Segundo a PF, a empresa teria omitido informações em pelo menos 30 documentos entregues a autoridades

Documentos obtidos pela Polícia Federal (PF) apontam que as empresas Salgema e Braskem (que assumiu o controle em 2002) sabiam desde pelo menos 1988 que a atividade de mineração de sal-gema causava afundamento de solo e colocava em risco uma gigante área residencial em Maceió.

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), feita em outubro de 2025, a empresa omitiu alertas em pelo menos 30 documentos entregues a autoridades ao longo de 40 anos. Em 12 de junho, a Justiça Federal de Alagoas aceitou a denúncia contra a Braskem (que pode ser multada) e 13 pessoas (que vão responder por diversos crimes).

O UOL teve acesso aos 17 volumes da denúncia (que tramitou sob segredo até recentemente). Os alertas detalham falhas de monitoramento e o risco de “colapso total” de minas. A empresa teria falsificado mapas e manipulado medições topográficas para enganar autoridades e obter renovações de licenças. Ao todo, 35 poços foram cavados, levando ao colapso do solo em área urbana (cerca de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas a partir de 2018).

O primeiro alerta de afundamento é de 1988, mas um estudo de 1986 já falava em “descumprimento reiterado” de especificações técnicas na exploração da reserva (iniciada em 1976). Em 1989, apesar dos alertas, a Salgema ampliou em 50% sua planta de exploração. Relatórios de 1990 e 1991 notificaram sobre o risco de “colapso global do grupo de cavernas” e recomendaram suspensão imediata da produção em poços críticos (o que não foi feito).

A Braskem teria adotado uma “estratégia corporativa de ocultação sistemática” para garantir lucratividade. A principal fraude documental citada ocorreu em 2012 e 2013: a empresa protocolou petições afirmando falsamente que a operação era “invariavelmente segura” e que “não havia qualquer evidência de rebaixamento do solo”, enquanto dados mostravam velocidades de afundamento de até 8,16 cm/ano.

Mesmo após o tremor de 3 de março de 2018 (que tornou as rachaduras evidentes), a Braskem continuou a protocolar documentos negando ser a causadora do problema. O MPF sustenta que a postura da empresa impediu que autoridades tomassem medidas preventivas antecipadas. O processo aceitou 26 das 30 denúncias (quatro foram descartadas por prescrição).

A Braskem não quis se manifestar. A empresa era controlada pela Novonor até maio, quando o controle passou ao fundo chinês Shine I (50,1%). A Petrobras detém 47% e a Novonor, 2,9%. A previsão é que a área seja convertida em parque após a estabilização do solo (projetada para a partir de 2040).

Fonte: É Assim

Deixe uma resposta