados da Interpol e solicite extradição ou deportação às autoridades estadunidenses.

Para que Eduardo entre na lista da Interpol, a Justiça brasileira precisa expedir um mandado de prisão contra ele. A adoção dessa medida dependeria de uma decisão do relator do caso, ministro Alexandre de Moraes.

A defesa sustenta que o ex-deputado não atuou para interferir em decisões adotadas pela gestão do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O defensor público federal Esdras dos Santos Carvalho afirmou que Eduardo Bolsonaro realizou apenas atuação política.

“Eduardo não teve poder de decisão sobre a política externa dos Estados Unidos, não integra o governo norte-americano e não exerce função pública naquele país”, disse Esdras dos Santos Carvalho, conforme relato da Agência Brasil.

Mesmo após a condenação, Eduardo Bolsonaro confirmou que pretende buscar apoio nos Estados Unidos para tentar reverter a decisão. O ex-parlamentar mencionou a “Casa Branca”, o “Departamento de Justiça” e o “Congresso americano” como espaços aos quais pretende recorrer em sua ofensiva contra a Justiça brasileira.

Fonte: Brasil 247

A intimidação como ideia, a censura como ato e a fantasia como propaganda

Cadu Amaral – Jornalista

Quem pretende governar um estado precisa entender uma premissa elementar da democracia: o poder pertence ao povo. E, se o poder pertence ao povo, toda autoridade pública tem o dever de prestar contas de seus atos, responder questionamentos e conviver com críticas, especialmente quando elas dizem respeito ao uso de dinheiro público e a temas de evidente interesse coletivo.

Isso é respeitar o povo e não usar esta palavra em nome de usuário em rede social.

A trajetória recente de João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC, vai na contramão, apesar da aparência que vende – e muito bem – nas redes sociais.

Como alguém pode se apresentar como representante do povo, falar constantemente em nome do povo, inclusive quando é contrariado em negociações político-partidárias e, ao mesmo tempo, reagir às cobranças públicas recorrendo sistematicamente à Justiça contra jornalistas, comunicadores, veículos de imprensa e influenciadores?

É óbvio que também é inerente à democracia o direito de ação. Qualquer pessoa que se sinta ofendida tem o direito a acionar o ofensor. Mas será que pedir respostas, esclarecimentos, relatar ou comentar fatos ocorridos, por mais incômodos que sejam, é uma ofensa?

Um levantamento feito pelo jornal Tribuna do Sertão identificou pelo menos 35 ações judiciais movidas por JHC contra jornalistas, empresas de comunicação, comunicadores, empresários de mídia, perfis de notícias e influenciadores digitais entre março de 2024 e maio de 2026. Isso dá 1,34 ações por mês.

O número, por si só, chama atenção. Mas chama ainda mais atenção o padrão dessas ações.

A maior parte dos processos levantados pela Tribuna do Sertão está relacionada à repercussão jornalística sobre o aporte de R$ 117,9 milhões do Iprev Maceió nas letras podres do Banco Master, dinheiro pertencente a aposentados e pensionistas do município. Estas são as mais recentes.

Outro conjunto de ações decorre de críticas ao patrocínio de R$ 8 milhões concedido pela Prefeitura de Maceió à escola de samba Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval de 2024, ano de eleições municipais e que JHC disputaria a reeleição.

Nenhum desses temas é assunto privado. Nenhum deles pertence à esfera íntima de um político. Trata-se de recursos públicos e de decisões administrativas que afetam diretamente o interesse coletivo. São assuntos que, em qualquer democracia, precisam estar submetidos ao escrutínio da sociedade e da imprensa.

As ações movidas por JHC envolvem pedidos por danos morais, direito de imagem, perdas e danos e queixas-crime por calúnia e difamação. Segundo a Tribuna do Sertão, em diversos casos os pedidos de indenização eram padronizados em R$ 10 mil, independentemente de quem estivesse sendo processado.

Entre os processados por questionar os R$ 8 milhões dados à Escola de Samba Beija-Flor, está este colunista, que nunca afirmou ter ocorrido desvio de erário ou coisa que o valha. Apenas ousei, em vídeo no Youtube, apontar o interesse eleitoral nessa ação administrativa devido ao potencial de elevação de autoestima do maceioense, num ano eleitoral, em caso de vitória daquela que é a Escola que mais venceu os carnavais cariocas nos últimos 20 anos. Sem contar que à época, forrozeiros ainda reclamavam pagamentos do São João de 2023!

Os R$ 8 milhões pagos à Beija-Flor geraram outras ações movidas por JHC contra outros jornalistas, o que fez o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), em nota, afirmar que a prática era lawfare.

Mas esse não é um comportamento novo para o ex-prefeito de Maceió que, até este momento, quer ser eleito governador de Alagoas em outubro. Em 2016, JHC também ajuizou ações contra jornalistas e empresas de comunicação que repercutiram informações presentes no livro Os Bens que os Políticos Fazem, do jornalista Chico de Gois, obra que abordava a evolução patrimonial de diversos políticos brasileiros e levantava questionamentos sobre a origem e a evolução do patrimônio declarado por JHC.

O ponto central, repetindo, não é negar a qualquer cidadão, inclusive um agente público, o direito de recorrer à Justiça quando se sente ofendido. Esse direito existe e deve ser respeitado. O problema surge quando o recurso ao Judiciário deixa de ser um instrumento excepcional de proteção da honra e passa a ser método de reação à crítica e à cobrança pública.

Entidades nacionais e internacionais têm chamado esse fenômeno de assédio judicial. O Ministério Público Federal e organizações de defesa da liberdade de imprensa alertam que a multiplicação de processos pode produzir efeito intimidatório, gerando desgaste financeiro, autocensura e receio de abordar temas que desagradem os detentores do poder.

Mas se JHC está contando com isso, pode tirar sua cadeira gigante da chuva. Até porque, ninguém o está acusando de nada, apenas cobrando explicações de quem era o gestor do Município de Maceió quando o Iprev colocou R$ 117,9 milhões de aposentados do serviço público maceioense nas letras podres do Banco Master. Logo, não há razão nenhuma para temer qualquer intimidação judicial.

E que para quem vive falando em povo, dar explicações era algo que já deveria ter ocorrido.

A questão, portanto, é como alguém pode aspirar ao governo de um estado inteiro se demonstra tamanha dificuldade em conviver com o contraditório? Como representar milhões de pessoas se não se aceita o direito dessas mesmas pessoas de perguntar, questionar, cobrar…?

Governar é administrar conflitos. É prestar contas. É responder perguntas difíceis. É explicar decisões controversas. Não é possível pedir confiança ao eleitor e, simultaneamente, tratar a crítica como ofensa pessoal e a cobrança pública como algo a ser combatido judicialmente.

O discurso político de JHC frequentemente o vende com a imagem de um líder próximo do povo, moderno, acessível e sem máculas. Uma figura pública apresentada como alguém acima de qualquer questionamento, quase imune a erros, contradições ou decisões passíveis de crítica.

Mas a democracia não comporta personagens perfeitos porque não existem governantes sem áreas para questionamentos. Não existem homens públicos dispensados de explicações. Não existem administradores blindados contra o escrutínio da sociedade.

Quando a intimidação se torna uma ideia recorrente, quando a censura aparece como resposta prática à crítica e quando a propaganda procura construir a imagem de um líder sem imperfeições, o risco é que a política deixe de ser espaço de prestação de contas para se transformar em exercício permanente de fabricação de uma fantasia. E uma fantasia quase sempre autoritária.

Fantasias podem ser eficientes como peça de marketing em postagens nas redes sociais, mas são incompatíveis com a essência da vida numa sociedade democrática.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MAIS LIDAS