Paulo Memória Alli é jornalista, cineasta e escritor

No último dia 08 de janeiro, completaram-se três anos da desastrada tentativa de Golpe de Estado por parte de tresloucados segmentos de extrema direita, que já vinham sinalizando as preparações deste nefasto evento na história brasileira. A reação dos setores bolsonaristas a derrota daquele a quem referenciavam e continuam a referenciar como um “mito” foi imediata, contestando os resultados com o delírio coletivo de uma pseuda fraude eleitoral pela manipulação das urnas eletrônicas. O cercadinho ampliado de Jair Bolsonaro incorporou o discurso de que a única forma segura e que garantiria a lisura das eleições seria pelo voto impresso e auditável analogicamente.

Nada mais bizarro e contraditório, pois, a despeito da segurança que as urnas eletrônicas representam, que vêm sendo utilizadas desde as eleições de 1996, eleição que inclusive disputei a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, nunca houve um único caso concreto que aponte ou confirme a adulteração de resultados emergida dessas urnas, que representaram um grande avanço para a democracia brasileira, haja visto que ocorria precisamente o contrário, com dezenas de casos de fraude eleitorais ao longo da história das eleições, quando votávamos nas células eleitorais.

No Rio de Janeiro, chegou-se ao extremo da justiça eleitoral anular as eleições gerais de 1994, da qual, diga-se de passagem, Jair Bolsonaro participou, como candidato reeleição para deputado federal, por terem sido detectadas e confirmadas diversas irregularidades cometidas naquele pleito. Uma prova de que a narrativa do voto “impresso e auditável” era no mínimo estranha, até porque Bolsonaro disputou uma eleição fraudada pelo modelo eleitoral de votação e apuração dos votos manualmente, que tanto defende.

Posteriormente, Bolsonaro disputou cinco eleições para a câmara dos deputados e uma para presidência da república nas urnas eletrônicas, não só tendo sido eleito em todas elas, como, de quebra, elegendo seus três filhos vereador, deputado estadual, deputado federal e senador e agora o quarto filho vereador também, em Santa Catarina, todos eleitos em processos eleitorais realizados com urnas digitais.

Em suma, os motivos alegados para que o golpe do 08 de Janeiro ocorresse, as possíveis fragilidades das urnas eletrônicas, que teriam permitido a vitória de Lula em 2022, inexistem, se mostrando completamente infundadas e incoerentes. A verdade é que Bolsonaro tem um histórico de ataques a democracia, desde antes de ser eleito deputado federal e também longo dos seus insignificantes 28 anos de mandato legislativo. Sempre disse em alto e bom tom e com orgulho, que era favorável ao golpe militar, a tortura e até mais que isso, sugerindo o assassinato de 30 mil opositores pelo regime instalado pelo golpe de 64, alegando que a ditadura havia matado muito poucos opositores aos governos militares totalitários.

Está é a gênese da tentativa de usurpar o nosso incipiente democratismo, pedindo o retorno de uma indecente ditadura. O golpe do dia 08 de Janeiro não foram aqueles incautos bolsominions, convocados para destruírem os prédios que abrigam o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e a sede do Supremo Tribunal Federal, um gesto que acenava, simbolicamente, para um atentado as instituições que representam os poderes executivo, legislativo e judiciário. Esses fanáticos bolsonaristas, já vinham demonstrando, desde quando estavam acampados em frentes aos quartéis, as suas reais e autênticas intenções de desestabilização democrática. O 08 de Janeiro foi apenas o desfecho deste projeto fascista maquiavélico.

Aqueles que são chamados de gado, comparação com os ruminantes que, como defensor da causa animal que sou, não me apraz nem um pouquinho, pois prefiro vê-los como membros de uma seita, que foram manipulados, servindo como bucha de canhão que os líderes golpistas precisavam para fazer o trabalho sujo, sendo a parte visível de um projeto antidemocrático, promovendo o quebra, quebra, depredando tudo o que vissem pela frente e plantando bombas que deveriam ter explodido no aeroporto de Brasília. Essas pessoas, mesmo que tenham sido apenas massa de manobra de seus líderes, cumpriram um papel terrorista no qual cometeram uma “violenta tentativa de abolição do Estado de Direito Democrático”, infringindo diversos crimes contra a constituição Federal e contra a normalidade e o funcionamento estável das nossas instituições, propondo como alternativa a barbárie.

Todos os golpistas envolvidos neste enredo macabro precisam ser devidamente responsabilizados pelos seus atos, arcando com as consequências das suas ações golpistas. São fascistas, e como nos ensina o histórico lema antifascista da Guerra Civil Espanhola, ocorrida entre 1936 e 1939, “o fascismo não se discute, se destrói”, atribuída ao líder anarquista Buenaventura Durruti, que lutou ao lado das forças leais a segunda República, contra as falanges fascistas lideradas pelo “Generalíssimo” Francisco Franco, que viria a ser Ditador da Espanha pelas quatro décadas seguintes.

O 08 de janeiro foi apenas a ponta do iceberg da trama golpista, urdida na calada da noite pelo núcleo duro do bolsonarismo, com minuta do passo a passo do Golpe de Estado, impresso no gabinete da Secretária-Geral da presidência da república, nos dias 09 de novembro e 06 de dezembro de 2022, com todo o planejamento para impedir a posse do presidente eleito. Esta minuta foi encontrada posteriormente pela Polícia Federal no gabinete de Jair Bolsonaro na sede nacional do Partido Liberal em Brasília. Esta conspiração, no entanto, não se limitava apenas em abolir violentamente o Estado de Direito e previa, dentre outros absurdos, o assassinato do presidente Lula, do Vice-Presidente Geraldo Alckmin e do então Presidente do STF, Ministro Alexandre de Moraes. Esta trama criminosa era chamada pelos golpistas de “Operação Punhal Verde Amarelo”.

Pelo conjunto desta obra macabra, não há a mínima possibilidade de transigência com essa turba simpatizante do neonazismo, devendo ser condenados a prisão todos os articuladores e agitadores responsáveis por esta ópera bufa, regida pelo rufião e fanfarrão Jair Bolsonaro. A punição tinha que ser exemplar, para se tornar a referência máxima, incontestável e definitiva de que o Brasil não irá mais tolerar novas aventuras extremistas e tentativas de golpes. Sem anistia para os golpistas. Ditadura Nunca Mais!

Deixe uma resposta