A Agência Quarter, registrada em nome de uma laranja, controla uma folha de pagamento secreta na Prefeitura de São Paulo, sob o comando de Ricardo Nunes (MDB), com salários que chegam a R$ 40 mil por mês e mais de R$ 178 milhões em contratos vigentes de terceirização de mão de obra por meio da São Paulo Turismo (SPTuris), conforme informações do colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles.

A empresa e a DKS, ligadas aos mesmos donos, receberam ao menos R$ 357 milhões entre 2020 e 2024 para fornecer trabalhadores a secretarias municipais, especialmente Cultura e Turismo, enquanto os dados de 2025 seguem omitidos no Portal da Transparência. Nem a própria SPTuris teria informações completas sobre quem são os profissionais que prestaram os serviços.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) investiga um modelo descrito como “quinterização”, no qual secretarias contratam a SPTuris, que contrata empresas como Quarter e DKS, que por sua vez subcontratam microempresas responsáveis por ceder trabalhadores às pastas, subordinados a servidores públicos. Testemunhas relataram que gestores escolhiam diretamente quem seria contratado.

A Quarter é controlada de fato pelos irmãos Marcelo e Victor Correia Moraes, mas formalmente está no nome de uma mulher que vivia de aluguel em um cortiço na zona norte de São Paulo, apesar de a empresa ter registrado lucro de R$ 16 milhões apenas em 2024. Victor, conhecido como Vitinho, responde pela DKS sem aparecer como sócio.

Intermediação reduz transparência

A intermediação pela SPTuris, sociedade de economia mista, flexibiliza a fiscalização dos contratos. Em contratações diretas, a empresa precisa apresentar holerites e dados dos funcionários; já nos contratos intermediados, apenas notas fiscais com número de acionamentos e valores pagos são entregues, sem identificação de trabalhadores, funções ou comprovação dos serviços.

A prefeitura não informou quantos funcionários da Quarter atuam na Secretaria de Turismo e na SPTuris, nem quanto foi pago à agência entre 2025 e 2026 — até 2024, foram R$ 129 milhões. A gestão Ricardo Nunes afirmou ter solicitado investigação da Controladoria Geral do Município (CGM), enquanto a Quarter defende a legalidade dos processos.

Nepotismo e conflitos de interesse

O modelo permitiu contratações de familiares de gestores públicos por meio das terceirizadas. Há registros da contratação, pela Quarter, da filha e da ex-esposa de Marcelo Alves Ribeiro, coordenador de eventos da Secretaria de Turismo responsável pela gestão do contrato com a empresa.

A agência afirmou que “eventuais prestações de serviço podem ocorrer de forma pontual, especialmente em funções operacionais típicas do setor de eventos, sempre com documentação fiscal regular”, e citou a LGPD para não confirmar vínculos.

Contratos milionários e funções amplas

A Quarter mantém oito contratos com a SPTuris para fornecer profissionais como guias turísticos, recepcionistas e produtores executivos.

Parte das contratações é visível, como guias bilíngues uniformizados em eventos, cuja diária chega a R$ 1.534, com pagamento de R$ 570 ao trabalhador como pessoa jurídica. Só no Carnaval foram 2,9 mil diárias, com custo aproximado de R$ 4,5 milhões aos cofres públicos.

A maior parte dos recursos, porém, refere-se à cessão de “produtores”, com R$ 94 milhões em contratos vigentes para uma função de escopo amplo, que pode incluir desde organização de eventos até trabalho contínuo dentro das secretarias. Em um único dia de pré-Carnaval houve 247 acionamentos desse tipo, sem identificação pública dos profissionais.

Rede de empresas e vínculos trabalhistas ocultos

Depoimentos ao MPT indicam que trabalhadores atuavam diariamente nas secretarias, com jornada fixa, subordinação e férias informais, mas eram pagos como microempreendedores individuais, caracterizando possível vínculo empregatício disfarçado.

Um funcionário relatou ter prestado serviços desde 2021 dentro da Secretaria de Cultura analisando editais e prestações de contas, respondendo a uma diretora da pasta. Outros disseram que a própria secretaria selecionava os contratados, enquanto a empresa intermediária apenas repassava parte dos valores.

Contratações por atas e crescimento dos contratos

As contratações ocorrem frequentemente por atas de registro de preço reaproveitadas de contratos anteriores, permitindo formalizar rapidamente novos acordos para centenas de milhares de diárias por valor fixo. Parte desses serviços é visível ao público, mas a maioria não possui descrição clara das atividades.

Desde a abertura do inquérito em abril do ano passado, após denúncias envolvendo a DKS, a prefeitura afirmou que deixou de utilizar serviços da empresa desde setembro de 2025 e prometeu adequar futuros contratos às exigências do MPT.

Mesmo assim, os contratos da Quarter cresceram e continuam concentrando grande volume de recursos públicos.

Fonte: DCM

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