Taxa real brasileira chega a 9,49%, acima da Turquia, Argentina e Rússia, segundo levantamento da MoneYou e e Lev Intelligence
A decisão do Banco Central de interromper o ciclo de redução da Selic e manter a taxa básica em 13,75% ao ano deixou o Brasil na liderança mundial dos juros reais, com um índice de 9,49%, o maior entre 40 economias analisadas. O resultado considera as taxas de juros descontadas as expectativas de inflação para os próximos 12 meses.
Segundo o jornal O Globo, levantamento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence aponta que o Brasil permanece à frente de países que tradicionalmente apresentam juros elevados, como Turquia, Argentina e Rússia.
A Turquia ocupa a segunda posição, com juros reais de 7,77%, apesar de apresentar a maior taxa nominal entre os países pesquisados, de 36% ao ano. Na sequência aparecem Argentina, com 6,8%, Rússia, com 6,57%, e Colômbia, com 4,05%.
O Brasil também supera Indonésia (3,67%), México (3,26%), África do Sul (2,93%), Hungria (2,04%) e Chile (1,69%).
No ranking das taxas nominais, que não descontam a inflação, o Brasil ocupa a quarta posição, atrás apenas de Turquia (36%), Argentina (29%) e Rússia (14%).
Pressão cambial e incertezas fiscais influenciam decisão do BC
A manutenção da Selic ocorre em um cenário de volatilidade nos mercados financeiros, desvalorização do real diante do dólar e aumento das incertezas sobre a trajetória da política fiscal brasileira.
De acordo com Jason Vieira, economista-chefe da MoneYou e responsável pelo levantamento, o conflito entre Irã e Estados Unidos também alterou as expectativas de inflação global, levando autoridades monetárias de diferentes países a adotar posições mais cautelosas.
No caso brasileiro, o economista destaca que as discussões sobre a política econômica e a instabilidade observada após o segundo turno das eleições contribuíram para reforçar as expectativas de interrupção do ciclo de cortes da Selic.
“Discussões sobre aventuras fiscais e cortes tabelados de juros criam a dúvida se o Banco Central deve ou vai cortar os juros, enquanto o mercado praticamente decreta o fim do ciclo, independente da reunião de hoje. A pressão dos ativos, desvalorização do real frente ao dólar e pressões de abertura na curva de juros reiteram o conservadorismo dos analistas e operadores”, afirmou Vieira ao Globo.
Antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), parte dos analistas financeiros projetava uma nova redução de 0,25 ponto percentual. A decisão de manter os juros em 13,75%, entretanto, confirmou a interrupção do processo de flexibilização monetária.
Dívida pública e inadimplência entram no debate
Para Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, o elevado patamar dos juros reais brasileiros está associado à trajetória da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
Essa relação atingiu 82,9% em setembro, depois de aumentar 11 pontos percentuais desde o início de 2023, segundo os dados apresentados na reportagem.
Werlang considera que a permanência dos juros reais próximos de 10% por um período prolongado tem consequências para a atividade econômica e para a capacidade de pagamento de famílias e empresas.
“Estamos vivendo com uma distorção louca, com uma faixa de juro real de 10% há quase três anos. Não há país que aguente, como não está aguentando. A inadimplência de pessoas físicas é recorde, a de empresas em recuperação judicial também. Qual a solução? fazer um programa de ajuste fiscal que funcione, para colocar em trajetória claramente cadente a relação dívida/PIB”, afirmou.
Crédito direcionado reduz impacto da Selic, avalia economista
Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil da área de gestão de fortunas do UBS, também associa a liderança brasileira no ranking dos juros reais à condução das contas públicas.
A economista, contudo, acrescenta dois fatores estruturais: a baixa eficácia de parte dos mecanismos de transmissão da política monetária e a fragilidade institucional, que, em sua avaliação, aumenta o custo do crédito.
Segundo Srour, aproximadamente 44% do saldo de crédito do sistema financeiro brasileiro corresponde a operações direcionadas, que apresentam menor sensibilidade às alterações da Selic.
“Cerca de 44% do saldo de crédito do sistema financeiro é direcionado, e essa fatia responde pouco à Selic. Quando quase metade do mercado não sente o aperto, a outra metade precisa senti-lo em dobro. Insegurança jurídica, dificuldade de recuperar garantias e decisões judiciais que reescrevem contratos elevam o risco de emprestar e o spread bancário”, afirmou.
Para a economista, a redução estrutural dos juros exigiria mudanças nas regras de despesas obrigatórias, na composição do crédito e nas condições de segurança jurídica dos contratos.
“(É preciso) desvincular as despesas obrigatórias do salário mínimo e da receita e rever os pisos constitucionais, encolher o crédito direcionado e devolver potência à política monetária, dar previsibilidade a contratos e garantias, reduzir a insegurança jurídica”, defendeu.
Brasil contrasta com países que registram juros reais negativos
O levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence também identificou dez economias com taxas de juros reais negativas, situação em que a inflação projetada supera o rendimento nominal considerado na comparação.
Entre elas estão Cingapura (-0,08%), Índia (-0,09%), Filipinas (-0,12%), Tailândia (-0,24%) e Taiwan (-0,39%).
Também aparecem Austrália (-0,44%), Nova Zelândia (-0,44%), Japão (-0,76%), Suíça (-0,78%) e Suécia (-4,87%).
Para calcular os juros reais, o estudo considera as taxas de mercado dos títulos com vencimento mais líquido em aproximadamente 12 meses e as projeções de inflação para o mesmo período, com base nas estimativas das autoridades econômicas de cada país. A metodologia permite comparar o custo real do dinheiro em diferentes economias, descontando o efeito esperado da inflação.
Fonte: Brasil 247






