Por Alexandre Rangel
Quando Pedro* e André* atravessaram o Rio Grande, na fronteira entre México e Estados Unidos, carregavam mais do que mochilas leves e documentos improvisados. Levavam a esperança de recomeçar. Em poucas horas, essa expectativa se transformou em uma longa travessia institucional: detenção, separação familiar, audiências migratórias e, por fim, deportação. O caso dos dois irmãos brasileiros — um maior de idade, o outro menor — tornou-se símbolo de um fenômeno maior: o aumento expressivo de deportações de brasileiros e o endurecimento do sistema migratório norte-americano.
Em 2025, os EUA registraram um dos maiores volumes de deportações de brasileiros da série recente. Foram mais de 2,2 mil pessoas removidas oficialmente, com estimativas que ultrapassam 3 mil quando se incluem voos fretados e repatriações humanitárias. O crescimento em relação a anos anteriores foi significativo, acompanhando o fortalecimento de políticas de “tolerância zero” para entradas irregulares e a ampliação de mecanismos como a deportação sumária.
O caminho até a detenção
O roteiro é recorrente. Após cruzar a fronteira, muitos imigrantes se entregam à Patrulha de Fronteira (CBP) na tentativa de iniciar um pedido de asilo. A partir daí, dois caminhos são possíveis. O primeiro é a expedited removal, a deportação acelerada, sem audiência formal com juiz. O segundo, mais longo, envolve o encaminhamento ao tribunal de imigração, administrado pelo Departamento de Justiça.
Pedro e André seguiram esse segundo percurso — mas separados. Por ser menor de idade, André foi enviado a um sistema de acolhimento federal. Pedro, adulto, foi encaminhado a um centro de detenção administrado pelo ICE, a agência responsável por prisões migratórias internas e execução de deportações. Durante meses, os irmãos ficaram sem contato direto.
A separação familiar não é exceção. Ela decorre de protocolos administrativos distintos para adultos e menores, frequentemente criticados por organizações de direitos humanos. “É uma política que fragmenta laços e aprofunda traumas”, afirma uma advogada de imigração em Houston que acompanha casos semelhantes.
Dentro do tribunal de imigração
O processo judicial migratório nos EUA não ocorre no Judiciário tradicional. Ele é administrativo, vinculado ao Executivo. Tudo começa com o Notice to Appear (NTA), documento que acusa formalmente o imigrante de violar leis migratórias.
A primeira audiência, chamada de Master Calendar Hearing, dura poucos minutos. O juiz confirma dados, pergunta se há advogado e identifica quais pedidos legais serão apresentados — como asilo ou cancelamento de deportação. A decisão real ocorre na Individual Hearing, quando o imigrante apresenta provas, testemunhas e seu próprio depoimento.
É nessa etapa que o sistema revela uma de suas maiores desigualdades: não há defensor público garantido. Quem não pode pagar advogado depende de listas de assistência gratuita. Dados de pesquisas acadêmicas mostram que a chance de sucesso em pedidos de asilo praticamente triplica quando o imigrante está assistido por um profissional.
Pedro compareceu às audiências acompanhado por intérprete, mas sem defesa robusta. Seu pedido de asilo foi negado. Sem novos recursos viáveis, recebeu ordem de remoção. Em um voo fretado, retornou ao Brasil meses depois. André, por ser menor, teve acompanhamento diferenciado, mas também acabou retornando ao país.
Direitos no papel, limites na prática
Mesmo sem documentos, imigrantes detidos possuem direitos básicos garantidos por tratados internacionais e pela Constituição dos EUA. Entre eles:
• saber o motivo da detenção;
• fazer ligações para familiares, advogados e consulados;
• ter acesso a intérprete;
• solicitar asilo ou proteção contra tortura;
• receber atendimento médico básico;
• não ser coagido a assinar deportação voluntária.
Na prática, porém, denúncias de violações são frequentes. Organizações relatam dificuldades de acesso a advogados, barreiras linguísticas, atendimento médico precário e pressão psicológica para que detidos aceitem sair do país rapidamente.
“Existe uma diferença enorme entre o que a lei garante e o que acontece dentro dos centros de detenção”, resume um pesquisador especializado em políticas migratórias.
O perfil dos deportados
Os dados disponíveis indicam que a maioria dos brasileiros deportados está em idade economicamente ativa. Em um voo oficial analisado pelo governo brasileiro, quase 65% dos repatriados tinham entre 21 e 40 anos. Também há presença de adolescentes e crianças, ainda que em menor proporção.
Quanto à origem no Brasil, estados como Minas Gerais, São Paulo e regiões do Norte aparecem com frequência entre os destinos finais após o retorno, refletindo antigas redes migratórias que conectam cidades brasileiras a polos de trabalho nos EUA.
Um sistema sobrecarregado
O sistema de imigração norte-americano opera sob forte pressão. Juízes acumulam milhares de processos em atraso. Audiências por videoconferência tornaram-se rotina, principalmente em centros de detenção afastados dos grandes centros urbanos. Para críticos, a velocidade imposta a certos casos compromete a qualidade das decisões.
Ao mesmo tempo, o discurso político de endurecimento migratório reforça a ideia de que a deportação rápida é um instrumento de controle fronteiriço. O resultado é um paradoxo: enquanto o país depende historicamente da mão de obra imigrante, intensifica mecanismos que produzem instabilidade social e familiar.
O impacto humano
Para além das estatísticas, histórias como a de Pedro e André expõem a face humana do fenômeno. O período de detenção deixou marcas físicas e emocionais. A separação forçada agravou o sofrimento psicológico. No retorno ao Brasil, ambos enfrentaram o desafio de recomeçar sem o dinheiro investido na travessia e com a sensação de derrota.
“Eles não voltam ao ponto de partida. Voltam diferentes”, afirma um assistente social que atua em programas de acolhimento a repatriados.
Um debate que atravessa fronteiras
O caso dos irmãos brasileiros sintetiza uma questão maior: até que ponto a soberania dos Estados pode se sobrepor aos direitos humanos universais? Nos EUA, na Europa e em outras regiões do mundo, o controle migratório tornou-se campo de disputa política, ideológica e ética.
Enquanto governos falam em segurança, organizações humanitárias alertam para o risco de normalizar a desumanização. No meio desse embate, milhares de brasileiros continuam tentando atravessar fronteiras — físicas e burocráticas — em busca de oportunidades.
E, como Pedro e André aprenderam da forma mais dura, o caminho raramente termina na linha do horizonte. Muitas vezes, termina diante de um juiz, dentro de uma sala fria, onde o futuro depende de poucos minutos de audiência.
*Nomes alterados para preservar a identidade dos envolvidos.









