Trabalhadores portuários de 22 países e cinco continentes participam, nesta sexta-feira (30/10), de uma jornada internacional de mobilização em solidariedade ao povo palestino. A iniciativa reúne mais de 25 sindicatos e abrange pelo menos 110 portos, com paralisações e protestos contra o genocídio em Gaza e o envolvimento de governos e empresas no fornecimento de equipamentos militares a Israel.
Organizada sob o lema “Trabalhadores portuários não trabalham para a guerra”, a mobilização busca utilizar a posição estratégica dos trabalhadores na cadeia internacional de transporte marítimo para pressionar o comércio de armas e denunciar a participação de empresas e instituições no conflito.
A iniciativa tem como uma de suas principais reivindicações o fim imediato dos ataques contra a população palestina, além da interrupção das guerras e das políticas imperialistas. Os sindicatos também defendem o reconhecimento de um Estado palestino independente, dentro das fronteiras anteriores a 1967, com Jerusalém Oriental como capital.
A articulação reúne organizações de países como Itália, França, Grécia, Turquia, Índia, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Austrália, Brasil, México e Uruguai, além de trabalhadores da costa oeste dos Estados Unidos.
Trabalhadores no centro da pressão internacional
A paralisação representa uma tentativa de transformar a solidariedade política em pressão econômica concreta. Os trabalhadores portuários ocupam uma posição fundamental no transporte internacional de mercadorias, incluindo componentes e equipamentos utilizados pela indústria militar.
Ao interromper temporariamente as atividades, os sindicatos pretendem dificultar a circulação de cargas e chamar a atenção para a participação da infraestrutura comercial no abastecimento da máquina de guerra israelense.
Segundo informações da organização No Harbour for Genocide, que acompanha as cadeias de fornecimento de armamentos, foram identificados 315 carregamentos de componentes destinados à fabricante israelense de armas Elbit Systems entre agosto de 2025 e setembro de 2026. As remessas passaram por 56 portos comerciais de 29 países.
A organização também aponta a importância estratégica das rotas marítimas para a economia israelense. A estimativa apresentada pelo coletivo é de que até 95% das importações e exportações de Israel sejam transportadas por via marítima.
Nesse cenário, a participação de grandes centros de transbordo no Mediterrâneo, como Gênova, Gioia Tauro e Pireu, amplia o potencial de impacto das paralisações.
Articulação construída pelos sindicatos
A mobilização internacional é resultado de uma articulação iniciada em 2025, quando organizações de trabalhadores portuários do Mediterrâneo começaram a discutir formas de enfrentar a privatização dos portos e impedir que a estrutura logística fosse utilizada para abastecer operações militares contra os palestinos.
As primeiras reuniões envolveram sindicatos de cinco países e cerca de 20 portos. A articulação cresceu nos meses seguintes, com encontros em Atenas, Gênova e Istambul. Em maio de 2026, representantes sindicais divulgaram a Declaração de Istambul, que consolidou a convocação para a jornada internacional de 30 de outubro.
A adesão de organizações de outros continentes ampliou o alcance da iniciativa, que passou a envolver trabalhadores de diferentes setores e movimentos sociais.
Na Itália, a mobilização também ganhou dimensão nacional, com convocação de greve geral pela União Sindical de Base (USB). Em outros países, foram anunciadas paralisações de 24 horas, enquanto algumas organizações optaram por interrupções mais curtas.
Solidariedade palestina e resistência à indústria da guerra
A jornada recebeu o apoio do movimento sindical palestino, que convocou organizações de trabalhadores de outros países a intensificarem as campanhas de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) contra Israel.
A reivindicação vai além da interrupção de carregamentos militares. Os organizadores defendem que governos, empresas e instituições sejam responsabilizados por suas relações com a ocupação israelense e pelas estruturas econômicas que sustentam a ofensiva contra Gaza.
A mobilização também resgata uma tradição histórica do movimento sindical internacional: a recusa de trabalhadores em participar de operações que contribuam para guerras e agressões contra outros povos.
Na Grécia, o dirigente sindical Markos Bekris enfrenta um processo judicial após participar de um protesto que impediu o carregamento de um contêiner com 21 toneladas de munições destinadas a Israel, em outubro de 2024.
A iniciativa desta sexta-feira amplia essa forma de resistência para uma escala internacional. Ao coordenar ações em diferentes portos, os sindicatos demonstram que a infraestrutura do comércio mundial não está dissociada dos conflitos políticos e militares.
Mais do que uma paralisação pontual, a jornada representa uma tentativa de fortalecer a pressão popular e trabalhista contra o genocídio em Gaza, questionando a participação de governos e empresas no fornecimento de recursos que alimentam a guerra.
Fonte: Ópera Mundi






