Roberto Simiqueli é economista, Mestre em Ciência Política e Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas.

A analogia é conhecida por todos nós. Há um trem a toda velocidade, irrefreável, seguindo pelos trilhos até o quase inevitável contato com cinco pessoas, inconvenientemente amarradas aos trilhos. Na cabine do maquinista, você e uma escolha muito difícil: é possível desviar o veículo de seu curso programado com o puxão de uma alavanca. Isso empurraria o bonde rumo a outra linha, onde há uma – somente uma – pessoa. Eticamente, qual a melhor escolha a se fazer? Talvez a resposta pareça simples, mas é possível tornar a escolha central à situação hipotética ainda mais desconfortável: e se a vítima solitária do descarrilhamento fosse uma gestante? Um candidato ao nobel da paz? Um líder comunitário? Um oncologista ocupado de pesquisas que podem significar a preservação da vida de milhares de pacientes terminais ao redor do mundo?

O anedótico Dilema do Bonde, conforme formulado e explorado pelas filósofas Philippa Foot e Judith Jarvis, faz parte do vocabulário da internet contemporânea. Transformado em meme, o problema em questão (utilizado, por vezes, para a reflexão sobre as implicações éticas e morais das escolhas feitas por pesquisadores, juristas ou formuladores de políticas públicas) geralmente é referenciado em versões caricatas por usuários das mais variadas redes sociais. Há quem faça o trem descarrilhar pelos dois trilhos, num drift que consumiria todas as possíveis vítimas de seu movimento. Outros recorrem à marcha ré, no impulso de repetir o atropelamento. Assim como o mau gosto presente nessas caracterizações, também é questionável sua paternidade e atualidade: esse enquadramento para um dilema ético de escolha remete, em última instância, à formulação da Tábua de Carnéades, atribuída ao platônico Carnéades de Cirene. Na sua roupagem clássica, temos dois náufragos e somente uma tábua – mais uma vez, uma escolha muito difícil.                                                                                                                                                 

Economistas são acostumados a trabalhar com questões como essa desde os primeiros minutos de sua formação. Segundo uma multitude de livros-texto, economias nacionais escolheriam entre manteiga e canhões considerando os possíveis e desejáveis rumos futuros de uma dada sociedade. Consumidores escolheriam entre chocolates e quilos de arroz. Investidores escolheriam entre a inversão produtiva e a aplicação financeira de seus capitais. Um dos elementos centrais ao vastamente questionável “paradigma da escassez”, sumarizado no equacionamento entre “necessidades ilimitadas e recursos limitados” proposto pelo liberal Lionel Robbins é que a vida – e a economia, coisa mais delicada e preciosa que a vida, para alguns participantes dos debates sobre a política de enfrentamento à pandemia no Brasil – é feita de escolhas difíceis.

O que Foot, Jarvis, Carnéades e Robbins não questionam, em momento algum, é por qual motivo sinistro foram amarrados esses pobres coitados aos trilhos, como esses dois náufragos não conseguem dialogar sobre o uso da proverbial “tábua de salvação” ou como poderia alguém, em sã consciência, contrapor alimentos a peças de artilharia. É da enunciação do dilema a impossibilidade de discutir as opções em jogo. Da mesma forma, essas opções não tem um passado, não decorrem de um desenvolvimento histórico, e sua caracterização deixa clara, desde sempre, seu caráter fundamentalmente hipotético; se acalmem, ninguém vai morrer de verdade – os náufragos, o bonde, os canhões e a manteiga são recursos argumentativos e nada mais.

No dia 8 de Outubro de 2018, poucas horas após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, um editorial d’O Estado de São Paulo apresentava o que qualificava como uma escolha muito difícil: de um lado, um professor universitário, ex-prefeito da maior capital brasileira, ex-ministro da educação, com longo histórico de debate e reflexão sobre esse país; no corner contrário, um deputado fisiológico do baixo clero, com relações questionáveis com milícias cariocas, uma forma assaz peculiar de repartir o rendimento de seus assessores e um acachapante total de zero projetos de lei aprovados em quase três décadas de vida pública. Quase 300.000 óbitos mais tarde, percebemos que talvez as duas opções para a condução do bonde tenham sido apresentadas de forma um tanto quanto desproporcional. Afinal, olhando para a montanha de cadáveres legada pelo voto de 56 milhões de brasileiros, a escolha não parece tão difícil assim. Ah, quem dera os proponentes dessa difícil opção tivessem apresentado de forma clara as possíveis consequências de eleger um sujeito cuja especialidade era, em suas próprias palavras, matar.

Em qualquer regime democrático, a imprensa exerce um conjunto de funções indispensáveis. Cabe a jornalistas, muitas vezes, fiscalizar o poder público, informar os cidadãos das matérias em tramitação no legislativo, das políticas propostas pelos ministérios antes de sua implementação, e promover um ambiente honesto e plural de debate público. Para um número considerável de pessoas, cabe a essas figuras também um papel ainda mais relevante – o delimitar do horizonte de possibilidades aberto à nossa sociedade, num determinado momento. Por isso uma certa medida de isenção se faz indispensável, para que possamos, efetivamente, escolher entre quem pega o bonde e quem é pego por ele.

Logo, é compreensível que a situação brasileira, hoje, não seja das melhores. Num dado momento, a opção entre um projeto de civilização e a barbárie declarada nos foi apresentada como uma escolha muito difícil. Eu sabia, você sabia, nós sabíamos – não havia a menor chance de dar certo. Mas se houve pelo menos um incauto direcionado a ponderar de forma mais ou menos equitativa essas duas opções, editoriais como o do Estadão tem grande responsabilidade sobre o caos em que vivemos, após um ano de pandemia.

Como e por quais razões um órgão de imprensa tão consolidado, um dos mais respeitáveis jornais do país, promoveria essa ficção da igualdade entre desiguais? Por um motivo simples: a grande imprensa brasileira, tipicamente oligopolizada, concentrada nas mãos de um número restrito de famílias, se vale irresponsavelmente de suas páginas para propor pautas políticas favoráveis a si e aos seus. Quem afirma não sou eu, como se irresponsavelmente, também, comparasse uma figura pública com histórico e projetos a um aventureiro que não teve sucesso em nada, nem mesmo na carreira militar à qual faz referência a todo momento, mas o relatório Quem controla a mídia no Brasil?, de 2017. Resultado de uma ação conjunta dos coletivos Intervozes e Repórteres sem Fronteiras, o documento retrata uma paisagem desoladora: a análise de 50 veículos de imprensa revela que estes são de propriedade de somente 26 grupos ou empresas de comunicação, das quais 21 (ou seus acionistas) desenvolvem atividades em outros setores econômicos, além de proprietários que desempenham funções políticas ou religiosas. Considerando elementos como concentração de audiência e de mercado, transparência na propriedade e no controle da mídia e concentração da propriedade cruzada, o parecer é que há notáveis riscos à pluralidade de opiniões na grande mídia. Posições análogas são ecoadas pelo Observatório da Imprensa, mantido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo. Entre o relatório, publicado em 2017, e as análises recentes do Observatório, datadas das últimas semanas, podemos reconstruir uma sinistra trajetória: vamos do alerta sobre a ausência de pluralidade na imprensa brasileira ao jornalismo declaratório, aos abusos do “cercadinho”, à pós-verdade e aos apelos ministeriais por um jornalismo que somente reporte, e não interprete.

Há uma literatura consolidada sobre o tema. Uma breve consulta sobre o posicionamento de conglomerados midiáticos contemporâneos remete, inevitavelmente, ao trabalho de Jean-Yves Mollier, autor de O Dinheiro e as Letras: História do Capitalismo Editorial (Edusp, 2010). O autor é categórico ao posicionar editores e livreiros em meio às circunstâncias políticas que habitam, se valendo de sua posição para chancelar discursos legitimadores de suas prerrogativas e privilégios. Adicionalmente, há que se levar em conta como a generalização de um modo de vida subordinado ao capital e ao seu imperativo de valorização qualifica essa grande mídia – conduzida a partir de ponderações não só sobre tiragem, rigor editorial e circulação, mas também pela receita a partir de contratos com anunciantes e de sua vinculação aos interesses dos grupos que a financiam – não somente como um veículo de legitimação das posições do capital nas disputas distributivas do capitalismo, mas enquanto fração do capital, o capital editorial que inspira conceitualmente o trabalho do pesquisador francês. As considerações sobre a dinâmica concorrencial entre veículos de imprensa, as tensões oligopolistas entre os grandes nomes do mercado e os desdobramentos da tese de Mollier para a realidade dos conglomerados midiáticos brasileiros é algo relativamente simples de se intuir, mas que conta com o reforço de vasta gama de estudos. Em artigo relativamente recente, André Bonsanto Dias defende que a ascensão da grande mídia ao patamar de “porta-voz da opinião pública” a franquearia, em seu próprio entendimento, a obrigação de “correção de curso” da democracia – seja essa democracia “ameaçada” pela atuação de um partido de massas, efetivamente julgado e criminalizado pela grande mídia ao longo das últimas décadas, ou as críticas muitas vezes pontuais, modestas, à atual chefia do executivo. Como afirma Dias, “para além do paralelismo, a relação entre o sistema político e o sistema midiático no Brasil passou ao longo dos anos por uma espécie de “transversionalismo” tortuoso entre diversas políticas que não se relacionam diretamente a um ou outro governo. São aproximações e rupturas muito mais ambivalentes que ora penetram, ora ultrapassam essas definições e que estão relacionadas muito mais a uma postura de legitimidade e representação que a instituição jornalística pretende assumir perante a política.”(Dias, 2020:490)

Independente dos rumos que tomemos daqui para a frente, nada restituirá à sociedade brasileira os 300.000 pais, mães, filhos, irmãos e amigos sepultados desde o ano passado em decorrência da irresponsabilidade do Governo Federal. O pouco que podemos fazer, hoje, é reconhecer os responsáveis por essa hecatombe sanitária e identificar sua culpa, na opção irresponsável de arremeter violentamente o proverbial trem das consequências éticas contra a coletividade da população brasileira, desassistida e vulnerabilizada. Mas é fundamental lembrar, também, de quem efetivamente apresentou essas 300.000 vítimas como uma das opções abertas para a sociedade brasileira em 2018, não só a reconhecendo como uma opção válida – uma opção pela selvageria, pela barbárie, pelo retrocesso, pelo genocício – mas equiparando-a à alternativa então posta.Seguindo a lógica do Dilema do Bonde, quem mais, senão a grande mídia, teria amarrado esses 300.000 brasileiros aos trilhos?

Referências:

DIAS, André Bonsanto. Da modernização à autoridade: a grande imprensa brasileira, entre a ditadura e a democracia – Folha de S. Paulo e O Globo, 1964-2014. OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, vol. 25, nº 3, set.-dez., p. 472-494, 2019

INTERVOZES. Repórteres sem Fronteiras. Quem controla a mídia no Brasil? Media Ownership Monitor Brasil. Disponível em: http://brazil.mom-rsf.org/br/ . Acesso em: 21.03.2021.

MOLLIER, Jean-Yves. O dinheiro e as letras, um comércio delicado. Ano 5, nº5. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2011.

________________. O dinheiro e as Letras: História do Capitalismo Editorial. São Paulo: Edusp, 2010.

PROJOR – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo. Observatório da Imprensa. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br . Acesso em: 21.03.2021.

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