Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

Há alguns anos resgatei um cachorro em uma grota de Maceió, que a comunidade batizou com o nome de Graffiti. Grota para quem não conhece a denominação, é o que é conhecido em todo o Brasil como favela. Segundo informações dadas pelos moradores desta grota, que não declinarei o nome por questões de segurança, ele era um cachorro de estimação de um presidiário em liberdade condicional, que residia com ele neste local. Ainda segundo a população local, este egresso do sistema penal, com liberdade provisória, gostava e cuidava muito bem do cão.

Em uma determinada noite, uma força policial, não souberam dizer o motivo, invadiu o barraco e executou o tutor do Graffiti. Provavelmente o cachorro, sempre leal ao dono, deve ter tentado defender o seu tutor, e teria sido agredido a “botinadas” por quem deveria defender à sociedade e não infringir sofrimento a um ser indefeso. Para bom entendedor, meias palavras bastam para entender o que deve ter ocorrido. A forma como encontrei o Graffiti foi de um desespero que não desejo a ninguém. O seu olhar revelava mais do que a dor lancinte, aquele olhar de dor e desespero revelaram para mim, naquele momento angustiante, a falta de esperança na humanidade.

Não posso afirmar a veracidade desta informação, porque não fui testemunha desta operação policial, mas não acredito que vários moradores da grota inventariam um história sórdida como essa. Foi um dos resgates mais difíceis que fiz na vida, dado o estado e o sofrimento deste animalzinho. Resgatamos o Graffiti e cuidei dele inicialmente, levando-o para clínicas veterinárias e conseguindo um lar temporário para ele, visto que eu morava em um apartamento e já tinha alguns gatos.

Como era um tratamento longo, difícil e dispendioso, Seu Antonio, que coordena um dos maiores projetos da causa animal em Algoas, o abrigo São Cão, tendo uma melhor infraestrutura e na sua imensa generosidade, assumiu o tratamento do Graffiti e o recuperou após alguns anos de terapia. Eu mesmo cheguei a duvidar se ele sobreviveria. Disse ao Graffiti, quando esteve a beira da morte, que ele lutasse pela sua vida e que um dia ainda viria buscá-lo e o adotaria. Prometi isso a ele. Fiz um documentário sobre Seu Antônio e a São Cão, intitulado “O Santo e o Cão”, disponível no YouTube.

Depois de um certo tempo, mais até do que eu gostaria, me mudei para uma casa e cumpri a minha promessa, adotei-o e hoje ele tem uma vida de príncipe, cercado de cuidados e, principalmente, de muito carinho e amor. Ficou com algumas sequelas da violência que sofreu, mas proporcionamos a ele uma boa qualidade de vida, com acompanhamento direto da sua saúde. Hoje o Graffiti, um Border Collie, convive fraternalmente com os nossos gatinhos e com outros cachorros que criamos, estes legítimos vira-latas, todos resgatados das ruas.

Assim como o meu Graffiti, o cachorrinho Orelha e mais dois outros cães foram vítimas de maus tratos por quatro meliantes e filhinhos de papai de Florianópolis, com requintes de crueldade máxima que se pode praticar contra um animal, revelando toda maldade humana a que estamos expostos. Estes psicopatas hoje matam animais, futuramente estarão assassinando moradores de rua e cometendo feminicídios.

O filósofo existencialista Jean Paul Sartre afirmava que “o inferno são os outros”. Para mim o demônio não tem chifres, rabo e tridente, eles andam disfarçados de seres humanos e o demoníaco habita a alma (a essência) de cada um desses seres das trevas. Os “Imundos de Florianópolis”achavam que, por serem de famílias com condições financeiras, estariam imunes a qualquer crime que cometessem, imagine se praticado contra um pobre animal de rua. Achavam que não daria em nada, contavam com a certeza da impunidade total. Acontece que o Orelha, um cachorrinho comunitário, era amado e cuidado por muitas pessoas que gostavam dele, exatamente por ser um cãozinho dócil, simpático, brincalhão e feliz com sua vidinha, mesmo estando na rua.

A revolta contra os marginais que o mataram covardemente, entretanto, foi imediata, eles não contavam com a reação da sociedade local e que este ato absurdo e inaceitável se transformaria em uma comoção de proporção nacional e até internacional, formando-se uma grande rede de indignação, com a participação de personalidades famosas pedindo justiça pelo Orelha e seus amiguinhos. Esses elementos de alta periculosidade social terão que pagar pelo crime que cometeram.

Felizmente nunca presenciei um ato de maus tratos contra os animais, pois tenho certeza de qual seria a minha reação, e, muito provavelmente, como se diz por aí, “perderia o meu réu primário”. A família desses pilantras sociopatas estão tentando “abafar” o caso, achando que iriam conseguir intimidar as pessoas que estão se manifestando pelas redes sociais e cobrando às autoridades e ao judiciário, providências contra os escrotos que trucidaram o Orelha e aqueles que os pariram e os colocaram no mundo para poluí-lo ética e moralmente. Estes seres malignos e imundos, pais e filhos, devem pagar exemplarmente pelas suas maldades e falta de respeito e empatia pelo próximo. Faço votos que aconteça com estes escroques, o mesmo que fizeram ao Orelha e seus dois amiguinhos, que conseguiram, por sorte, escapar das garras ferozes dessas aberrações humanas.

Não vamos permitir que fiquem impunes. Denunciem, passem esta postagem a frente. Vamos colocar estes projetos de fascistas na cadeia, ou no local que a legislação definir, uma vez que estas pragas, infelizmente, têm menos de 18 anos e privilégios da legislação penal. Tenho a impressão de que este crime terá desdobramentos, e certamente, será resolvido posteriormente. Torço muito por isso, pois ocorrem dezenas, centenas, talvez milhares de casos semelhantes a esse mensalmente em nosso país. O Graffiti foi um deles.

A melhor maneira de de reverenciar o martírio do Orelha, é adotando um animal de rua, pois mesmo animais “comunitários”, estão sujeitos às vulnerabilidades das ruas, tais como maus tratos, atropelamentos, brigas, doenças, envenenamentos e tanto outros riscos que correm cotidianamente. Temos hoje no Brasil 30 milhões de animais abandonados, somos 213 milhões de brasileiros, se menos de 15% da nossa população adotá-los, será um grande avanço para a causa animal em nosso país. Transforme sua indignação em adoção.

Lindo Orelha, sua vidinha não será em vão, você terá e fará justiça por todos os animais vítimas de crimes hediondos como o que você sofreu. Você estará para sempre na memória, na alma e no coração do povo brasileiro. Você é mais do que um mártir, você entra na galeria dos grandes heróis nacionais do Brasil. Justiça pelo orelha. Trate Bem Um Animal de Rua! Adote um deles!

Deixe uma resposta