Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

O mundo ficou estarrecido com a abertura e divulgação dos chamados Arquivos Epstein. Este é, sem a menor sombra de dúvidas, o maior escândalo deste século XXI, protagonizado por influentes personalidades dos Estados Unidos da América e seus aliados internacionais. É preciso que se esclareça que o escarcéu provocado pela sua descoberta não está diretamente vinculado às estruturas formais públicas de poder, por se tratar de um arquivo de propriedade privada.

Este inventário de horrores, entretanto, mesmo estando na esfera particular, revela as diversas conexões existentes entre agentes que atuam nos segmentos políticos, empresariais, administrativos, jornalísticos, midiáticos, intelectuais, religiosos e muitos outros, revelando uma enorme teia de corrupção, exploração, crimes e degeneração no sistema de poder e dominação sob a liderança de autoridades americanas, em um amplo espectro de atuação política, econômica e social.

Do que se trata os tais arquivos Epstein, que tem recebido tanta atenção da mídia mundial? Trata-se de provas concretas da existência de uma das maiores redes de abusos de diversas naturezas, cometidos nos mais variados ramos de atividades em vigor na humanidade. As investigações estão se aprofundando cada vez mais, revelando negócios realizados em um submundo que jamais imaginaríamos que existisse.

Este arquivo escancara, de forma explicita e transversal, um projeto de poder diabólico, que envolve uma extensa rede de vigarice institucional, tráfico sexual, manuseios de sistemas eleitorais, controles ilegais de modelos de gestões, artimanhas de natureza midiática e manipulações ideológicas. Mais do que pedofilia, ele revela as interligações de poderes que expõe a essência brutal do modelo econômico hegemônico mundial nos dias atuais.

Este verdadeiro espetáculo de indecências éticas começou a partir das atividades desenvolvidas por um dos maiores financista do mundo, o norte-americano Jeffrey Epstein, que montou a maior quadrilha de prostituição infantil da história, com vasta clientela entre grandes celebridades que atuam e influenciam os mais diversos campos da atividade laboral internacional. Integravam direta ou indiretamente a esta teia de imoralidade, dezenas de figuras famosas e poderosas da política, do show business, da iniciativa privada empresarial, da intelectualidade, da ciência, das influências digitais, dentre muitas outras.

Neste amplo universo de personalidades, um em particular, chamou a atenção de forma gritante, pelo simples fato de se tratar do homem considerado como o mais poderoso do mundo ocidental na atualidade, comandante do que chamam de “mundo livre” e que despacha no Salão Oval da Casa Branca. Trata-se nada mais, nada menos, do que o presidente daquela que é considerada por muitos a maior potência do mundo, detentor da maleta atômica, onde fica o botão que pode deflagrar uma guerra nuclear em questão de minutos e ainda um dos homens mais ricos do planeta, o fanfarrão e inescrupuloso Donald Trump.

O histórico de abusos do decrépito presidente americano não é nenhuma novidade. A Folha corrida deste cidadão já é amplamente conhecida da opinião pública e ele já está condenado, inclusive, em pelo menos três dezenas de processos nos quais responde por atividades ilegais. A citação do seu nome mais de 38 mil vezes neste arquivo não me causa surpresa alguma, posto que o citado arquivo apenas revela “arteirices” correlatas àquelas cometidas por Trump ao longo de toda sua duvidosa e obscura carreira empresarial e agora na sua nova trajetória política, onde foi, incrivelmente, eleito não uma, mas duas vezes para a presidência dos EUA

Trump aparece reiteradas vezes nesses arquivos, que consistem, resumidamente, em um vasto acervo de documentos, vídeos e imagens reunidos pelo Departamento de Justiça americano e pelo FBI – Federal Bureal of Investigation, cujas investigações levaram a uma rede de tráfico sexual, envolvendo em sua grande maioria, crianças e adolescentes, comandada por Jeffrey Epstein, que apareceu morto em 2019 na cela onde cumpria pena, no Centro Correcional Metropolitano de Nova Iorque, onde teria cometido um suspeito suicídio, com todas as características de “queima de arquivo”.

Muitos nomes apareceram na lista do arquivo de Epstein, capitaneada, por motivos óbvios, pelo Presidente Donald Trump, mencionado milhares e milhares de vezes nos arquivos recentemente divulgados, com inúmeras alegações de abusos sexuais, comprovados por vídeos, fotos, gravações telefônicas e correspondências interceptadas.
Curioso não termos no Brasil, uma única palavra dos moralistas da extrema direita, que têm Trump como guru, sobre o assunto. Também aparecem nos documentos recentemente divulgados, figuras como o milionário Elon Musk, que escreveu um enigmático e-mail para Epstein em novembro de 2012, no qual indagava: Qual será o dia/noite da festa mais animada da sua ilha?

A Ilha a que Musk se refere é a ilha particular de horrores de Jeffrey Epstein, conhecida como “Littler Saint James”, localizada nas Ilhas Virgens Americanas, que funcionou como um luxuoso centro logístico que comportava o esquema de tráfico sexual e abuso de menores, no qual eram recrutadas meninas entre 9 e 15 anos para serem prostituidas sob o comando do financista americano. Esta ilha se tornou um símbolo de corrupção de mulheres, que eram escravizadas sexualmente para atender os poderosos da política, da economia, da ciência e da intelectualidade americana e internacional, adeptos e praticante da promiscuidade assistida e remunerada.

Aparecem também nesta lista outras figuras até então consideradas Insuspeitas, a exemplo do bilionário da Internet Bill Gates, o cofundador do Google Sergey Brin, o irmão do Rei Charles III, Andrew Mountbatten Windsor e a ex-esposa do Principe Andrew, Sarah Ferguson, o ex-primeiro ministro de Israel Ehud Barack e o ex-presidente americano Bill Clinton, aquele do “blowjob” com a estagiária da Casa Branca Mônica Lewinsky, que por pouco não lhe custou o mandato em um processo de impeachment realizado entre 1998 e 1999. Outro nome que figura nas listas Epstein e que desperta a atenção dos analistas mais atentos ao cenário político internacional é o de Steve Bannon, guru da nova extrema-direita mundial e um dos principais conselheiros políticos do Presidente Trump, cujos arquivos contém milhares de mensagens trocadas com o predador sexual Jeffrey Epstein.

Interessante observar que existem 77 mensagens entre Bannon e Epstein, nas quais o ex-presidente Jair Bolsonaro é citado nas conversas entre ambos, o que revela, no mínimo, uma participação direta de ambos na vida pública brasileira e, possivelmente, na eleição presidencial em 2018, na qual o atual ocupante da Papuda foi eleito presidente da república. Estas revelações não são nada além do que o reflexo da decadência moral de um capitalismo cada vez mais explorador, predador, corrupto e opressor, identificado com as bandeiras de defesa do protofascismo, que poderão levar a humanidade a uma grande tragédia humanitária!

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