Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

O judaísmo, como sabemos, é uma das religiões mais antigas da humanidade. Trata-se de uma das três religiões monoteístas do mundo, que acredita fielmente em uma pseuda aliança entre o povo hebreu e a figura de um Deus que os escolheu para representá-lo na terra. Essa estranha parceria teria tido início há mais de quatro mil anos, no século XVII a.C. Ela teria se iniciado historicamente com a figura patriarcal de Abraão e tendo continuidade com Moisés e seus 10 mandamentos no Monte Sinai e o Rei Salomão. Dentre os seus livros sagrados destacam-se a Torá, escrito pelo próprio Deus e que estabelece a doutrina judaica e o Talmud, que é a compilação para uma interpretação mais pragmática sobre a Torá, de discussões ocorridas entre rabinos, sobretudo entre os séculos II e V.

Vamos dar agora um salto epistemológico, quanto a evolução do conceito religioso judeu, no que diz respeito ao conhecimento do saber teológico e na evolução das crenças que justificam suas verdades absolutas. Podemos afirmar que a doutrina judaica passou a ter diversas interpretações ao longo da sua evolução, a exemplo do judaísmo ortodoxo, conservador, reformista e até humanista. A base da construção conceitual hebraica vem sofrendo profundas mudanças e variáveis para justificar suas ações, de acordo com os interesses estabelecidos pelas diversas correntes do pensamento judaico. Dentre essas compreensões das religiões abraâmicas, que também abrange o cristianismo e o islamismo, surge uma vertente dentro do judaísmo, que se intitula de sionismo e que não está voltada para a questão de cunho religioso propriamente dito, se reivindicando como um movimento político nacionalista, que afirma lutar pela autodeterminação do povo judeu e pela criação de um estado nacional judaico independente e soberano.

Aí é onde as coisas começam a se complicar. O judaísmo como religião deve ser respeitada, assim como todas as religiões praticadas ao longo do desenvolvimento civilizatório. Da mesma forma, os ateus também devem ser reconhecidos pelos seus posicionamentos que contestam a existência uma divindade, posto que a fé ou a falta dela é uma manifestação individual e intransferível. A fé não pode ser imposta como uma verdade absoluta. Até porque, temos variantes muito diversas e díspares nas perspectivas do universo religioso. Como já disse anteriormente, só com relação às religiões monoteístas temos conhecimento da existência de três delas: judaísmo, cristianismo e o islamismo. Qual delas é a detentora da verdade? Todas acreditam nas suas certezas incontestáveis, sob o risco iminente para quem delas discordar, de arder no fogo eterno do inferno.

O fator que mais gerou mortes na história da humanidade foi, certamente, motivado por razões de natureza religiosa. Muitos mataram e muitos morreram em nome da Torá, da Bíblia ou do Alcorão. Assim tivemos as Cruzadas (1095-1291), a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Guerras Religiosas na França, expansão Islâmica e Guerras Santas, e, mais recentemente, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os confrontos entre protestantes e católicos na Irlanda e podemos citar também o conflito Árabe-Israelense, sendo estes últimos ocorridos do século XX até os dias atuais.

Chegamos então definitivamente ao cerne deste artigo, com o surgimento do fictício Estado de Israel, criado pela ONU em 1948, em sessão presidida pelo diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, a partir de uma Diáspora invertida contemporânea do povo judeu, que fugiu da guerra promovida pelo Terceiro Reich nazista para o que é hoje o atual Estado de Israel, que nada tem a ver, diga-se de passagem, com a Israel citada nos textos bíblicos. É neste contexto que surge o sionismo como um movimento político surgido na Europa, defendendo a necessidade da criação de um Estado Judeu soberano.

E o sionismo surge na Europa Central e Oriental, a partir da publicação do livro “O Estado Judeu”, do jornalista judeu-austríaco Theodor Herzl, que é considerado o criador do sionismo como uma teoria e estratégia geopolítica para a criação de um Estado próprio, para fazer frente a falta de assimilação dos judeus no continente Europeu e sua consequente perseguição antissemita. Esta foi a resposta a chamada “questão judaica”, que terminou por transformar a luta por uma identidade étnica e religiosa em um grave conflito gerado a partir de um projeto de soberania territorial. E este movimento já ascende política e ideologicamente com várias contradições.

A primeira delas foi a estranha história da proclamação do Acordo de Haavara, assinado em 25 de agosto de 1933 entre a Alemanha Nazista e organizações sionistas que foi, de forma bem objetiva, o que viabilizou o projeto de Hitler economicamente para sua aventura militar, sendo concedido em troca, a permissão para viabilizar a migração de 60 mil judeus alemães para a Palestina, entre os anos de 1933 e 1939. O mesmo Hitler que mandou seis milhões de judeus para as câmeras de gás nos campos de concentração. O nome “sionismo” foi baseado em “Sion”, nome de uma colina situada no entorno da Terra Santa, muito embora o primeiro lugar que se pensou para a instalação de um Estado Judaico, tenha sido uma área na África Oriental sob o domínio colonialista do império inglês, no que atualmente compreende a região entre Uganda e o Quênia, proposto pelo governo britânico, ao invés de sê-lo na Palestina, o que não foi aceito pelo movimento sionista, comprovando a inconsistência de que aquele território pertence a Israel sionista de hoje.

O sionismo evolui para a formação de grupos terroristas , a exemplo das organizações paramilitares como Irgun e Lehi, que cometeram vários atentados, dentre eles, os famosos ataques de Deir Yassin e do Hotel King David, que resultou na morte de centenas de pessoas, reivindicando o território que sempre pertenceu historicamente a Palestina. O povo judeu, que, a bem da verdade, nunca foi muito bem visto no cenário mundial, passa a ser liderado posteriormente a criação e instalação do seu Estado, pelos movimentos sionistas, depois transformados em partidos políticos identificados com posicionamentos de extrema direita, oprimindo e estabelecendo genocídios nos territórios da palestina em diversos momentos nas últimas décadas, promovendo massacres que não poupam crianças, mulheres, idosos e animais nas regiões pertencentes ao povo palestino, desrespeitando todos os tratados internacionais vigentes até a ruptura total em 2023, com esta intervenção militar para exterminar toda uma civilização.

O sionismo neste momento está no poder, promovendo sob o comando de um dos maiores genocidas e criminosos de guerra da história em todos os tempos, que atende pelo nome de Benjamim Netanyahu, uma verdadeira limpeza étnica em Gaza e outras regiões comandadas pela Autoridade Nacional Palestina, atacando ainda o Irã e o Líbano, certos de que não sofrerão sanções ou reprimendas das grandes potências ou das organizações internacionais. Os sionistas já assassinaram aproximadamente 100 mil pessoas de 2023 até o presente momento, em uma guerra cujo único objetivo é anexar os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia. O povo judeu, que já sofre naturalmente com o antissemitismo, só piora sua imagem perante o mundo, quando endossa as políticas obscuras do sionismo, que guarda muita semelhança com as práticas nazistas que pretendiam uma “solução Final” para a sua eliminação.

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