Ministério Madureira, que integra a Assembleia de Deus e tem 15 mil templos, apoia Caiado; Igreja Universal, com 2 milhões de fiéis, a TV Record e o Republicanos, negocia apoio
A última rodada de pesquisa de intenção de votos da Quaest, divulgada na semana passada, revelou que Flávio Bolsonaro continua na frente na preferência dos eleitores declaradamente evangélicos, mas a diferença encolheu bastante. O senador fluminense, candidato pelo PL caiu de 61% para 52% das intenções de voto, enquanto o presidente Lula subiu de 24% para 31%. A vantagem, que era de 37 pontos em maio, caiu para 21 pontos em junho e segue em declínio. O movimento é reflexo do abandono do nome do clã Bolsonaro observado entre bispos e lideranças das maiores e das mais capilares denominações evangélicas. No Brasil, segundo o último censo do IBGE, 47,7 milhões pessoas dizem frequentar assiduamente templos evangélicos pentecostais, neopentecostais, adventistas e missionários.
Há três razões centrais para essa queda significativa de apoio político a Flávio Bolsonaro entre os que professam a fé evangélica.
1. Falta de confiança, de seriedade. Ao ser flagrado como amigo íntimo e próximo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção, o candidato do PL deixou cair a máscara de “higienista da cena política”. Nas pesquisas qualitativas que têm sido feitas sob encomenda das principais siglas partidárias – PT e PL – e por seus satélites na mesa do jogo eleitoral, mesmo que os pastores das igrejas de bairro peçam complacência com o filho 01 de Bolsonaro, a sensação de traição calou fundo em quem já andava ressabiado com outras revelações de corrupção do clã.
2. Ausência de projeto amplo de país. A base evangélica que se mobiliza todos os finais de semana nos templos ou nos círculos de leitura da bíblia percebeu – dizem as pesquisas qualitativas – que os Bolsonaro não lideram nenhum movimento de resgate do país. Mas, sim, formam uma organização focada exclusivamente em seus interesses, dissociados de agendas públicas e sociais mais ousadas. A única ressalva à família, nesse aspecto, quando o tema surge nas pesquisas, é à ex-primeira-dama Michele Bolsonaro. Ela tem boa imagem entre os que creem no verbo (bíblico).
3. O episódio “Dark Horse” catalisou as duas percepções que levavam desconfiança aos evangélicos. O filme hagiográfico encomendado por familiares e ex-assessores de Bolsonaro a um consórcio de produtoras, atores e roteiristas enrolados com empresas em paraísos fiscais que receberam dinheiro do liquidado Banco Master e se conectaram com emendas do Orçamento da União para pagar a empreitada pseudocultural é visto pelos crentes na profissão evangélica como mais um benefício ao clã bolsonarista. Ou seja, nada seria pelo todo; tudo é pelo particular, pela vida privada do ex-presidente e de seus filhos (que, aliás, odeiam a madrasta Michele Bolsonaro, adorada por eles).
Em razão dessas divergências, o Ministério Madureira, a segunda maior franquia da Congregação Geral das Assembleias de Deus (que possui algo em torno de 12 milhões de fiéis), declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial e trabalha nas coxias de seus 15 mil templos espalhados pelo país para que Michele Bolsonaro seja a vice do ex-governador goiano. Esse também é o movimento e o desejo cada vez menos silencioso de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e da própria ex-primeira-dama.
A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, detentora da concessão da TV Record e do controle político do partido Republicanos (ao qual está filiado o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas), está a um passo de liberar seu palanque nacional nos estados e se concentrar exclusivamente nas disputas para governos locais, Senado e Câmara dos Deputados. Macedo, que é antes de tudo um empresário, enfrenta árdua luta para evitar a liquidação de seu banco – o Digimais. Além disso, divergências em palanques locais vão ora afastando o Republicanos de apoiadores do PL de Flávio Bolsonaro, como ocorre no Distrito Federal, ora aproximando a sigla de Edir Macedo de satélites do PT de Lula, como ocorre em Pernambuco. Em cenários assim, quando os interesses ser múltiplos, é melhor decretar que ninguém é de ninguém.
Com crise de liquidez necessidade de captação calculada em R$ 3 bilhões, o Digimais precisa encontrar um comprador de parte ou do todo de seu controle no mercado financeiro. Macedo colocou a mão no próprio tesouro familiar e há dois meses capitalizou a instituição que integra seu grupo empresarial com R$ 825 milhões. Foi demais para ele e era insuficiente para o tamanho do rombo. O BTG, banco de André Esteves, negocia a aquisição do Digimais. Porém, só o fará se tiver as bênçãos do governo federal – do atual e do futuro, seja quem for que estiver despachando no Palácio do Planalto em 6 de janeiro de 2027 (depois da posse do reeleito ou do eleito, marcada para 5/01/2027). A IURD possui um rebanho de dois milhões de fiéis segundo o IBGE. Contudo, Edir Macedo manda seus bispos afirmarem que suas profissões de fé chegam a 7 milhões de aficionados.
A Congregação Cristão Brasileira (CCB) é a segunda maior denominação evangélica nacional em quantidade de fiéis declarados – 4,5 milhões – mas possui uma postura discreta e distante da mídia, de redes sociais e de movimentos mais histriônicos de luta por pautas comportamentais. A CCB é declaradamente neutra nessa eleição.
A Igreja Adventista, denominação à qual pertence o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator das ações que investigam o Banco Master e as traficâncias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, detém um cerca de 1,8 milhão de frequentadores assíduos de seus cultos em todo o país e já se proclamou “sem candidato”. A neutralidade foi extremamente bem recebida no Palácio do Planalto e entre os estrategistas do PT. Não só pela indicação de seriedade e higidez política no trabalho jurídico de Mendonça, mas também por consolidar o desejado afastamento de bispos e pastores dos palanques eleitorais na campanha desse ano.
Se não pode trazer para seu palanque a fidelidade das lideranças religiosas outrora bolsonaristas, o comando da campanha de Lula à reeleição trabalha pela neutralidade.
Fonte: ICL






