Por Alexandre Rangel
As acusações de crimes sexuais envolvendo a família Klein, fundadora da rede de varejo Casas Bahia, constituem um dos episódios mais graves e complexos do cenário empresarial brasileiro. O escândalo permaneceu sob forte silêncio institucional e midiático por décadas, vindo à tona de forma detalhada a partir de abril de 2021, por meio de uma série de reportagens investigativas da Agência Pública (posteriormente aprofundadas no podcast O Caso K).
As denúncias dividem-se em dois eixos centrais: as acusações póstumas contra o patriarca e fundador da empresa, Samuel Klein (morto em 2014), e o processo criminal e cível contra um de seus filhos, Saul Klein. Não há denúncias dessa natureza de conhecimento público contra Michael Klein, o outro filho do fundador que assumiu o comando dos negócios da família após a fusão que originou a Via Varejo.
Abaixo, os fatos apurados em investigações jornalísticas, depoimentos e decisões judiciais sobre o caso.
1. O Esquema Atribuído a Samuel Klein (O Patriarca)
A investigação jornalística revelou que Samuel Klein utilizou, durante pelo menos três décadas (entre o final dos anos 1980 e os anos 2000), a estrutura de poder da própria empresa e recursos pessoais para manter uma rede de exploração sexual que envolvia crianças e adolescentes.
- O Modus Operandi: Meninas de baixa renda, muitas vezes moradoras da região do ABC Paulista ou da Baixada Santista, eram atraídas à sede administrativa das Casas Bahia, em São Caetano do Sul (SP). O chamariz inicial consistia em promessas de presentes (como calçados e roupas), cestas básicas ou dinheiro para ajudar famílias vulneráveis.
- Abusos na Sede da Empresa: Relatos colhidos pela reportagem, incluindo o de uma mulher abusada pela primeira vez aos 9 anos de idade em 1989, indicam que os crimes ocorriam em um quarto anexo ao escritório particular da presidência, equipado com uma cama de aspecto hospitalar.
- Estrutura de Apoio: Testemunhas e ex-funcionários apontaram que seguranças, motoristas e secretárias particulares do empresário davam suporte logístico. Havia o transporte de meninas em helicópteros particulares e carros oficiais para imóveis da família em Angra dos Reis (RJ) e Santos (SP), onde eram realizadas festas com conotação sexual.
- Logística de Pagamento: Ex-gerentes e funcionárias do setor financeiro confirmaram à Justiça e à imprensa que o dinheiro e as mercadorias retirados pelas jovens eram autorizados por meio de bilhetes e memorandos internos da presidência, pagos diretamente pelos caixas das lojas físicas.
Desfecho Jurídico de Samuel Klein
Como as investigações e a exposição pública detalhada dos casos só ganharam tração anos após a sua morte (ocorrida em 2014, aos 91 anos), Samuel Klein nunca foi condenado criminalmente. No Brasil, a morte do acusado extingue a punibilidade. Na esfera cível, processos de pedido de indenização movidos por vítimas sobreviventes enfrentaram barreiras técnicas e prescrições temporais; defesas da família argumentaram que em determinados períodos o empresário já se encontrava acamado ou incapacitado.
2. A Condenação de Saul Klein (O Herdeiro)
As denúncias contra o filho, Saul Klein, emergiram no segundo semestre de 2020 e serviram como estopim para que as vítimas do pai também rompessem o silêncio. O padrão de atuação de Saul guardava fortes semelhanças com o esquema atribuído ao pai, mas operava em uma estrutura ainda mais sistematizada e voltada para o público jovem-adulto e adolescente.
- O Aliciamento: Saul organizava falsos eventos, como testes para marcas de cosméticos, ensaios fotográficos e desfiles de moda internacionais para atrair mulheres jovens e adolescentes.
- A Exploração: Uma vez inseridas no ciclo do empresário, as vítimas eram levadas para o seu sítio em Alphaville (Barueri/SP), onde eram confinadas sob forte vigilância de seguranças armados, forçadas a manter relações sexuais diárias e submetidas a exames ginecológicos regulares de controle.
Linha do Tempo das Decisões Judiciais
Início das Investigações
Outubro de 2020
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaura inquérito após mais de 30 mulheres denunciarem formalmente Saul Klein por estupro, aliciamento e lesão corporal.
Ação Civil Pública do MPT
2021 – 2022
O Ministério Público do Trabalho (MPT) entra com ação civil coletiva, apontando que o esquema de Saul Klein configurava tráfico de pessoas e exploração de vulneráveis em condições análogas à escravidão.
Condenação Histórica na Esfera Trabalhista
Julho de 2023
A Justiça do Trabalho condena Saul Klein ao pagamento de R$ 30 milhões em indenização por dano moral coletivo. A sentença determinou que ele mantinha uma estrutura de “escravidão sexual” e tráfico de mulheres. Trata-se da maior condenação por tráfico de pessoas da história do país.
Abertura do Processo Criminal
Maio de 2026
A 2ª Vara Criminal de Barueri (TJ-SP) acolhe parcialmente a denúncia criminal oferecida pelo MP-SP, tornando Saul Klein réu formal por crimes de exploração sexual.
3. Posicionamento Institucional da Casas Bahia
A atual administração da rede de varejo (que passou por profundas reestruturações societárias e de governança ao longo dos anos, operando sob o nome de Grupo Casas Bahia, antigo Via) manifestou-se publicamente repudiando veementemente os atos denunciados.
A companhia declarou formalmente que os fatos relatados estão estritamente vinculados às pessoas físicas dos antigos acionistas históricos, não possuindo qualquer ligação com as diretrizes, a operação atual ou o corpo de executivos que hoje gerencia a marca. A empresa também se colocou à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e auditorias internas necessárias sobre o uso de suas dependências no passado.











