Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

O Brasil entre 2025 e 2026 esteve presente de forma imponente no cenário cinematográfico internacional. Obteve conquistas importantes, com filmes que resgataram tema fundamentais da história recente brasileira. Me refiro, sobretudo, a “Ainda Estou Aqui” (Walter Moreira Salles – 2024) e “O Agente Secreto” (Kleber Mendonça Filho – 2025), películas, como chamávamos comumente, antes do advento do filme digital, que despertaram grandes expectativas, tanto em relação a crítica especializada em análises filmícas, quanto na manifestação da opinião pública nacional e até internacional.

Não estamos falando aqui apenas das conquistas de ambos os filmes, que, felizmente, cumpriram a expectativa que geraram no público cinéfilo, chegando mesmo as amplas plateias em geral, transformando cidadãos que não eram necessariamente fãs da Sétima Arte, em legiões de torcedores fanáticos do cinema brasileiro. Entendo que, independentemente desses filmes terem sido altamente premiados, a maior conquista que a nossa cinematografia poderia conquistar, foi a atenção da sociedade brasileira para a qualidade do cinema nacional, inobstante até mesmo de filmes premiados ou não nos maiores festivais de cinema mundial.

Ganhamos alguns prêmios importantíssimos neste universo glamouroso de tapetes vermelhos e exóticas estatuetas. Primeiro, ano passado, com “Ainda Estou Aqui”, dirigido pelo hoje renomado diretor e meu professor de roteiro na Fundição Progresso nos anos 90, na icônica Lapa da época do auge do Circo Voador, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional e o Globo de Ouro de melhor atriz, para a talentosa Fernanda Torres e conquistando ainda este ano, o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes com Kleber Mendonça e de melhor ator para Wagner Moura, pelo filme “O Agente Secreto”, que conquistou ainda o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua não Inglesa e de Melhor Ator em Drama para ambos.

Também foi simbólico e sintomático que fomos indicados e disputamos com estes mesmos filmes os Oscar de Melhor Filme, a mais importante premiação deste concurso, nos anos de 2025 e 2026 , bem como conquistamos a indicação para o Oscar de Melhor Atriz para Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) e de Melhor Ator para Wagner Moura (O Agente Secreto). Em outras palavras, o cinema nacional brilhou na ribalta dos grandes palcos do mundo, trazendo vitória fundamentais para o avanço do audiovisual brasileiro. Não foi pouca coisa. Não entro aqui nem no mérito das qualidades filmográficas dos nossos representantes, que são evidentes. Caso contrário, não chegariam onde chegaram.

O que quero pontuar aqui com esta afirmação, é que o cinema brasileiro não precisa de Oscar, de Cannes e de nenhum outro festival do grande circuito mundial do cinema, a exemplo do Urso de ouro do Festival de Berlim, o Leão de Ouro do Festival de Veneza ou o People’s Choice Award do Festival de Toronto, para ter reconhecida a sua excelência fílmica. Os filmes produzidos hoje no Brasil não precisam provar a sua qualidade para absolutamente ninguém. Estamos entre as melhores cinematografias do mundo, com importantes polos regionais de cinema se consolidando no cenário nacional, com uma grande proliferação de grandes e competentes cineastas e filmes extraordinários, muitas das vezes, realizado dentro do contexto dos filmes do chamado “baixo orçamento”.

Desde o processo de recuperação do movimento que ficou conhecido como “Retomada do Cinema Brasileiro”, nos anos 90, tendo o filme “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” (Carla Camurati), de 1995, como seu marco inicial e uma sequência inacreditável de grandes realizações, a exemplo de “O Quatrilho”, de Fábio Barreto (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1996) ,”Central Do Brasil”, outro belíssimo filme de Walter Moreira Salles (indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 1999), “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles (que recebeu quatro indicações ao Oscar em 2004, dentre ele o de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro Adaptado), tivemos muitos outros filmes que vieram posteriormente para marcar época.

Este ano tivemos um outro filme que passou um pouco mais desapercebido da grande mídia especializada e em geral e do grande e respeitável público, que foi agraciado com o “Grande Prêmio do Júri” do Festival de Berlim, um dos mais disputados prêmios deste evento. O filme brasileiro que trouxe este título para casa se chama “O Último Azul” (Gabriel Mascaro – 2025), que, na minha modesta opinião, foi o melhor filme Brasileiro deste ano de 2025, com todo respeito às outras produções.

Não faço críticas a nenhum filme levado as telas, pois sei perfeitamente as dificuldades para se filmar em nosso país, mesmo com todas as políticas estruturantes do Ministério Cultura e suas políticas públicas de editais e de compensações fiscais para a produção de longas, telefilmes e curtas metragens nas grandes salas de exibição. Nem sempre, entretanto, os melhores são os vencedores. Fica a dica. Ainda temos muitos diretores, roteirista, diretores de fotografia, montadores/editores, diretores de arte e produtores executivos extremamente talentosos e que continuam no anonimato e, porque não dizer, muitos deles no total ostracismo realizador e profissional. Uma pena, vê tanta gente qualificada deixando de produzir belos filmes. Mas avançamos muito em termos audiovisuais no Brasil.

Em Pernambuco, que tem hoje o Polo cinematográfico mais importante do Nordeste e um dos mais importantes do Brasil, formou o premiado Kleber Mendonça Filho, ganhador em Cannes do prêmio de Melhor Diretor, mas que, ao meu ver, concorre nesta mesma categoria com cineastas conterrâneos seus, que se destacam pelo extremo talento em contar histórias e transformá-las em imagens, a exemplo do meu preferido Cláudio Assis (Amarelo Manga – 2002, Baixio das Bestas- 2006, Febre dos Ratos – 2011 Piedade – 2019), ou ainda Lírio Ferreira (Baile Perfumado – 1997, Árido Movie – 2005), Paulo Caldas (Deserto Feliz – 2007) e Hilton Lacerda (Tatuagem – 2013), dentre outros. Concluo, afirmando que o talento da cinematografia brasileira, sem a menor sombra de dúvida, ultrapassa em muito a cobiçada estatueta venerada de Hollywood.

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