Mais de meio milhão de palestinos em Gaza estão submetidas a fome generalizada, com privação em massa e mortes evitáveis, reportou nesta sexta-feira (22) uma nova avaliação do Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC).

Projeções alertam que as condições de fome devem se estender da província homônima, na região central, a Deir al-Balah e Khan Younis, no sul, ainda nas próximas semanas.

Agências das Nações Unidas — incluindo Programa Alimentar Mundial (PAM), Fundo para Infância (Unicef), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) — ressaltaram coletivamente urgência por uma resposta humanitária de larga escala diante de piora na desnutrição aguda, mortes que se acumulam, queda-livre nos níveis de consumo e centenas de milhares sem refeições por dias.

As agências reiteraram que a fome deve ser superada “a todo custo”, sobretudo com um cessar-fogo imediato e fluxo desimpedido de ajuda humanitária para salvar vidas.

O dossiê manifestou ainda grave consternação sobre avanços da ocupação israelense à Cidade de Gaza, com potencial deslocamento de um milhão de pessoas, ao deteriorar as condições de uma comunidade já assolada pela fome.

As agências ecoaram alertas de que muitas pessoas — doentes e desnutridas; sobretudo crianças, idosos e pessoas com deficiência — não poderão evacuar a área.

Até o fim de setembro, projetou a pesquisa, ao menos 640 mil pessoas enfrentarão níveis catastróficos de insegurança alimentar, ou Fase 5, conforme o IPC. Outras 1.4 milhão de pessoas estarão em emergência (Fase 4), além de 400 mil em crise (Fase 3).

Condições no norte de Gaza devem ser tão severas — se não piores — quanto na cidade homônima. Dados limitados, porém, impediram classificação mais detalhada do IPC, ao ressaltar urgência na demanda por acesso e assistência. Rafah, por exemplo, no extremo sul do enclave, não pode ser analisada.

Fome endêmica denota a categoria mais extrema dentre as avaliações, ao trespassar três critérios críticos: privação extrema de alimentos, desnutrição aguda e mortes associadas à fome. A mais recente análise confirma evidências razoáveis desses critérios.

Após quase dois anos de genocídio, com reiterado deslocamento forçado e cerco militar israelense ao acesso humanitário, incluindo comida, água e medicamentos, para além de ataques à estrutura agrária, pastoril e pesqueira, bem como hospitais e outros, levaram a totalidade da população à fome.\

O acesso a alimentos em Gaza segue severamente restrito. Em julho, lares identificados com fome extrema dobraram no território, comparado a maio, e triplicaram na Cidade de Gaza. Mais de um terço da população (39%) relatou passar dias sem comer, com adultos pulando refeições para tentar alimentar suas crianças.

A desnutrição infantil igualmente acelera. Em julho, foram diagnosticadas 12 mil crianças com desnutrição aguda — recorde jamais registrado em um mês, seis vezes mais do que no início do ano. Quase um quarto das crianças sofrem de desnutrição aguda severa — a forma mais letal, com impacto a curto e longo prazo.

Desde a última análise do IPC, projeções de mortalidade infantil por fome triplicaram, de 14.100 em maio de 2025 a 43.400 projetados a junho de 2026. O risco também se impõe a grávidas e lactantes, de 17 mil em maio a 55 mil em meados de 2026. Um em cada cinco bebês nascem prematuros ou abaixo do peso.

A nova avaliação indica a mais íngreme deterioração das condições de fome desde que o IPC começou a reportar Gaza, sendo a primeira vez que uma crise de fome é oficialmente confirmada no Oriente Médio.

Desde julho, sob pressão internacional sem precedentes, o regime israelense permitiu a entrada de um punhado de comboios e lançamentos aéreos — comparados a zero —, no entanto, insuficientes, inconsistentes e inacessíveis comparados à demanda.

Cerca de 98% das terras agrárias em Gaza foram destruídas em parte ou todo, ou seguem inacessíveis, e nove entre cada dez pessoas sofreram sucessivos deslocamentos à força sob os ataques indiscriminados de Israel.

Tampouco há água ou gás para cozinhas, além de medicamentos ou insumos de saúde. O sistema de Gaza se degradou exponencialmente, sem água potável e saneamento, com infecções multirresistentes e morbidade elevada, incluindo por difteria, febre, pneumonia e doenças de pele — sobretudo entre as crianças.

“As pessoas em Gaza exauriram todas os meios possíveis de sobrevivência”, explicou Qu Dongyu, diretor-geral da FAO. “Fome e desnutrição ceifam vidas dia após dia. A destruição das colheitas, rebanhos, estufas e sistemas de pesca e produção alimentar tornou a crise ainda mais drástica. Nossa prioridade é assegurar acesso sustentável para assistência de larga escala. Comida não é privilégio — é direito básico”.

“Alertas de fome são claros há meses”, acrescentou Cindy McCain, diretora executiva do PAM. “O que precisamos com urgência é um pico de ajuda, condições seguras e sistemas de distribuição estabelecidos para alcançar aqueles que mais precisam — onde quer que estejam. Cessar-fogo e acesso humanitário pleno são críticos para salvar vidas”.

Para Catherine Russell, da Unicef, “a fome é uma realidade sinistra dentre as crianças da província de Gaza e uma ameaça que as assombra em Deir al-Balah e Khan Younis. Como alertamos diversas vezes, os sinais são inequívocos: crianças emaciadas, fracas demais para comer ou chorar; bebês morrendo de fome e doenças tratáveis; pais chegando nas clínicas com nada para dar a seus filhos”.

“Não tem tempo a perder”, acrescentou Russell. “Sem um cessar-fogo imediato e acesso humanitário pleno, a fome se espalhará e mais e mais crianças morrerão. Crianças à beira da fome precisam de alimentos terapêuticos que nossas equipes podem oferecer”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, concluiu: “Um cessar-fogo constitui um imperativo moral e absoluto neste instante. O mundo esperou tempo demais, vendo mortes trágicas, desnecessárias, se acumularem a partir da fome fabricada pelo homem. A desnutrição generalizada implica que doenças simples e leves, como diarreia, tornam-se fatais. O sistema de saúde, administrado por profissionais famintos e exauridos, não consegue suprir as demandas. Gaza demanda esforços urgentes para reverter o processo da desnutrição”.

A Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC) é uma iniciativa formada por 21 parceiros entre ongs internacionais e agências da ONU, com intuito de aprimorar análises e políticas decisórias sobre a fome no mundo.

Israel ignora apelos internacionais ao manter ataques indiscriminados aos palestinos de Gaza há quase dois anos, com ao menos 62 mil mortos e dois milhões de desabrigados, sob cerco, destruição e fome. Entre as fatalidades, dezoito mil são crianças.

Em novembro, o Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, emitiu mandados de prisão ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por crimes de guerra e lesa-humanidade em Gaza.

O Estado israelense é ainda réu por genocídio no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), também em Haia, sob denúncia sul-africana deferida em janeiro de 2024.

Fonte: Monitor do Oreinte

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