Feitosa foi demitido por usar o cargo que ocupava para procurar informações fiscais de ao menos quatro desafetos da família Bolsonaro

Ricardo Manzano de Moraes, auditor da Receita Federal teve o passaporte apreendido e usa hoje uma tornozeleira eletrônica por ser suspeito de acessar informações sigilosas de ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao tentar se explicar à corregedoria da Receita, ele surpreendeu por trazer à tona um nome ligado à investigação da ‘Abin paralela’, esquema ilegal de espionagem montado dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro.

Manzano disse que acessou os dados de uma nora do ministro Gilmar Mendes, do STF, porque estava em busca do contato de um amigo de sobrenome Feitosa, o mesmo sobrenome da nora do ministro, porque imaginou que eles fossem parentes. A nora de Gilmar e Feitosa, amigo de Manzano, não têm grau de parentesco algum. Além disso, a justificativa não é convincente, já que para esse objetivo seria mais fácil tentar a internet, as mídias sociais ou outros colegas.

Mas quem é o Feitosa que Manzano dizia procurar? Ricardo Pereira Feitosa foi coordenador geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, a equipe de inteligência do órgão, durante parte do governo Bolsonaro. Ele foi acusado de usar o cargo que ocupava para procurar informações fiscais de ao menos quatro desafetos da família Bolsonaro. Entre eles o procurador José Eduardo Gussem, que denunciou o esquema de rachadinha de Flávio Bolsonaro.

O caso foi descrito no relatório que a Polícia Federal entregou ao STF, em junho do ano passado, a respeito da compra e do uso da ferramenta de espionagem First Mile. O documento tem uma sessão dedicada à interferência do governo Bolsonaro na Receita Federal. O processo administrativo contra Feitosa é mencionado no fim dessa sessão como motivo de preocupação dos agentes envolvidos com a chamada Abin paralela.

Kleber no relatório da ‘Abin paralela’

Outro nome que aparece nas páginas do relatório da PF é o de Kleber Cabral, hoje presidente da Unafisco, a Associação Nacional dos Fiscais da Receita Federal. Ele foi intimado a depor à PF, nesta sexta-feira (20), às 15 horas, para esclarecer declarações que deu aos meios de comunicação. Ele disse que os servidores da Receita têm mais medo de investigar ministros do Supremo do que membros da facção criminosa PCC.

Foi uma reação às medidas cautelares adotadas pelo ministro Alexandre de Moraes contra quatro servidores considerados suspeitos de vazar dados fiscais de membros da corte e de parentes dos magistrados. Mas esses quatro funcionários não participavam de investigação alguma. E foram detectadas várias consultas a dados pessoais de autoridades sem justificativa.

Trecho do relatório da PF sobre a Abin Paralela que cita o nome de Kleber Cabral

Um desses servidores é Ricardo Manzano que disse estar em busca de um contato com Feitosa. Os nomes de Feitosa e Kléber fazem parte do relatório da PF sobre a Abin paralela justamente no capítulo que trata da operação montada pelo ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, condenado no processo do 8 de janeiro e hoje foragido em Miami, nos Estados Unidos, para blindar Flávio Bolsonaro das investigações sobre a suspeita de esquema de rachadinha.

Kleber é citado por tentar pressionar Guilherme Bibiani a não aceitar o cargo de corregedor da Receita Federal. O nome de Bibiani não era do interesse dos envolvidos com a ‘Abin paralela’ e de Flávio Bolsonaro, que queria no posto alguém de sua total confiança.

Ricardo Pereira Feitosa é citado no relatório da PF por conta do processo aberto para averiguar o acesso indevido a dados da Receita. Ao fim da investigação, Feitosa acabou demitido do serviço público em outubro de 2023, por usar o cargo “para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública”, segundo expressou na época a portaria assinada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Fonte: ICL

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