A Origem Energia, empresa que domina a exploração de petróleo e gás em Alagoas, propõe implantar o primeiro sistema de estocagem subterrânea de gás natural do Brasil na cidade de Pilar, a 35 km de Maceió. O projeto visa armazenar até 500 milhões de metros cúbicos de gás por ano, volume equivalente a cerca de 30 milhões de botijões de gás de cozinha, utilizando poços abandonados pela Petrobras.
A licença prévia foi concedida pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) em julho, após análise técnica do órgão. Especialistas alertam para os riscos associados ao projeto, como vazamentos de gás, explosões, contaminação de lagoas e impactos à saúde dos moradores e trabalhadores. O professor Ildo Sauer, da USP, destaca a complexidade geológica da região e a falta de normas específicas para a estocagem subterrânea de gás no Brasil.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reconhece a ausência de regulamentação específica, embora considere a atividade similar à exploração e produção de petróleo e gás. Moradores de Pilar expressam preocupações quanto à falta de consulta pública e informações claras sobre os impactos do projeto.
Líderes comunitários temem que incidentes possam afetar a Lagoa Manguaba e comprometer a saúde e o sustento da população local. A Origem Energia afirma ter realizado audiências públicas e divulgado informações amplamente, incluindo para a Colônia de Pescadores de Pilar.
Organizações como o Instituto Arayara criticam o projeto, considerando-o uma rota insustentável e de alto risco para o meio ambiente e as populações afetadas. A instalação de infraestrutura para estocagem de gás natural pode abrir caminho para termelétricas e indústrias de grande impacto ambiental e social. Além disso, a proximidade dos poços com residências rurais e pequenas propriedades aumenta os riscos à saúde humana.
O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que ainda não recebeu denúncias sobre o empreendimento, mas que indícios de falhas, riscos não esclarecidos ou ausência de transparência podem levar à instauração de investigação.
O Ministério Público de Alagoas (MPAL) está acompanhando o licenciamento e, até o momento, não houve notícias de irregularidades.
A Origem Energia defende que o projeto trará desenvolvimento econômico para Pilar, gerando empregos diretos durante a instalação e operação.
A empresa destaca que os planos de mitigação e resposta a emergências foram elaborados e entregues ao IMA durante o processo de licenciamento ambiental.
No entanto, especialistas apontam que os planos apresentados são genéricos e voltados à exploração convencional de petróleo e gás, sem considerar as especificidades da estocagem subterrânea de gás natural.
O projeto de estocagem de gás natural em Pilar representa um avanço para a transição energética no Brasil, mas também levanta questões sobre os riscos ambientais e sociais associados.
A falta de regulamentação específica e a ausência de consulta pública adequada indicam a necessidade de um debate mais amplo e transparente sobre os impactos desse tipo de empreendimento nas comunidades afetadas.
A discussão sobre segurança geológica, impactos socioambientais e transparência institucional ainda deve ser aprofundada antes que o projeto seja executado em larga escala.
Especialistas ressaltam que a estocagem subterrânea de gás natural é uma atividade complexa que exige monitoramento contínuo e protocolos específicos para prevenir acidentes.
Para a população local, a principal preocupação é o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A comunidade de Pilar busca garantir que a exploração e estocagem de gás não comprometa recursos hídricos, solo e a saúde pública.
Representantes da sociedade civil reforçam a necessidade de participação em consultas públicas e de informações claras sobre impactos e medidas de mitigação.
A experiência internacional mostra que empreendimentos similares demandam planejamento rigoroso e fiscalização constante para evitar desastres.
O debate sobre a estocagem de gás natural em Alagoas ganha relevância nacional, especialmente por tratar-se de uma atividade pioneira no país.
Segundo reportagem em colaboração entre a Agência Tatu e o The Intercept Brasil, o projeto ainda depende de acompanhamento contínuo para equilibrar interesses econômicos e ambientais.
Fonte: 082 Notícias