Por Alberto Handfas – Professor Dr. Unifesp
Em 2/11/1917, o governo do Reino Unido emitia a Declaração Balfour, prometendo “o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional judaico”. O povo palestino não foi consultado; e nem tampouco a população judaica (à época, apenas uma minoria dentre a burguesia e intelectualidade judaicas o foram e se envolveram no projeto).
Finda a 1ª GM, o vitorioso imperialismo britânico transformou a Palestina (e boa parte do Oriente Médio) em sua possessão colonial, disfarçada de “Mandato” (“concedido” pela Liga das Nações). Era estratégico proteger seu acesso exclusivo ao Canal de Suez e aos oleodutos que ligavam o golfo pérsico ao mediterrâneo. O inglês que governou de Jerusalém durante os 1920s costumava dizer que o estabelecimento de uma colônia judaica ali significaria criar, para a Inglaterra, “uma pequena e leal ‘Ulster’ (colônia britânica na Irlanda do Norte) em meio a um mar do hostil nacionalismo árabe”.
Tais interesses econômicos se combinavam com a crescente onda antissemita gerada com nacionalismo reacionário europeu. Aos antissemitas, os judeus não pertenciam à Europa; por isso sua saída em massa de tal continente a uma colônia longínqua era bem-vista. O ministro Arthur Balfour, um sionista cristão, era ele mesmo um antissemita de quatro costados: quando fora primeiro-ministro, fez aprovar a Lei de Estrangeiros (Aliens Act) de 1905, com o objetivo de impedir que judeus pobres que fugiam de pogroms no Leste Europeu pudessem buscar refúgio na Grã-Bretanha.
Theodor Herzl, o principal articulador político do sionismo, sabia que seu projeto de criação de um Estado etnocêntrico que excluísse a população nativa (palestina) só poderia ser implementado com apoio do imperialismo, particularmente o britânico, o mais poderoso à época. Jabotinsky, líder sionista (e fundador do partido de Netanyahu) sabia que “Toda população nativa no mundo resiste aos colonizadores enquanto tiver a mínima esperança de conseguir se livrar do perigo de ser colonizada. É isso que os árabes na Palestina estão fazendo, e é isso que continuarão a fazer enquanto restar uma única centelha de esperança de que consigam impedir a transformação da ‘Palestina’ na ‘Terra de Israel’.
Mais de um século se passou, e – a despeito de tudo – o povo palestino resiste heroicamente. E hoje, mais do que nunca, recebe o apoio da maioria da população mundial. A luta por uma Palestina livre é hoje a mais emblemática luta contra o imperialismo.
No ano passado, o premiado filme de Annemarie Jacir, contou a história dos desdobramentos iniciais da Declaração Balfour culminando no primeiro grande enfrentamento a ela: a Revolução Palestina de 1936. No link, uma resenha publicada à época de seu lançamento.






