Relatora da ONU acusa Israel de manter ataques contra palestinos e aponta apoio de governos, bancos e multinacionais a crimes de guerra

As denúncias de genocídio em Gaza e de cumplicidade ocidental foram reforçadas pela relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, que acusa Israel de manter uma política sistemática de extermínio e afirma que governos, instituições financeiras e grandes empresas ajudam a sustentar as operações israelenses.

Em entrevista à RT repercutida nesta sexta-feira (11) pela teleSUR, Albanese afirmou que a classificação das ações de Israel como genocídio resulta da análise dos fatos e da aplicação do direito internacional, e não de uma avaliação política.

“Os palestinos foram reduzidos a uma massa amorfa. Não importa quem seja o alvo: crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência, recém-nascidos em incubadoras. Eles são mortos por serem palestinos”, declarou.

Segundo a relatora, três condutas identificadas em um relatório apresentado por ela em março de 2024 sustentam a acusação: assassinatos em massa, tortura sistemática e destruição deliberada de estruturas indispensáveis à sobrevivência da população.

Albanese também afirmou que a violência contra os palestinos não se restringe à Faixa de Gaza. De acordo com os dados citados pela especialista, quase 700 pessoas foram mortas na Cisjordânia ocupada entre outubro de 2023 e outubro de 2024, inclusive em áreas onde não havia presença armada do Hamas.

Mortes após o cessar-fogo

A representante da ONU contestou o cumprimento do cessar-fogo anunciado em 15 de outubro de 2025. Conforme os números apresentados por ela, as forças israelenses mataram mais de 1.300 pessoas em Gaza desde o acordo, a maioria crianças.

Albanese classificou a trégua como um “suposto cessar-fogo” e afirmou que os ataques prosseguiram apesar da redução da atenção internacional sobre o território palestino.

Na avaliação da relatora, o enfraquecimento da cobertura jornalística está diretamente ligado à morte de quase 300 profissionais de imprensa no enclave. Ela considera que os ataques contra jornalistas integram uma estratégia deliberada para restringir a circulação de informações sobre Gaza.

A especialista também criticou os grandes veículos de comunicação ocidentais por “criar zonas de influência” e reduzir a visibilidade da continuidade das operações militares israelenses.

Empresas e instituições financeiras são acusadas

Parte das denúncias de Albanese está reunida no relatório “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, no qual ela examina os vínculos econômicos que contribuem para a manutenção da ocupação dos territórios palestinos e das ações militares em Gaza.

A relatora classificou como “quase tangível” a responsabilidade dos países ocidentais que compram ou comercializam títulos do governo israelense nos mercados internacionais. Segundo ela, essas operações violariam a proibição de prestar assistência a Estados envolvidos em atos ilícitos internacionais.

Albanese também denunciou formalmente a participação de empresas de tecnologia, companhias de análise de dados e plataformas de reservas, além de instituições universitárias. Entre as empresas mencionadas estão Google, Microsoft, Palantir, Amazon, Airbnb e Booking.

“É uma grande decepção que, depois do meu relatório, nada tenha mudado na prática. Essas redes de cumplicidade continuam existindo”, afirmou.

As companhias são associadas, no relatório, a diferentes atividades ligadas à ocupação israelense, como fornecimento de infraestrutura tecnológica, tratamento de dados e manutenção de negócios ou serviços em territórios palestinos ocupados.

Sanções dos Estados Unidos

Albanese ainda denunciou as sanções impostas a ela pelo governo dos Estados Unidos em razão de suas investigações sobre a ocupação e o regime de apartheid atribuído a Israel. De acordo com a relatora, as medidas incluíram o bloqueio de contas bancárias e propriedades.

“As sanções que os Estados Unidos impuseram contra mim e contra o Tribunal Penal Internacional são um passo muito grave. Os juízes e promotores que investigam crimes de guerra e o genocídio israelense foram sancionados pelos Estados Unidos. É algo violento e desprezível. Israel não está acima do direito internacional”, declarou.

A especialista vive atualmente sob proteção oficial do governo da Tunísia devido às ameaças recebidas durante seu trabalho de investigação. Ela também alertou para o impacto das medidas norte-americanas sobre a atuação de integrantes do Tribunal Penal Internacional responsáveis por apurar possíveis crimes cometidos no conflito.

Ao abordar o uso de sanções e outras formas de coerção nas relações internacionais, Albanese manifestou ainda solidariedade à população cubana. A relatora definiu o bloqueio mantido pelos Estados Unidos contra Cuba como um “estrangulamento sistemático” destinado a submeter toda uma população para alcançar objetivos de dominação política.

Fonte: Brasil 247

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