Cadu Amaral – Jornalista

Às vésperas do início do debate sobre o fim da escala 6×1 no Congresso, a Folha de S.Paulo, neste domingo (22), publica reportagem obtusa, enviesada e repleta de buracos factuais para atacar a redução da jornada de trabalho.

Ao destacar que “brasileiros trabalham menos que a média mundial” em sua manchete, a Folha, através do economista Daniel Duque, da FGV Ibre, constroem uma narrativa de que os brasileiros trabalham pouco e que se produz pouco no Brasil. Repetindo sempre a mesma ladainha quando se discute alguma medida pró-trabalhadores.

Na versão impressa do material, o gráfico – que não foi replicado no portal – desmonta a narrativa de forma fácil para qualquer pessoa, já mostra que em países como Estados Unidos, França, Dinamarca, Noruega e até o Japão, tão propagado com símbolo de dedicação ao trabalho, as pessoas trabalham menos que o Brasil.

A reportagem da Folha desinforma ao afirmar que o Brasil trabalha menos que a “média mundial” em sua manchete porque o próprio texto aponta que somente 44 países foram pesquisados. A Terra tem 195 países.

Além do que, a reportagem e a pesquisa elaborada pelo Banco Mundial não possuem detalhamento metodológico consistente. Semioticamente, o suo do termo “mundial” sugere que somos atrasados e deficientes, tanto em força de trabalho quando em capacidade produtiva para além do debate sério sobre investimentos públicos e privados – e todas as nuances da atual configuração econômica brasileira, extremamente financeirizada de juros exorbitantes, deixando mais atrativo investir no rentismo do que na produção.

A narrativa da Folha de S.Paulo compara países sem qualquer contextualização estrutural, ignorando informalidade, desemprego estrutural ou subocupação, os populares “bicos”. 

A reportagem da Folha de S. Paulo omite que em países altamente produtivos, as pessoas trabalham menos. A França, por exemplo, aparece com jornada média menor e altíssimo padrão de renda. Ou seja, trabalhar menos pode ser compatível com desenvolvimento, mas a lógica do capitalismo brasileiro que nunca largou mão da cultura escravagista não deixa explorar esse tipo de mudança.

Todo o subtexto da reportagem aponta que os brasileiros são preguiçosos, que preferimos o lazer ao trabalho, num construção moderna dos escravagistas ao se referirem aos indígenas séculos atrás, moldando um problema estrutural do país em uma questão moral.

Não foi a toa a publicação desse material agora, na semana em que o Congresso Nacional deve começar a debater o fim da escala 6×1. Aliás, enquanto escrevo este texto, todos os jornalões trazem reportagens em tons semelhantes ao da Folha deste domingo (22).

Ao centralizar a discussão no número bruto de horas, a Folha ignora a intensidade do trabalho, o tempo de deslocamento nas grandes cidades, a dupla jornada feminina, o avanço da informatização que leva o trabalho para dentro de casa e a informalidade. Ou seja, reduz complexidade social a um ranking descontextualizado para virar instrumento de pressão política.

Trabalhar seis dias consecutivos para um único dia de descanso implica desgaste físico e mental profundo nos trabalhadores, especialmente em setores de baixa remuneração. Este não deveria ser debate não é ideológico, mas, sim, civilizatório. Países desenvolvidos avançaram na redução de jornada justamente para ampliar qualidade de vida e, consequentemente, a produtividade.

A impressão que tive foi faltou quase nada para a Folha e o tal Daniel Duque defenderem a volta da escravidão clássica, com chibatadas e tudo.

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