Por ALEXANDRE LINARES*
Uma resposta à tentativa liberal de naturalizar a exaustão da classe trabalhadora
Quando Deirdre Nansen McCloskey ocupa suas colunas na Folha de S. Paulo para debochar da luta pelo fim da exaustiva escala 6×1, ela não está fazendo uma análise econômica séria: está performando o velho e desgastado proselitismo liberal. Na sua coluna “A mágica semana de 5 dias” de 22 de julho de 2026, a postura fica evidente.
Autoproclamada defensora do mercado “livre”, a autora é professora da Universidade de Illinois em Chicago e ligada ao Cato Institute, um think tank ultra-fundamentalista e ultraliberal estadunidense financiado pelos irmãos Koch,[1] magnatas conhecidos por bancar a negação da crise climática, o desmonte de direitos trabalhistas e a ascensão de falanges ultraliberais, reacionários e fascistas pelo mundo, como o MBL no Brasil e a experiência desastrosa de Javier Milei na Argentina. Aqui no Brasil, esse tipo de atitude grotesca é normalizado pelos proprietários da imprensa como a Folha de S. Paulo.
Para desqualificar o anseio vital da classe trabalhadora por descanso e vida digna, McCloskey recorre ao mais rasteiro dos sofismas: a reductio ad absurdum (redução ao absurdo). Compara a regulamentação do tempo de trabalho ao arredondamento matemático do número Pi para 3,0 ou à promulgação de uma lei que proíba a tristeza. Essa piada de mau gosto busca naturalizar a jornada exaustiva de seis dias como se ela fosse uma lei inviolável da física, e não uma construção histórica imposta pelo capital para extrair até a última gota de mais-valia de quem é obrigado a vender sua força de trabalho para viver.
A “Chicago girl“, replicando docilmente os dogmas formulados por Milton Friedman e pela escola que aparelhou as mais sangrentas ditaduras da América Latina, finge esquecer que o mesmo argumento mofado foi utilizado no século XIX contra a proibição do trabalho infantil, contra a proteção ao trabalho de mulheres grávidas e contra a jornada de 8 horas. Naquela época, os mesmos ideólogos alarmavam que proibir crianças de trabalhar em minas de carvão “quebraria a economia”. Se dependesse dessa trupe, a classe trabalhadora ainda estaria operando 16 horas diárias em troca de um prato de sopa.
Para embasar seu falacioso pânico econômico nas páginas da Folha de S. Paulo, a autora cita triunfante um artigo de Mariana Trujillo publicado na revista Reason Magazine, cujo subtítulo é “Free minds and free markets” (mentes livres e mercados livres). A jovem diretora da publicação fez parte da equipe de instituições como o banco de investimentos J.P. Morgan, o Mercatus Center e o próprio Cato Institute. O que a Folha não mostra é que a Reason é uma emblemática trincheira ultraliberal financiada por bilionários contra tudo e todos que se opunham a o único direito que consideram legítimos: o de explorar e lucrar.
A grande indústria do tabaco, por exemplo, passou décadas publicando “estudos” nessa esfera para negar a relação entre o cigarro e o câncer de pulmão, e esses mesmos atores se tornaram combatentes contra qualquer política de proteção ambiental.[2] É essa a “ciência” que os ultraliberais (também chamados de libertarianos) e os proprietários da Folha de S. Paulo vendem ao público: a manipulação paga por bilionários para proteger a exploração e as margens de lucro às custas das condições de vida de quem vive do trabalho.
O grito do povo e o medo dos exploradores
Ao contrário do contorcionismo retórico dos ideólogos de gabinete do libertarianismo, os dados reais desmistificam a propaganda patronal.
Levantamentos do instituto AtlasIntel[3] e pesquisas de opinião pública revelam que mais de 73% da população brasileira é amplamente favorável ao fim da escala 6×1 e à redução da jornada sem diminuição salarial. A petição promovida e organizada pelo Movimento VAT (Vida Além do Trabalho) já ultrapassa 3 milhões de assinaturas, evidenciando um grito represado da sociedade.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)[4] e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT/Unicamp)[5] demonstraram que a redução da jornada tem um impacto residual e perfeitamente absorvível pelos custos empresariais (menos de 2,5% do custo operacional médio). Esse pequeno ajuste é rapidamente compensado pelo ganho de produtividade, pela redução drástica do absenteísmo, pela diminuição do burnout e dos acidentes de trabalho, além do aquecimento do mercado interno pelo consumo das famílias no tempo livre.
A essência do debate não é uma “mágica legal”, mas a luta de classes tal como ela é. Em todo o mundo, a luta da maioria que vive do próprio trabalho resume-se a disputar a valorização e a propriedade do seu tempo de vida. Enquanto a produtividade global aumentou exponencialmente nas últimas décadas graças à acentuação da exploração com o uso da tecnologia e do avanço técnico, a riqueza gerada ficou concentrada no topo da pirâmide, enquanto quem produz padece sob jornadas massacrantes.
O resultado do dogma neoliberal professado por Deirdre McCloskey está visível na Argentina de Javier Milei, incensado pela mesma corja libertária. Não há nenhuma racionalidade sob sua condução: é a vontade de executar sem medo um programa antissocial de cortes. Sob a receita desta figura degradante, o país vizinho viu a pobreza ultrapassar 50%, com pessoas buscando comida no lixo e famílias de classe média comprando carne de burro para se alimentar.
Isso tudo enquanto porta-vozes desta mesma escola de pensamento de Deirdre McCloskey e Javier Milei chegam ao absurdo de defender o livre comércio de órgãos humanos (algo que alguns liberais já começam a defender na imprensa brasileira). O próximo passo dessa turma será defender o direito de pais venderem filhos para exploradores de crianças ou de pessoas venderem partes de si para canibais. É a barbárie social maquiada de “liberdade econômica”.
Dizer que “os brasileiros só conseguirão mais se produzirem mais” é uma das mentiras patronais mais cínicas. O trabalhador brasileiro já produz muito e ganha pouco, enquanto a vida se esvai no transporte público e na escala 6×1.
Reduzir a jornada sem corte de salários não é mágica parlamentar: é reparação histórica, distribuição de renda e humanização da vida. Os propagandistas do mercado podem ser pagos em dólares por grandes fundações capitalistas para mentir e grunhir contra os direitos sociais, mas a história continuará sendo movida pela força daqueles que produzem toda a riqueza do mundo.
*Alexandre Linares é jornalista, professor e editor. Atualmente é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.
Notas
[1] Os levantamentos feitos pelo Center for Media and Democracy (SourceWatch) apresentam o histórico do financiamento da Reason Foundation e podem ser lidos em: https://www.sourcewatch.org/index.php/Reason_Foundation
[2] Sobre as fontes de financiamento do Cato Institute, veja mais em: https://www.sourcewatch.org/index.php/Cato_Institute
[3] Reportagem sobre a pesquisa da AtlasIntel a respeito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Fim da Escala 6×1 pode ser lida aqui: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-02/pesquisa-diz-que-73-dos-brasileiros-apoiam-fim-da-escala-6×1
[4] O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) está disponível aqui: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/2b1afaf5-27b2-4e47-83d2-c43c657b6c91
[5] O estudo do CESIT / Instituto de Economia da Unicamp sobre jornada de trabalho, produtividade e emprego no Brasil pode ser lido aqui: https://www.eco.unicamp.br/noticias/cesit-estudo-jornada-6×1
Fonte: A Terra é Redonda






