Banco de Edir Macedo, Digimais, dá calote de quase R$ 500 milhões

Ação na Justiça afirma que Digimais usou papéis da Fictor, da Reag e do Banco Master para lastrear participação em fundo. Títulos viraram pó

Uma nova ação judicial ameaça o já combalido caixa do Digimais, banco do líder religioso Edir Macedo. Sócio da instituição financeira, o empresário Roberto Campos Marinho Filho afirma que teve um prejuízo de quase R$ 500 milhões ao aceitar papéis da Fictor, da Reag e do Banco Master como lastro da participação do Digimais em um fundo de investimento, o EXP 1.

Os papéis foram utilizados pelo Digimais para comprar 80% do fundo de investimento. Os outros 20% ficaram com Marinho, dono da Yards Capital, que gere o fundo. O valor da carteira, no entanto, despencou com o avanço de investigações sobre supostas fraudes envolvendo tanto o Master quanto a Reag e a Fictor.

No fim da última semana, a Yards notificou o Digimais judicialmente para que o banco de Edir Macedo comprasse a carteira de R$ 462,2 milhões, aportada pelo banco no fundo. A maior parte dos papéis seriam do Master e da Reag, chegando a R$ 316,6 milhões. Os demais títulos seriam da Fictor, somando R$ 145,6 bilhões.

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A Reag foi alvo das duas últimas grandes operações policiais que miraram a Faria Lima. A gestora de fundos é investigada por suposto envolvimento em manobras para esconder dinheiro do crime organizado, na operação Carbono Oculto, e por usar a mesma rede de fundos para movimentações suspeitas do Banco Master, na operação Compliance Zero. Diante de tantas suspeitas, a Reag foi liquidada pelo Banco Central no dia 15 de dezembro.

Já a Fictor foi alçada aos holofotes após anunciar que compraria o Banco Master por R$ 3 bilhões em novembro de 2025. Um dia depois, o Master foi liquidado, e os principais executivos do banco, presos. Em janeiro deste ano, a Fictor apresentou pedido de recuperação judicial alegando que as notícias envolvendo o Master levaram os investidores a pedirem resgates, o que teria esvaziado o caixa e provocado uma crise de liquidez.

Como mostrou a coluna, a liquidação do Master impacta outras instituições financeiras. Entre elas, a Digimais, banco que pertence ao religioso Edir Macedo e que já cambaleava, assolado por crises e processos judiciais.

A situação do Digimais não é boa há um bom tempo. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência após a pandemia, o que corroeu o patrimônio e exigiu aportes recorrentes para evitar quebra técnica. O dinheiro veio do próprio Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record de Televisão.

Em 2025, o Digimais passou por reestruturações sob supervisão do BC, incluindo negociações de venda devido a desafios operacionais. Ao longo do ano, o investidor Mauricio Quadrado, ex-sócio do Banco Master, chegou a anunciar que tinha fechado a compra com o líder religioso. O negócio, no entanto, não avançou.

Outro empresário que manifestou interesse, e cuja proposta foi apresentada ao Banco Central, é Tércio Borlenghi Jr., fundador e controlador da Ambipar. O negócio azedou pouco antes do colapso da multinacional brasileira, que apresentou pedido de recuperação judicial em outubro de 2025.

A Ambipar é alvo de um processo envolvendo o dono do Master, Daniel Vorcaro. A investigação, que tramita na Comissão de Valores Imobiliários (CVM), apura a possível atuação em conjunto de Vorcaro e outros investidores para inflar o patrimônio da Ambipar.

O NuBank também chegou a negociar com Edir Macedo, mas desistiu da transação. Assim, a saída, proposta pelo BC, de venda da instituição naufragou. Desde então, o Digimais vaga como um zumbi pelo sistema financeiro, sem condições de se reestruturar sozinho e sem interessados em embarcar no negócio.

O colapso estrondoso do Master e as críticas ao Banco Central ao lidar com a situação do banco de Daniel Vorcaro não ajudam em nada na situação do Digimais. A autarquia tem aumentado as cobranças e acompanhado de perto os bancos médios em situação crítica.

Fonte: Metrópoles

Vaticano rejeita ‘Conselho da Paz’ de Trump em Gaza

A Santa Sé não integrará o “Conselho da Paz”, proposto pelos Estados Unidos para supervisionar Gaza e outros conflitos

O Vaticano anunciou nesta quarta-feira (18) que não participará do chamado “Conselho da Paz”, iniciativa lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o objetivo de supervisionar a governança temporária da Faixa de Gaza e, posteriormente, atuar também em conflitos globais. A decisão foi confirmada pelo cardeal Pietro Parolin, principal diplomata da Santa Sé, informa a agência Reuters.

Segundo Parolin, a Santa Sé optou por não aderir ao projeto por considerar que o formato proposto por Trump não se assemelha ao funcionamento habitual das relações diplomáticas entre Estados. “A Santa Sé não participará do Conselho da Paz devido à sua natureza particular, que evidentemente não é a de outros Estados”, declarou o cardeal.

O papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano da história e crítico de algumas políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia sido convidado em janeiro para integrar o conselho. A proposta surgiu no contexto do plano de Trump para Gaza, que culminou em um cessar-fogo frágil em outubro.

Inicialmente voltado para a administração temporária do território palestino, o “Conselho da Paz” foi posteriormente ampliado por Trump para tratar de conflitos internacionais de maneira mais ampla. A primeira reunião está prevista para quinta-feira (19), em Washington, com foco na reconstrução de Gaza.

Apesar do convite, a adesão internacional ao conselho tem sido limitada. A Itália e a União Europeia indicaram que enviarão representantes apenas como observadores, já que não se tornaram integrantes formais do grupo.

Parolin também enfatizou que, para o Vaticano, crises internacionais devem ser conduzidas principalmente sob a autoridade das Nações Unidas. “Uma preocupação”, afirmou ele, “é que, em nível internacional, deve ser acima de tudo a ONU que gerencia essas situações de crise. Esse é um dos pontos em que insistimos”.

A proposta de Trump enfrenta críticas severas de especialistas em direitos humanos, que apontam riscos de caráter colonialista na ideia de um conselho liderado pelos Estados Unidos para administrar assuntos de um território estrangeiro. Outro ponto de contestação é a ausência de representação palestina no grupo, fator que também tem gerado forte repercussão internacional.

O projeto, lançado no mês passado, tem sido recebido com cautela por diversos países. Analistas alertam que o conselho pode enfraquecer a ONU e criar uma estrutura paralela de gestão internacional. Embora alguns aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio tenham aderido, parceiros ocidentais seguem mantendo distância.

Enquanto isso, o cessar-fogo em Gaza continua instável. Desde outubro, a trégua tem sido repetidamente violada, resultando na morte de centenas de palestinos e de quatro soldados israelenses, segundo o relato da Reuters.

A ofensiva de Israel sobre Gaza já deixou mais de 72 mil mortos, além de provocar uma grave crise de fome e deslocar internamente toda a população do território. Diversos especialistas em direitos humanos, acadêmicos e uma investigação da ONU afirmam que a situação equivale a genocídio. Israel, por sua vez, sustenta que atua em legítima defesa após o ataque de militantes liderados pelo Hamas no final de 2023, que matou 1,2 mil pessoas e resultou em mais de 250 reféns.

A recusa do Vaticano em participar do conselho proposto por Trump amplia o isolamento político da iniciativa e reforça a defesa histórica da Santa Sé por soluções multilaterais conduzidas sob o marco institucional das Nações Unidas.

Fonte: Brasil 247

Desfile da Acadêmicos de Niterói exalta Lula e debocha de Bolsonaro na Sapucaí

Com Lula na Sapucaí, o desfile em homenagem ao presidente apresentado pela Acadêmicos de Niterói ironizou o bolsonarismo, fez propaganda de programas sociais petistas e ignorou casos de corrupção. A apresentação seguiu o script com apenas duas exceções: o presidente desceu à pista para beijar o pavilhão da escola e acompanhar a festa e a primeira-dama, Janja, não desfilou.

Escola abriu o Carnaval do Rio com tributo à vida de Lula. Ao longo de 79 minutos, a agremiação narrou desde a infância pobre do petista no agreste de Pernambuco à sua terceira eleição como presidente da República.

Artistas globais interpretaram Lula, dona Lindu (mãe dele) e a ex-primeira-dama Marisa Letícia. Paulo Vieira, Dira Paes e Juliana Baroni, respectivamente, se dividiram entre as 25 alas, compostas por 150 integrantes cada.

Boneco gigante de Lula no último carro. A escola levou cinco carros para a avenida, com um boneco gigante do presidente encerrando o desfile.

Presidente foi à pista e beijou pavilhão da escola. Ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), o presidente deixou o camarote municipal para ir à avenida e saudar os integrantes da escola; ele acompanhou a maior parte dos desfiles no chão. A previsão, no entanto, era que ele assistisse à festa da plateia, acompanhado de ministros, para evitar questionamentos de cunho eleitoral.

Primeira-dama foi substituída pela cantora Fafá de Belém. Rosângela da Silva não entrou na avenida, como planejado, e acompanhou a festa no camarote da prefeitura carioca. De acordo com a coluna de Mônica Bergamo, ela foi pressionada a desistir de desfilar por receio de gerar problemas com a Justiça Eleitoral. Janja foi substituída pela cantora Fafá de Belém.

Provocação a Bolsonaro, Temer e Eduardo
Palhaço preso com tornozeleira danificada ironizou prisão de ex-presidente. Jair Bolsonaro foi representado de forma provocativa como um palhaço preso com uma tornozeleira danificada em um dos carros alegóricos da escola. Nas redes sociais, a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, criticou a alegoria e destacou que Lula é quem foi preso por corrupção.

Bolsonaro também foi retratado na comissão de frente. Na abertura do desfile, um ator surgiu fantasiado como o palhaço Bozo, representando o ex-presidente, fazendo “arminhas” com as mãos e flexões de braço. O ex-presidente também apareceu em meio a cruzes com o número de mortos pela covid-19 no Brasil: mais de 700 mil.

Comissão de frente também fez referências a Dilma e Temer. A encenação dos personagens começou com Lula passando a faixa presidencial para Dilma Rousseff (PT) — em 2010, ele lançou a petista ao Planalto após cumprir dois mandatos no governo federal. Logo depois, o personagem que representou o ex-presidente Michel Temer (MDB) arransou o adereço da petista, em uma referência ao impeachment de 2016.

Escola também retratou Bolsonaro e Lula discutindo. O ex-presidente estava próximo de uma bandeira com as cores dos Estados Unidos e o petista, com as do Brasil.

Um das alas ironizou Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Os integrantes estavam fantasiados de Mickey. Na mão, seguravam uma tocha da Estátua da Liberdade que coloca fogo na bandeira do Brasil. Segundo a sinopse do desfile, a fantasia é inspirada em uma charge feita por Nando Motta —na ilustração original, é Eduardo quem está vestido do personagem.

PT teve ala própria com estrela, mas sem número 13
Símbolos do partido estamparam fantasia. A estrela e a cor vermelha compuseram a fantasia da ala dedicada à sigla. Segundo a sinopse do desfile, a fundação da legenda foi uma consequência da liderança sindical de Lula na região do ABC Paulista.

Escola evitou expor número 13. Seguindo recomendações de especialistas em direito eleitoral, a escola evitou usar o número do partido em alegorias ou fantasias. Há menção indireta, porém, no samba-enredo. Segundo a letra, a viagem de Lula ainda criança para São Paulo em um pau de arara levou 13 dias.

Fonte: Uol

O TRISTE CARNAVAL DE ITUMBIARA

Flávio Show – Funcionário dos Correios

Maceió, 15 de Fevereiro/ 2026

O Carnaval chegou, uma festa popular que movimenta milhões de dinheiro e milhões de pessoas e em todos os anos políticos da ala cristã usam a tribuna pra fazer as velhas e conhecidas críticas ao evento. Dessa vez, digo, mais uma vez o pastor e deputado federal Marcos Feliciano discursou dizendo que o Carnaval é regado com drogas, alcool, prostituição e muito mais, tudo isso saiu da boca de 157 mil reais do pastor deputado.
Deixar claro que sou contra o uso excessivo de drogas, álcool e principalmente da prostituição dentária do deputado, pois usou dinheiro público e sambou na cara dos seus eleitores.
Esse mesmo deputado cristão defendia a cloroquina como tratamento pra o Covid e defendia arduamente reuniões cristãs nas igrejas num momento em que o Brasil registrava mais de 2 mil mortes diárias pelo vírus. Marcos Feliciano fechou os olhos para os mais de 700 mil mortos pela Covid, mas hoje em dia afirma que quem destrói as familias é o Carnaval.
Entre seguir o Feliciano com suas falácias ou o “bacanal” do Carnaval, creio que garanto mais anos de vida indo atrás do trio elétrico!

Em meio toda a festa carnavalesca uma tragédia aconteceu essa semana em Itumbiara no Goiás.
O caso do pai que matou seus dois filhos e tirou a própria vida por vingança de uma suposta traição da esposa.
Mas o pior ficaria por conta das redes sociais que prontamente acusaram a esposa de ter provocado o desfecho trágico no município goiano.
A Internet investiga, processa e julga as pessoas sem nenhum pudor, sem nenhum direito ao contraditório, um verdadeiro linchamento se inicia nas telas e depois se expande as vias de fato.
Acusar a mãe das crianças pelo acontecido é apedrejar a mulher sem que as pessoas nenhum “pecado” tivesse.
Esse caso é literalmente o poste mijando no cachorro, uma descontrução dos fatos como eles devem ser.
Se traiu ou não, isso não é um salvo conduto para um massacre tão cruel.
To vendo a hora de condenarem a parteira, pois se ela não tivesse feito o seu trabalho as crianças sequer teriam nascido.

Reflexões* Flávio Show 2026 , ano 06 – Edição 271

Pressão do agronegócio já fez fechar mais de 100 mil escolas no campo

Brasil perde 111 mil escolas do campo em 24 anos. Escolas de décadas de existência são fechadas, sem consulta ou aviso prévio à comunidade

No dia 11 de fevereiro de 2026, quando visitou a Escola Estadual do Palmital 43, a agricultora Tatiane Loch Cequinel saiu de lá chorando. “A gente já vê sinais de abandono. Já não está com a graminha cortada, já não tem criança”, lamenta.

Tatiane foi até o prédio, agora abandonado, para assinar os documentos de encerramento da Associação de Pais e Mestres, um dos últimos atos de despedida da unidade de ensino que atendeu, por décadas, as comunidades rurais do entorno.

Ela estima que a escola, localizada no município de Roncador, no Paraná, tenha 80 anos de existência. “Eu estudei ali. Queria que meus filhos continuassem estudando”, conta a agricultora, mãe de um adolescente, ex-aluno, e de uma menina que ingressaria na unidade de ensino em 2026. “Ela ia entrar no primeiro ano”, diz.

Com o fim das atividades, as crianças e adolescentes precisaram ser remanejadas para outras áreas, mais distantes das casas das famílias – um problema corriqueiro para quem vive no campo.

De 2000 a 2024, as comunidades rurais brasileiras perderam 110.758 escolas do campo ou rurais, segundo um levantamento publicado pelo Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), articulação em defesa desses espaços de ensino.

O número foi obtido a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e é referente às unidades estaduais e municipais, do ensino infantil ao médio, em comunidades rurais e assentamentos .

Somadas às unidades da área urbana, o Brasil perdeu 163.854 escolas públicas em 24 anos. Somente em 2024, 3.159 escolas foram extintas no país, sendo 1.585 nos territórios rurais e 1.574 nos urbanos, segundo o Fonec.

No Marajó, o rio seca no caminho da nova escola

Na região de São Sebastião da Boa Vista, na Ilha de Marajó, no Pará, quatro escolas rurais tiveram as atividades encerradas nos últimos três anos. “Uma escola que nós tínhamos aqui há 53 anos, com 54 alunos, eles fecharam”, conta o pescador Sebastião Rodrigues Pereira, que tinha uma neta matriculada na Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental Bom Jardim, cujas atividades foram encerradas há três anos.

Para chegar até ali, o percurso era rápido, feito de barco pelo rio Tucupi Grande que, segundo o pescador, nunca seca. Agora, a menina precisa viajar até mais longe num caminho mais duro e perigoso para assistir às aulas. “Nós só ficamos tristes porque ele [o prefeito] fechou a nossa escola, que é no centro, para colocar a escola num riozinho estreitinho, onde seca a maré”, lamenta o pescador.

A alteração na rota resultou em atrasos e preocupação para a família. “A minha neta tinha dia que chegava aqui apavorada”, conta Sebastião. Com o rio seco, aumenta o risco da embarcação encalhar. Em outras épocas, o perigo está no movimento das águas no novo trajeto.

A logística imposta a essas famílias é somente um dos problemas resultantes do fechamento das escolas rurais. O fim de uma unidade de ensino no campo significa, também, um rompimento com um modo de vida.

Remanejado para uma escola de ensino integral, o filho de Tatiane – um adolescente de 13 anos – sofre com a nova rotina, bastante diferente daquela que tinha junto da família, acostumado aos trabalhos na roça ao lado do pai e do avô.

Agora, ele sai de casa antes das 6h e só retorna por volta das 18h. “Ele volta para casa desolado, porque não se acostuma”, conta a mãe. “A escola também já é um pertencimento da nossa comunidade. Ela já existia há tanto tempo e era um ambiente muito gostoso, um ambiente familiar”, diz.

Algumas dessas unidades ficam em área central para as comunidades, com fácil acesso para todos da região. Ali, as crianças se encontram e as famílias também. Na comunidade de Nossa Senhora Nazaré dos Chaves, onde vive a família de Sebastião, o espaço de ensino funcionava dentro de um barracão comunitário. “Foi uma tristeza, porque a nossa comunidade é muito antiga e todo mundo tinha um apego muito grande na escola”, lamenta o pescador.

Escolas do campo e públicas

De acordo com o Censo Escolar 2024, 98,9% das escolas de educação básico em áreas rurais são da rede pública. O país tem, atualmente, 178,5 mil unidades de ensino, entre públicas e privadas. O número se mantém elevado, porque enquanto escolas públicas – sobretudo no campo – fecham as portas, surgem novas instituições privadas, mas nas cidades.

Do total de escolas no Brasil, 23,3% pertencem à rede privada, mas apenas 1,1% fica no campo. A rede municipal, por seu dever constitucional, representa 59,8% das unidades de ensino do país.

A educação no campo é um pilar estratégico para um modelo de sociedade onde a soberania alimentar – ou seja, a capacidade de um povo produzir seus alimentos de modo saudável – é valorizada. O ensino nessas instituições preza pela compreensão da realidade no entorno, pelo respeito às tradições e saberes das comunidades rurais.

“Quando o governo tira os jovens, as crianças, da realidade do campo e quer levar para outro lugar, para outra realidade, eles estão matando aos pouquinhos, no pequeno agricultor, a vontade do jovem de ficar no campo”, lamenta a agricultora Iliane Meier, mãe de dois meninos, moradora da comunidade Linha Dois Vizinhos, no município de Mangueirinha, no sul do Paraná.

Por lá, a Escola Estadual do Campo Conceição Linhares de Almeida fechou as portas em janeiro deste ano.

Agronegócio acentua o processo

Produção de soja e expansão das usinas eólicas são dois fatores que acentuaram o fechamento de escolas rurais no Piauí, segundo a professora Jullyane Frazão, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), que observou o problema no estado entre 2007 a 2020, para a sua pesquisa de doutorado.

“Eu já tinha levantado todos os dados sobre o fechamento, então pedi para um colega da geografia fazer um mapa localizando onde tinha mais fechamento [de escolas] no Piauí”, conta. Os pontos coincidiam com as áreas . com as áreas de expansão do agronegócio e de apropriação da terra por grandes empreendimentos.

Em novembro de 2024, quando esteve na região do planalto Santareno, no Pará, a reportagem do Brasil de Fato observou essa dinâmica. A chegada das plantações de soja por lá resultou no fechamento de escolas e no desaparecimento de comunidades rurais. Em Mojuí dos Campos, das cerca de 130 comunidades rurais do município, 19 desapareceram por completo.

Outras escolas resistem, mesmo diante das ameaças. Em Belterra, perto de Mojuí dos Campos, a Escola de Ensino Fundamental Vitalina Motta está cercada por plantações de soja. Mais de uma vez, os alunos tiveram as aulas canceladas por causa da pulverização de agrotóxicos perto demais dos muros da instituição de ensino.

“A partir do momento que você fecha uma escola, você expulsa uma comunidade inteira”, alerta Jullyane.

Outro problema observado pela pesquisadora é a substituição das escolas por unidades de atendimento de saúde – muitas vezes instaladas no prédio onde, antes, havia um espaço de ensino.

“O fato das escolas que foram fechadas estarem sendo utilizadas para o atendimento a outros direitos, tais quais o direito à saúde, indica a existência de uma estratégia de desenvolvimento excludente, onde a população do campo só pode ter acesso a um ou outro direito”, afirma Jullyane.

Para o Fonec, o fechamento de escolas do campo não é um fenômeno isolado ou casual. “Trata-se de uma estratégia política intencional, que viola os princípios constitucionais da gestão democrática do ensino público e se impõe sem qualquer processo efetivo de escuta ou diálogo com as comunidades afetadas”, alerta o fórum, em nota publicada no site oficial.

Em resposta ao Brasil de Fato, o Ministério da Educação (MEC) afirma que atua na formulação de políticas públicas, no apoio técnico e financeiro aos entes federados e na defesa do cumprimento da legislação educacional, especialmente no que se refere à garantia do direito à educação e à valorização da educação do campo.

“Em 2025, a pasta lançou o Novo Pronacampo por meio da portaria 538, de 24 de julho de 2025, que tem entre os objetivos formular, em regime de colaboração, propostas de gestão da Educação do Campo, com vistas a superar o fechamento de escolas”, informa, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Ainda segundo a pasta, a decisão de fechamento de uma escola é de competência do ente federativo responsável pela oferta da educação, que atribui aos municípios a autorização, o credenciamento e a supervisão dos estabelecimentos de ensino de seus sistemas, assim como responsabilidades análogas aos estados em suas redes.

O encerramento de unidades escolares no Brasil ocorre, em geral, a partir de decisões administrativas dos sistemas de ensino responsáveis, sobretudo municipais e estaduais.

No caso das escolas do campo, indígenas e quilombolas, a legislação brasileira estabelece salvaguardas específicas para evitar fechamentos arbitrários e assegurar o direito à educação nas comunidades onde essas escolas estão inseridas.

Sem consulta às comunidades

Para que uma prefeitura ou governo estadual feche uma escola, é necessário, antes, ouvir as comunidades afetadas pela decisão. Em muitos casos, no entanto, essas populações sequer foram informadas com a antecedência.

Na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Nair Gaia Ataíde, no município de Vigia, no norte do Pará, o aviso do fechamento chegou aos pais dos alunos numa sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, a unidade de ensino já não abriria as portas.

“Foi feita uma reunião, aí a população mandou um aviso que não queria fechamento”, conta a professora Edeny Vilhena. Apesar disso, a prefeitura não voltou atrás e os estudantes foram divididos em três grupos, direcionados para outras unidades de ensino da região.

No Paraná, as famílias foram informadas com seis meses de antecedência e, por isso, puderam convocar reuniões para debater o problema. Mesmo se manifestando contrariamente ao fechamento, não tiveram suas solicitações consideradas.

“Eles vieram ali só para comunicar. Tentaram pegar nós de surpresa, porque acharam que se tivesse poucas pessoas não ia ter nenhum problema, né? Eles iam logo fechar e pronto”, conta Iliane Maier.

Na teoria, o desejo dessas comunidades está resguardado pela portaria 391, de 10 de maio de 2016, que estabelece orientações e diretrizes aos órgãos normativos dos sistemas de ensino para o processo de fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas.

Segundo a portaria, o órgão normativo deverá considerar “a manifestação da comunidade escolar, no âmbito do respectivo território etnoeducacional ou território rural, se escola indígena ou do campo, onde houver”.

Além disso, a norma estabelece que “a justificativa deverá considerar o histórico da escola, o projeto político e pedagógico da unidade escolar, as condições de infraestrutura e os recursos humanos existentes, a participação da unidade escolar em políticas e programas do Governo Federal, os investimentos realizados com recursos próprios em infraestrutura e correspondentes ações pedagógicas”.

Na nota enviada ao Brasil de Fato, o MEC informa que a Lei nº 12.960/2014 determina que o fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas somente pode ocorrer após manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, apresentação de justificativa formal pela Secretaria de Educação e realização de consulta prévia à comunidade escolar envolvida.

O descumprimento desses requisitos, especialmente a ausência de oitiva do Conselho Municipal de Educação e da comunidade, fere os princípios do direito à educação, à gestão democrática da educação escolar e às disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, podendo tornar o processo irregular.

Na prática, no entanto, nem mesmo os protestos das comunidades barraram o encerramento de um espaço que, por muitos anos, foi central naquele lugar. “Nós conseguimos nos mobilizar e reunir bastante pessoas. Eu acho que umas 100 pessoas naquela reunião”, conta Iliane, sobre a resposta da comunidade após receber o comunicado do fechamento da Escola Conceição Linhares. “Todas contra o fechamento da escola, e foi debatido, porque é uma escola do campo de muitos anos. E foi tentado [evitar o fechamento]. Na verdade, nós tentamos o que nós podia, nós tentamos”, diz.

A reportagem entrou em contato com o governo do Paraná e a Prefeitura de Vigia, mas não obteve retorno. O texto será atualizado em caso de respostas enviadas.

Fonte: Brasil de Fato

França busca censurar denúncias da cumplicidade com o genocídio em Gaza

Francisca Albanese, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios palestinos ocupados, voltou a ser atacada, desta vez pelo ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, por seu discurso no Fórum da Al Jazeera em Doha, no Catar, no sábado passado (7), no qual denunciou a cumplicidade de todo o sistema internacional que avalizou o genocídio israelense em Gaza. O termo “inimigo em comum”, que Albanese usou para descrever o quão envolvida está a comunidade internacional no genocídio ainda em curso em Gaza, foi tirado de contexto para difamá-la, novamente, por suposto ataque e viés contra o Estado de Israel.

“A França condena, sem ressalvas, os comentários repreensíveis e ultrajantes da senhora Albanese, direcionados não ao governo israelense, cujas políticas devem ser criticadas, mas a Israel como um povo e nação [sic], o que é absolutamente inaceitável”, proclamou Barrot. Foi então que Paris decidiu demandar a demissão de Albanese de seu posto como relatora de direitos humanos da ONU.

Não demorou para que a França encontrasse um ponto de convergência com os Estados Unidos.

Nada no discurso de Albanese tratou Israel como inimigo de toda a humanidade. Todavia, a esta altura, após dois anos de massacres e mais massacres conduzidos por Tel Aviv em Gaza, é de conhecimento público e irrestrito que a comunidade internacional permitiu a continuidade da violência colonial por todos os meios a seu dispor. Diplomaticamente, a comunidade internacional robusteceu a posição de Israel ao assegurar não somente sua impunidade como assistência factual para conduzir seu genocídio.

O foco do discurso de Albanese foi a cumplicidade internacional que possibilita a Tel Aviv realizar um genocídio. Caso tomemos a história em consideração, a cumplicidade vigente constrói-se claramente sobre os alicerces de legitimação do projeto colonial sionista na Palestina histórica.

A comunidade internacional sabia o que o colonialismo desencadearia na Palestina. Não obstante, às custas da população nativa palestina, submetida a limpeza étnica, chacinas e deslocamento massivo, a ONU deu apoio a algumas das mais atrozes violações da lei e das normas internacionais jamais registradas. Ao compelir os palestinos ao silêncio e à subjugação, frente a imposições externas, a ONU auxiliou, na prática, a totalidade de um empreendimento que, devagar, mas certamente, avançou ao genocídio.

O colonialismo israelense é, sim, uma ameaça primeiro e sobretudo ao povo palestino. A falta de respeito de Tel Aviv à soberania de qualquer outro país — incluindo assassinatos sumários no exterior — torna-o perigoso, contudo, a todo o planeta. Todavia, como notou Albanese, sem a cumplicidade internacional, Israel não poderia operar na mesma escala de poder como faz hoje.

Portanto, quando Barrot cria um problema com as críticas profundamente embasadas de Albanese, na tentativa de distorcer seu sentido, como bucha-de-canhão para a narrativa securitária israelense, o que realmente ele busca censurar?

Em termos bastante acessíveis, Albanese expôs as práticas da comunidade internacional que permitiram a condução do genocídio.

A comunidade internacional é, sim, cúmplice, mas a França parece desgostar deste fato, que tanto a compromete. Ao interpretar erroneamente as palavras de Albanese, com total intenção de fazê-lo, Paris insiste em aquiescer à posição vitimista do regime israelense, muito embora uma força militar superior, por lógica, nunca possa ser vítima daqueles que oprime, senão a um exército ainda mais poderoso. Por outro lado, o governo francês emite um alerta sinistro — que silencia e continuará silenciando toda e qualquer voz que ouse articular as estruturas amplas do colonialismo e do genocídio.

Barrot, no entanto, deveria compreender que, quando o genocídio é conduzido em tempo real e enquanto jornalismo investigativo segue expondo a cumplicidade das lideranças globais no genocídio de Israel, a corrupção no apogeu do poder já pode dormir tranquila, sem que a questionem, sobre sua própria cama, tão enviesada.

Fonte: Monitor do Oriente

Malafaia é condenado a indenizar Felipe Neto por associá-lo a crimes contra crianças

Justiça rejeita tese de “liberdade de expressão” e impõe ao líder religioso pagamento de R$ 25 mil com indenização ao influenciador

Em decisão proferida pela 2ª Vara Cível da Regional da Barra da Tijuca, o juiz Mario Cunha Olinto Filho condenou o pastor Silas Malafaia ao pagamento de R$ 25 mil em danos morais ao influenciador Felipe Neto. Segundo a decisão do magistrado, a liberdade de expressão não é um direito absoluto e deve ser ponderada com a proteção à honra e à imagem.

Felipe Neto moveu o processo contra o pastor por conta de vídeos publicados em 2019 e 2020 no YouTube, nos quais Malafaia o chama de “bandido”, “canalha”, “lixo moral” e o acusa de “perverter crianças” e “produzir fake news”. As ofensas decorreram de represália à manifestação do youtuber contra o ato homofóbico do então prefeito Marcelo Crivella na Bienal do Livro de 2019.

Na ocasião, o então prefeito determinou o recolhimento de obras que retratavam dois personagens masculinos se beijando, o que foi considerado mais tarde um ato discriminatório por parte da Justiça.

A defesa de Malafaia argumentou que os vídeos “não tiveram intenção de ofender, mas de expressar opiniões e críticas dentro do legítimo exercício da liberdade de expressão”.  Disse ainda que que “ambos são figuras públicas com visões ideológicas opostas, habituadas a se envolver em debates duros nas redes sociais, e que o próprio autor já lhe dirigiu ofensas públicas, o que afastaria qualquer pretensão indenizatória”.

Danos morais a Felipe Neto

Em sua sentença, o juiz reconhece que ambas as partes são pessoas públicas e, portanto, sujeitas a críticas decorrentes de suas manifestações e posicionamentos. “Todavia, a liberdade de expressão não é direito absoluto, devendo ser ponderada com outros valores constitucionais, como a honra e a imagem”, pontua.

“No caso em exame, verifica-se que, embora parte do conteúdo do primeiro vídeo possa ser interpretado como crítica contundente dentro dos limites do debate público, as afirmações feitas no segundo vídeo, ao atribuir ao autor a prática de condutas criminosas, como ‘perverter crianças’, ‘induzir adolescentes ao sexo’ e ‘manipular menores’, ultrapassam os limites da crítica legítima e configuram verdadeiro abuso do direito de expressão”, aponta a sentença. “Para assim se afirmar, caberia ao réu produzir prova cabal de tais fatos, o que não ocorre.”

Ao fim, o magistrado determina o pagamento de uma indenização de R$ 25 mil, devido à “notoriedade pública de ambas as partes, a intensidade da ofensa e o caráter pedagógico da condenação”.

Fonte: Revista Fórum

Prefeitura de SP paga cachês inflados a bandas gospel de igrejas aliadas a Ricardo Nunes

A Prefeitura de São Paulo pagou por shows gospel em paróquias e comunidades católicas no Carnaval de 2023 e 2024, mas o patrocínio foi ocultado nos materiais de divulgação dos eventos – e pelo próprio poder público. As apresentações aconteceram em igrejas católicas da Zona Sul de São Paulo, reduto eleitoral do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Em uma delas, o padre titular chegou a pedir voto para o político durante uma missa.

Com público reduzido e acesso restrito, os eventos pagaram cachês superiores aos de artistas que se apresentaram em palcos abertos e lotados no mesmo período. O cantor de forró gospel Naldo José recebeu R$ 55 mil por show em 2023 – mais do que os pagamentos recebidos pelo veterano da MPB Tom Zé e a rapper Karol Conká na Virada Cultural do mesmo ano. Naldo José, que tem 12 mil ouvintes mensais no Spotify, também embolsou mais do que nomes consolidados do gospel, como Ton Carfi e Kemilly Santos, que têm quase 2 milhões de ouvintes mensais cada.

Ao todo, as contratações feitas pela Secretaria Municipal de Cultura para os eventos “Vem Louvar”, “Carnaval da Paz”, “Reviver” e “Nova Forma” custaram R$ 769 mil aos cofres públicos, em valores da época.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo disse que a política de fomento à cultura na cidade é “pautada pela lei, pluralidade e transparência” e que “todas as contratações seguiram rigorosamente os critérios técnicos, legais e administrativos previstos na legislação”.

Todas as instituições, artistas e empresas citadas foram procurados pela Agência Pública.

POR QUE ISSO IMPORTA?

As contratações de shows religiosos ligados a igrejas do reduto eleitoral de Nunes levantam suspeitas sobre uso da Prefeitura de São Paulo para fins políticos.

Contratações descumprem alerta da Secretaria de Cultura

A assessoria jurídica da Secretaria de Cultura, responsável por analisar a legalidade das contratações, chegou a dar o alerta em 2023 de que as contratações deveriam observar “o Estado laico brasileiro”, ou seja, manter a neutralidade religiosa da administração pública. Também cita o artigo 19 da Constituição, que veda União, estados e municípios de “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público”.

Apesar da observação, a assessoria jurídica deu parecer favorável às contratações, ressaltando que não é seu papel verificar a veracidade de documentos e outros itens do contrato. Nos processos de 2024, o setor sequer emitiu parecer.

Além disso, o contrato com os artistas determina a obrigatoriedade dos créditos da prefeitura e da Secretaria de Cultura “em toda divulgação, escrita ou falada, realizada sobre o espetáculo programado, sob pena de cancelamento sumário do evento”. Nenhum dos eventos teve a publicidade exigida, porém, não foram cancelados.

Pessoas que atuam na Secretaria de Cultura ouvidas pela Pública, na condição de anonimato, dizem ter estranhado o trâmite. Segundo elas, a prefeitura sempre exige o crédito nos materiais de divulgação, e o fato de não ter aparecido nestes eventos é incomum. Também alegam que a assessoria jurídica costuma ser mais exigente em outros processos, pedindo o cancelamento do evento quando encontra problemas, o que não ocorreu nestes casos.

Em resposta a este ponto, a prefeitura afirmou somente que “os contratos firmados orientam os contratados quanto às regras de divulgação institucional e à menção ao apoio público, quando aplicável.”

De acordo com publicações no Diário Oficial e processos internos da prefeitura analisados pela Agência Pública, a Secretaria de Cultura justificou que os shows deveriam ser contratados porque seriam “alinhados às políticas culturais do município” e fomentariam a “demanda do gigantesco e importante perfil de consumo de cultura” da música gospel. A pasta também afirma que os eventos seriam abertos ao público, em via pública, “em regiões carentes de atividades culturais”.

No entanto, os registros presentes nas redes sociais mostram que os shows foram feitos dentro ou em frente de paróquias ou instituições católicas, com público reduzido. Em pelo menos um dos casos, há indicações de que os participantes tiveram que pagar pelo ingresso.

Procurada, a administração afirmou que não há impedimento na legislação municipal para o apoio institucional a eventos de qualquer matriz religiosa quando atendidos os requisitos exigidos. “O eventual uso de espaços religiosos não descaracteriza uma atividade como cultural”, diz.

Notas infladas

A Agência Pública também encontrou inconsistências nas notas fiscais apresentadas pelos artistas para justificar o valor dos cachês. Na maioria dos casos analisados, as notas foram emitidas com poucos minutos ou horas de diferença, e com valores próximos entre si. Também há notas enviadas por pequenas prefeituras e comunidades católicas, mas sem registros públicos de que as apresentações realmente aconteceram. Pelo menos duas notas foram emitidas pelo Instituto Mensagem de Paz, organização social que presta serviço para a prefeitura.

É por meio das notas fiscais que a prefeitura determina o valor que pagará pelos shows. A lei permite que a administração municipal contrate shows sem licitação porque apresentações de artistas não podem ser comparadas entre si em um processo competitivo, como acontece com a compra de produtos ou medicamentos, por exemplo, em que o órgão compra o mais barato. São considerados também aspectos imateriais, impossíveis de quantificar, como o prestígio junto ao público.

Mesmo sem licitação, o órgão público precisa ter alguns parâmetros de controle para que o cachê se mantenha próximo ao valor de mercado. Para isso, os empresários do artista enviam notas fiscais de outras apresentações recentes, e o valor final resulta de uma média aproximada dos valores dessas notas.

Os técnicos da prefeitura deveriam verificar se os shows citados nas notas aconteceram e se estão condizentes com a realidade, mas essa análise não foi mencionada nos documentos das contratações.

Nunes e as conexões com a Canção Nova

O encontro de Carnaval da comunidade Canção Nova de 2023, batizado de Vem Louvar, aconteceu na Paróquia Santa Cândida, no bairro Ipiranga, zona sul de São Paulo.

Ricardo Nunes tem uma história antiga com a Canção Nova. Ele já promoveu uma sessão solene na Câmara Municipal em 2018, quando ainda era vereador, para entregar o título de Cidadão Paulistano aos fundadores da comunidade católica. Recentemente, assinou um decreto mudando o nome de uma rua no bairro do Santana, zona norte, onde fica o centro de evangelização da Canção Nova, para Rua Canção Nova.

No dia 18 de fevereiro daquele ano, sábado de Carnaval, a festa contou com pregações durante o dia e, de noite, shows com os artistas Juninho Cassimiro e Jake Trevisan. Os shows foram descritos nos materiais de divulgação do evento como “uma novidade” na programação. Nenhum deles, porém, mencionou que foram pagos pela prefeitura.

Na plataforma de eventos Sympla, o Vem Louvar é anunciado como “um dia de muita oração e adoração, meditação da palavra de Deus, missa, shows e música”. A entrada ocorria mediante a entrega de um quilo de alimento ou produto de limpeza.

A noite estava chuvosa, não muito convidativa para um show ao ar livre. Um vídeo da apresentação de Juninho Cassimiro mostra o espaço esvaziado e pessoas empunhando guarda-chuvas. Jake Trevisan entrou no palco logo depois. Cassimiro recebeu R$ 50 mil da Prefeitura de SP. Jake Trevisan recebeu R$ 244 mil por quatro apresentações em eventos gospel naquele Carnaval – R$ 61 mil por show.

Os empresários de Jake Trevisan enviaram duas notas emitidas no mesmo dia, 13 de fevereiro de 2023, com uma hora de diferença entre elas – às 12h23 e 13h33 – e com valores semelhantes, de R$ 73 mil e R$ 75 mil. Uma delas foi emitida pelo Instituto Mensagem de Paz, que tem contratos com a prefeitura, por um show que iria acontecer apenas dias depois, em 22 de fevereiro. A outra nota foi enviada pela Paróquia Nossa Senhora do Carmo de Croatá, cidade de 17 mil habitantes no Ceará. No entanto, não há registros de apresentação da cantora na cidade.

Em um post no Instagram, Trevisan diz que “foi desafiador encarar o Carnaval amamentando”, dois meses depois do nascimento de sua filha, e cita, nos agradecimentos, apenas as paróquias paulistas, sem mencionar a do Ceará. A terceira nota é de um show que ela teria feito em Xambioá (Tocantins) em maio de 2022. No entanto, os únicos registros de suas redes sociais nesse período são de shows em São Paulo e Guarulhos.

Apresentações repetem padrões suspeitos

No retiro da comunidade católica Shalom, da Igreja Shalom de Santo Amaro, na zona sul da cidade, a prefeitura pagou pelos shows de Naldo José e Jake Trevisan em 2023. O evento aconteceu na universidade Ítalo Brasileiro (uma faculdade católica que oferece curso de História ligada à produtora de extrema direita Brasil Paralelo), com entrada gratuita. Nos anúncios das redes sociais e da página da Shalom não há menção ao apoio da prefeitura.

A Shalom pertence à Diocese de Santo Amaro, que Nunes costuma frequentar. Igrejas que pertencem à diocese foram palco de seu primeiro compromisso da campanha eleitoral de 2024, em que foi elogiado pelo bispo, e também do último, na qual o padre pediu para que ele fosse abençoado e que os fiéis digitassem o número de seu partido na urna eletrônica. O prefeito também costuma comparecer a eventos da Shalom de Santo Amaro.

Naldo José foi contratado para três apresentações em 2023 por R$ 165 mil, ou R$ 55 mil por show. Duas notas fiscais apresentadas pela produção do artista foram tiradas no mesmo dia, 17 de março de 2022, com valores de R$ 55,1 mil e R$ 55,4 mil, de eventos que teriam acontecido em Barbalha (Ceará) e Mimoso do Sul (Espírito Santo) em março daquele ano. A terceira nota foi emitida no dia 18 de março pela manhã, referente a um evento em Recife (Pernambuco) no valor de R$ 55,7 mil. Não há registro dos shows citados nas páginas do artista e das comunidades religiosas que supostamente o contrataram.

A Diocese de Santo Amaro disse, em nota, que não adota posição político-partidária. “Eventualmente, pode ocorrer a presença de representantes do poder público ou candidatos de distintas orientações políticas em visitas ou eventos realizados em paróquias e demais ambientes eclesiásticos. Tal fato não deve ser interpretado como manifestação de apoio político, endosso ou vinculação institucional a qualquer candidatura, corrente partidária ou grupo político”, diz.

“Qualquer ato ilícito eventualmente praticado, por quem quer que seja, deve ser apurado pelas autoridades legais competentes, cabendo ao responsável as sanções previstas na legislação vigente, nos termos da Lei. A Igreja defende a lisura dos processos e a integridade ética de todos os envolvidos”, completa.

A banda Ministério Adoração e Vida, ligada à Canção Nova, foi contratada para duas apresentações no Nova Forma e Carnaval de Paz por R$ 120 mil. Uma das notas é do Instituto Mensagem de Paz, de 11 de janeiro, referente a um show em 6 de dezembro, em Coruripe (Alagoas) – apesar de o Instituto ser sediado em São Paulo. As outras duas notas foram emitidas no mesmo dia, 24 de janeiro de 2023, pelos municípios de Nova Cruz (Rio Grande do Norte) e Salgado (Sergipe). Neste caso, há registros de que as apresentações aconteceram.

O único material de divulgação localizado pela Pública que coloca a Prefeitura de São Paulo como parte da “realização”, junto com a Diocese de Santo Amaro, é de um evento que aconteceu em 19 de fevereiro de 2023, na Paróquia São João Maria Vianney. O dia teve shows de Jake Trevisan, Naldo José e Adoração e Vida, além do padre João Batista – o mesmo que pediu votos para Nunes. O banner, porém, só foi encontrado no Instagram pessoal de um dos artistas, e não nos demais canais de comunicação oficiais do evento. Fotos no Facebook mostram que o evento foi dentro da paróquia, e não aparecem menções à prefeitura.

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O retiro Nova Forma é ligado à Fraternidade São João Paulo II, apelidada de FSJPII. Ele acontece anualmente durante o Carnaval no Santuário Mãe dos Aflitos, também na Zona Sul. Em 2023, a prefeitura pagou pelo show da banda da própria Fraternidade por R$ 65 mil. Um vídeo divulgado pela instituição mostra que o espetáculo foi interno. Não é possível ver citações à administração municipal.

https://youtube.com/watch?v=DDLzpv6YnF0%3Ffeature%3Doembed

Há indícios de que os participantes tiveram que pagar para entrar no evento. Em comentários de postagens da época, usuários diziam que estavam “guardando dinheiro”. No entanto, não há mais registros públicos de quanto teria sido cobrado. Na edição de 2026 do Nova Forma, ingressos estão sendo vendidos por R$ 90, um dia, ou R$ 150, pelos quatro dias.

As três notas enviadas pela FSJPII para justificar o contrato foram emitidas no mesmo dia, 14 de fevereiro de 2023, com poucos minutos entre elas – 12h08, 12h12, 12h15. Uma foi emitida pela Associação Fraternidade São João Paulo II. As outras são da GBA, produtora de Jake Trevisan, e da Areela, empresa que agencia Naldo José. Os valores têm pouca variação entre eles: R$ 65.050, R$ 65.150 e R$ 65.200, respectivamente.

Diante disso, a assessoria jurídica da Secretaria de Cultura pediu esclarecimentos sobre as notas terem sido emitidas no mesmo dia. O responsável pela empresa Summer Beats, que agencia a banda, respondeu que “as notas foram referentes a eventos realizados no ano de 2022, com assinaturas do contrato e posterior emissão das notas em 2023.” A justificativa foi aceita, sem outros questionamentos.

O fundador da FSJPII, padre Ailton Fernandes, pertence à diocese de Santo Amaro. Ele e Ricardo Nunes já fizeram uma live juntos durante a pandemia, em 2020. No vídeo, Fernandes diz que conhece o atual prefeito de “longa data”, há pelo menos oito anos, e Nunes diz que tem “um carinho enorme” pelo pároco.

No ano seguinte, a duas contratações feitas pela Secretaria Municipal de Cultura em eventos do Carnaval foram para o retiro Nova Forma, em 13 de fevereiro de 2024. A banda Adoração e Vida recebeu R$ 70 mil e o cantor Naldo José, R$ 50 mil.

Nestes casos, uma área técnica da Secretaria de Cultura chegou a pedir o adiamento do evento para ter mais tempo para análise (os documentos chegaram na mesma semana em que ele aconteceria), mas o pedido foi negado porque acarretaria “prejuízos” e os shows foram realizados mesmo assim. A contratação de Naldo foi confirmada sem sequer o recebimento de notas fiscais naquele ano. Na divulgação, tampouco há menções à prefeitura.

Fonte: DCM

Com juros altos, os três maiores bancos privados lucraram R$ 87,1 bi em 2025

Itaú, Bradesco e Santander Brasil ampliaram o lucro combinado para R$ 87,1 bilhões em 2025, com estratégia voltada para linhas de crédito com garantia e maior rentabilidade. O Bradesco avançou no plano de transformação estrutural e atingiu retorno sobre patrimônio de 15,2%, superando o custo de capital, embora ainda distante da meta de 20%.

As provisões contra inadimplência chegaram a R$ 8,8 bilhões, enquanto o índice de atrasos acima de 90 dias ficou estável em 4,1%. Mesmo com melhora em indicadores financeiros, houve venda de ações após divulgação do guidance. Analistas consideraram as projeções conservadoras, dentro da estratégia gradual de recuperação defendida pelo presidente do banco, Marcelo Noronha. Analistas do Citi afirmaram estar “decepcionados” com o ritmo de crescimento projetado, especialmente na carteira de crédito.

Itaú registra lucro recorde e sinaliza cautela

O Itaú registrou lucro líquido recorde de R$ 46,8 bilhões em 2025, avanço anual de 13,1%. A inadimplência acima de 90 dias permaneceu abaixo de 2%. O CEO do banco, Milton Maluhy, afirmou: “Naturalmente, ao longo do ano, com mais informações de mercado, capacidade de entregar nas várias linhas, a gente vai atualizando e ajustando se for necessário”. Também declarou: “Mas essa é a melhor informação disponível nesse momento”. O banco sinalizou postura mais cautelosa na concessão de crédito diante do cenário eleitoral e da taxa Selic em patamar elevado.

Santander mantém postura conservadora

O Santander Brasil manteve postura conservadora e não divulgou guidance. O banco registrou lucro de R$ 15,6 bilhões em 2025 e aumento da inadimplência para 3,7%. Analistas da Genial Investimentos avaliaram: “O resultado foi beneficiado por uma alíquota efetiva de imposto excepcionalmente baixa e por menores provisões, enquanto as receitas ficaram aquém do esperado e a inadimplência continuou em trajetória de alta”.

Para preservar a rentabilidade, o banco prioriza crédito para pequenas e médias empresas e clientes de maior renda. O UBS BB avaliou que ganhos de eficiência serão decisivos para sustentar a lucratividade.

Fonte: Brasil 247

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