Por Yasmim Lima Teixeira – Graduada em Pedagogia pela Ufal


Um dia, um cachorro disse ao seu dono que queria viajar de carroça. O homem, já velho e
frágil, não tinha forças para carregar o animal, mas o amava profundamente. Pensativo, ele
refletiu: “De que me serve um cachorro infeliz?” Levantou-se com dificuldade e foi até a
cabeceira da cama, onde guardava uma caixa com dinheiro antigo. Decidido a atender ao desejo
do cachorro, dirigiu-se ao comércio mais próximo para comprar um cavalo.
Ao mostrar seu dinheiro ao vendedor, este, um homem alto, loiro e de olhos assustadores,
respondeu com rispidez:
— Não usamos esse tipo de dinheiro aqui.
— Que tipo de dinheiro aceitam, então? — perguntou o velho, confuso.
— Dinheiro do nosso país. Essas moedas que me mostras são do reino inimigo.
O velho arregalou os olhos. Não sabia que suas moedas tinham perdido o valor.
— Eu não sabia… Como poderia saber? Não saio da minha cabana há muito tempo.
Abalado pela descoberta, o velho caminhou pela cidade, tentando entender o que havia
mudado. Notou que as pessoas falavam uma língua estranha, vestiam roupas diferentes, e até os
cheiros e sabores tinham se transformado. Era uma nova paisagem, uma nova realidade. Sentiu o
coração bater mais rápido, uma dor profunda no peito, um vazio que parecia rasgar sua alma. Seu
corpo tremia, a boca molhada, a garganta seca. Quis vomitar. O mundo ao seu redor girava e
desmoronava em caos; tudo parecia desintegrar-se.
Ele se perguntava: “Por que tudo mudou? Quanto tempo faz que não vejo pessoas?”
Sentiu-se enlouquecer. De repente, a imagem do cachorro desapareceu de sua mente. “Carroça?
Por que uma carroça?”, pensou. O sol ardia em sua cabeça, sufocando-o. O velho começou a
adentrar-se em si mesmo, até sentir o sangue pulsando em suas veias, como se pudesse ver seus
órgãos — coração, pulmão, estômago — de fora para dentro.
Cego para o mundo exterior, não ouvia quem o chamava, não via nada além de seus
próprios pensamentos. Afundou em um desespero silencioso. Então, sentiu algo quente escorrer
por suas pernas. Havia se mijado. Percebeu que negligenciara suas necessidades básicas,
controlado apenas pelo medo. Seu corpo falhara; apenas sua mente restava. Parado ali, mijado e
vulnerável, o velho sentiu o calor da urina acalmá-lo. Era um alívio estranho, mas trouxe um
momento de paz.

A transformação ao seu redor despertou nele uma dúvida profunda sobre sua própria
existência. Sentia-se como um fantasma, velho, sem valor. Perguntou-se: “Como posso existir em
um mundo que não entendo?” Sem respostas, ele voltou-se para seu cachorro. O animal, que
antes falava, agora estava em silêncio. O velho havia deixado de acreditar, mas não percebeu que
essa descrença era justamente o motivo do silêncio do cachorro. Ele abandonara suas crenças
diante de uma única experiência. As mudanças e o velho não podiam coexistir; as crenças que
alimentam um matam o outro.
Foi então que o velho lembrou-se do motivo original de sua jornada: o cavalo. Ele retomou
sua busca, decidido a encontrar um lugar onde seu dinheiro tivesse valor, para comprar um
cavalo, um burro, qualquer animal que lhe servisse. Olhou para seu cachorro e, com tristeza,
pensou: “De que me serve um cachorro infeliz?”
E, sem perceber, matou o cachorro em sua mente.

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