Depois de massacar os palestinos de Gaza, o estado assassino de Israel continua castigando os amputados bloqueiando o acesso de próteses
A escassez de próteses na Faixa de Gaza aprofunda a crise humanitária vivida por milhares de palestinos que perderam braços ou pernas desde o início da guerra entre Israel e o Hamas. A falta de materiais básicos, como o gesso usado na confecção de moldes, impede que organizações médicas consigam atender a demanda crescente por reabilitação.https://landing.mailerlite.com/webforms/landing/r9f0h9
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo, que ouviu vítimas, representantes de organizações humanitárias e profissionais envolvidos no atendimento a pessoas amputadas no território palestino. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 5.000 pessoas perderam ao menos um membro desde outubro de 2023, em um conflito que já matou mais de 70 mil palestinos.Play Video
Entre os atingidos está Ramadan Sabra, de 28 anos. Formado em engenharia, ele trabalhava na área e complementava a renda em um restaurante. Também jogava futebol e alimentava o sonho de viajar para fora de Gaza. A guerra, porém, mudou radicalmente sua vida. Após a família deixar a própria casa e passar a viver em tendas de refugiados na praia, Sabra foi ferido no pé esquerdo durante um bombardeio.
Sem acesso a tratamento adequado, os médicos precisaram amputar o membro. À Folha, ele resumiu o impacto da perda: “Naquele momento, minha vida parou”.
A situação de Sabra deixou de ser exceção em Gaza. Com hospitais destruídos, danificados ou sem condições de operar plenamente, muitos feridos não recebem atendimento rápido ou especializado. A consequência é o aumento de amputações que poderiam ser evitadas ou tratadas de outra forma em um sistema de saúde funcional.
O bloqueio israelense agrava o quadro. Israel restringe a entrada de materiais considerados de “duplo uso”, sob a alegação de que poderiam ter aplicação militar por grupos armados. Entre esses itens está o gesso, indispensável para produzir moldes de próteses. Sem ele, as filas de espera crescem e os serviços especializados correm o risco de paralisar parte dos atendimentos.
Pat Griffiths, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, afirmou que a estrutura médica local não consegue responder ao tamanho da crise. “Hoje, a infraestrutura médica é incapaz de atender à demanda”, disse ele à reportagem.
Griffiths, que estava em Gaza quando conversou com a Folha, relatou um cenário de devastação contínua, com “quilômetros e mais quilômetros de destruição”, “blocos de concreto destroçados” e “metal retorcido”. Segundo ele, “pessoas com deficiência, incluindo as que perderam membros, estão especialmente vulneráveis”.
A falta de próteses é ainda mais severa para quem perdeu um braço, área em que a escassez de equipamentos é maior. Sabra conseguiu receber um dos poucos membros artificiais disponíveis. A recuperação, no entanto, é lenta. “Voltei a andar, passo a passo. Tento me adaptar ao novo pé, mas ainda tenho alguma dificuldade de movimento”, afirmou.
O retorno ao futebol, seu antigo sonho, segue fora de alcance. Sabra planeja deixar Gaza para buscar tratamento mais adequado, mas a saída do território permanece praticamente inviável, já que as fronteiras seguem fechadas, salvo raras exceções.
Desde o cessar-fogo de outubro do ano passado, houve alguma melhora na entrada de equipamentos de apoio, como muletas e cadeiras de rodas. Ainda assim, a restrição ao gesso mantém o sistema de reabilitação em situação crítica. Sem moldes, especialistas não conseguem produzir novas próteses no ritmo necessário.
Organizações humanitárias têm recorrido a soluções improvisadas. No sul de Gaza, segundo a reportagem, um marceneiro passou a produzir muletas provisórias com pedaços de madeira. A medida ajuda pacientes em situações emergenciais, mas não substitui tratamento adequado nem equipamentos de reabilitação.
Para Griffiths, o impacto das restrições é direto sobre a capacidade de atendimento. “A restrição à entrada de material aleija o sistema de saúde”, afirmou.
Uma das poucas alternativas disponíveis é o Centro de Pólio e Membros Artificiais, que atua em Gaza há quase cinco décadas. O porta-voz da instituição, Hosny Mohanna, disse que a procura aumentou de forma intensa. “Recebemos centenas de novos casos todos os meses”, afirmou.
A limitação de insumos também obriga os profissionais a reaproveitar peças ou recorrer a materiais inferiores. “Às vezes, temos de reciclar componentes ou recorrer a alternativas de baixa qualidade”, disse Mohanna.
A reabilitação exige acompanhamento frequente de fisioterapeutas e psicólogos, especialmente no caso de crianças. Como seus corpos ainda estão em crescimento, elas precisam de ajustes constantes e substituições periódicas de próteses. Para Mohanna, o problema ultrapassa a emergência imediata. “É um desafio social de longo prazo”, afirmou.
Outro caso relatado é o de Aseel, cuja história foi divulgada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha na semana passada, sem informar sua idade nem seu sobrenome. Ela se preparava para o casamento quando um bombardeio israelense atingiu a tenda onde estava refugiada com a família.
Na manhã seguinte ao ataque, Aseel sentia dores intensas em uma das pernas. Diante da falta de tratamento, pediu aos médicos que amputassem o membro. Após o processo de reabilitação, foi informada de que receberia uma prótese e poderia voltar a andar. Segundo o relato da organização, ela descreveu aquele momento como o mais feliz de sua vida até então.
Mesmo com medo de que a prótese caísse durante a cerimônia, Aseel manteve os planos do casamento. Depois de muito treino, conseguiu dançar com o noivo. Hoje, o casal vive em um campo de refugiados.
A guerra começou em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas realizou um ataque contra Israel que deixou 1.200 mortos. Em resposta, Israel iniciou uma campanha militar sobre Gaza. Diversas organizações e governos, incluindo o Brasil, acusam Israel de cometer genocídio contra os palestinos, acusação negada por Tel Aviv.
Além das restrições a materiais médicos, Israel também impede a entrada do papamóvel que o papa Francisco pediu, em sua herança, que fosse transformado em clínica ambulante e enviado para atender crianças em Gaza. Em meio à destruição de hospitais e à limitação de insumos, a crise das próteses expõe uma dimensão prolongada da guerra: a sobrevivência de milhares de amputados dependerá de atendimento contínuo, equipamentos adequados e reabilitação por muitos anos.
Fonte: Brasil 247






