PT e movimentos sociais reagem à decisão que tira mandato de Paulão em Alagoas

Diversos movimentos sociais expressam solidariedade ao deputado e PT marca ato em defesa do mandado popular de Paulão

O PT de Alagoas reagiu à decisão que pode levar à perda do mandato do deputado federal Paulão e alterar a composição da bancada do estado na Câmara dos Deputados.  A medida decorre de decisão do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, que manteve os efeitos de um julgamento relacionado à recontagem do quociente eleitoral das eleições de 2022.

Em nota divulgada nesta segunda-feira (4), o Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores em Alagoas afirmou ter recebido a decisão com “profunda indignação” e classificou a possível retirada do mandato como um ataque à representação popular. O partido declarou que pretende atuar nas frentes jurídica e política para tentar reverter o resultado.

Um ato em defesa do mandato popular do deputado Paulão estão sendo preparado para esta sexta (08/05) na sede do partido e que deve reunir lideranças de diversos movimentos sociais.

A decisão envolve a redistribuição das chamadas “sobras das sobras”, mecanismo utilizado no sistema proporcional para definir a ocupação de vagas remanescentes após o cálculo inicial do quociente eleitoral. Com a nova apuração, a cadeira ocupada por Paulão passaria a ser destinada a Nivaldo Albuquerque.

Segundo o PT, Paulão não é alvo de acusações eleitorais no caso e pode perder o mandato em razão de questionamentos ligados a terceiros no processo que levou à revisão dos cálculos. A legenda também sustentou que a alteração atinge diretamente a vontade expressa nas urnas pelos eleitores alagoanos.

Na nota pública, o partido afirmou: “Mexer no mandato de Paulão é mexer na soberania do voto em Alagoas”.

A sigla acrescentou: “O Partido dos Trabalhadores reafirma seu compromisso com a democracia, com o respeito à vontade popular e com a legitimidade do voto. O mandato de Paulão é resultado direto da escolha do povo alagoano e representa a luta por direitos, justiça social e desenvolvimento para o nosso estado”.

O texto divulgado pelo PT também diz: “Diante disso, defendemos com firmeza a preservação da soberania popular e o respeito às instituições democráticas”.

Decisão manteve entendimento anterior

O caso chegou ao STF após recurso apresentado por Paulão e pela federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Nunes Marques manteve os efeitos de decisão anterior ao entender que os recorrentes não tinham legitimidade para questionar o julgamento, uma vez que participaram do processo como “assistentes simples”.

Com isso, o mérito do recurso não foi analisado, e permaneceu válida a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas. A manutenção do entendimento permite que o processo avance para a fase de execução, etapa necessária para a alteração formal da bancada federal do estado.

A decisão também determinou comunicação imediata ao tribunal regional, o que acelera o cumprimento do acórdão. Até o momento, não há medida judicial suspendendo os efeitos do julgamento.

Origem do processo

A controvérsia teve início em novembro de 2025, quando o TRE de Alagoas anulou os votos do suplente João Catunda nas eleições de 2022. A decisão ocorreu após o reconhecimento de irregularidades na captação de recursos. A ação foi apresentada pelo Republicanos.

De acordo com a denúncia citada no processo, recursos teriam sido usados de maneira irregular por meio do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Município de Maceió, o Sindsaúde. A conduta, segundo a acusação, contrariaria as normas eleitorais.

A anulação dos votos levou à necessidade de recontagem do quociente eleitoral. Esse cálculo define a distribuição das cadeiras legislativas no sistema proporcional, considerando o desempenho dos partidos, federações e candidatos.

Redação com Brasil 247

Caso Davi: três policiais e uma ex-PM são condenados a mais de 100 anos de prisão

PMs assassinos são condenados. Davi desapareceu após uma abordagem policial no Benedito Bentes. Julgamento aconteceu quase 12 anos após o crime.

Três policiais militares e uma ex-policial foram condenados, na noite de terça-feira (5), pela morte, tortura e ocultação de cadáver de Davi da Silva, um jovem de 17 anos que desapareceu após uma abordagem no Benedito Bentes, em Maceió, em 25 de agosto 2014.

Eles também foram condenados pela tortura de Raniel Victor, um jovem de 19 anos que estava com o Davi no momento da abordagem. Se somadas, as penas dos réus ultrapassam 100 anos de prisão. A defesa dos réus informou que irá recorrer.

A decisão aconteceu quase 12 anos depois do crime, durante o segundo dia de um júri popular no Fórum Desembargador Jairo Maia Fernandes, em Maceió.

Três policiais e uma ex-policial são condenados pela morte de Davi da Silva, após abordagem policial no Benedito Bentes, em Maceió — Foto: Divulgação/MP-AL

Foram condenados a regime fechado, pelos crimes de cárcere privado, sequestro, ocultação de cadáver, homicídio qualificado e tortura:

  • Eudecir Gomes de Lima: 28 anos, 1 mês e 3 dias de reclusão;
  • Carlos Eduardo Ferreira dos Santos: 24 anos, 4 meses e 13 dias de reclusão;
  • Nayara Silva de Andrade: 24 anos, 4 meses e 13 dias de reclusão;
  • Victor Rafael Martins da Silva: 23 anos, 4 meses e 24 dias de reclusão.

Como Eudecir, Carlos Eduardo e Victor Rafael são policiais, eles perderam o cargo. Nayara, por sua vez, estava exercendo o cargo de auditora do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Ela também perdeu a função e está impedida de exercer qualquer cargo público.

O pai de Davi da Silva acompanhou o júri e, durante os dois dias de julgamento, chegou a passar mal e precisou de atendimento médico. Ele afirmou estar parcialmente feliz com a decisão, mas lamentou nunca ter conseguido enterrar o corpo do filho.

“Por uma parte eu estou bem, porque estou feliz [com a decisão]. Mas tem uma parte que está ruim porque eu não onde é que está [o corpo do] meu filho. Eu quero ver, nem que seja, um fio de cabelo do meu filho para eu enterrar junto da minha esposa, a mamãe dele”, relatou Cícero Lourenço da Silva, pai de Davi.

A promotora Lídia Malta explicou que apesar da demora, finalmente a família do adolescente vai poder ter a sensação de que a justiça foi feita. “A sociedade alagoana ouviu os clamores, ouviu a dor e reparou, ao menos, esse tempo de impunidade. As provas dos autos eram seguras, em relação a tudo o que aconteceu”.

À espera de um julgamento

A mãe de Davi da Silva, Maria José da Silva, foi uma das pessoas que mais buscou pelo corpo do filho. Durante 11 anos ela visitou órgãos públicos e realizou mobilizações para buscar justiça e para pedir que o caso não fosse esquecido.

Em novembro de 2014, quase dois meses após o desaparecimento de Davi, Maria José foi vítima de um atentado enquanto estava em um ponto de ônibus, próximo ao Mercado da Produção, no bairro da Levada. Aminab da Silva, de 34 anos, fugiu do local, mas acabou preso em seguida.

A busca de Maria José só terminou em 12 de dezembro de 2025, quando ela morreu aos 68 anos. Ela não pode ver o julgamento dos réus acusados de matar o filho dela. A irmã de Davi da Silva, Ana Paula, acredita que a mãe viveu angustiada.

“O que mais me marcou e me marca até hoje foi a busca incansavelmente da minha mãe por Justiça. Ela morreu sem sequer ver o desfecho do caso e isso me deixa muito triste. Como toda mãe, ela ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Eles [os policiais] ocultaram [o corpo] e nem deram o direito dela, pelo menos, de fazer um enterro digno para o filho”, lamentou Ana Paula, irmã de Davi da Silva.

Morte de Raniel

Raniel Victor Oliveira da Silva era amigo de Davi da Silva e foi a principal testemunha do desaparecimento do adolescente. Ele chegou a ser incluído no programa de proteção mas, em 24 de novembro de 2015, dois dias após deixar o programa, foi encontrado morto com dois tiros nas costas e marcas de pedradas no Benedito Bentes, aos 19 anos.

À época, a morte foi confirmada pelo advogado do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente – Zumbi dos Palmares (Cedeca), Pedro Montenegro.

Fonte: G1

Ciro Nogueira, alvo da PF, recebia mesada de R$ 500 mil de Vorcaro do Banco Master

A Polícia Federal identificou que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebia repasses mensais do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que chegavam a R$ 500 mil por mês. Nogueira foi alvo de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira, 7, na quinta fase da Operação Compliance Zero.

Relação financeira e política
Investigadores encontraram no celular de Vorcaro diálogos e registros de pagamentos a uma pessoa mencionada apenas como “Ciro”. Mensagens adicionais mostram que Vorcaro se referia ao senador como um “grande amigo de vida” e comemorava iniciativas legislativas do parlamentar que beneficiavam diretamente o Banco Master.

A data de uma das mensagens, 13 de agosto de 2024, coincide com a apresentação de emenda à PEC de autonomia financeira do Banco Central, que aumentou a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. Políticos e integrantes do mercado financeiro interpretaram a medida como um favorecimento ao Master.

Nova fase da operação e delação premiada
A quinta fase da Operação Compliance Zero foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. A operação ocorre na mesma semana em que a defesa de Vorcaro entregou proposta de delação premiada à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), ainda em análise e sem valor probatório neste estágio.

Segundo a investigação, a cobertura ampliada do FGC era estratégica para o Banco Master alavancar investimentos em seus Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). A nova fase, porém, não está diretamente relacionada aos fatos da delação.

Fases anteriores e desdobramentos
A quarta fase da operação, realizada em 16 de abril, resultou na prisão do ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, que também demonstrou interesse em firmar acordo de delação. Até o momento, o senador Ciro Nogueira não se manifestou sobre os novos desdobramentos da investigação.

Fonte: Brasil 247

Israel transformou Gaza no novo campo de extermínio de Auschwitz

Por Nancy Fraser, na New Left Review

Título orignal:
Gaza como evento mundial

Genocídio substituirá Auschwitz, como símbolo máximo da barbárie. Em seu rastro, regimes liberais desmascaram-se, ao se perderam em repressão e racismo. Oxalá esta desconstrução possa, um dia, favorecer os palestinos e outra ordem mundial


Os significados de Gaza continuam a se desdobrar. Relatórios eloquentes e bem documentados, como os da Relatora Especial da ONU para os Territórios Ocupados; obras cinematográficas aclamadas como A Voz de Hind Rajab (2025); poesias como Se Eu Tiver Que Morrer (2024), de Refaat Alareer; análises de historiadores palestinos como Rashid Khalidi e juristas como Rabea Eghbariah — todas essas peças e muitas outras abordaram a importância da investida em estilo terra arrasada de Israel, seus repetidos ataques a locais de distribuição de ajuda e “zonas seguras”, suas táticas de cerco e fome, seu deslocamento de milhões de palestinos para aqueles “desertos impensáveis de escombros, esgoto e corpos em decomposição” descritos pelo Relatora da ONU1

Aqui, quero examinar um aspecto diferente do ataque genocida de Israel contra Gaza: seu significado como um “evento mundial”, um ponto de virada histórico que também serve para revelar, e assim significar, a natureza dos tempos. Pretendo fazê-lo em um registro que abrangerá o político, o social, o filosófico e o pessoal. Argumento que “Gaza” significa uma crise para a ordem moral que prevaleceu em grande parte do Ocidente durante o último meio século. Instalada nos Estados Unidos a partir da década de 1970, e servindo para justificar a hegemonia global de Washington, juntamente com o expansionismo israelense, essa ordem estava centrada no judeocídio nazista como o emblema máximo do “mal radical”, delimitando o horizonte dentro do qual o erro e sua retificação poderiam ser pensados2. Hoje, no entanto, o próprio Auschwitz é invocado como justificativa para um novo genocídio. O efeito é deixar em frangalhos a ordem moral ocidental centrada no Holocausto, tornando-a incapaz de ocultar ou conter os crimes flagrantes cometidos pelo Estado de Israel e seu apoiador norte-americano. No período atual, “Gaza” tende a substituir “Auschwitz” como símbolo das piores atrocidades humanas de nossa época.

Em todo caso, esse é o cenário que exploro aqui. Cheguei a ele por um caminho tortuoso, que me levou ao redor do mundo, tanto literal quanto mentalmente, em 2024 e 2025: à Alemanha, onde gestos modestos de solidariedade à Palestina foram recebidos com exigências de retratação; aos Estados Unidos, onde uma grande onda de protestos universitários contra o genocídio em curso surgiu e foi reprimida; à “comunidade judaica”, onde famílias extensas — incluindo a minha — estavam cancelando seu jantar de Páscoa anual porque não conseguiam conversar entre si sobre o que Israel estava fazendo; e, finalmente, ao Japão, onde fui convidada a dar uma palestra sobre Gaza em meio a um sentimento pró-Palestina surpreendentemente amplo e incontestado, apesar de um pró-americanismo igualmente amplo e incontestado.

Naquela última parada, em Kyoto, enquanto eu refletia sobre o que dizer, duas observações me chamaram a atenção. Primeiro, “Gaza” estava sendo processada de maneira diferente nesses contextos. Mas, segundo, por baixo das diferenças, havia figuras e motivos semelhantes, ansiedades e evasivas análogas. Questões sobre vítimas, perpetradores e acertos de contas morais com um passado que parecia relativamente resolvido estavam ressurgindo em cada local, com uma intensidade feroz. Aqui, pensei, era possível ler a crise de uma ordem mundial, cujos crimes não podiam mais ser contidos na figura de “Auschwitz”. O que se segue é uma elaboração dessa hipótese na forma de um relato de viagem, revisitando os principais locais do meu itinerário original — Alemanha, EUA, “judaísmo mundial” — com breves paradas no Japão, Israel e Palestina. Em cada caso, pretendo revelar tanto as especificidades locais quanto os padrões mais amplos de ruptura moral que constituem “Gaza” como um evento mundial.

1.

Começo pela Alemanha — e uma breve nota pessoal. Em maio de 2024, eu deveria assumir uma cátedra de professora visitante na Universidade de Colônia, para a qual havia sido nomeada no ano anterior. Estava tudo pronto quando recebi a notícia de que o reitor desejava que eu “esclarecesse” minhas opiniões sobre Israel/Palestina. Ele acabara de descobrir que eu era parte dos quatrocentos filósofos norte-americanos que assinaram uma carta aberta em novembro de 2023, a qual condenava a invasão israelense de Gaza como uma apropriação territorial colonial e alertava para um genocídio iminente. Em sua visão, a carta me desqualificava para a cátedra Albertus Magnus. Seu pedido para que eu “esclarecesse” minhas opiniões era, na realidade, uma exigência para que eu as renegasse publicamente. Quando me recusei a fazê-lo, ele revogou minha nomeação e me denunciou à imprensa alemã3Assim que a notícia se espalhou, comecei a receber mensagens de ódio de pessoas em Israel. Uma mensagem permanece gravada na minha mente: “Nem mesmo os descendentes dos nazistas te suportam, vadia Kapo.”

A rapidez e a brutalidade de tudo isso foram impressionantes. Mas eu não fui a única a receber esse tratamento na Alemanha durante esse período. Outros exemplos incluem a romancista palestina Adania Shibli, cuja cerimônia de premiação por Minor Detail na Feira do Livro de Frankfurt de 2023 foi cancelada; a escritora anglo-alemã Sharon Dodua Otoo, cujo Prêmio Peter Weiss de 2023 foi revogado pela cidade de Bochum; a artista e cineasta palestina Emily Jacir, cuja palestra na estação de trem Hamburger Bahnhof foi cancelada; a curadora berlinense Anais Duplan, cuja exposição de Afrofuturismo no Museu Folkwang em Essen foi cancelada; e a artista judia sul-africana Candice Breitz, cuja exposição no Museu do Sarre foi cancelada. Todas essas e muitas outras pessoas tiveram suas exposições canceladas na Alemanha por criticarem a guerra genocida de Israel contra Gaza e expressarem solidariedade aos palestinos. Eu me orgulhei de estar entre elas.

A justificativa oficial para esses cancelamentos reside na versão peculiar da Alemanha do Staatsräson (princípio da segurança nacional), segundo a qual os interesses da nação estão indissoluvelmente ligados à segurança nacional de Israel; enfraquecer a segunda é, por consequência, minar a primeira. Essa condicionalidade visa eximir a Alemanha da responsabilidade pelo assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas, enquanto, obviamente, não assume qualquer responsabilidade pelos milhões de outros mortos pelos nazistas: comunistas, pessoas com deficiência, homossexuais, poloneses, russos, ucranianos, ciganos e sintis. No que diz respeito aos judeus, a postura da Alemanha pode inicialmente parecer apropriada, até mesmo admirável, quando comparada à de muitos países, incluindo os EUA e o Japão, que não assumiram a responsabilidade pelas atrocidades que cometem. Mas a doutrina alemã deve ser combatida, pois ela vincula a responsabilidade pelo judaísmo não ao dever de defender os direitos humanos universais, nem mesmo a obrigações reparadoras especiais para com o povo judeu, mas sim ao apoio incondicional ao Estado de Israel. Este, por sua vez, equipara-o ao apoio incondicional a todas as ações israelenses tomadas em nome da “segurança nacional” — as ondas de limpeza étnica de palestinos após a Nakba de 1948; a ocupação dos territórios palestinos pelo exércio de Israel e a anexação de Jerusalém Oriental; a destruição de casas palestinas, a prisão, a tortura e o assassinato de ativistas palestinos, a promoção de colônicas de ocupação sionista e a incitação à violência dos colonos, o uso da fome e de bombardeios indiscriminados contra Gaza; ações que, em conjunto, constituem uma clara indicação de intenção genocida4

Tudo isso e muito mais recebe apoio do Estado alemão, como prova de sua recém-limpa consciência em relação aos judeus — enquanto, ao mesmo tempo, autoridades alemãs se arrogam o direito de intimidar qualquer judeu que critique Israel, não apenas nos dizendo o que devemos dizer e pensar, mas também nos instruindo sobre nossos deveres e interesses como judeus — decidindo o que significa ser judeu, quem é um judeu “de verdade” e quem não é. Isso é especialmente ofensivo para os judeus de esquerda que protestam contra o genocídio em Gaza apelando para “outro judaísmo”, uma tradição universalista que inclui Maimônides, Spinoza, Heine, Freud, Benjamin, Einstein, Deutscher, Arendt e Judith Butler, entre muitos outros. O grito de guerra desses judeus contra as atrocidades israelenses é: “Não em nosso nome!”. Para nós, a equação redutiva do pensamento judaico aos delírios messiânicos da extrema direita israelense e seus cúmplices é uma negação da nossa realidade e da nossa história.

O termo “macartismo filossemita” foi cunhado por Susan Neiman, uma filósofa judaico-americana radicada em Berlim, para descrever essa repressão do pensamento5. Susan descreve como estudantes da Alemanha Ocidental, na década de 1960, desafiaram a relutância da geração de seus pais em reconhecer a magnitude dos crimes nazistas. Na década de 1980, a ideia de “acertar as contas” com o passado nazista havia se tornado um consenso estabelecido na República Federal Alemã6. Desenvolveu-se uma densa cultura de memória do Holocausto, com museus, currículos escolares e memoriais públicos, juntamente com a injunção de que qualquer crítica a Israel poderia ser um passo nessa mesma estrada antissemita. Como relata Sus, a reação do governo Merkel à ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) foi a criação de uma Comissão Federal para o Combate ao Antissemitismo em 2018, assessorada pela Embaixada de Israel e logo replicada em nível regional. Em 2019, porém, o próprio AfD, assim como muitos partidos de extrema-direita europeus, adotou uma posição pró-Israel e propôs a proibição da campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) na Alemanha. Adotada pelos principais partidos, a regulamentação agora proíbe qualquer pessoa considerada “próxima” ao BDS de discursar, se apresentar ou expor em qualquer espaço cultural financiado pelo Estado. Juntamente com as comissões antissemitismo apoiadas pelo Estado, esse foi mais um passo crucial na institucionalização do “filossemitismo” na Alemanha7.

O termo cunhado por Suan, “macartismo filossemita”, iluminou a ligação desse duvidoso “amor pelos judeus” com táticas políticas análogas às do nosso anticomunismo da Guerra Fria: listas negras, juramentos de lealdade, delação premiada de outros esquerdistas perante uma comissão do Congresso. Como ela observa corretamente, o “amor” em questão é objetificador, solipsista, atolado em estereótipos e limitado por noções alemãs do que é um judeu e como ele deveria ser; não uma abertura para “o outro”, mas um fechamento para ele. Além disso, uma afeição falsa e exagerada por um grupo de semitas, “os judeus”, é usada para justificar a opressão repleta de ódio contra outro grupo, os palestinos. As ameaças aos judeus são grosseiramente ampliadas quando não inventadas. O sofrimento palestino é apagado, tornado invisível, inexistente.

Em sua essência, o macartismo filossemita é antissemita em ambos os sentidos: antijudaico e antiárabe. Seu verdadeiro objetivo é promover a autoestima da elite alemã, e não o bem-estar dos semitas. Promete transformar os supostamente culpados descendentes dos nazistas em campeões da política da memória, virtuosos em lidar com o passado. Para que isso funcione, as vítimas judias da Alemanha devem ser retratadas como puras e boas; qualquer reconhecimento da criminalidade do Estado israelense ameaça perturbar esse frágil equilíbrio. Talvez isso ajude a explicar o caso de Jürgen Habermas, que declarou, em um documento intitulado “Princípios da Solidariedade”, que era inaceitável para um alemão sequer indagar sobre a possibilidade de Israel cultivar intenções genocidas em relação a Gaza. Isso foi justificado em termos do “ethos democrático da República Federal da Alemanha, que se orienta para a obrigação de respeitar a dignidade humana”8. A preocupação com a dignidade humana, contudo, não se estendeu aos palestinos em Gaza — nem aos muçulmanos na Alemanha, confrontados com a crescente islamofobia9. É certo queum número significativo de intelectuais alemães protestou de modo vigoroso contra a inclusão na lista negra daqueles que se manifestavam sobre Gaza, e defendeu os princípios fundamentais da liberdade de consciência e expressão, mesmo quando discordavam sobre a política do ataque israelense. O efeito foi o de ampliar, ainda que ligeiramente, as fissuras no muro filossemita-macartinsta10.

2.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, os efeitos de “Gaza como um evento mundial” se desenrolavam em uma direção diferente e em um ritmo mais acelerado — da proliferação de protestos à repressão brutal. A invasão israelense de Gaza desencadeou uma enorme onda de protestos em praticamente todos os estados. Em abril e maio de 2024, estudantes de mais de 140 campi se mobilizaram, realizando uma ampla gama de ações em solidariedade à Palestina, quase todas não violentas: marchas, vigílias, acampamentos, ocupações, greves e protestos pacíficos, contra o massacre israelense e o financiamento e armamento do governo Biden. Os participantes representavam todo o espectro da população universitária: palestinos e árabes-americanos, certamente; mas também latinos e asiático-americanos, afro-americanos e “brancos étnicos”, cristãos e ateus, muçulmanos e judeus. Muitos eram novatos na política de protesto; radicalizados pela experiência, juntaram-se a grupos como nós: Campanha pelos Direitos Palestinos, Estudantes pela Justiça na Palestina, Voz Judaica pela Paz, Não em Nosso Nome e Socialistas Democráticos da América. Ao participarem de seminários e grupos de estudo, eles aprenderam sobre a história do colonialismo de povoamento e o pensamento anti-imperialista. Para um veterano da década de 1960, aquilo lembrava muito os dias intensos e eufóricos do início do movimento contra a Guerra do Vietnã, sinalizando um renascimento do radicalismo americano; baseado nos movimentos Occupy e Black Lives Matter, mas adicionando uma dimensão internacionalista mais enfática.

Então, em junho de 2024, essa primeira onda foi sufocada num instante. Usando acusações falsas de antissemitismo como arma, sionistas judeus de direita uniram-se a nacionalistas cristãos conservadores numa ofensiva coordenada contra os manifestantes. A polícia militarizada desmantelou acampamentos, prendendo e brutalizando estudantes. Universidades expulsaram alunos, proibiram os núcleos estudantis de grupos como Estudantes pela Justiça na Palestina e Voz Judaica pela Paz, e suspenderam diplomas. Grandes escritórios de advocacia privados revogaram ofertas de emprego feitas a formandos. Trolls apoiadores do MAGA e sionistas perseguiram manifestantes online e denunciaram aqueles que consideravam possíveis árabes. Tudo isso foi feito em nome do combate ao antissemitismo, que foi equiparado à crítica a Israel e à solidariedade com os palestinos. O macartismo filossemita havia cruzado o Oceano Atlântico.

Ou será que não? Em retrospectiva, fica claro que o macartismo, em sua forma original americana, já possuía uma vertente filosemítica, anterior ao foco em Auschwitz. Alinhado ao projeto da Guerra Fria de isolar a URSS em uma nova ordem capitalista mundial dominada pelos EUA, fazia parte de um esforço maior para reformular uma cultura política interna na qual as sensibilidades da Frente Popular permaneciam fortes. Uma manobra ideológica fundamental foi reformular a imagem do aliado soviético durante a guerra, agrupando o comunismo ao nazismo, como dois totalitarismos gêmeos ligados pela rejeição ateísta da civilização “judaico-cristã”. Originalmente popularizada por liberais e antifascistas no período entre guerras, principalmente para transmitir a mensagem de que os cristãos deveriam proteger os judeus dos nazistas, a noção de uma tradição judaico-cristã foi reaproveitada como arma no arsenal anticomunista durante a Guerra Fria11.Esta nova versão convidava os judeus americanos a se desvencilharem das associações com o bolchevismo e a provarem seu patriotismo juntando-se à cruzada contra os comunistas — um convite que muitos “líderes comunitários” aceitaram prontamente12.Ao mesmo tempo, a associação do macartismo com a defesa dos valores judaico -cristãos distinguia esta última vertente do populismo de direita americano das versões anteriores, que eram explicitamente antissemitas e racistas13.

O próprio Trump foi notoriamente instruído nas táticas macarthistas por seu principal arquiteto, Roy Cohn, o judeu de direita que idealizou a cruzada anticomunista do senador McCarthy14. Desde o início, sua guerra “anti-woke” contra as universidades — e contra a sociedade civil de forma mais ampla — veio diretamente do manual do senador, que apresentava os campi como incubadoras de intolerância, onde “professores marxistas” oprimiam estudantes conservadores. Em seu segundo mandato, no entanto, Trump tornou o elemento filossemita explícito, colocando-o no centro do ataque de seu governo às instituições norte-americanas de ensino superior. Nos primeiros meses, o Escritório de Direitos Civis do Departamento de Educação abriu diversas investigações contra universidades por “tolerar o antissemitismo” e “falhar em proteger” estudantes judeus e israelenses — por exemplo, permitindo protestos em campi contra a destruição de Gaza por Israel — bem como programas de diversidade e supostos procedimentos de admissão por ação afirmativa.

Isso foi corroborado pelas ameaças de Trump de acabar ou limitar o financiamento federal, com o Departamento de Comércio e o Pentágono cortando verbas para projetos específicos e o Departamento de Justiça iniciando novas investigações e processos judiciais. Entre as instituições mencionadas estavam Harvard, Princeton, Columbia, Brown, Cornell, Duke, Northwestern, Penn, a Universidade da Virgínia e a UCLA.

Na verdade, muitas dessas universidades contam com um grande número de judeus entre seus alunos, professores, ex-alunos e doadores ricos. A maioria possui grandes fundos privados e poderia ter recusado a chantagem, unindo-se em uma frente única e revidando. Em vez disso, quase todas cederam, assinaram acordos privados com Trump e pagaram as multas arbitrárias que ele exigiu — Columbia: US$ 200 milhões, Brown: US$ 50 milhões, Cornell: US$ 60 milhões, Northwestern: US$ 75 milhões15.Com isso, seguiram um caminho trilhado por escritórios de advocacia corporativos, grandes museus e centros culturais, muitos dos quais também cederam às exigências de Trump. A exceção parcial foi Harvard, que lutou com sucesso nos tribunais contra algumas delas, enquanto também tentava negociar um acordo; em fevereiro de 2026, Trump aumentou unilateralmente a multa de Harvard por “antissemitismo” de US$ 200 milhões para um bilhão de dólares16.

A campanha contra o “antissemitismo” nos campi universitários coincidiu com o ataque do governo contra imigrantes. Enquanto as universidades eram retratadas como focos de sentimento antijudaico e judeus e israelenses eram pintados como vítimas, palestinos e seus apoiadores foram apresentados como perseguidores, substituindo os demonizados “vermelhos” da década de 1950, e passaram a ser alvos de deportação. Idealizada por Stephen Miller e executada pela mesma “liderança” do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) que mais tarde defendeu os assassinatos de dois manifestantes em Minneapolis, a tática agora abrangia o sequestro de estudantes estrangeiros de pele escura por policiais de imigração mascarados, bem como a extorsão financeira de instituições de ensino. Nessa versão filossemita, o virulento antiesquerdismo do macartismo original fundiu-se com o racismo explícito.

Os efeitos nos EUA foram significativos. O equilíbrio percebido entre força e consentimento, que Gramsci considerava a marca da hegemonia democrático-burguesa, foi inclinado a favor do “líder”, que descaradamente despreza o consentimento e brande a ameaça da força – coerção financeira, processo judicial, detenção, deportação – respaldada pela própria força. A autonomia relativa da sociedade civil foi diminuída; centros de formação de opinião que antes se consideravam independentes do Estado agora demonstram sua subserviência a ele. Se perguntarmos o que possibilitou essa mudança crucial, fica claro que o aríete mais potente no arsenal trumpista foi a acusação de “antissemitismo”17. Hoje, além disso, o macartismo filossemita nos EUA é abertamente islamofóbico. Desde o início, a noção de “civilização judaico-cristã” excluiu os muçulmanos, mesmo admitindo os judeus como parceiros minoritários; mas o islamismo conservador havia sido um parceiro potencial contra a “ameaça vermelha”. Com a ausência deste último, o Islã poderia ser considerado a principal ameaça aos valores ocidentais, agora redefinidos pelo apelo a “Auschwitz”. Nesta versão do macartismo, a designação é mais elástica do que nunca, englobando palestinos, muçulmanos, árabes, persas e imigrantes de pele escura de todas as origens para atacar o bode expiatório do momento. À medida que uma comunidade demonizada é associada a outra, nacionalistas palestinos seculares são agrupados com “terroristas do Hamas” e mulás iranianos — todos supostamente movidos por um antissemitismo que leva inexoravelmente a um segundo Auschwitz. Mas, em sua segunda vinda, esse apelo para defender a “civilização judaico-cristã” cheira a farsa, exemplificada pela belicosidade caricatural do vídeo postado pelo “Secretário de Guerra” de Trump, que misturou o áudio de Hegseth entoando a Oração do Senhor com um vídeo de “mísseis sendo disparados, navios de guerra navegando e paraquedistas caindo do céu”18. De maneira semelhante, Trump rejeitou os nomes propostos pelo Pentágono para o ataque dos EUA ao Irã por considerá-los excessivamente insossos e o “batizou”, ao estilo da Marvel Comics, de “Fúria Épica”. Aqui também, no nível geopolítico, os esforços para (re)estabelecer a hegemonia dos EUA em bases morais degeneram na afirmação bruta da força, acompanhada de bravatas pueris.

3.

Se estas são algumas das maneiras pelas quais o “evento mundial” de Gaza reverberou na Alemanha e nos Estados Unidos, ele também constituiu uma crise de identidade histórica para os judeus do século XXI. Nesse processo, reabriu antigas fissuras inerentes à tradição judaica. Diferentemente de outros monoteísmos, o judaísmo se baseia na ideia de uma única divindade que é, ao mesmo tempo, o deus de todos e o senhor de um “povo escolhido” — portanto, simultaneamente universal e tribal. Aqueles que se identificam como judeus sempre tiveram que lidar com essa ambiguidade. Mas “Gaza como um evento mundial” coloca o problema em evidência novamente, de forma mais aguda. A questão crucial para os judeus da diáspora é como se relacionar com Israel — um tema que divide profundamente a comunidade. De um lado, está o número crescente de pessoas que, revoltadas com o genocídio patrocinado pelo Estado, estão se tornando antissionistas e se juntando a grupos como a Voz Judaica pela Paz e Não em Nosso Nome, que usam sua própria identidade judaica como plataforma para se opor ao “Estado Judeu”. Ao fazer isso, eles invocam a noção de um “outro judaísmo”, mas o que isso significa exatamente não está claro. O próprio antissionismo constitui essa identidade? Ou eles se referem a um sentido mais concreto de “judaísmo” — religioso, cultural, político?

A história do judaísmo oferece uma gama de modelos de identidade judaica, tanto não sionistas quanto antissionistas. Uma pequena amostra incluiria as correntes ortodoxas que se opuseram à fundação do Estado sionista desde o início, considerando-a uma forma de “idolatria” que se antecipava ao Messias; as correntes reformistas para quem os judeus não são um “povo” etnonacional, mas uma comunidade baseada na fé; os judeus palestinos e árabes do “Yishuv” pré-1948 que se uniram a muçulmanos e cristãos para se oporem aos assentamentos sionistas; o movimento de massa dos bundistas na Polônia e na Rússia que rejeitaram o sionismo como derrotista e burguês, em favor da autonomia cultural judaica dentro de um Estado operário multicultural, bem como os judeus não bundistas do Leste Europeu que insistiam que já possuíam uma nação na Zona de Assentamento e uma língua nacional, o iídiche; os judeus do Oriente Médio e do Norte da África que viam o sionismo como uma extensão do colonialismo europeu e elaboraram identidades judaico-árabes; os leitores americanos do Jewish Daily Forward , que, assim como os bundistas, não viam contradição entre lutar para construir o socialismo in situ e ser judeu; ou os “sionistas culturais” como Buber, que se opunham à fundação do Estado etnonacional colonialista. Todas essas tradições estão sendo reexaminadas hoje por aqueles que buscam uma identidade especificamente judaica desvinculada de Israel19.

Outro caminho, mais austero, busca uma “judaicidade” que não esteja enraizada na especificidade de um grupo. Semelhante ao que Deutscher chamou de “judeu não judeu”, essa posição é universalista em todos os sentidos20. Embora originária da experiência judaica, sua essência transcende esse ponto de partida. Como a amante da beleza de Diotima no Banquete de Platão , essa judia se desfaz da particularidade de onde partiu ao alcançar seu “conceito purificado” ao final da jornada. Voltada para o exterior em vez de voltada para si mesma, ela é solidária e aberta aos outros. Essa perspectiva atrai, especialmente, judeus assimilados como eu. Mas o termo de Deutscher apresenta um problema. O que, afinal, distingue o “judeu não judeu” do “não judeu” de esquerda, cujo universalismo ético ela compartilha? Será que sua compreensão de ser produto de uma tradição complexa e internamente dividida é suficiente para sustentar uma identidade judaica distinta? Ou será que a formulação de Deutscher é uma etapa no caminho para a dissolução completa da identidade judaica — e seria isso algo tão terrível? As escolhas aqui ainda precisam ser feitas. Mas a conclusão fundamental para praticamente todos os judeus antissionistas em relação à ordem moral centrada em Auschwitz é clara. Longe de interpretar o judaísmo nazista como um evento único e incomparável, nós o situamos dentro da longa e terrível lista de genocídios históricos, incluindo aquele que está sendo perpetrado atualmente por Israel. Para esse tipo de judeu, “nunca mais” é interpretado literalmente, categoricamente e universalmente: nunca mais, por ninguém, para ninguém. Ponto final.

Judeus sionistas na diáspora também enfrentam uma crise de identidade, mas acreditam que podem resolvê-la reforçando sua posição sobre Auschwitz e Israel. Nos Estados Unidos, eles estão aliados a nacionalistas cristãos de direita que têm sua própria visão do que significa ser um povo escolhido. Para muitos destes, “Tornar a América Grande Novamente” significa reformular a imagem do país como uma nação branca e cristã e derrotar aqueles que pretendem “substituí-los”: portanto, impedir a “invasão” de imigrantes e deportar o máximo possível. Por enquanto, pelo menos, alguns nacionalistas cristãos estão dispostos a incluir judeus sionistas em sua coalizão “judaico-cristã” e a aceitá-los como “brancos”. Mas sua teologia sugere um cenário diferente, menos acolhedor. Para eles, Israel é a terra onde todos os judeus devem ser reunidos para que Cristo retorne e estabeleça Seu Reino na Terra; quem se recusar a se converter enfrentará o tormento eterno no Inferno, enquanto os cristãos são arrebatados para o Céu. Assim, essa forma de filosemitismo mal disfarça seu antissemitismo subjacente. Longe de aceitar os judeus sionistas como pessoas genuínas, ela converge, no fim das contas, com o antissemitismo declarado daqueles que marcharam em Charlottesville em agosto de 2017, entoando “Os judeus não nos substituirão”, e dos grupos de jovens republicanos que compartilhavam “piadas” sobre câmaras de gás e elogios a Hitler em seus chats. (Cabe ressaltar que a nova direita é o único segmento da sociedade americana onde o antissemitismo está realmente em ascensão.)

Os judeus israelenses também enfrentam uma crise de identidade, quer tenham consciência disso ou não: como conciliar seu apoio ao genocídio em Gaza, ou pelo menos sua aquiescência a ele, com uma identidade centrada no Holocausto, baseada no imperativo ético “nunca mais” — o cerne da “educação sobre o Holocausto”, inculcada em todas as escolas e museus do país. Até agora, a contradição entre a proibição universal do genocídio e sua perpetração pelo Estado israelense tem sido administrada por meio de uma espécie de ilógica modal com nuances temporais — porque fomos vítimas no passado, não podemos ser os perpetradores agora — apoiados por uma forma mais dura de militarismo nacionalista: aprendemos da maneira mais difícil o custo de não revidar; então agora, atacamos preventivamente, livrando “nossa terra” dos palestinos, exterminando-os antes que eles nos exterminem. Benjamin Netanyahu expressou essa ideia em relação ao Irã: enquanto os judeus eram “caçados e massacrados” na era nazista, hoje “nós somos os que caçamos nossos inimigos”. Ele acrescentou que, se Israel não tivesse atacado o Irã, “os nomes Isfahan, Natanz, Fordow e Bushehr” — locais nucleares iranianos bombardeados — “seriam lembrados como Auschwitz, Majdanek e Sobibor”. Para muitos israelenses, “nunca mais” agora significa algo novo: nunca mais contra nós21.

Aqui, o judeu como vítima se transforma no “judeu durão” que se recusa a ser conduzido passivamente à câmara de gás; que luta com todas as armas imagináveis e vence a qualquer custo22. Essa ideia — antes éramos vítimas, agora somos guerreiros — ganhou forma material no projeto do Centro Mundial de Memória do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, que conduz os visitantes da experiência dos judeus supostamente covardes e vitimados da Europa Oriental aos durões Sabras que se reapropriaram da antiga pátria, fundaram o moderno Estado de Israel e construíram sua máquina de matar23. Esse “judeu durão” me apareceu naquela mensagem de Israel sobre minha inclusão na lista negra de Colônia: “Nem mesmo os descendentes de nazistas te suportam, vadia Kapo”. O autor dessas dez palavras constrói os críticos judeus de Israel como Kapos , erroneamente retratados como colaboradores não coagidos que merecem o desprezo compartilhado de “judeus de verdade” e “descendentes de nazistas”. Da mesma forma, o autor transforma as vítimas palestinas em perpetradores nazistas e os perpetradores israelenses primeiro em vítimas e depois em guerreiros. Reaproveitando a cartilha alemã para elevar a autoestima israelense, ele propaga uma narrativa falsa sobre o passado a fim de ocultar um genocídio real em curso no presente. Por fim, ele coroa toda a construção com uma misoginia de valentão.

O que se passará com a identidade judaica dentro de Israel? Será que intensificar o tribalismo truculento é agora a única estratégia disponível? Um sionismo “liberal-universalista” pós-Netanyahu pode ter alguma credibilidade agora, parafraseando Adorno, “depois de Gaza”24? Ou Israel precisa deixar de existir como um “Estado judeu” para que os judeus que agora são seus cidadãos mantenham um senso de judaísmo com o qual possam conviver? O que está claro é que a ordem governante de Israel criou novas dificuldades para eles. Primeiro, a relação com a diáspora está amplamente rompida. Os judeus israelenses estão agora isolados de grande parte da “comunidade judaica global”, grande parte da qual está se tornando antissionista25. Igualmente questionável é a relação dos judeus israelenses com as futuras gerações, incluindo seus próprios filhos, a quem sobrecarregaram com uma culpa monstruosa. O que dirão quando seus netos exigirem explicações sobre esse genocídio — não o que os judeus sofreram no século XX, mas o que eles perpetraram no século XXI? Israel agora é um pária, repudiado em grande parte do mundo, e provavelmente continuará sendo por muito tempo. Para os judeus israelenses, Gaza também representa um ponto de virada histórico.

4.

Ao analisar os significados de Gaza como um evento mundial nesses contextos interligados — Alemanha, EUA e a comunidade judaica mundial — revela-se que, em cada caso, as acusações de antissemitismo estão intrinsecamente ligadas a inversões de papéis entre vítima e agressor e a falsas interpretações do passado, arquitetadas para obscurecer a verdade e evadir a responsabilidade. Em todos os casos, também, “Gaza” surge como o sinal de uma ruptura na ordem moral do Ocidente — tendendo a substituir “Auschwitz” como o novo emblema da atrocidade humana. A lista poderia ser estendida ao Reino Unido, onde o primeiro-ministro Keir Starmer, com o apoio do establishment, impôs uma versão punitiva do macartismo filossemita ao Partido Trabalhista, expulsando seu antecessor de esquerda na liderança trabalhista, Jeremy Corbyn, e criminalizando o apoio ao grupo de solidariedade, Palestine Action. Na França, táticas comparáveis do establishment contra Jean-Luc Mélenchon e La France Insoumise mostraram-se (até o momento) menos eficazes.

Mas também devemos considerar o significado de Gaza para as regiões do mundo que sempre estiveram além da ordem moral ocidental centrada em Auschwitz, tal como foi construída no pós-guerra — aquelas que, justificadamente, viam o genocídio nazista como um problema europeu, enquanto tinham suas próprias atrocidades para enfrentar, seja como vítimas, como perpetradores ou como ambos. Um caso complexo é o do Japão. Conheço muito pouco sobre o país para fazer qualquer afirmação definitiva, mas tenho perguntas. Fiquei impressionado em Kyoto com a extensão da solidariedade à Palestina que encontrei e com a aparente ausência de um macartismo filossemita, apesar do pró-americanismo quase universal. Certamente, a relativa ausência de judeus faz parte da história. Mas eu estava curiosa para saber o que mais poderia estar em jogo, incluindo a própria psicodinâmica japonesa de vitimização e o acerto de contas (ou não) com seu passado. Houve, sem dúvida, os crimes cometidos pelo Japão Imperial em suas conquistas de Taiwan, Coreia, Manchúria e uma grande faixa da China, onde a questão dos pedidos de desculpas — oferecidos ou negados, aceitos ou rejeitados — ainda paira no ar. Mas havia também a questão da relação do Japão com o país que lançou duas bombas atômicas sobre ele, matando cerca de um quarto de milhão de pessoas — não para vencer a II Guerra, que já havia sido vencida, mas para ganhar vantagem na Guerra Fria, que estava apenas começando — e que depois o reconstruiu como seu aliado no Leste Asiático (anti-China), enquanto dependia de seu aliado no Oriente Médio para garantir seu fornecimento de petróleo. Como o pró-Palestinismo se concilia com o pró-Americanismo nesse contexto?

5.

A Palestina continua sendo, obviamente, o epicentro de Gaza como evento mundial. Os palestinos são, ao mesmo tempo, seus sujeitos — dramaticamente mais audíveis e visíveis agora, no cenário mundial — e seus objetos, como alvos israelenses; pois o próprio fato do aumento da atenção global à situação dos palestinos leva os sionistas a novos patamares de repressão alimentada pela raiva. A resultante – enquanto alguns trabalham para silenciar as vozes palestinas, outros lutam para amplificá-las – é uma guerra de palavras, bem como de armas; não sobre se os subalternos podem falar — os palestinos sempre falaram —, mas sobre se, e quão amplamente, eles podem ser ouvidos.

Para os palestinos, “Gaza” possui múltiplos significados contraditórios: danos materiais massivos e, ao mesmo tempo, maior visibilidade pública; repressão intensificada e apoio crescente; desespero e esperança. Essa é a mensagem transmitida em diversos registros pela profusão de obras recentes, incluindo obras de ficção narrativa aclamadas como Terra e Céu, de Sahar Khalifeh (2014); Uma Máscara da Cor do Céu, de Basem Khandaqji (2023); Entrar, Fantasma, de Isabella Hammad (2024); A Cidade dos Incendiários , de Hala Alyan (2021); e A Terceira Margem do Rio Jordão, de Hussein Barghouthi (2026). A questão em aberto é se essa mistura desconcertante de perda material e ganho moral pode ser transformada em uma eventual vitória política.

“Gaza”, como já sugeri aqui, sinaliza muitas coisas, mas principalmente a crise da ordem moral do Ocidente. Se agora pode substituir “Auschwitz” como o símbolo reinante da atrocidade humana, será que “Gaza” também contém o princípio da esperança — da solidariedade e da justiça social, da autodeterminação e da reconstrução, da reparação e do cuidado com o planeta?

1Francesca Albanese, ‘Genocídio como Apagamento Colonial: Relatório da Relatora Especial sobre a Situação dos Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados desde 1967’, apresentado à Assembleia Geral da ONU em 1 de outubro de 2024; Kaouther Ben Hania, A Voz de Hind Rajab, 2025; Refaat Alareer, Se Eu Tiver Que Morrer: Poesia e Prosa , Nova York, 2025; Rashid Khalidi, ‘“Um Novo Abismo”: Gaza e a Guerra dos Cem Anos contra a Palestina’, Guardian, 11 de abril de 2024; Rabea Eghbariah, ‘Em direção à Nakba como um Conceito Jurídico’, Columbia Law Review , vol. 124, nº 4, maio de 2024.

2locus classicus é Peter Novick, The Holocaust in American Life , Nova Iorque, 1999.

3‘Carta Aberta’, 1 de novembro de 2023, no site Philosophy for Palestine. Veja também ‘Retirada da Cátedra Albertus Magnus 2024: Declaração’, Universidade de Colônia, 8 de abril de 2024.

4Albanese, ‘Genocídio como apagamento colonial’.

5Susan Neiman, ‘Acerto de Contas Histórico Descontrolado’, nyrb , 19 de outubro de 2023.

6Um consenso suficiente para provocar uma reação por parte dos historiadores conservadores, liderados por Ernst Nolte, que rejeitaram a noção de que o programa de extermínio nazista não pudesse ser comparado a outros genocídios. A Historikerstreit, por sua vez, levou a um endurecimento do consenso de que o Judeucídio era de fato incomparável, uma posição defendida por Jürgen Habermas. Neiman examinou isso em * Learning from the Germans: Confronting Race and the Memory of Evil* (Aprendendo com os Alemães: Confrontando Raça e a Memória do Mal) , Nova York, 2019.

7Neiman, ‘Acerto de Contas Histórico Descontrolado’.

8Nicole Deitelhoff, Rainer Forst, Klaus Günther e Jürgen Habermas, ‘Princípios da Solidariedade. Uma Declaração’, 13 de novembro de 2023; disponível no site do Centro de Pesquisa de Ordens Normativas da Universidade Goethe de Frankfurt. Embora Habermas e seus colegas tenham emitido sua declaração em nome da ‘solidariedade’, ele se recusou, meses depois, a assinar uma carta aberta protestando contra minha inclusão na lista negra da Universidade de Colônia. Solidariedade com quem e com base em quê? Tendo aprendido muito com Habermas no passado, dói-me escrever isto sobre ele. Para mais reflexões, veja ‘Depois de Habermas’, Blog lrb, 25 de março de 2026.

9Esses pontos foram levantados na refutação da declaração dos ‘Princípios de Solidariedade’, publicada no Guardian uma semana depois. Veja Adam Tooze, Samuel Moyn, Amia Srinivasan, Nancy Fraser et al ., ‘O Princípio da Dignidade Humana Deve Aplicar-se a Todos os Povos’, Guardian , 22 de novembro de 2023.

10Por exemplo, mais de 130 acadêmicos alemães e internacionais assinaram uma declaração de solidariedade protestando contra a acção da Universidade de Colónia. Ver ‘Declaração sobre a retirada da nomeação de Nancy Fraser para a cátedra Albertus Magnus na Universidade de Colônia’, 5 de abril de 2024, disponível no site da Teoria Crítica em Berlim. Ver também Hanno Hauenstein, «Nancy Fraser über Ausladung von Uni Köln», Frankfurter Rundschau , 11 de abril de 2024; Elisabeth von Thadden, ‘Ich bin kein Staat! Ich bin ein freier Mensch!’, Die Zeit , 9 de abril de 2024.

11K. Healan Gaston, Imaginando a América judaico-cristã: religião, secularismo e a redefinição da democracia , Chicago 2019.

12Foi um juiz judeu-americano, Irving R. Kaufman, quem condenou Ethel e Julius Rosenberg à morte por eletrocução.

13Agradeço a Eli Zaretsky por sugerir este ponto.

14O filme de Ali Abbasi de 2024, The Apprentice, é uma dramatização evocativa da relação entre Cohn e Trump.

15Alan Blinder, ‘Como as universidades estão respondendo a Trump’, nyt , 5 de fevereiro de 2026; Alan Blinder e Michael Bender, ‘O bilionário por trás do acordo de Trump para as universidades’, nyt , 3 de outubro de 2025. Duas universidades da Ivy League foram poupadas: Dartmouth College e Yale, que responderam reprimindo preventivamente os estudantes pró-Palestina: Asher Boiskin e Isobel McClure, ‘Yale poupada por enquanto dos cortes punitivos de financiamento da Ivy League feitos por Trump’, Yale Daily News , 17 de maio de 2025; ‘Como uma universidade da Ivy League evitou a ira do presidente’, Economist , 1 de maio de 2025.

16Michael Bender e Alan Binder, ‘Administração Trump mira Harvard com duas novas investigações’, nyt , 23 de março de 2026.

17Tal como os comissários antissemitas da Alemanha, Trump presume pronunciar-se sobre quem é e quem não é um judeu de verdade. Trump não hesitou em decretar quais judeus são “estúpidos” — nomeadamente, aqueles que votaram em Zohran Mamdani nas eleições para prefeito de Nova Iorque em 2025. A vitória deste último expôs de forma reveladora os limites populares do macartismo filossemita numa cidade que é uma meca para imigrantes, bem como lar de cerca de um milhão de judeus, a maior comunidade judaica fora de Israel. Além disso, muito poucos se surpreenderam quando o novo prefeito tomou posse sobre um Alcorão.

18Greg Jaffe e Elizabeth Dias, ‘Hegseth invoca propósito divino para justificar o poder militar’, nyt , 20 de março de 2026.

19Agradeço a Ashley Bohrer por insistir neste ponto. Para uma análise de modelos, veja Ben Lorber, ‘Alternativas Judaicas ao Sionismo: Uma História Parcial’, Jewish Voice for Peace , 12 de janeiro de 2019. Para uma nova história do Bund Trabalhista Judaico, veja Molly Crabapple, Here Where We Live Is Our Country: The Story of the Jewish Bund , Londres, 2026, e a resenha de Sam Adler-Bell, ‘“Para Judeus de Esquerda, o Bund é um Modelo”: A História Radical por Trás de um dos Maiores Movimentos Socialistas da Europa’, Guardian , 7 de abril de 2026. Para uma análise ponderada dos dilemas inerentes a qualquer esforço para responder à ‘Questão Judaica’, veja Joseph Dana, ‘A Longa Sombra da “Questão Judaica”’, The Nation , 16 de fevereiro de 2026.

20Isaac Deutscher, ‘O Judeu Não-Judeu’ (1958), em O Judeu Não-Judeu e Outros Ensaios , Londres e Nova Iorque 2017.

21Citado em David Halbfinger, ‘Israelenses não se sentem muito como vencedores na guerra com o Irã’, nyt , 13 de abril de 2026.

22Paul Breines, Judeus Durões: Fantasias Políticas e o Dilema Moral do Judaísmo Americano , Nova York 1990.

23Para informações sobre a disposição de Yad Vashem, veja Idith Zertal, ‘The Bearers and the Burdens: Holocaust Survivors in Zionist Discourse’, Constellations , vol. 5, nº 2, 1998. Para a visão de que os judeus da classe trabalhadora do Leste foram passivamente para a morte nos campos, veja Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem , Londres, 1963. Para uma refutação vigorosa, argumentando que essa população, em média, tinha laços mais fortes com a militância de esquerda e era mais propensa a resistir do que os judeus alemães ‘respeitáveis’ com os quais Arendt se identificava, veja Gertrude Ezorsky, ‘Hannah Arendt against the Facts’, New Politics , vol. 2, nº 4, 1963.

24‘Escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro’. Theodor Adorno, ‘Crítica Cultural e Sociedade’ (1949), em Prismas , trad. Samuel e Sherry Weber, Cambridge ma 1981, p. 34.

25Emoutubro de 2025, uma pesuisa do Washington Post entre judeus norte-americanos apurou que 61% julgam que Israel está cometendo crimes de guerra em Gaza, enquanto 39% acresditam que está cometendo genocídio

Fonte: Outras Palavras

71% dos brasileiros apoiam fim da escala 6×1, diz pesquisa

Uma pesquisa do instituto Real Time Big Data, divulgada nesta terça (5), aponta que 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1, com adoção do modelo 5×2, que prevê cinco dias de trabalho e dois de descanso. Outros 23% se disseram contrários, enquanto 6% não souberam ou não responderam.

O levantamento indica que a proposta tem apoio entre eleitores de diferentes nomes cotados para a Presidência. Entre os apoiadores de Lula, 84% defendem a mudança e 14% são contrários. Já entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 59% apoiam e 30% rejeitam a proposta.

Entre os que declaram voto em Ronaldo Caiado (PSD), 66% são favoráveis e 25% contrários. No grupo de Ciro Gomes (PSDB), o apoio chega a 68%, com 26% de rejeição. Já entre eleitores de Romeu Zema (Novo), 52% apoiam e 45% se opõem.

O levantamento também inclui os eleitores de Renan Santos (Missão), com 56% favoráveis e 43% contrários. Em todos os cenários, há apoio majoritário à proposta de mudança na jornada de trabalho.

A discussão ocorre enquanto uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que trata do tema deve ser analisada pela Câmara dos Deputados ainda neste mês. Paralelamente, o governo Lula enviou um projeto que estabelece jornada semanal de até 40 horas e dois dias de descanso.

Além do tema trabalhista, a pesquisa também avaliou cenários para as eleições de 2026. No primeiro turno, Lula aparece à frente em diferentes simulações apresentadas pelo instituto.

Nos cenários de segundo turno, o presidente aparece tecnicamente empatado com todos os nomes testados, dentro da margem de erro. Em um dos cenários, Flávio Bolsonaro surge com vantagem numérica sobre o petista.

O levantamento ouviu 2 mil pessoas com mais de 16 anos entre os dias 2 e 4 de maio. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03627/2026.

Fonte: DCM

Malafaia e Flávio são denunciados por propaganda eleitoral antecipada em culto

O pastor bolsonarista Silas Malafaia e o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foram denunciados ao Ministério Público Eleitoral (MPE) por propaganda eleitoral antecipada durante um culto realizado neste domingo (3) no Rio de Janeiro. O evento ocorreu na sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC).

Segundo a representação, protocolada pela Associação Movimento Brasil Laico, Malafaia interrompeu a liturgia da Santa Ceia para declarar apoio à pré-candidatura do parlamentar à Presidência da República em 2026. O ato ocorreu diante de fiéis e com a participação de outras lideranças políticas.

Durante o culto, o pastor chamou Flávio e outros nomes ao altar, como Cláudio Castro (PL) e Douglas Ruas (PL), e conduziu uma oração coletiva em favor dos presentes. No momento, afirmou que “chegou o tempo” de apoiar o senador, citando referências bíblicas.

“A Bíblia diz que há um tempo para todo propósito debaixo do sol. Esse é o tempo de eu apoiar o Flávio para presidente”, declarou Malafaia. A associação apresentou a representação à Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro alegando propaganda antecipada em bem de uso comum e abuso de poder religioso e econômico. A entidade afirma que o culto foi utilizado com finalidade eleitoral.

O documento aponta que a estrutura da ADVEC, que possui 149 templos no país, teria sido empregada para favorecer pré-candidatos. A ação inclui, além de Malafaia e da igreja, cinco nomes que participaram do evento.

Entre eles estão Flávio, Douglas Ruas, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Cláudio Castro (PL) e Marcelo Crivella (Republicanos). A representação pede multa de até R$ 25 mil por participante, preservação das imagens do culto e a inelegibilidade por oito anos de Malafaia e do senador.

O texto também solicita apuração da Receita Federal sobre possível desvio de finalidade da ADVEC, o que pode afetar sua imunidade tributária.

Durante o evento, Malafaia ainda fez ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes, chamando o inquérito das fake news de “imoral” e alegando perseguição.

Fonte: DCM

UM INIMIGO DO POVO I

Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

A peça teatral assinada pelo dramaturgo Henrick Ibsen, escrita no longínquo ano de 1882, aborda a temática da verdade confrontada com os interesses econômicos da classe política de uma pequena cidade balneária da Noruega. A história desenvolvida pelo renomado teatrólogo norueguês aborda as questões da manipulação midiática e da opinião pública, da pressão de setores políticos sobre as instituições e da ética torpe que privilegia minorias das classes dominantes em detrimento dos interesses coletivos. Trata-se de uma reflexão sobre a integridade de valores morais do poder político e da narrativa de uma imprensa que inverte princípios fundamentais a boa prática jornalística, transformando e rotulando como inimigo do povo, precisamente o personagem que estava defendendo os interesses populares.

Foi isso que assistimos no caso da indicação pelo Presidente Lula, do Advogado Geral da União Jorge Messias, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal, deixada pela antecipação da aposentadoria do Ministro Luiz Roberto Barroso, que já vinha se arrastando há alguns meses nos bastidores políticos de Brasília e particularmente do senado federal. Tivemos um total inversão de valores neste processo, com o mocinho sendo jogado em uma arena de leões, sedentos em se aproveitar de um cidadão verdadeirente do bem, com um currículo acadêmico e profissional irretocavel, para reverter a lógica que sempre foi respeitada nas inter-relações entre os poderes constituídos da República. E a vitória, ao menos parcialmente, foi do que existe de pior no cenário político nacional.

E porque afirmo que esta vitória foi parcial? Pelo fato de ter ficado óbvio ululante para setores mais esclarecidos da classe média nacional, que é formadora de opinião, a armação e manipulação chantagista para a obtenção de interesses e vantagens mais espúrias, inconfessáveis e menos republicanas possíveis, como o orçamento secreto, por exemplo, nesta operação para desgastar o Governo Lula, comandada pelo manjado Senador Davi Alcolumbre (UB/AP) e pelas lideranças claramente identificadas com o bolsonarismo. Percebeu-se claramente a falta de seriedade nesta manobra oposicionista, ficando um sentimento de “armação ilimitada” no ar do senado federal. E Isto certamente terá consequências eleitorais em outubro próximo.

O notório saber jurídico, a reputação ilibada ostentada pelo advogado Jorge Messias, com uma sólida formação intelectual alicercadas por graduação, mestrado e doutorado em universidades públicas e uma carreira construída e conquistada por intermédio de concursos públicos, teve que ser sabatinada, avaliada e julgada por senadores sem biografias, alguns deles claramente desqualificados, despreparados e muitos desmoralizados, envolvidos em diversas acusações de envolvimentos com práticas ilícitas ao longo de trajetórias que revelam e comprovam o que já falo há alguns anos, de que a mediocridade é a bandidagem chegaram definitivamente ao poder.

Após passar pelo constrangimento de ter que responder não a uma plêiade de ilustre, notórios ou especialistas em temas jurídicos e constitucionais (já que um ministro do STF deve ser um profundo conhecedor e experiente defensor da Constitução Federal), mas por meros lacradores e medíocres “influencers” de Internet, o causidico e Jurista Jorge Messias foi derrotado na sua aspiração de conquistar uma cadeira na mais alta corte do poder judiciário brasileiro, por uma espúria aliança deste fenômeno do atraso ético e fisiológico tipicamente brasileiro, que atende pelo nome de “centrão”, com a extrema direita integralista nacional.

Interessante observar que este segmento extremista é eleito com um discurso neofascista, que no Brasil não é ideológico ou sequer teórico, mas tão somente um fascismo patológico, embasado em um discurso de ódio contra negros, mulheres, lgbts, nordestino e pobres, que, incrivelmente, votam exatamente naqueles que por eles são oprimidos. São as maiores vítimas desses mesmos discursos defendidos por representantes daqueles que os oprimem. O fato é que este período da nossa vida pública não será explicada às futuras gerações pelos historiadores, sociologos, cientistas sociais, filósofos ou economistas e sim pelos psicanalistas e psiquiatras, para explicar, dentre outros absurdos, o surgimento do inacreditável personagem social conhecido como o “pobre de direta”.

Tempos difíceis que não apenas o Brasil enfrenta, mas o mundo, com o crescimento do neofascismo em todos os continentes. Já vivemos períodos semelhantes, mas que foram superados, na medida em que a estabilização da ordem política e econômica foi restabelecida. Como diz o ditado popular, “não há bem que não acabe e nem mal que dure para sempre”. Esta flutuação sistêmica parece ser, cada vez mais, uma lei natural que rege a história da evolução da civilização. O mundo tem alternado ao longo das últimas décadas, sobretudo no século XX, períodos autocráticos e democráticos.

A democracia e não o governo federal, sofreu, dentro de um prazo de 24 horas, dois reveses de dimensões históricas. A primeira é irreversível a curto prazo, que foi a rejeição pelo senado do nome indicado para o STF, o que não ocorria em mais de um século de convivência política entre o executivo e o legislativo e a segunda, podendo ser revertida em prazo bem inferior a primeira, que foi a derrubada do veto do Projeto de Lei da dosimetria pelo Presidente Lula, que redizia drasticamente as penas impostas aos crimes cometidos contra a ordem democrática, a exemplo da tentativa de golpe do 08 de Janeiro, que tinha como última consequência, até mesmo o plano de assassinar o Presidente Lula, o Vice-Presidente Geraldo Alckmin e o então presidente do TSE Ministro Alexandre de Moraes.

A oposição direitista no Congresso Nacional pode mesmo ter tido uma “vitória de Pirro”, cujo resultado poderá ser desastroso politicamente, em razão de ter que pagar um altíssimo custo e cujo danos poderão ser definitivos para a sociedade brasileira. Isto ocorre pelo fato de, na ansia em libertar o líder maior dos golpistas responsáveis pelo Golpe de Estado contra as instituições democráticas no 08 de Janeiro, o ex-presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro, julgado e condenado a uma pena de mais de 27 anos de prisão, Davi Alcolumbre e o Congresso Nacional cometeram um erro crasso, que é o de suscitar, paralelamente a diminuição e soltura, junto com Bolsonaro e os seus asseclas na tentativa de intenções golpistas, a libertação de mais de 200 mil criminosos comuns e de alta periculosidade, inclusive de lideres históricos de facções do crime organizado, a exemplo de um Fernandinho Beira Mar, do CV – Comando Vermelho ou Marcola, do PCC.

A incompetência ou certeza de que não seriam quetionados desses senadores que derrubaram o veto integral do Presidente Lula ao PL da dosimetria é tão grande, que não levaram em consideração o dispositivo constitucional que estabelece que um veto presidencial integral de um projeto de lei, só pode ser rejeitado ou aprovado na integra. O que não ocorreu. Da forma como o presidente do senado e do congresso nacional, o inexpressivo e desqualificado já citado, Senador Davi Alcolumbre (UB/AP), aprovou a derrubada do veto presidencial, exatamente para evitar a revogação das novas regras de progressão de regime de presos condenados previstas pela Lei Antifacção, tornam esta decisão de derrubada do veto praticamente nula de pleno direito, por ser um verdadeiro atentado as clausulas petreas constitucionais.

Esta lambança Alcolumbriana tem tudo para ir bater no plenário do Supremo Tribunal Federal, que dará a última palavra sobre um tema em relação ao qual não existem dúvidas. Sem chances de serem emreavaliadas pelo legislativo novamente. A aposição brasileira e seu chinfrim candidato a presidente podem ter comemorado antecipadamente”a volta dos que nunca foram”. Riram antes do tempo, sendo oportuno citarmos o ditado popular que diz que “quem ri por último, ri melhor “. A desonestidade será vencida pela incompetência e incapacidade intelectual daqueles que mais uma vez tentaram subverter o Estado Democrático de Direito não mão grande e a legalidade institucional será preservada para o bem do nosso país. Amém

PMs de Tarcísio suspeitos de extorsão, ameaçam testemunha em hospital no interior de SP

Policiais do interior paulista são investigados por supostamente extorquir dinheiro de traficantes para facilitar venda de drogas

O quarto de hospital virou palco de intimidação em São Roque, interior paulista. Internado sob custódia após ser preso, um homem relatou que teve o leito invadido por policiais militares (PMs) que, em vez de atuarem como agentes do Estado, teriam agido para silenciar qualquer menção a um esquema de extorsão envolvendo integrantes da corporação.

Segundo ele, os PMs entraram no quarto, fecharam a porta e passaram a ameaçá-lo para que não “abrisse o bico”.

De acordo com o depoimento prestado à Corregedoria, obtido pelo Metrópoles, o homem afirmou que os policiais — um 1º sargento, um cabo e um soldado que costumam acompanhá-lo — foram até o hospital por duas vezes após sua prisão, em 12 de agosto de 2025.

Na segunda ocasião, um deles ordenou o fechamento da porta do quarto, enquanto outro o agarrou pelo pescoço. Durante a ação, ouviu ameaças diretas como “o peixe morre pela boca” e a advertência de que seria morto caso revelasse informações sobre os policiais.

Os três PMs do 50º Batalhão de Polícia Militar do Interior (50º BPM/I) são investigados, assim como outros nove policiais, suspeitos de extorquir traficantes de drogas em troca de benefícios a criminosos na região. Os 12 foram alvo de mandados de busca e apreensão, cumpridos pela Corregedoria da PM, no último dia 16.

Ameaça dentro do hospital

O relato descreve uma cena na qual agentes públicos, fardados, acessaram uma unidade de saúde para pressionar uma testemunha. Segundo o homem, além do enforcamento, houve intimidação envolvendo familiares, com ameaças de atingir sua ex-companheira, e ordens explícitas para que não mencionasse nomes ou detalhes do esquema investigado.

O episódio ocorreu enquanto ele estava internado em um Hospital de Mairinque, no interior paulista. Mesmo nessa condição, afirma que não houve qualquer proteção institucional contra a abordagem dos policiais, que entraram no quarto e atuaram sem qualquer controle externo.

Extorsão semanal e domínio territorial

A cena no hospital é apenas uma das engrenagens descritas no inquérito da Corregedoria da PM, que investiga os 12 PMs do 50º BPM/I.

Segundo a apuração, o grupo cobrava R$ 6 mil semanais de operadores do tráfico para evitar prisões e permitir a continuidade das atividades ilícitas.

O esquema teria sido consolidado após abordagem realizada em 2 de fevereiro do ano passado, quando policiais apreenderam drogas avaliadas em cerca de R$ 9,7 mil e, em seguida, forçaram a abertura de negociação com traficantes para estabelecer pagamentos periódicos.

Fonte: Metrópoles

Tarifa zero de Lula poderá ser novo Bolsa Família e injetar R$ 60 bilhões na economia

A implementação da gratuidade no transporte público nas 27 capitais brasileiras representaria uma injeção de R$ 60,3 bilhões anuais na economia do país e poderia ter um efeito semelhante ao do Bolsa Família. 

Essa é a principal conclusão de um estudo divulgado, nesta terça (5), por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Intitulada A Tarifa Zero no Transporte Público como Política de Distribuição de Renda, a pesquisa foi coordenada pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB, e defende que essa seria uma ação que poderia ajudar a combater desigualdades raciais.

O estudo foi financiado pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional, e conta com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.  

Liquidez imediata

Essa gratuidade estaria relacionada ao transporte metropolitano de ônibus e trilhos. Os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade, de 2024, e de indicadores das operadoras de ônibus e sistemas metroferroviários.

O estudo descontou 24,38% das isenções e gratuidades que já existem hoje – como idosos, estudantes e pessoas com deficiências. Isso representa cerca de R$ 14,7 bilhões, que já circulam na economia. Por isso, segundo os pesquisadores, a injeção real seria de R$ 45,6 bilhões.

“Estamos falando de uma injeção de liquidez imediata no bolso das famílias brasileiras. Ao converter o gasto compulsório com passagens em renda disponível, o Estado promove um estímulo econômico que volta para a sociedade na forma de consumo e arrecadação de impostos sobre produtos”, explica o professor Thiago Trindade.

Salário indireto

Os pesquisadores defendem que, no atual cenário, a tarifa zero pode ter um papel tão relevante para o Brasil quanto o Programa Bolsa Família teve há duas décadas, já que poderia representar um “salário indireto”.

Isso porque a gratuidade beneficiaria mais as camadas vulneráveis, a população negra e os moradores de periferias.

Segundo o estudo, a gratuidade poderia ser tratada como um direito social, nos moldes do SUS ou da Educação Pública.

“A implementação da tarifa zero em escala nacional reforçaria o protagonismo do Brasil na vanguarda das experiências globais de redução de desigualdades e aprofundamento democrático.” 

Financiamento

As possibilidades para o financiamento de uma política nacional de transporte gratuito poderiam incluir, segundo argumentaram professores da UnB, no ano passado, a substituição do sistema de vale-transporte por um outro tipo de financiamento inicialmente de empresas privadas e públicas que tenham a partir de dez funcionários.

A estimativa do grupo de pesquisa é de que  81,5% dos estabelecimentos estariam isentos da contribuição. “A gente tem como fazer um programa de tarifa zero sem onerar o orçamento da União”, diz Trindade.

Fonte: Agência Brasil

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