Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

Entre os dias 19 e 25 de janeiro último, ocorreu um pseuda “Caminhada Pela Liberdade”, em um percurso de 240 km, saindo do município mineiro de Paracatu e seguindo até Brasília. A alegação dos organizadores deste bizarro acontecimento dizia tratar-se de uma manifestação que intitularam de “Acorda Brasil”. A democracia comporta qualquer tipo de manifestação pública, desde que não represente um “Atentado violento ao Estado Democrático de Direito”, previsto no Art. 359-L, do Código Penal Brasileiro, que foi o que ocorreu na fracassada tentativa de Golpe do 08 de Janeiro. Aí já encontramos a primeira contradição da tal “Caminhada pela Liberdade”, que já traz na sua própria denominação uma assertiva infundada, haja visto que, se não houvesse liberdade de manifestação em nosso país, esta caminhada sequer teria existido. Algo que me parece bem aquilo que o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, de direita por sinal, classificava como o “óbvio ululante”. Ululante, para quem não sabe, é um verbo para designar um ruído alto ou lamentos.

Dito isto, voltemos a tal manifestação para “acordar o Brasil”. Acordar para o que mesmo? O Brasil está funcionando absolutamente dentro da estabilidade democrática e institucional. Os poderes executivo, legislativo e judiciário trabalhando cada um deles, dentro das suas atribuições e prerrogativas funcionais, a liberdade de opinião e expressão sendo exercida com todas as garantias constitucionais, sem nenhum tipo de censura, as eleições livres e soberanas ocorrendo dentro da normalidade, nos âmbitos municipal, estadual e federal, com o pleno funcionamento das casas legislativas proporcionalmente eleitas para o exercício da suas respectivas representações políticas, a oposição, até a de extrema direita, podendo se manifestar com total liberdade e os governantes estaduais e municipais que não apoiam o Governo Lula sendo tratados rigorosamente dentro do contexto do chamado republicanismo.

Esta caminhada ocorreu claramente por motivos diversos a sua convocação, no caso, a uma tentativa de desviar a opinião pública para situações vexatórias que envolvem algumas lideranças exponenciais da extrema direita, flagradas em escancarados escândalos de corrupção, a exemplo do líder do PL na Câmara dos Deputados, Sostenes Cavalcante, apanhado pela polícia federal com dinheiro possivelmente desviado das emendas parlamentares e guardado em sacos de lixo dentro do guarda-roupa de sua casa, das rachadinhas e outros pecadilhos mais envolvendo deputados do partido de Bolsonaro, a exemplo de uns tais de Gustavo Gaia (PL/GO) e Carlos Jordy (PL/RJ) e sobretudo para desviar a opinião pública do maior escândalo de todos, que envolve diretamente o líder desta manifestação, o inexpressivo e desqualificado Nicolas Ferreira, claramente envolvido nas denuncias das falcatruas do Banco Master, que deu um prejuízo bilionário aos bolsos dos contribuintes em pelo menos R$ 12 bilhões de reais, fora as revelações da roubalheira do INSS no Governo Bolsonaro, que estão sendo reveladas aos poucos na CPI que apura os desvios do suado dinheirinho dos nossos aposentados.

O mais impressionante é que esta caminhada conseguiu mobilizar muita gente para uma desgastante empreitada que exige, além da alienação cognitiva, muito boa forma física. Aqui ocorre o meu principal questionamento sobre o que leva essas pessoas a participarem desta farsa explicita, que tem como único objetivo o de tergiversar as estripulias financeiras da Igreja Lagoinha, liderada pelo carimbado estelionatário de altar André Valadão, conhecido do grande público evangélico, amigo e principal apoiador de Nicolas Ferreira, com o golpe dado pelo Banco Master, do famigerado banqueiro Daniel Vorcaro, responsável por um dos maiores crimes financeiros da nossa história. Fico me perguntando sobre o que leva um número razoável de pessoas a acreditarem em uma fraude desta proporção, confundindo como sendo algo de dimensão messiânica. A única resposta que encontro é a de que, verdadeiramente, um segmento expressivo da sociedade brasileira foi capturada por aquilo que denomino de teofascismo.

É precisamente o teofascismo, que está por trás dessa manifestação, que envolve Lagoinha, Banco Master e Nicolas Ferreira no mesmo imbróglio. E como surgiu o teofascismo? Ele surge a partir da construção de uma narrativa de salvação, que manipula grupos de pessoas em situação de vulnerabilidade emocional, com o surgimento de um líder forte (o messias), que converterá pela religião o mundo idealizado por esses grupos de pessoas, que são moldados mentalmente nas igrejas. Este é exatamente o ponto em que a convergência dessas narrativas religiosas se transformam em seitas. Em um país onde temos um elevado numero de analfabetos funcionais, torna-se extremamente fácil a manipulação cognitiva de uma parcela significativa da sociedade brasileira.

Esses segmentos não conseguem distinguir as diferenças entre argumentos falsos e verdadeiros e não logram interpretar corretamente as informações que chegam até ele. Os pastores, padres e outras lideranças religiosas conservadoras e de extrema-direita, desenvolveram uma teologia da alienação, encontrada, sobretudo, nas igrejas evangélicas neopetencostais. Não por acaso designo que as bases do teofascismo são identificadas no neopentecostalismo. É uma captura emocional, que praticamente infantiliza as pessoas e as fazem se sentirem obrigadas a agir pela obediência a uma simbologia doutrinária e sob as ordens de um líder idealizado e salvador.

Certamente a crença na verdade absoluta, impostas a elas por mensagens bíblicas reveladas de forma totalmente distorcidas é uma das características do teofascismo. Foi este fundamentalismo que levou essas pessoas a aderirem a um movimento de um político investigado, que defende bandeiras que nada têm haver com os fundamentos do cristianismo, muito pelo contrário, já revelou sua total falta de empatia com os princípios evangélicos básicos, caminhando por quilômetros, colocando em risco até a saúde de bebês vulneráveis, para serem abençoados por uma figura pública umbilicalmente ligado a organizações criminosa e que terá, muito em breve, se Deus quiser, que se justificar perante autoridades policiais federais das inúmeras acusações que lhes são imputadas. Este é o Brasil em que estamos vivendo!

Deixe uma resposta