Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor
Existe um projeto político em construção no Brasil há pelo menos três décadas. Um projeto de natureza ideológica, mas que trabalha com uma premissa que oculta o seu verdadeiro e maior objetivo: a ascensão e implantação de uma ditadura teocrática, assentada sobretudo na doutrina que mais avança na perspectiva teológica em nosso país, com a consolidação do chamado neopentecostalismo. A assertiva que identifica o avanço da frase “pequenas igrejas, grandes negócios” é uma realidade no contexto das religiões em todo território nacional.
A “teologia da prosperidade”, base fundamental das igrejas neopentecostais dos dias atuais, talvez não por acaso e sem dar ênfase no trocadilho, é a que mais próspera nacionalmente. Tem um resultado, em lucros líquidos, muito superior a maioria das denominações religiosas tradicionais que atuam no subjetivo campo do misticismo e sincretismo religioso brasileiro, perpassando pela Igreja Católica Apostólica Romana, pelas religiões de matriz africanas, pelas religiões animistas de povo originários e manifestações de práticas religiosas alternativas, como o Santo Daime por exemplo, pelo budismo, do tibetano do Dalai-Lama ao budismo Nitirem japonês e até mesmo pelas igrejas evangélicas tradicionais, como a Batista, Assembleia de Deus, Adventista, metodista, quadrangular e uma dezena mais que são doutrinariamente muito mais sólidas no campo da formação teórica teológica.
A história das religiões sempre nos remete a um debate de alta complexidade filosófica, dada a natureza imaterial e totalmente idealista que lhe caracteriza desde o seu surgimento e estruturação. Estamos falando de um assunto que, do ponto de vista doutrinário, não existe nenhum tipo de validação científica ou materialista que o prove concretamente. O que existe é a comprovação da evolução histórica da religião, que está muito mais próxima do controle do poder político, o imperador Constantino e o Concílio de Nicéia demonstram isto de forma inequívoca, do que da sua natureza espiritual, que deveria nortear e justificar a sua existência para atender as necessidades transcendentais da humanidade.
Este projeto foi se expandindo sorrateiramente em nosso país, de uma forma que não foi possível detectar que se trata de uma estratégia que ia muito além do que a cobrança de dízimos subversivos. Estamos falando do avanço do neopentecostalismo tupiniquim que vem evoluindo consistentemente desde os finais dos anos 80, com um significativo crescimento nos anos 90 e se consolidando dos anos 2000 até a presente data. O evangelho de resultados está concluindo a primeira etapa do grande plano político no qual o conjunto destas igrejas de pregação histriônica vêm apostando alto.
O estelionato ofertório, que começou com os gazofilácios de madeira e acrílico e as chamadas salvas de ofertas e dízimos (um cabo de madeira comprido com uma espécie de sacola na ponta), evoluiu para cartões de débito e crédito e chegou à sofisticação do pix oblativo. Ao longo dessas últimas décadas, as igrejas evangélicas neopentecostais cresceram geográfica e exponencialmente em razão da imensa conquista de fiéis, por intermédio de sofisticados artifícios psicológicos de lavagens cerebrais, com o uso de metodologias de controles mentais e do desenvolvimento de técnicas psicanalíticas, que se aproveitaram dos diversos tipos e motivações de desequilíbrios emocionais, provocadas pelas fragilidades das perdas sociais, econômicas e humanas das pessoas que buscam um refúgio espiritual.
O ponto alto desta etapa do empreendimento
Gospel empresarial, foi a fase em que surgiu na TV brasileira o televangelismo, que ia ao ar em rede nacional muito tarde da noite e duravam até a manhã, quando começava a programação oficial nos rádios e nas TVs. Esses extensos programas de horários comprados nas grandes emissoras, ofereciam curas da unha encravada até o câncer em suas fases mais avançadas, onde não havia mais esperanças de reversão do quadro. E para isso, bastava apenas colocar um copo de água em cima do aparelho TV e orar para abençoar o líquido que se transformava em uma pequena porção mágica de milagre.
Na sequência vinha o pedido para a obra, em forma de depósito bancário. Não existe milagre não remunerado. Só não me lembro de ter visto cura para a aids, pois afinal, esta era uma doença dos possuídos pelo inimigo, ou seja, aqueles que eram denominados à época, nos anos 80 do século XX, de “homossexuais” ou, resumidamente, de “bichas e veados”, que eram exterminados pela doença de acordo com a interpretação bíblica convenientes aos líderes religiosos de então.
Estas igrejas evangélicas neopentecostais de fundos de garagem, surgiram consagrando “pastores” que nunca sentaram em um banco dos seminários de teologia ou passaram por uma universidade para se formarem academicamente como teólogos. O que tivemos foi um verdadeiro “pega bêbado” nas ruas, como é até os dias de hoje, empregando homens e mulheres, que passaram a pregar aquilo que chamo de “evangelho de sovaco”, com uma bíblia debaixo do braço, catequizando em altíssimos decibéis, como se Deus fosse surdo.
Esse estilo se transformou na liturgia típica das igrejas neopentecostais, com cultos cada vez mais espalhafatosos, vulgares, cênicos e burlescos. Aliás, diga-se de passagem, a única coisa “altíssima” que se atinge com estes vendilhões dos templos, negociantes da salvação divina, são as contas bancárias dos donos e pastores destes engodos religiosos. Para esses “vigários”, a graça jamais será alcançada se não for devidamente debitado da conta bancária do crente incauto, o valor referente a benção que se deseja alcançar. Assim trabalham os pastores de contrato de trabalho registrado, como em toda e qualquer empresa que se preze. A atividade pastoral há muito deixou de ser sacerdócio.
Algumas dessas empresa se transformaram em grandes conglomerados midiáticos, a exemplo da IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, do bilionário Bispo Macedo, detentor de uma fortuna pessoal de R$ 5.8 bilhões, que comprou nada mais, nada menos, do que a Rede Record de televisão, uma das mais tradicionais emissoras de TV do país. Muitas outras dessas “igrejas” seguiram o mesmo caminho. Destaco, dentre muitas, a Igreja Internacional da Graça de Deus, de R. R. Soares e a Igreja Mundial do Poder de Deus, do missionário do chapelão Valdemiro Santiago, todas bilionárias focando nas curas e na prosperidade dos irmãos que pagarem uma propina a Deus, disfarçada de fortalecimento da obra para alcançar o milagre.
No rastro desses imbróglios devocionais surgiram, até agora, 87 mil igrejas evangélicas registradas, fora as informais, que são os camelôs da fé, atuando fortemente no mercado informal da religião. São igrejas predominantemente localizadas nas imensas regiões periféricas do Brasil. Vencida a etapa de disputa de públicos, essas igrejas procuram avançar no seu objetivo maior, identificado com o moderno protofascismo, aqui representado neste fenômeno inexplicável para mim, que é o bolsonarismo. O teofascismo está aí, assentado nesta sólida base congregacional, colhendo cada vez mais irmãos, manipulando a palavra de Deus e o evangelho preconizado por Jesus Cristo, que tinha um discurso claramente socialista.
A agenda política e ideológica deste segmento teológico está na sua fase final de implantação. Hoje são detentores de um poder paralelo, com base teórica pautada na pregação de alienação da realidade objetiva, na estrutura representada pelas milhares de igrejas espalhadas uniformemente em todas as regiões do país, bilhões de reais para comprar todos os poderes formais e bancar as campanhas de seus candidatos em eleições, tendo ainda uma extensa rede midiática fundamentalista que possui tentáculos em todos os veículos de comunicação que atuam no Brasil.
E tudo isso me parece, cada vez mais, ser liderado pelo “Aiatolá” Silas Malafaia, uma figura execrável em todos os aspectos possíveis no que diz respeito a qualquer coisa que tenha um mínimo de seriedade. Suas posições são claramente de natureza fascista. Já existem crimes suficientes cometidos por este falso profeta e seus discípulos para colocá-los na cadeia. As forças progressistas que defendem o Estado Democrático de Direito, têm que estar muito atentas , para que o Brasil não se transforme em uma ditadura teocrática de extrema-direita em um futuro relativamente próximo.











