O cessar-fogo iniciado em 21 de maio, depois de 11 dias de bombardeios intensivos contra a população da Faixa de Gaza, foi recebido em toda a Palestina como uma vitória, com manifestações maciças em cidades e vilas palestinas. Nos dias anteriores, os ataques massacraram famílias inteiras, destruíram centros de saúde e atingiram locais de imprensa.

A resistência unificada da população palestina, associada à onda de indignação internacional, que levou a manifestações em vários países, teve eco até mesmo no interior do Partido Democrata dos Estados Unidos. Setores da classe dominante estadunidense, inquietos com a marcha ao caos na região, impuseram o cessar-fogo. Mas os problemas não foram resolvidos.

O bloqueio a Gaza continua a matar. Prosseguem os ataques de colonos sionistas na Cisjordânia e, pela primeira vez, se estendem no interior do Estado de Israel, onde se iniciaram também prisões de jovens palestinos organizadores da mobilização.

Na manhã do dia 24, a polícia israelense lançou a operação “Lei e Ordem”, a fim de deter centenas de jovens palestinos considerados líderes do movimento.

Greve geral
A unidade geográfica e demográfica do movimento se impôs, e a greve geral no dia 18, de amplitude sem precedentes, a confirmou. Pela primeira vez desde 1936, houve um mesmo movimento no interior do Estado de Israel, na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e nos campos de refugiados. É um povo que se levanta, com base nas mesmas reivindicações e contra uma opressão comum.

A greve parou mais de um terço da economia israelense e quase inteiramente o setor de construção. O conjunto do comércio árabe fechou as portas.

É mais uma demonstração de que existe um único e mesmo povo palestino entre o Mediterrâneo e o rio Jordão. Apesar disso, os representantes das grandes potências e seus seguidores à esquerda continuam a afirmar que não há solução “por fora do Direito internacional” e do reconhecimento do “Estado palestino”, ao lado do Estado de Israel. Essa pretensa solução representa a manutenção da divisão da Palestina e de seu povo.

Um dos atos fundadores do “Direito internacional” foi o reconhecimento da partilha da Palestina em 1947, por parte da ONU, que permitiu o desencadeamento da “Nakba” (“catástrofe”) e a criação do Estado de Israel em maio de 1948.

Os acordos de Oslo (1993), sob a égide dos EUA, abriram o caminho para uma pretensa solução de dois Estados. Grande parte dos palestinos rejeita essa via, que é apenas a legitimação de um Estado israelense opressor. As recentes manifestações representam também a falência dos acordos de Oslo.

Awad Abdelfattah, um dos coordenadores da Campanha por um só Estado Democrático, afirma: “Apesar da dor, do medo e do risco que isso acarreta, sentimo-nos, como nação colonizada, renascer como um povo mais unido e determinado. O povo palestino se reunifica, combate e abala os próprios fundamentos ideológicos do colonizador. Acredito que estamos entrando em um novo capítulo na história da luta. A imagem de Israel está sendo destruída e sua fraqueza moral, seu racismo e sua barbárie, inerentes ao sistema colonial sionista, estão se tornando mais evidentes do que nunca”.

Biden: sem mudanças
A “relação especial” com o Estado israelense é um eixo central do imperialismo dos EUA. O atual presidente Joe Biden havia resumido isso, em discurso de 1986 no Senado, no qual disse: “A ajuda fornecida ao governo israelense é um investimento. Se Israel não existisse, nós teríamos de inventá-lo, para proteger nossos interesses na região”. Os EUA concedem 3,8 bilhões de dólares de ajuda militar anual ao Estado israelense, para comprar armas estadunidenses.

Mas há vozes discordantes até mesmo no Congresso dos EUA. “Essas armas são vendidas sabendo-se que serão utilizadas para bombardear Gaza”, afirmou Rashida Tlaib, deputada democrata do Michigan. E Alexandria Ocasio-Cortez, deputada democrata de Nova York, declarou: “O presidente Biden disse que Israel tem o direito de se defender. Mas os palestinos têm o direito de sobreviver? Durante décadas, os EUA venderam bilhões de dólares de armas a Israel. Nós contribuímos diretamente para a morte, o despejo e a privação do direito de voto de milhões de pessoas”.

Parlamentares sofrem a pressão de amplos setores da população, que se intensificou depois da grande mobilização no ano passado do movimento Vidas Negras Importam. Desde o início dos bombardeios israelenses, ocorreram manifestações nos EUA, com a participação ativa de organizações judaicas. Faixas com as frases “Vidas Palestinas Importam” e “Não em nosso Nome” foram levadas às ruas.

A política do imperialismo, porém, não se alterou. Depois de ter dado tempo para que o exército israelense despejasse suas bombas sobre Gaza, Biden declarou: “Não há mudança em meu compromisso com a segurança de Israel, ponto final. Nenhuma mudança. Continuamos tendo a necessidade de uma solução de dois Estados. É a única solução”.

Não! A verdadeira solução virá do povo palestino. Os palestinos em Gaza, na Cisjordânia e dentro do Estado israelense reafirmaram sua unidade, num movimento inédito em 75 anos. Esse movimento, pela liberdade e igualdade em todo o território histórico da Palestina, caminha em direção à solução de um único Estado democrático, no qual todas as componentes terão os mesmos direitos. A intifada da reunificação acaba de começar.

Da Redação de OT, com base em matérias do “Informations Ouvrières” (Informações Operárias) da França

DEPOIMENTOS

“É um movimento que se desenvolve em toda a Palestina. Aqui, ele reúne hoje milhares de jovens das cidades e vilas do interior de Israel. Estamos todos reunidos em torno de um objetivo que é a luta contra o sionismo e seu aparelho de segurança, em particular a polícia. Eles confiscam nossas terras, demolem nossas casas e praticam todas as formas de racismo e de injustiça em relação a nós.”

Ahlam Abd al-Hadi, militante palestino no interior das fronteiras de 1948 (interior do Estado de Israel)

“A Faixa de Gaza está submetida a um cerco há 16 anos. Sofremos com esse bloqueio em todos os campos e as condições de vida sociais e econômicas são muito difíceis aqui. Israel controla tudo, até mesmo a entrada de alimentos e de medicamentos. Reina uma atmosfera de grande resistência, de luta e de forte motivação. Essa é a situação atual em Gaza, depois da agressão israelense. A coisa mais importante é que, agora, todo o povo palestino, em toda a Palestina, tanto geograficamente quanto historicamente, se unificou na luta pela liberdade, pela independência e pelo direito ao retorno.”

Mahmoud al-Yazuri, membro do Conselho Nacional da Juventude Palestina em Gaza

Fonte: O Trabalho

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