Tese defendida na USP analisou formas bancárias, não bancárias e informais de crédito, com destaque para a agiotagem em suas múltiplas expressões

O crédito costuma ser apresentado como solução para o consumo, o empreendedorismo e a inclusão financeira. Mas, em muitos contextos, ele também pode funcionar como mecanismo de dependência, endividamento e drenagem da renda das populações mais pobres. Essa é uma das questões centrais analisadas pelo professor Dhiego Antonio de Medeiros, da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL/Campus III, em tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo – USP.

A pesquisa, intitulada “Mercados de crédito e circuitos da economia urbana no território brasileiro: desigualdades e financeirização na era da globalização”, foi defendida no dia 8 de maio de 2026, no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP.

Na tese, o professor analisou os mercados de crédito como fenômenos urbanos e territoriais, articulados à financeirização da economia, às desigualdades socioespaciais e aos diferentes circuitos da economia urbana no Brasil. O estudo parte da compreensão de que o crédito não pode ser visto apenas como instrumento financeiro, mas como uma mediação concreta da vida cotidiana.

“O crédito não é apenas um instrumento financeiro. Ele é uma mediação concreta da vida cotidiana que atravessa o consumo, o trabalho, a moradia, a circulação e as formas de permanência das pessoas nos lugares”, afirma o professor Dhiego Antonio de Medeiros.

Ao longo da pesquisa, o professor investigou como o crédito, ao incorporar o preço do dinheiro por meio dos juros, participa da drenagem das rendas das economias urbanas pobres. A tese mostra que a expansão do crédito no território brasileiro não eliminou as desigualdades de acesso ao dinheiro. Ao contrário, revelou mercados de crédito interdependentes, hierarquizados e marcados por forte seletividade territorial.

O trabalho propõe uma leitura plural dos mercados de crédito, considerando não apenas bancos e instituições financeiras tradicionais, mas também financeiras, correspondentes bancários, fintechs, Empresas Simples de Crédito e práticas populares, não bancárias e informais. Entre elas, aparecem o fiado, as rifas, a conversão de limites de cartão em dinheiro, a agiotagem em suas múltiplas expressões e modalidades como o chamado “gota a gota”, prática de empréstimo informal difundida em diferentes países sul-americanos.

A investigação evidencia ainda que essas formas de crédito não se restringem às relações econômicas imediatas. Em determinados contextos, elas se articulam a estruturas de poder local, oligarquias, relações de dependência pessoal e dinâmicas político-eleitorais, incluindo a problemática do “preço do voto”. Nesse sentido, a tese contribui para compreender como juros, endividamento e acesso desigual ao dinheiro podem reforçar formas de subordinação social e territorial.

O trabalho foi orientado pelo professor Dr. Fabio Betioli Contel, da FFLCH/USP. A banca examinadora foi composta pelo professor Dr. Ricardo Méndez Gutiérrez del Valle, da Universidad Complutense de Madrid; pela professora Dra. Marina Regitz Montenegro, da FFLCH/USP; e pela professora Dra. María Laura Silveira, da Universidad de Buenos Aires/CONICET.

Durante a defesa, a banca destacou o caráter original e inédito da tese, ressaltando sua contribuição para os debates sobre crédito, financeirização, desigualdades territoriais e circuitos da economia urbana. Os examinadores também recomendaram a publicação do trabalho em forma de livro.

A pesquisa contou com apoio da CAPES/PROEX e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP. O percurso incluiu bolsa regular de doutorado e estágio de pesquisa no exterior, por meio da modalidade BEPE/FAPESP, realizado na Universidad Complutense de Madrid, na Espanha, sob a supervisão do professor Dr. Simón Guillermo Sánchez Moral. O professor também atuou como pesquisador visitante na Universidad del Valle, em Cali, na Colômbia, ampliando a interlocução internacional da pesquisa.

A conclusão do doutorado reforça a inserção acadêmica da UNEAL em redes nacionais e internacionais de pesquisa e amplia as contribuições do Curso de Licenciatura em Geografia do Campus III para o debate sobre território, economia urbana, financeirização e desigualdades no Brasil. Também fortalece as atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas no âmbito do Laboratório de Geografia Econômica e Planejamento Territorial – LAGEP.

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